Cap III – Alberto Caeiro, Mestre da Página em Branco
7. Objetivismo absoluto e certeza sensível em Alberto Caeiro
Em razão de seu estilo ou não-estilo, os heterônimos podem ser avaliados ora como falsos ou verdadeiros, simpáticos ou antipáticos, adequados ou inadequados a seus pensamentos e suas opiniões. Mas o que define a atitude de cada um deles? Como vimos, pode-se caracterizar a atitude de Alberto Caeiro com a análise do que alguns heterônimos designam como sendo seu objetivismo absoluto. O objetivismo de Caeiro provém de sua atitude compreensiva com relação às formas sensíveis, com o intuito de sustentar a primazia da sensibilidade ante o entendimento. O heterônimo procura eliminar os traços subjetivos da percepção pela imersão intelectual dos sentidos nas formas sensíveis, de modo a não permitir que o pensamento exceda o contorno imediato das coisas. Ao focalizar um detalhe sonoro ou visual em sua exterioridade, como ato espontâneo de sentir as formas sensíveis, Alberto Caeiro se despersonaliza de seu cogito heteronímico, forçando-o a aparecer em sua exterioridade como uma forma sensível dentre outras. Isso permite ao heterônimo escapar ao plano metafísico da certeza de si, tal como ela aparecia no cogito cartesiano, e personificar sua atitude psicológica no plano ontológico da certeza sensível. A certeza sensível de Caeiro exprime a experiência do primeiro contato da criança com o mundo, quando ela ainda não atingiu a experiência interna da consciência, não sendo capaz de reconhecer-se a si mesma como existência autônoma com relação à percepção sensível. Não há, portanto, a onipresença de um sujeito pensante ou a distinção entre o que aparece como particular sensível e o meio universal de sua apreensão: a linguagem e a representação. As formas sensíveis aparecem à percepção infantil através da relação objetiva e não-hierárquica entre “Tudo que Existe”, o Mestre e a Criança.
A Criança Nova que habita onde vivo Dá-me uma mão a mim
E a outra a tudo que existe
E assim vamos os três pelo caminho que houver, Saltando e cantando e rindo
E gozando o nosso segredo comum
77 Que é o de saber por toda a parte
Que não há mistério no mundo E que tudo vale a pena.
A Criança Eterna acompanha-me sempre. A direção do meu olhar é o seu dedo apontando. O meu ouvido atento alegremente a todos os sons
São as cócegas que ele me faz, brincando, nas orelhas.99
Não será fácil, contudo, para a criança, resistir aos assédios da vida social. Logo ela se vê forçada a submeter a diferença entre as formas sensíveis ao universo cultural da linguagem. Esta, e não o cogito, é a primeira mediação que ameaça transformar a percepção das formas sensíveis em algo absolutamente indeterminado para ela. Transmissível pela repetição oral, a linguagem aparece como negação das particularidades sensíveis pelo nome. Dêiticos como “isto”, “este” ou “aqui” negam a todo momento a particularidade de um isto, um este ou um aqui, que subsistem independentes ao ato de enunciá-los. Confusa em meio à inadequação do nome às coisas, a criança corre o risco de sucumbir a duas grandes tentações: primeiro, o risco de abandonar o centro de sua certeza, ao perceber que as diferenças sensíveis são sistematicamente substituídas por alguns poucos nomes que muito precariamente as designam; e segundo, o risco de submeter o sentimento de inadequação do nome às coisas ao poder fantasioso da imaginação, evitando encarar de frente o problema sobre sua idealidade e sua realidade. No primeiro caso, ao instrumentalizar o contato subjetivo com as formas sensíveis, a linguagem cria uma insatisfação que levaria a criança a substituir a particularidade das formas sensíveis pela generalidade inteligível dos nomes. No segundo caso, ao projetar os estados de alma sobre as coisas, a imaginação cria seres sem realidade objetiva, substituindo as formas sensíveis por um mundo artificial, fantasioso ou puramente inteligível, como acontece no pensamento metafísico.
Metafísica? Que metafísica têm aquelas árvores? A de serem verdes e copadas e de terem ramos
E a de dar fruto na sua hora, o que não nos faz pensar, A nós, que não sabemos dar por elas.
Mas que melhor metafísica que a delas, Que é a de não saber para que vivem
78 Nem saber que o não sabem?100
Contudo, a maneira mais corajosa de a criança colocar-se diante dessa dupla tentação de desvio—apoiando-se na linguagem ou projetando-se no mundo imaginário da representação—será forçar a aproximação da pretensa universalidade linguística ao particular sensível, com a designação de um dedo que aponta. “A Criança Eterna acompanha-me sempre./ A direção do meu olhar é o seu dedo apontando./ O meu ouvido atento alegremente a todos os sons/ São as cócegas que ele me faz, brincando, nas orelhas”. 101Ao insistir neste ato de coragem de apontar o dedo para a coisa nomeada, a criança alcança o estágio maduro da certeza sensível, adquirindo um poder mais amplo de apresentação da experiência subjetiva e de formalização do que antes era apenas um sentimento de inadequação da linguagem às coisas. Nesse momento, ao atingir a maturidade subjetiva pela compreensão de que a experiência universal da linguagem faz parte do processo histórico-social em oposição à natureza, o poeta pagão encontra uma maneira mais enérgica que os dêiticos e a fantasia para evidenciar o descompasso entre a linguagem e a multiplicidade sensível. O mestre passa agora a conceber a forma
significante da linguagem como imagem negativa da forma sensível que ela designa.
Com isso, Alberto Caeiro figura nos poemas ao menos dois aspectos do dilema metafísico sobre a realidade. Primeiro, o conflito infantil que oscila entre a designação do nome e a multiplicidade sensível e, segundo, a sensação de descompasso entre a experiência formal com a linguagem e a apreensão sensível pela palavra poética. Como se vê, um aspecto parece opor-se frontalmente ao outro. De um lado, a experiência da criança, para quem o ato de dizer significa trair o ato de ver, parece conter apenas o particular sensível. De outro, a experiência do poeta maduro, que compreende o mundo através da linguagem, parece conter apenas o universal. Mas essa oposição é apenas aparente. Tanto a criança como o mestre heterônimo encontram-se detidos na mesma experiência sensível, embora em níveis distintos de compreensão. A espontaneidade de ver como criança apresenta conteúdos tão ricos para um quanto para o outro. A diferença é que, para o mestre, que percorreu o amplo caminho do enriquecimento cultural, o ato de dizer como poeta ganha nova coloratura, com a consciência do caráter histórico-social da linguagem. Consciência que o torna capaz de ouvir o apontar de dedo da criança: “O
100 PESSOA, F. Obra Poética, pp.209-213. 101 PESSOA, F. Obra Poética. pp.209-213.
79 meu ouvido atento alegremente a todos os sons/ São as cócegas que ele me faz, brincando, nas orelhas”.
A poesia de Alberto Caeiro parece encontrar-se, portanto, no limiar extremo entre a certeza sensível e a reflexão. Concebido como forma de representação do sujeito, o cogito heteronímico faz da apreensão sensível uma experiência do paradoxo, ao impor categorias de pensamento que, sob um ponto de vista excessivamente inteligível, colocam a experiência sensível em desacordo com o sujeito. A representação objetiva do mundo segundo a ideia de sucessão temporal é um dos exemplos de distorção das formas sensíveis pelas categorias inteligíveis do pensamento: a divisão entre presente, passado e futuro aparece como um artifício de representação, oferecendo ocasião ao pensamento para encobrir a realidade sensível com estados de alma que corrompem o sentido natural da memória. Por isso, a coleção de pequenos fragmentos poéticos, justapostos de maneira não linear no papel, será a alternativa de Caeiro para colocar o ato de escrita em consonância com uma temporalidade imanente às formas sensíveis, como se fossem uma constelação de “agoras” independentes de uma representação temporal. Ao formalizar pela palavra poética a experiência imediata com as coisas, o mestre heterônimo sustenta para si e para os discípulos a certeza sensível como antídoto contra a tirania da representação, lançando aos demais heterônimos o desafio poético de suspensão dos estados subjetivos que os impedem de apreender as formas sensíveis em sua exterioridade.
Em resumo, o que o mestre heterônimo compreende ao passar pela experiência limite da forma subjetiva em sua pretensão de obter conhecimento total sobre as coisas? A pobreza da representação do sujeito como consciência de si quando comparada à experiência da certeza sensível, modo inaugural de inadequação do ser social da linguagem à diferença natural das formas sensíveis. Capaz de operar no extremo limite da formalização sensível, Alberto Caeiro promove o abandono sistemático dos paradoxos subjetivos que sobrecarregam a memória, em favor da clareza na contemplação das formas sensíveis. O questionamento quanto ao teor de verdade do que se diz impulsiona o heterônimo a recapitular a certeza sensível no uso da linguagem com a exposição da multiplicidade sensível tal como ela aparece na experiência infantil. A partir daí, a oposição entre a particularidade sensível, como forma que a criança vê, e a universalidade histórica da linguagem, como forma que o poeta diz, será aniquilada pela multiplicidade sensível, passando o heterônimo a reivindicar para si uma universalidade pré-linguística
80 e pré-reflexiva como condição de individuação de sua personalidade. Sob o efeito de seus ensinamentos, os discípulos heterônimos encerrarão na forma poética cada qual um universo simbólico capaz de organizar estilhaços de personalidade deixados pelo desmoronamento do sujeito fundado no cogito e na representação.
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