O turno da tarde:microcosmo da escola

No documento Cartografias juvenis: mudanças e permanências nos territórios e modos de ser jovem (páginas 97-101)

CAPÍTULO 1: A CONSTRUÇÃO DO ESTUDO DE CASO

2.3 O Cenário da Pesquisa

2.3.4 O turno da tarde:microcosmo da escola

O turno da tarde pode ser representado como um “microcosmo” da E.M.C.L.S. Oferecendo os mesmos segmentos educativos que os demais turnos da escola, esse turno divide-se em oito turmas: cinco turmas do ensino fundamental – duas de alfabetização (correspondentes às séries iniciais do ensino fundamental) e três turmas de ensino fundamental (correspondentes às séries de 5ª à 8ª), sendo que duas eram de

19Após 12 anos de funcionamento, nos anos de 2003 e 2004, depois de um intenso processo de debates e reflexões

[cujos norteadores foram a proposta municipal da Escola Plural implantada na RME e a Resolução nº 001 de 05/06/2003, que definiu os parâmetros da EJA para a RME, a Proposta Curricular para o 1º e 2º segmentos da modalidade EJA – do Ministério da Educação e Cultura – MEC e as práticas vivenciadas] a E.M.C.L.S teve seu projeto político pedagógico reconstruído.

estudantes iniciantes e uma de conclusão – e três turmas do ensino médio: duas destas correspondentes às séries “iniciais” (1º e 2º anos) e uma de “conclusão”, correspondendo ao 3º ano.

Nesse turno estão representados todos os segmentos oferecidos pela escola, da alfabetização ao ensino médio. Conforme dito anteriormente, é o turno mais “híbrido”, onde estão presentes os diferentes perfis de estudantes da escola: jovem estudante, jovem trabalhador e estudante, adulto estudante, adulto trabalhador e estudante, idosos trabalhadores e ainda aposentados. Nesse turno encontrou-se, no ano de 2007, a maior diversidade etária e a coexistência de estudantes de diferentes gerações, considerando-se “jovem”, “adulto” e “terceira idade”. Ainda é o turno da escola onde se concentra o maior número de estudantes portadores de necessidades especiais, seja jovem, adulto ou idoso, mas em maior número os jovens (14 a 25 anos).

No período da pesquisa observava-se em todo turno uma grande variação quanto ao número de estudantes matriculados e frequentes. Pelas listagens escolares, em abril de 2007 estavam matriculados, nas oito turmas, 273 estudantes. Considerando-se apenas as seis turmas do ensino fundamental e médio que foram foco desta pesquisa, são 228 estudantes regularmente matriculados.

Observando-se as listagens “atualizadas” ao final do segundo semestre, o número de matriculados aumentava consideravelmente, chegando a registrar 327 nomes de estudantes matriculados no ano. Considerando-se o número dos que abandonaram, pediram transferência para outra escola ou para outros turnos da escola, chega-se ao final do ano com 207 estudantes, portanto 21 estudantes a menos do que constava no início do ano. Pela análise da movimentação e fluxo de estudantes, com base nas listagens escolares, considerando-se os registros de “abandono”, “remanejamento” para outro turno e “transferência” para outra instituição, o turno apresentou a seguinte configuração:

ENSINO MÉDIO TURMA A TURMA B TURMA C

TOTAL GRUPO

QDE INICIAL DE ALUNOS 24 27 45 96

ENTRARAM 12 4 14 30

ABANDONARAM 7 4 6 17

TRANSFERIDOS 3 0 3 6

REMANEJADOS 5 6 11 22

QDE FINAL DE ALUNOS 21 21 39 81

QUADRO 1 – Registro de entrada e saída de estudantes do Ensino Médio

O quadro acima permite mostrar um turno “em intensa movimentação” de entrada e saída de estudantes durante todo o ano, conforme previsto em seu regulamento.

Na organização cotidiana do turno este fato acarreta diversos problemas para a coordenação, que lida com um número muito superior de estudantes “matriculados” do que “efetivamente estudando”, com as dificuldades em acompanhar esta movimentação, entender os motivos, comunicar às instâncias de direito. Esta movimentação também dificulta o desenvolvimento das aulas, com número significativo de estudantes com frequência muito irregular e nisto reside a dificuldade em acompanhar/avaliar o processo ensino/aprendizagem e definir que atitudes tomar ou que nível de aprendizagem houve e se é ou não possível haver progressão ou mesmo conclusão dos estudos.

Para os processos de constituição dos grupos e das relações em sala de aula, este constante movimento de entrada e saída interfere no viver cotidiano das turmas, que iniciam “cheias”, com um número “excessivo” de estudantes, mas logo que se iniciam as aulas começa um processo de esvaziamento. Ao final do ano, a listagem está completa, mas as turmas extremamente vazias.

Porém, comparando os dados apresentados no quadro acima com a observação do cotidiano escolar, no segundo turno, um número ainda menor de estudantes “efetivamente” frequentava as aulas. Havia um número considerável20 de estudantes muito infrequentes, mas que não podiam ser retirados da lista. Assim, estima-se que

diariamente havia frequentando a escola no máximo 150 estudantes, considerando-se uma média (alta) de 25 estudantes por turma21. Observou-se que alguns estudantes ficavam um período de um ou dois meses sem frequentar, voltavam, assistiam alguns dias de aula e se ausentavam por novos períodos. Assim, não perdiam a vaga na escola para o período ou ano seguinte.

Esta questão será tratada neste mesmo capítulo, onde esta cena se tornará explícita na vivência cotidiana da Turma “M” do ensino médio. Neste momento, ilustra a questão o seguinte depoimento de uma estudante do ensino médio que compara as turmas no ano de 2007 e 2008; esta comparação expressa a percepção dos estudantes sobre esta movimentação no turno:

No ano passado, no segundo semestre, a turma foi ficando pequenininha!!! Todo mundo foi desistindo! Ficou menor e aí foi chegando o meio do ano, o final do ano, todo mundo foi desistindo. Então ficou quem? Nóóó ficou aquela turminha, aquele bolinho! Agora (2008) uniu, mas já está diminuindo de novo!!! [Maria, 52 anos, Turma “M”].

Devido a este grande fluxo de estudantes, para a composição do perfil socio- cultural dos estudantes do turno e das configurações das gerações, considerou-se o número de 150 estudantes que frequentavam a escola com maior regularidade. Deste universo, 125 estudantes responderam ao questionário e destes, 110 questionários foram validados, correspondendo a 88% do universo (turno) estudado.

Neste universo de uma escola exclusivamente organizada para a modalidade EJA, nos três turnos podia ser observada a presença de estudantes de diferentes faixas etárias e em diferentes fases do curso da vida. No ano de 2007, era no turno da tarde que se percebia maior diversidade etária, contando com estudantes representantes de três “fases” ou “cursos” da vida, permitindo estudar como interagiam no espaço escolar e como representavam estas “fases” ou “cursos” da vida: juventude, vida adulta e maturidade (velhice). Era, portanto, um ponto privilegiado de observação das interações entre estudantes em diferentes momentos do curso da vida e com diferentes trajetórias de vida e também trajetórias escolares. De acordo com a observação e levantamento das listagens escolares, era o turno com maior índice de estudantes acima de 60 anos,

21 Este número foi estimado por meio das observações do fluxo na escola e nas salas de aula observadas no período de março a novembro de 2007. Estimou-se a mais, considerando-se os dias mais

denominada de “geração idosa” ou “terceira idade”. Na visão de professores e estudantes, é “no segundo turno que a gente vê mais cabeças grisalhas ”22.

No documento Cartografias juvenis: mudanças e permanências nos territórios e modos de ser jovem (páginas 97-101)