2.3 Standard-substandard no Brasil
2.3.1 O uso da escrita
Ao menos até o período da Campanha da Nacionalização no Brasil (1937-1945), os colonos alemães do RS ainda tinham mais acesso às escolas alemãs e a determinados materiais impressos, tais como, jornais em alemão, revistas e almanaques. As revistas tinham uma periodicidade mensal e os almanaques eram feitos anualmente. Os jornais eram muito mais frequentes, como por exemplo, o Deutsche Zeitung (fundado em 1861) e o Deutsches Volksblatt (fundado em 1871), que circularam entre as famílias teutas do RS (DREHER, 2019, p. 147). Por um lado, esses materiais impressos eram um importante veículo de divulgação da norma escrita e da manutenção da leitura. Por outro lado, as cartas escritas pelos imigrantes e por seus descendentes, a partir de 1824 no Brasil, revelam aspectos linguísticos da oralidade, inserindo assim, as características do substandard, conforme a análise realizada abaixo.
Mesmo que sejam textos do âmbito privado e espontâneo, geralmente não são escritos na mesma variedade utilizada na oralidade, mas sim em Hochdeutsch. Mesmo assim, o hunsriqueano é visível em muitas facetas, seja em palavras, expressões fixas, estruturas gramaticais ou interferências fonéticas […]. (ALTENHOFEN; STEFFEN, 2018, p. 17)
As primeiras cartas escritas pelos imigrantes no Brasil revelam, de modo geral, um domínio maior da escrita e da língua standard do que as cartas de períodos posteriores. Com o passar dos anos, o substandard e os empréstimos do português foram se apresentando com mais frequência nas cartas.
Altenhofen e Steffen (2018, p. 19) afirmam que a romanização do Hunsrückisch segue o que já havia iniciado com “os galicismos exportados junto com os falantes”, como se observa em muitas cartas escritas no Brasil. Um exemplo é o termo retour (‘de volta’), muito utilizado entre os falantes, no lugar da forma do alemão zurück. Eles também destacam a necessidade de designar elementos desconhecidos para os imigrantes no Brasil como um fator favorecedor da criação de novas palavras (neologismos), inseridas tanto na oralidade como na escrita.
Entre 1890 e 1940, iniciou-se a fase do bilinguismo e a troca de correspondências entre as famílias que residiam no RS. Tanto na forma oral como na escrita, “as línguas se mesclam cada vez mais, levando a formas híbridas entre o alto-alemão, o hunsriqueano e o português”, como afirmam Altenhofen e Steffen (2018, p. 22). Com a proibição das línguas estrangeiras durante a Primeira Guerra Mundial (1914-1918) e, em especial durante o Estado Novo (1937-1945), registrou-se um número cada vez maior de empréstimos do português e, consequentemente, uma diminuição das competências na escrita do alemão standard. Após 1940, ampliou-se o uso do português na escrita, apesar da influência e presença de traços da língua alemã, inicialmente inevitáveis. Conforme pode ser visto na figura 2 abaixo, por exemplo em lápides de cemitérios, ainda existem registros em língua alemã.
Figura 2 – Lápides com registros em Hochdeutsch
Fonte: acervo da autora (2021)
A primeira lápide foi fotografada no cemitério de Pinhal Alto (Hrs) e homenageia o imigrante Jacob Weber nascido em Merl, na Renânia-palatinado. A segunda lápide é do cemitério de São José do Caí (Po) e homenageia o imigrante Heinrich Zühl, nascido em
Oberhagen, na Pomerânia. Por fim, a terceira lápide foi encontrada no cemitério da Sede (Bo) e registra o imigrante Antônio Feix vindo da Boêmia.
Na sequência, na figura 3 abaixo, apresenta-se uma carta escrita em grafia Sütterlinschrift. Essa escrita cursiva alemã foi criada em 1911 pelo professor e designer Ludwig Sütterlin e também foi utilizada pelos descendentes de imigrantes alemães no Brasil para responder as cartas que recebiam da matriz de origem. Como vemos, essa carta foi escrita em 29 de agosto de 1936 em Gablonz, no norte da Boêmia, para familiares em Nova Petrópolis-RS, mais especificamente para a tia e o tio (Tante und Onkel).
Figura 3 – Carta escrita no norte da Boêmia em 1936
Fonte: Arquivo Histórico de Nova Petrópolis (2021)
Segundo Willems (1944, p. 158), há evidências de que os próprios colonos desejavam adotar a língua portuguesa para diminuir o isolamento cultural e para se inserir em contextos que trariam mais status. Não tardou muito para que as escolas alemãs do RS também se adaptassem para o ensino do português. Até mesmo os registros em lápides, que antes do período da Nacionalização eram em Hochdeutsch, começaram a ser escritos em língua portuguesa.
Embora tenha ocorrido essa substituição do alemão pelo português, alguns materiais impressos em língua alemã continuaram circulando entre seus leitores. Um exemplo de
superação e de longevidade é a revista Sankt Paulus-Blatt editada em Nova Petrópolis, que circula a mais de cem anos no Brasil e, inclusive, em alguns países do exterior (Argentina, Paraguai, Suíça, Alemanha e Áustria), continuando ativa até os dias de hoje, mesmo após o período de suspensão das atividades entre as guerras e a Campanha da Nacionalização instituída por Getúlio Vargas.
Os imigrantes italianos e japoneses também escreviam em suas línguas e publicavam esses materiais no Brasil. No entanto, eram os alemães que mais deram importância à imprensa entre os séculos XIX e XX, segundo Dornelles e Schaedler (2016, p.
91-92). Em relação ao período Pós-nacionalização da revista Sankt Paulus-Blatt, Dornelles e Schaedler (2016, p. 102) identificaram mais informações em referência à agropecuária e a serviços em geral, o que é um indicativo de que os colonos também liam em alemão, porque havia informações úteis sobre a agricultura, incluindo anúncio de compra e venda de lotes de terra.
A proibição das línguas estrangeiras no Brasil, sem dúvida, contribuiu para a redução do número de leitores que liam em alemão, principalmente por causa do fechamento de escolas teuto-brasileiras. Logo, também se perdia o conhecimento sobre o alemão standard e suas regras de escrita. Os registros escritos, encontrados no Arquivo Público de Nova Petrópolis, tais como cartas privadas entre famílias e atas de igreja, eram em Hochdeutsch ou em português.
Dornelles e Schaedler (2016, p. 104) afirmam que no período posterior a 1949, a revista Sankt Paulus-Blatt começou a publicar cartas em dialeto, uma prática que se estendeu até o fim da análise realizada por elas, em 2012. O espaço fornecido para a escrita em dialeto, muito provavelmente deu-se em decorrência da diminuição das competências de leitura e de escrita dos assinantes dessa revista. Por fim, as autoras finalizam sua análise do período de cem anos de existência da revista (1912-2012) afirmando: “o número de leitores vem caindo e se constitui, majoritariamente, em um público com idade superior a 60 anos, que ainda lê em alemão” (DORNELLES; SCHAEDLER, 2016, p. 106). Muito provavelmente, isso se refere também ao público que ainda fala a língua minoritária no âmbito familiar.
Em suma, podemos constatar que os conhecimentos de escrita do alemão standard foram diminuindo entre os descendentes de imigrantes alemães com o passar do tempo e, por fim, passa a ser substituído gradualmente pelo português. Essa substituição da língua-teto (Dachsprachenwechsel) colocou o português no lugar da norma standard do alemão, que
sobreviveu apenas parcialmente, em resquícios isoladas, na memória e em contextos mais restritos (ALTENHOFEN, 2016). O que, porém, ainda se manteve com alguma sobrevida foi a variedade substandard falada do alemão local, que ainda subsiste, em grau variável, nas relações sociais do dia a dia. O próximo passo poderá ser a substituição linguística (language shift), da língua alemã como um todo, tanto nas habilidades escritas, quanto nas orais.
Nas próximas subseções, veremos qual substandard se pode postular que, em sentido amplo, migrou com os três grupos em estudo.