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1.2 OBJETIVOS DA TESE

1.2.2 Objetivos Específicos:

 Pesquisar as diferentes teorias da tradução literária e crítica, em busca de balizas filosóficas para a tradução comentada pretendida, lançando mão de clássicos como Walter Benjamin e autores mais recentes como Haroldo de Campos e Octávio Paz e, particularmente, Paul Ricoeur.

 Atentar de forma especial ao que a hermenêutica de Paul Ricoeur e suas reflexões sobre a tradução podem auxiliar no processo tradutório e nas reflexões sobre tradução a partir de MC.

 Estabelecer uma relação sólida entre tradução e criatividade, a partir de nossa leitura e aplicação de MC e da hermenêutica e concepções de Ricoeur sobre a tradução.

1.3. METODOLOGIA

A metodologia apresentada tanto para o desenvolvimento da tradução de MC em si, quanto para a formulação de comentários referentes ao processo tradutório, é basicamente a da hermenêutica de Paul Ricoeur (1994; 1996) e suas concepções sobre a tradução. Valemo-

nos, portanto, de algumas considerações de Paul Ricoeur sobre a hermenêutica da tradução.

Qual é a relação que se pode estabelecer entre a tradução e a hermenêutica? Como explicitado por Paulo Bezerra (2012), o processo tradutório pode ser comparado ao da interpretação, o que nos autoriza a valer-nos das teorias hermenêuticas e dos escritos de Paul Ricoeur (2005; 2006) sobre a tradução como base para a nossa metodologia e proposta de uma metáfora tradutória, como explicitaremos no referencial teórico do trabalho. Além do conceito de hospitalidade linguística de Ricoeur, também estaremos explorando a sua ideia do tradutor como mediador, que assumimos como postura metodológica da tradução realizada no âmbito deste trabalho.

E o mediador é aquele que estabelece pontes comuns entre polos que parecem estar irreconciliavelmente apartados, como os que existem entre razão e imaginação. Não se estará defendendo a identidade entre tradução, que se pretende racional, e a criação, que é imaginativa, mas uma relação colaborativa entre o lado racional e sistemático da tradução e a habilidade criativa, cuja cooperação é necessária a todo processo tradutório, como pretendemos demonstrar nos comentários à tradução de MC. Da mesma forma que o uso da razão e do método sistemático impõe limites à imaginação, evitando que se recaia em traduções fantasiosas e se invente sentidos que não estão no texto original. Por outro lado, o uso da imaginação evita de se recair no extremo oposto do racionalismo.

Longe de nos fazer optar entre imaginação e razão, o círculo hermenêutico de Paul Ricoeur, sobre o qual discorremos mais adiante, combina as duas características do pensamento humano em um sistema em forma de espiral, que ilustra as relações entre o leitor, o texto mediador e a totalidade do real.18

Essa tese envolve como público-alvo o leitor brasileiro particularmente interessado nos Estudos da Tradução e/ou nas questões teológicas e filosóficas levantadas por DLS em MC, uma obra capaz de contribuir de forma interdisciplinar para todos esses campos.

Iniciamos com a pré-leitura e interpretação prévia da obra, e que pode ser tomada como um estágio preparatório da tradução. Nisso nos

18 No entender de Tomás de Aquino, segundo Lauand (2014), a “abertura para a

totalidade do real”, que é a integralidade do real, que abarca não apenas o aqui e agora, mas tudo aquilo que o transcende, era a razão de ser da “universidade” entendida como busca pelo sentido universal das coisas.

inspiramos antes de tudo na própria DLS que, antes de ser tradutora de Dante, foi uma leitora voraz e dedicada das obras desse autor, modelo que procuramos seguir para a presente tradução. Sua leitura envolveu, segundo Reynolds (2005, p. 30):

[...] a compreensão de aspectos essenciais, a observação acurada de detalhes, a correlação das partes ao todo, a apreciação franca dos personagens e do enredo, a imaginação viva, que visualiza as figuras e movimento, o prazer dinâmico da descoberta, a admiração do artífice pelo controle da estrutura e do ritmo; e acima de tudo, a disposição de levar Dante a sério, de recuar horrorizada diante do seu retrato do mal e de se regozijar com sua mensagem repleta de alegria. 19

Assim, é possível traçar inúmeros paralelos entre MC e a Divina Comédia. Os bons entendedores da obra de Dante irão notar vários indícios em MC da leitura ampla e minuciosa que DLS tinha de Dante.

Em um segundo momento da nossa tradução, escreveu-se a primeira versão. Em seguida, fez-se a busca de outra tradução para o cotejo, levando em conta as teorias de Ricoeur a respeito da tradução e suas várias versões possíveis. A fase final deu-se na forma de várias revisões, à procura de estrangeirismos e adequação à linguagem do público-alvo.

Em resumo, inspirando-nos em especial nas recomendações quanto à tradução da própria DLS e em Paul Ricoeur, a tradução ora proposta e comentada, ocorreu em quatro fases, como no próprio círculo hermenêutico proposto por Ricoeur:

 a da pré-leitura, interessada em esclarecer dúvidas de vocabulário quanto ao contexto cultural e histórico da autora e da obra;

19 [...] the grasp of essentials, the acute observation of detail, the correlation of

parts to the whole, the levely appreciation of character and plot, the vivid imagination which visualizes figures and movement, the dynamic delight of discovery, the craftsman’s admiration for control of structure and pace: above all, a readiness to take Dante seriously, to recoil in horror from his portrayal of evil and to rejoice with him in his communication of joy (REYNOLDS, 2005, 30).

 uma primeira tentativa de tradução espontânea e bastante mecânica;

 uma releitura mais crítica, através do cotejo com outra tradução (no caso, para o alemão);

 e finalmente, uma apropriação do texto, através da depuração de palavras ou expressões que causem demasiado estranhamento, adotando uma linguagem mais familiar e doméstica.

Somente assim seríamos capazes de superar o girar em torno dos polos opostos da fidelidade e da traição, mostrando que a tradução é e permanece um investimento de alto risco:

Sugiro que necessitamos ir além dessas alternativas do traduzível versus intraduzível e de substituí-los com novas alternativas práticas, decorrentes do próprio exercício da tradução, as alternativas da fidelidade versus da traição, mesmo se isso signifique admitir que a prática da tradução redunda sendo uma operação arriscada que está sempre em busca de sua teoria (RICOEUR, 2006, p. 14).20

É assim, em busca de uma teoria, que empreendemos o exercício tradutório que é objeto dessa tese.

Essa tese também segue a metodologia da tradução comentada. De acordo com Ana María García Álvarez (2013, online), a tradução comentada é um trabalho acadêmico em que o tradutor explicita suas decisões tradutórias e reflexões sobre elas. Trata-se de uma metodologia que foca no processo, mais do que no produto da tradução, sem o qual, qualquer avaliação do resultado da tradução se torna comprometido. A autora aponta para os vários problemas gerados pela falta de reflexão sobre os processos de pensamento (think aloud protocols) da parte de estudantes, como a falta de fundamento, seja nas teorias da tradução, seja em campos interdisciplinares. A falta de hábito da reflexão sobre a

20 I Suggest that we need to get beyond these theoretical alternatives,

translatable versus untranslatable, and to replace them with new practical alternatives, stemming from the very excercise of translation, the faithfulness

versus betrayal alternatives, even if it means admitting that the practice of

própria ação também leva à falta de visão holística e autoconfiança nos seus “protocolos”, que os profissionais da tradução mais experientes tendem a apresentar.

Baseada em uma série de teóricos, e em sua experiência como professora de tradução, a autora chama a metodologia também de “meta-cognitive verbalisation” [verbalização meta-cognitiva], que não garantiria a “qualidade” da tradução21, mas que contribuiria em muito à teorização sobre a tradução a partir da prática tradutória. Embora nosso foco não fosse cognitivista, mas hermenêutico, a tradução comentada no sentido mais amplo é particularmente interessante para o desenvolvimento de certas habilidades e estratégias de tradução, que tendem a passar despercebidas com outras metodologias de avaliação da tradução, como acontece nos testes de tradução, em que o candidato tem um tempo limitado para a prática tradutória, o que impede a pesquisa e reflexão.

Essa metodologia também ajudaria a organizar o trabalho do tradutor, permitindo-lhe refletir sobre a parte, sem perder a perspectiva do todo ao longo do processo, além de servir de guia teórico de sua prática tradutória, estabelecendo pontes entre a teoria e a prática da tradução.

A metodologia proposta no texto de Álvarez apresenta algumas orientações de como elaborar os comentários, tenta quebrar a forma linear de comentários que seguem uma lógica analítica e sistemática, propondo, em seu lugar, uma lógica cíclica e holística. Procuramos nos inspirar nela para alguns comentários feitos sobre o processo tradutório de MC e em teses anteriormente elaboradas, seguindo esse modelo. De acordo com Paganine (2011, p. 24):

Essa estrutura de dedicar um capítulo às traduções e originais se faz apropriada a uma tese de tradução comentada, realizada em um Programa de Pós-Graduação em Estudos da Tradução, pois se estabelece a tarefa da tradução como uma atividade intelectual per se, a qual demanda tanto um trabalho prático, que envolve interpretação e construção textual, quanto um trabalho reflexivo de estudo e avaliação de teorias da tradução e

21 Ideia essa que ainda requer maiores explicitações teóricas, a nosso ver. O que

comentários sobre o traduzir, amparados sempre pelos estudos literários em torno do autor traduzido e sua obra.

A tradução comentada, nesse sentido, serve para contribuir ao cânone da literatura traduzida no Brasil e ao maior conhecimento dos autores e suas obras, já que se trata da tradução do sentido mais amplo e abrangente de determinada obra ou conjunto de obras

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Procurou-se, dessa forma, fazer uma tradução mais aproximada possível do original, mas ao mesmo tempo e de forma coerente com a tese de DLS em MC, buscando exercitar a criatividade nos momentos que a ensejavam.