3 CARACTERÍSTICAS DOS PROCESSOS DE APRENDIZAGEM DOS
3.23 OBJETIVOS DOS NOVOS COMPORTAMENTOS, MODALIDADES OU
Na Tabela 23, pode ser observado que há uma certa diversidade nas respostas emitidas pelos sujeitos. Porém, em sua maioria, os motivos que os levaram a criar essas inovações são de ordem pessoal ou intrínseca. De acordo com Amabile (2007), a motivação intrínseca diz respeito aos fatores internos, ou seja, aqueles dos próprios indivíduos envolvidos. Entre eles estão as situações de prazer, de interesse pessoal, de reconhecimento, de satisfação própria e de desafios que a pessoa mesma se põe. Conforme a autora, esses fatores são os que exercem maior influência no incremento das ações criativas.
Os religiosos, de forma unânime, relatam práticas criativas e inovadoras, para realizarem seus cultos e divulgarem suas crenças para os demais. Exemplo disso é a fala do Religioso 2: “Ganhar almas pra Deus, fazer a obra de Deus (...) Ao transmitir a sua palavra através de mim, Deus toca as outras pessoas”. Na categoria dos estudantes, os quatro que criaram alguma coisa relatam que o fizeram para obter melhores resultados em seus estudos, seja em suas respectivas provas, seja em exames futuros: “É pra não ficar ´devendo` disciplina e passar no Vestibular” (Estudante 4). Os artistas apresentaram múltiplas razões, como as de ordem estética, hedonística, de satisfação pessoal e comerciais, já que a maioria destacou também o objetivo de conseguir maior “mercado” para suas produções: “fazer diferente dos outros e, no caso, vender mais”
174 (Artista 4). A manifestação do Artista 1 ilustra uma gama maior de objetivos buscados em suas práticas:
“Pra mim é uma terapia, eu gosto muito de fazer isso porque eu me sinto bem, é um tempo que tiro para mim, fico criando e me sinto feliz. Eu bolo, eu consigo fazer alguma coisa, deito na cama e fico pensando, eu crio, consigo fazer um porta-jóias, um porta-retrato, um barco, pra mim é uma vitória, eu consigo fazer muitas coisas (...) E é também um meio para sobreviver, nosso dinheiro é quase nada, é um meio de passar melhor na cadeia, poder comer uma coisa melhor, comprar uma bolacha, um suco e até o próprio cigarro, que está num preço incrível” (Artista 1).
Tabela 23 - Síntese das informações a respeito dos objetivos dos novos comportamentos, modalidades ou práticas inusitadas criadas na prisão
Sujeitos O objetivo dos novos comportamentos ou modalidades criadas
Religioso 1 Como as demais ações, atender à convicção pessoal de que tem a missão de
pregar a palavra de Deus
Religioso 2 Tentar fazer de forma similar à praticada nas igrejas, visando buscar a Deus
Religioso 3 Mudar de vida e praticar somente o bem, para evitar novas prisões
Estudante 1 Ficar mais atualizado e, dessa forma, preparar-se para provas e vestibulares
Estudante 2 Ter maior iluminação no ambiente e sem atrapalhar os colegas
Estudante 3 Gravar na mente o que considera mais importante
Estudante 4 Obter aprovação no vestibular e aprimorar-se na disciplina
Estudante 5 Não criou novas práticas
Artista 1 Desenvolver um tipo de “terapia”. Sente-se feliz, ao criar. É também uma
forma de ganhar dinheiro, pois vende suas produções
Artista 2 Passar o tempo, uma forma de ganhar dinheiro e diminuir a tensão
Artista 3 Tornar mais bonito e, com isso, ter mais sucesso comercial
Artista 4 Diferenciar seu produto dos outros e, com isso, vender mais
Artista 5 Aumentar a durabilidade das peças
Trabalhador 1 Poder movimentar-se fora das celas, obter elogios e a confiança da Direção e
preparar-se para a vida quando em liberdade
Trabalhador 2 Sentir-se melhor, pois considera que faz bem ao corpo
Trabalhador 3 Ter sempre uma renovação. Quer se tornar melhor, pois o que era antes, só
lhe trouxe sofrimentos
Leitor 1 Conseguir saber mais rapidamente o desfecho da história e aprender com
maior celeridade
Leitor 2 Desenvolver o passatempo
Leitor 3 Não criou novas práticas
Leitor 4 Compreender melhor o texto
Por sua vez, os trabalhadores relatam que procuram obter reconhecimentos, melhorias, tanto para suportar melhor as dificuldades e limitações dos dias de cárcere, quanto para a vida posterior, em liberdade, conforme pode ser verificado pela manifestação do Trabalhador 3: “Ter sempre uma renovação, saber qual é o nosso
175 potencial, quero me tornar melhor. O que eu era antes só me trouxe sofrimentos”. Por fim, ao desenvolver suas novas práticas, os leitores objetivaram aperfeiçoar suas habilidades, seja para compreender melhor, seja para aumentar a velocidade da leitura, mas sem perder a qualidade.
Tanto as ações criativas, quanto as próprias práticas dos sujeitos, em si, são aceitas e não encontram restrições nos regulamentos. Algumas delas, são até mesmo previstas pela Lei de Execução Penal, como é o caso da prática religiosa, do estudo, da leitura e do trabalho (BRASIL, 1986). Ainda assim, não há uma estrutura que favoreça de forma plena suas práticas, de acordo com o relato dos sujeitos. A despeito dessas dificuldades e limitações, as práticas ocorrem, assim como as ações criativas e inovadoras. Essa situação sugere a corroboração da idéia de que os motivos de ordem intrínseca, predominantes na maioria das manifestações dos sujeitos, influenciaram em suas ações criativas (AMABILE, 2007; RUSCIO e AMABILE, 2007). De acordo com esses autores, há três componentes necessários para que ocorram essas ações e, pelos relatos, os mesmos foram contemplados: 1-) Domínio de capacidades específicas, a
expertise (o desenvolvimento da aprendizagem aliado a algum talento ou
predisposição); 2-) Capacidade criativa relevante (maneira própria de buscar soluções, com estratégias pessoais para vencer as dificuldades); e 3-) Motivação (empenho pessoal, desafio, prazer e satisfação pela atividade). Além dessas inclinações individuais interferirem de maneira significativa na criatividade, elas podem ser desenvolvidas, afirmam os autores. Outrossim, o ambiente e o envolvimento social onde a pessoa vive também conduzem a grandes alterações na motivação intrínseca. No caso dos sujeitos desta pesquisa, suas respostas parecem indicar esta situação, qual seja, fatores internos conjugados a variáveis ambientais que vêm a interferir diretamente na motivação para a manifestação dos comportamentos. A verbalização do Trabalhador 2, em busca de reconhecimento, parece ilustrar essas afirmações: “Eu trabalho mesmo é pra ser elogiado, pra ninguém chegar depois e dizer que o cara está errado ou que não é assim...” (Trabalhador 2).
Csikszentmihalyi (1995) destaca que, somente pela criatividade o ser humano se diferencia das demais criaturas. Não apenas porque é capaz de produzir novas criações, mas também porque é capaz de realizar julgamentos e avaliações dos pensamentos, assim como inscrevê-los e preservá-los na cultura. Os sujeitos pesquisados, em termos culturais, efetuaram movimentações que sugere uma intersecção com o mundo dos funcionários, assim como o mundo fora da prisão. A motivação dos respondentes talvez
176 se explique também pela vontade de distinguir-se dos demais. De acordo com Csikszentmihalyi (1995), são os processos criativos que deixam o homem mais humano e permitem uma maior realização e satisfação pessoal. Ou seja, ao criar e poder expressar suas obras, o indivíduo não apenas faz uso de uma condição peculiarmente humana, como também diferencia-se dos seus pares, o que lhe singulariza na reconstrução da própria identidade.
Outra característica presente nos processos de aprendizagem dos sujeitos, nas ações praticadas, nos seus objetivos, assim como nas novas criações, diz respeito ao compartilhamento com outras pessoas. Ainda que alguns dos objetivos manifestos e práticas sugiram idéias e atividades individuais, a maioria das ações e processos têm a marca das ações coletivas. Para Wenger (1998a), a própria aprendizagem é participação social. Essa participação não se refere apenas a eventos específicos, mas também a processos abrangentes de ser um participante ativo em práticas das comunidades sociais, onde se constrói identidades em relação a essas comunidades. Pelos relatos dos sujeitos, os objetivos desses compartilhamentos e participações vão desde o interesse definido de resolver um problema do cotidiano, até a construção de projetos que poderão gerar resultados somente no futuro, quando em liberdade. Conforme Abric (1985), o grupo consiste num catalizador da criatividade e aponta três fatores que concorrem para que isso aconteça: o fato de o grupo favorecer as trocas e mudanças; o estímulo do grupo para a assunção de situações em que haja probabilidade de riscos (e as soluções originais decorrentes); e, por fim, a heterogeneidade do grupo, tanto em atitudes quanto em aptidões, o que permite o confronto entre diferentes idéias e competências, possibilitando um aumento da criatividade.
Todavia, é também possível verificar que, sem que os sujeitos acreditassem na possibilidade de êxito, os mesmos não levariam em frente suas práticas e criações. De acordo com Bandura (1986; 1989; 1993), quando são fortes as crenças de auto-eficácia, os indivíduos tendem a envidar esforços mais intensos e contínuos para atingir seus objetivos. Além disso, há maior facilidade para superar dificuldades e problemas, o que pode ser ilustrado por este leitor: “Tudo o que a pessoa está fazendo com determinada freqüência , vai aperfeiçoando. No caso, adquire o hábito de ler mais rápido” (Leitor 1). Clegg et al. (2002) corroboram tais idéias, destacando a confiança em inovações, que se referem a uma expectativa de reações razoavelmente positivas sobre uma tentativa inovadora. Segundo os autores, é mais provável que as pessoas realizem esforços
177 inovadores (criar idéias e ajudar a executá-las), quando já possuem uma expectativa positiva dos resultados.