OBRIGAÇÃO OU OPORTUNIDADE ?

No documento TRABALHO, DESCANSO E DINHEIRO UMA ABORDAGEM BÍBLICA (páginas 33-51)

C

onheci a vida de trabalhador ainda criança. Aos 9 anos, comecei uma pequena carreira como jornaleiro, que durou doze anos. Aos 18, matriculei-me na universidade e à entrega de jornais juntei o trabalho de zelador. Assim, eu me levantava às 4 horas da madrugada para completar a minha rota, entregando os jornais em cerca de 200 casas na vizinhança. Chegava em casa, tomava banho e ia à universidade, onde, entre 6h30 e 9 horas, limpava o chão e os banheiros e arrumava as salas. Logo em seguida, vinham as aulas e, à tarde, mais serviço como zelador. Nos anos seguintes, tive vários empregos, alguns de tempo parcial durante o ano escolar, outros de tempo integral nos três meses de férias.

Além de zelador, trabalhei como instrutor de

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educação física em uma escola primária e lavei carros. Fui motorista de ônibus, doceiro, gerente de clube, salva-vidas, pedreiro, assistente de carpinteiro e faz-de-tudo em um grande armazém. Ao mesmo tempo, estudava e desenvolvia vários ministérios entre jovens no evangelismo e no discipulado. Fundei Atletas de Cristo no meu colégio, iniciei uma casa de chá na minha igreja local e liderei um grupo de 200 universitários cristãos no estilo da Aliança Bíblica Universitária. Integrei a equipe de Alvo para a Mocidade e participei ativamente de equipes de evangelismo e despertamento em igrejas locais no meu Estado e em um Estado vizinho. Conheci de perto o trabalho, tanto o secular quanto o religioso.

Neste capítulo, quero sugerir que todo o nosso serviço no mundo pode e deve ser dedicado à implantação do reino de Deus.

Por isso, toda profissão, por mais secular que pareça, é igualmente sagrada diante do Se-nhor. Não deve ser encarada como trabalho penoso, fadiga ou castigo de Deus, mas como uma oportunidade de realizar nossa vocação como seres humanos criados à imagem do Criador e Trabalhador par excellence. Isso é privilégio especialmente daqueles que são chamados seus embaixadores aqui na terra.

Mas isso é bem diferente da perspectiva comum do trabalhador que celebra o fim de semana e lamenta a segunda-feira. Então,

Mas ele lhes disse: Meu Pai trabalha até agora, e eu trabalho também.

(Jo 5.17)

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vejamos por que temos essa perspectiva tão pessimista do trabalho e o que a Bíblia diz sobre esse assunto.

A

PERSPECTIVA HISTÓRICA DO TRABALHO

As perspectivas contemporâneas sobre o trabalho derivam de dois pontos de vista opostos: o greco-romano e o judaico-cristão.

O mundo antigo, e até certo ponto medie-val, considerava o trabalho com desdém e o lazer com louvor, pois este era a expressão de uma existência humana livre. Porém, sob a ótica judaica, cristã e protestante, o traba-lho foi aceito como vocação e bênção de Deus, que em si só constitui uma fonte de auto-realização humana.

Os gregos e os romanos compreendiam o trabalho como um mal necessário. Ao se referir aos serviços manuais de toda sorte, Xenofon disse: “as artes iliberais [não livres], como são chamadas, são mal vistas, e são totalmente desprezadas em nossos Esta-dos”.2 Por outro lado, segundo Aristóteles,

“o lazer é uma necessidade, tanto para o cres-cimento em caridade quanto para prosseguir nas atividades políticas”. E, para descrever as profissões dos artesãos, Cícero usa o ter-mo sordidi, que significa sórdido.3 Não era tanto o trabalho manual em si que era con-siderado vil, mas a dependência e a ne-cessidade que ele requeria, a sua ausência de autonomia. Era a palavra lazer (scolia)

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que determinava o termo e o conceito para trabalho (ascolia = não-lazer), e não vice-ver-sa. O trabalho, então, era considerado peri-férico às preocupações humanas mais im-portantes e verdadeiras.

Essas avaliações negativas do trabalho eventualmente influenciaram o pensa-mento da cultura cristã nascente. Por exem-plo, Agostinho distinguiu entre a vida ativa (vita activa) e a vida contemplativa (vita contemplativa), a primeira abrangendo qua-se todo tipo de trabalho, inclusive a pregação, o estudo e o ensino, e a segunda se referin-do à meditação em Deus e nas suas verdades.

Ambas eram boas, mas a vida contemplativa era melhor. Isso levou à valorização da vida sacerdotal ou monástica, que caracterizou o cristianismo medieval.

Os reformadores protestantes tinham uma visão do trabalho bem diferente da vi-são monástica. Consideravam-no como a vocação de todos os cristãos. Assim, rejeita-vam a dicotomia entre duas atividades hu-manas e afirmavam que todas as formas de trabalho têm igual valor diante de Deus. Por exemplo, entre outros motivos que resulta-ram na acusação de heresia de William Tyndale, estava sua crença de que

nenhum trabalho é melhor que outro para agradar a Deus: buscar a água, lavar a louça, ser sapateiro ou apóstolo, tudo é uma só coi-sa; lavar louça ou pregar o evangelho é uma só coisa, no que se refere ao trabalho, para agradar a Deus.4

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Martinho Lutero acreditava que Deus, na sua providência, havia colocado cada pessoa na sua função na sociedade para realizar as atividades daquela função. João Calvino enfatizou o trabalho útil. Ele disse que Deus não está “como os sofistas imaginavam, à toa, desocupado e quase dormindo, mas vigilante, eficaz, operante e empenhado em ação contínua”.5 E, em seu comentário so-bre a parábola das dez minas (Lc 19.11-27), Calvino relacionou os talentos ao trabalho diário e à vocação e, assim, ditou o signi-ficado moderno das palavras talento e talentoso. Atualmente, entendemos o ta-lento como o exercício de uma habilida-de, freqüentemente associado a uma pro-fissão.

Hoje, há basicamente duas filosofias da economia do trabalho: o capitalismo e o marxismo. Apesar de se opor radicalmente ao capitalismo, Karl Marx, como os filóso-fos capitalistas, também atribuiu ao traba-lho um papel central na atividade humana.

Ele disse: “A história mundial inteira nada mais é que a criação do homem através do labor humano, e o surgimento da natureza para o homem”.6 Porém, para Marx, o traba-lho não era um fim em si, mas o único meio para alcançar um fim maior, a “liberdade do comunismo”.

Tanto a visão capitalista quanto a mar-xista crêem que o labor contínuo, racional e produtivo transformará o mundo. O trabalho,

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na sua ótica, é a chave da história, a chave para uma nova sociedade, uma nova natu-reza e um novo homem. Enfim, é o nosso cerne e a nossa salvação. A diferença é que para o marxismo a transformação deveria ser social e igualitária, ao passo que para o capitalismo deveria ser individual, discriminativa e meritória. Em ambos os sis-temas, a sociedade vive incansável e labori-osamente em torno de uma orientação para o futuro. De acordo com essas duas filosofi-as, o trabalho e especificamente a produção, com o auxílio da ciência e da tecnologia, nos introduzirão em um mundo de consumo, lazer e liberdade.

A

PERSPECTIVA BÍBLICA DO TRABALHO

Para examinar a perspectiva bíblica do trabalho, precisamos revisar os nossos co-mentários sobre Gênesis 1 e o mandato cul-tural.

Nos primeiros dois capítulos de Gênesis, já vimos que a criação da humanidade rece-be um grande destaque. No capítulo 1 ela é o ápice da criação, enquanto no capítulo 2 é o seu centro. Ambos os relatos ressaltam a posição principal da criação do homem. E aqui lemos também sobre o propósito de Deus na criação da humanidade. Gênesis 1.26-28 diz que a humanidade essencialmen-te essencialmen-teria domínio sobre o resto da criação.

Assim, como o próprio Deus, ainda que em

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menor escala e a Ele subordinado, cabe ao ser humano a função de senhorio. Nisso ele demonstra que é como Deus, pois foi criado parecido com Ele.

Reparamos também a incumbência de multiplicar-se e encher a terra. A reprodução biológica e a ocupação demográfica da terra refletem literalmente a criatividade de Deus.

O homem também seria um criador, mas, de novo, debaixo da criatividade do próprio Deus. Finalmente, em Gênesis 2.19, apren-demos que o ser humano recebe uma ter-ceira qualidade como característica de sua herança de parecer-se com Deus. É a incum-bência de dar nome às diversas partes da criação, que, de certo modo, trata não só de mera taxonomia, mas eventualmente de todo o empreendimento científico em geral.

Em tudo isso, os seres humanos, diferen-tes das outras criações de Deus, se apresen-tam como fazedores da história e da civili-zação, construindo cidades (Gn 4.17) e de-senvolvendo a vida pastoril e nômade (4.20), a música (4.21) e a metalurgia (4.22).

Mesmo a queda não anula o mandato cultural. Adão e Eva continuam com suas funções de guardiões, criadores e senho-res da terra. No relato sobre o dilúvio, o mandato é reforçado e renovado para Noé (Gn 9.7, 19-20). A sorte do povo de Deus continua ligada à terra e, para Abraão e

Noé era

agricultor; ele foi a primeira pessoa que fez uma plantação de uvas.

(Gn 9.20, BLH)

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seus descendentes, a promessa de bênção de Deus inclui necessariamente a terra (Gn 12.1-3).

Finalmente, o mandato é renovado, está sendo redimido e será aperfeiçoado com Je-sus. Nossa herança como filhos de Deus se realiza junto com a esperança de uma eco-logia redimida (Rm 8.15-17, 19, 20), algo que encontra a sua consumação somente no fim dos tempos (Ap 21.2), quando o domínio humano será definitivamente subordinado ao domínio de Deus (Ap 11.15).

Tudo isso nos persuade à valorização bí-blica do trabalho. As Escrituras estão reple-tas de louvor pelo labor das mãos, corações e mentes humanas. Habilidades no traba-lho são descritas como dons de Deus, que é um trabalhador (Gn 2.4, 7, 8, 19, 23) e um habilitador (Êx 35.30-32; Sl 65.9-13;

104.22-24; Gn 10.8, 9).

Não nos surpreendemos, então, que o Novo Testamento nos apresente Jesus no meio dos problemas diários de gente traba-lhadora. Ele mesmo era um carpinteiro e comunicava-se com trabalhadores empre-gando as figuras do trabalho manual (veja as parábolas narradas em Mt 13.3, 30;

7.24; Lc 15.8, 11; Jo 4.35).

Paulo também valorizava o trabalho. Ele criticava a preguiça (2 Ts 3.6-12) e não fa-zia nenhuma distinção entre o labor físi-co e o trabalho espiritual. Usou os mes-mos termes-mos para o seu trabalho manual

Cuche foi pai de Ninrode, o primeiro grande conquistador do mundo. Com a ajuda do Deus Eterno ele se tornou um caçador famoso...

(Gn 10.8, 9, BLH)

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como fazedor de tendas e seu serviço como apóstolo (1 Co 4.12; 15.10; 16.16; Ef 4.28;

Rm 10.12; Gl 4.11; Fp 2.16; Cl 1.29; 1 Ts 5.12).

Para ele, uma vida de lazer e contemplação religiosa, ou abdicação escatológica, era uma vida deficiente. Todos os membros da igreja deveriam trabalhar (2 Ts 3.10).

Até mesmo os novos céus e a nova terra incluirão o trabalho (Is 65.21, 22; Mq 4.3-5).

O labor faz parte do galardão divino, e não do seu castigo!

I

MPLICAÇÕES DO TRABALHO

De certo modo, o trabalho faz parte da manifestação do domínio de Deus no mun-do, pelo menos à medida que esse domínio se expressa por seu emissário, o homem, especialmente o homem redimido. Por isso, pode-se pensar apropriadamente do labor humano, mediante o exercício das diversas profissões, como um dos meios mais signi-ficativos de derrubar as barreiras que se le-vantam contra o reino de Deus na terra. E, por isso, o desempenho da vocação pro-fissional de cada um deve refletir os valo-res desse reino, valovalo-res de paz e de justiça.

Assim, o trabalho possui definitivamente uma dimensão ética. Envolve, entre outras coisas, a denúncia do preconceito racial7, da opressão aos pobres8, do trabalho escravo e mal remunerado9, da decadência urbana, da corrupção política e da imoralidade. Mas deve

Deus o encheu [a Bezalel] com seu Espírito e lhe deu inteligência, competência e habilidade para fazer todo tipo de trabalho artístico; para fazer desenhos e trabalhar em ouro, prata e bronze; para lapidar e montar pedras

preciosas; para entalhar madeira; e para fazer todo tipo de artesanato.

(Êx 35.31-33, BLH)

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refletir também uma vida vivida em comunhão com o Criador, evidenciada no culto e na com-paixão. Enfim, toda atividade humana é dá-diva de Deus e deve servi-lo e glorificá-lo.

Assim, o trabalho pode e deve ser encara-do como uma extensão da nossa espiritualidade. Não fazemos separação es-sencial, como é comum em boa parte da igreja cristã, entre uma vocação secular e outra religiosa. Exercemos toda nossa ati-vidade — trabalho e lazer — religiosamen-te, ou melhor, espiritualmente. Ninguém se sinta inferior ou culpado pela sua pro-fissão, mas cada um assuma sua função com a responsabilidade e a dignidade de ser administrador de uma tarefa dada por Deus.

Na prática, isso significa que todo serviço humano, exercido para recompensa ou não, diretamente na igreja ou não, deve ser pres-tado igualmente para a glória de Deus e para o bem do mundo por Ele criado. O cristão deveria se perguntar: “Como meus talentos e minha profissão podem melhor contribuir para os desígnios de Deus e a manifestação dos valores do seu domínio?” Se todos fi-zessem assim, o testemunho cristão lá na rua e em todos os lugares onde cristãos exer-cem suas profissões teria um impacto maior.

Não enquadraríamos a igreja como o “ver-dadeiro” campo onde os cristãos vivem e o

“mundo lá fora” como um lugar onde deve-mos gastar o mínimo de nosso tempo e de

O que agrada a Deus não são cavalos fortes nem soldados corajosos, mas sim as pessoas que o temem e confiam no seu amor.

(Sl 147.10, 11, BLH)

O dinheiro 45

onde devemos fugir em toda oportunidade que tivermos. Ao contrário dessa perspecti-va de “gueto”, enquadraríamos toda a cria-ção como santuário de Deus, estabelecido para sua honra e glória, e, por isso, o lugar principal da atuação cristã. A igreja, sob esta ótica, seria tanto o lugar onde nos prepara-mos para tal atuação quanto o lugar onde adoramos ao Senhor e crescemos na fé jun-to com outros filhos de Deus. Enfim, o tra-balho não é a antítese da auto-realização humana e cristã. É um dos seus principais meios.

O trabalho não deve ser visto como ape-nas mais uma oportunidade para evangelizar os nossos colegas de trabalho. Certamente a evangelização em toda situação é nosso pri-vilégio e dever. Mas o trabalho deve ser com-preendido de maneira mais ampla, como um dos nossos principais meios de levar adian-te o propósito de Deus ao criar a humanida-de. Ele é nosso meio de expandir as divisas daquela parte da criação que está sujeita à vontade de Deus e de derrotar as forças do mal que contrariam esta vontade. É um meio de estabelecer a confiança e a responsabili-dade mútuas entre os seres humanos e ali-viar o sofrimento do homem. O papa João Paulo II expressa bem:

Com efeito o homem, quando trabalha, trans-forma não somente as coisas e a sociedade, mas se aperfeiçoa a si mesmo. Ele aprende muitas coisas, desenvolve suas faculdades, se

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supera e se realiza. Este desenvolvimento, bem entendido, é de valor maior do que as riquezas externas que se podem juntar. O homem vale mais pelo que é do que pelo que tem. Igual-mente, tudo o que os homens podem fazer para alcançar maior justiça, mais ampla fraternidade e uma organização mais humana nas relações sociais ultrapassa o valor do progresso técni-co. Pois estes progressos podem oferecer como que a matéria para a promoção humana, mas por si só não a realizam de modo algum.10

O trabalho é um reflexo divino da criatu-ra feita à imagem de Deus e por isso deve ser uma ação de responsabilidade em relação à vida toda.

L

IMITAÇÕES DO TRABALHO

Por outro lado, não se deve supervalorizar o trabalho, como fazem alguns que colocam o emprego acima de tudo: família, amigos, o descanso sadio e a igreja. O trabalho não é meio de salvação, mas uma de suas respos-tas apropriadas. Nossa profissão não nos proporciona a felicidade e a segurança últi-mas, embora possa contribuir para isso. O trabalho não é uma espécie de mediador entre o homem e Deus. Não trabalhamos duro a fim de sermos ouvidos pelo Divino.

De novo, nosso trabalho fiel é incumbência dada por Deus e conseqüência — não causa

— do nosso relacionamento com o Criador.

Também o trabalho não pode erradicar o pecado, pelo menos não diretamente. É um

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meio de testemunhar os valores do domínio de Deus já inaugurado em nosso mundo, valores tanto de justiça e paz espiritual quan-to de justiça e paz social.

Finalmente, não podemos identificar o trabalho com a totalidade da nossa vocação.

Nossa vocação principal na vida é de cris-tãos, não dessa ou daquela profissão. Somos chamados para viver como cidadãos do do-mínio de Deus neste mundo. Nossa profis-são é apenas parte — embora parte impor-tante — dessa vocação maior (1 Co 7.20). A salvação é pela graça de Deus, não pelo tra-balho que realizamos.

Em uma sociedade moderna, em que a competição e o consumismo reinam, as pa-lavras de Jesus são revolucionárias no nível mais profundo:

Não acumulem para vocês tesouros na terra, onde a traça e a ferrugem destroem, e onde os ladrões arrombam e furtam. Portanto eu lhes digo: não se preocupem com suas pró-prias vidas, quanto ao que comer ou beber;

nem com seus próprios corpos, quanto ao que vestir. (...) Vejam como crescem os lírios do campo. Eles não trabalham nem tecem. (...) Se Deus veste assim a erva do campo, que hoje existe e amanhã é lançada ao fogo, não vestirá muito mais a vocês, homens de pequena fé?

(Mt 6.19, 25-30, NVI; cf. Js 24.2-13; Dt 8.11-20;

Lc 12.13-32.)

Se não podemos identificar o trabalho com a totalidade da nossa vocação neste mundo, logo não há motivo de nos

Naquele dia o Eterno, o Todo-poderoso, vai humilhar todos os orgulhosos e vaidosos, todos os que pensam que são importantes.

Naquele dia os orgulhosos serão humilhados, e os vaidosos serão rebaixados;

somente o Deus Eterno receberá os mais altos louvores.

(Is 2.12,17, BLH)

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engrandecermos nele. O pecado de Adão e Eva, o orgulho que levou-os a querer ser como Deus, se repetiu no episódio de Babel quando os habitantes da cidade disseram:

“tornemos célebres o nosso nome”. Aquela cidade representava bem a cobiça do poder e da grandeza, que afasta o ser humano de Deus e do seu próximo. O Senhor se opõe categoricamente ao orgulho e à vaidade (Is 2.12-17).

O fim de tal orgulho é a adoração do nos-so trabalho, em vez da adoração ao Criador, o único culto legítimo. O alvo do trabalho não é o ganho material e pessoal, mas a boa administração da criação para a glória de Deus. Se pusermos toda a nossa confiança no trabalho das nossas mãos, e não no Deus que criou o mundo onde realizamos o nos-so trabalho, então nos deixaremos ser con-trolados e moldados pelo nosso trabalho. Se-remos transformados à imagem do nosso trabalho, algo que, de fato, acontece no coti-diano de muitas pessoas. J. K. Galbraith nos alerta:

Se continuamos a crer que os alvos do siste-ma industrial — a expansão da produção, o aumento conseqüente do consumo, o avanço tecnológico, e a propaganda pública que sus-tenta tudo isso — correspondem à vida, en-tão toda a nossa vida estará a serviço destes alvos. Teremos ou nos permitiremos ter aqui-lo que combina com estes alvos; o restante será proibido. Nossos desejos serão gerenciados de acordo com as necessidades do sistema industrial; a política do estado se

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sujeitará a influência semelhante; a educação se adaptará à necessidade industrial; as discipli-nas exigidas pelo sistema industrial serão a moralidade convencional da comunidade. To-dos os outros alvos parecerão extremamente sem importância ou anti-sociais.11

Essa situação é muito comum na nossa sociedade. É uma situação em que a eco-nomia é praticamente idolatrada e somos cativos dos nossos próprios ídolos. Entre-tanto, devemos prestar nosso culto unica-mente a Deus. Isto é, nossa preocupação última deve ser com Ele: dar a máxima importância ao Criador, e não à criação;

adorá-lo e procurar nossa finalidade ver-dadeira na incumbência que Ele nos deu, e não naquilo que podemos conseguir por esforço próprio. Portanto, precisamos es-tar conscientes dos nossos próprios limi-tes e dos limilimi-tes da incumbência divina que nos foi dada de trabalhar. Trabalha-mos porque soTrabalha-mos seres humanos criados à imagem do Criador e Supremo Trabalha-dor. Mas também sofremos as conseqüên-cias do pecado, que acrescentou ao man-dato divino um novo elemento — o sofri-mento. Mesmo na dor e no sofrimento que acompanham a designação divina do tra-balho, lutamos contra as conseqüências maléficas do pecado neste mundo e exer-cemos uma função benéfica de ordenação sobre a criação, aí incluída a civilização humana.

Você terá de trabalhar duramente a vida inteira a fim de que a terra produza alimento suficiente para você. Ela lhe dará mato e espinhos, e você terá de comer

Você terá de trabalhar duramente a vida inteira a fim de que a terra produza alimento suficiente para você. Ela lhe dará mato e espinhos, e você terá de comer

No documento TRABALHO, DESCANSO E DINHEIRO UMA ABORDAGEM BÍBLICA (páginas 33-51)