LOCALIDADE QUANTIDADE
2.3.2 Observação e conversa informal
Lüdke e André (1986) afirmam que a observação ocupa um lugar privilegiado em se tratando das novas abordagens de pesquisa educacional. Esse procedimento metodológico, que pode ser usado como o principal na investigação ou associado a outras técnicas de coleta, permite um contato pessoal e estreito do pesquisador com o fenômeno pesquisado.
Neste estudo, a observação foi utilizada juntamente com outros procedimentos metodológicos e não se configurou como o principal elemento de investigação. A observação direta da rotina escolar permitiu uma relação mais estreita com as crianças, garantindo, assim, uma aproximação maior e condições mais favoráveis nos momentos de aplicação dos questionários e realização das entrevistas - aceitação por parte dos participantes, segurança e credibilidade na pesquisa desenvolvida, conversas das crianças com as suas famílias em relação ao trabalho realizado, entre outros aspectos. Além disso, a convivência permitiu situações de conversas informais com a equipe escolar de um modo geral, mais diretamente com as professoras e, em especial, com as crianças. Conversas que muito contribuíram para as discussões propostas.
O contato com as crianças na escola ocorreu nos horários de entrada e saída da aula, nos intervalos e sobretudo nos momentos de aula. Em se tratando especialmente das observações realizadas no decorrer das aulas, selecionamos aquelas ministradas pelas professoras responsáveis pelas turmas, conforme indicado na Figura 04 e ainda aulas (carga horária menor) ministradas por outras professoras e em outros espaços. Dessa forma, presenciamos aulas no Laboratório de Informática sob a responsabilidade de uma professora específica. Cabe aqui enfatizarmos que esse espaço pode ser utilizado pelos professores responsáveis por diferentes disciplinas, desde que tenham um projeto vinculado ao uso do computador. Sob essas condições, os professores desenvolvem seu trabalho juntamente com o professor responsável pelo laboratório de informática que, por sua vez, os auxilia nas tarefas desejadas. Presenciamos também aulas
de Artes ocorridas no laboratório de Artes ministradas semanalmente por uma professora habilitada. Havia ainda as aulas de Educação Física ocorridas no ginásio de esportes, campo de futebol e área livre, também sob a responsabilidade da professora dessa disciplina. Além disso, observamos as aulas referentes ao Programa Educacional de Resistência às Drogas e à Violência (PROERD), ministrado por um Policial Militar preparado para a tarefa com o auxílio de uma cartilha exclusiva. As aulas são ministradas uma vez por semana, totalizando 17 semanas; tivemos a oportunidade de observamos algumas aulas.
Os professores nos deixavam bastante à vontade para conversar com as crianças, permitindo assim uma convivência bastante agradável e produtiva. A nossa presença na sala de aula ocorreu aproximadamente duas vezes por semana (em dias variados), entre os meses de março e agosto. Permanecíamos nesse período uma hora e meia em cada sala, totalizando nove horas semanais de observação. A partir de setembro, quando iniciaram os agendamentos das entrevistas, começamos a freqüentar apenas uma vez por semana a sala de aula; assim, totalizamos quatro horas e meia de observações semanais. Sempre que chegávamos à classe, éramos solicitadas pelas crianças para que nos sentássemos próximas a elas; então, para não tumultuar, procurávamos negociar com as crianças lugares alternados para atendermos, de certa forma, a todas.
Nas casas das crianças e de suas famílias as observações também foram significativas, pois, mais do que a realização de uma entrevista, pudemos observar os materiais de leitura ali presentes, os lugares onde eram guardados, os espaços da casa mais usados para o desenvolvimento das práticas de leitura, entre outras observações.
A convivência semanal com as crianças muito facilitou a coleta de informações por meio de outros instrumentos (questionários e entrevista). Houve a criação de um vínculo entre pesquisador e pesquisado, lembrando que se tem consciência de que um trabalho dessa natureza enfrenta o desafio das condições de produção em que as respostas são construídas.
Quando estamos entre os sujeitos pesquisados, a criação do vínculo se torna fundamental. Franchi (1999), ao tratar da relação professor/aluno e pesquisador/pesquisado, relata que para poder preparar de forma mais adequada seu projeto de trabalho na alfabetização com alunos da 1ª série do então 1º grau, sujeitos de sua pesquisa, procurou se aproximar deles quando ainda estavam na pré-escola. Com a colaboração da professora da sala, procurou participar, como uma entre os outros, das brincadeiras de círculo.
[...] Eu tinha imaginado o meu papel entre as crianças não como o de uma “nova tia”, mas como o de uma animadora, a “colega mais grande do grupo. Tinha a ilusão de conseguir desfazer as diferenças (de papel social e de idade) participando, como uma entre os outros, das brincadeiras de círculo. [...] Qualquer leitor deve ter observado que as crianças não caíram nessa peça. Logo me identificaram por um papel específico e diferenciado: você é outra tia? E mesmo quando tentei evitar essa distinção, tinham lá suas razões para contestar-me: Ah! Mais você é grandi i num é tia9
[...] A trama da rede de entendimento, fruto de nossos diálogos, foi sendo tecida, pouco a pouco, ponto por ponto. Assim fomos nos conhecendo. Nossos sucessivos encontros e desencontros; nossas diferentes histórias
?” (FRANCHI, 1999, p. 31-2)
Como podemos observar, por mais que a autora tenha tentado se aproximar das crianças, procurando ingenuamente se enquadrar numa situação de igual para igual, isso não foi possível, pois sua posição já a apontava como alguém que não apresentava as mesmas características daquele grupo. Devemos considerar que nesse contexto de coleta de dados, há diferenças que nos motivam (pesquisador e sujeito). No entanto, os laços estabelecidos tornam-se fundamentais para o desenvolvimento da pesquisa.
Leite (2005), ao relatar a relação estabelecida com as crianças moradoras da zona rural participantes de sua pesquisa, afirma que a entrada no campo passa por uma espécie de “ritual de passagem”, em que pesquisador e pesquisado vão pouco a pouco estabelecendo e criando laços. Tais laços são os determinantes de sua relação com aquele grupo. Assim, afirma a autora:
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Tia, nesse contexto, segundo Franchi, (1999), está sendo usado como substituto de professor e não como uma relação de parentesco.
de vida foram tecendo a nossa história. Vivíamos juntos uma história. (LEITE, 2005, p.84)
Cada um de nós - pesquisador e crianças - apresenta sua história e quando estabelecemos o vínculo e interagimos nossas experiências, construímos a nossa história. Esta é a relação que procuramos estabelecer com as crianças pesquisadas, uma história marcada pelo diálogo. Assim como Leite (2005, p. 92), consideramos também que as nossas crianças não foram objeto de pesquisa, mas, sim, sujeito com vida, em processo dinâmico e contínuo de transformação. Relacionamo-nos “[...] com um sujeito produtor de cultura e, portanto, narrador. [...].” Não demos voz a esse grupo de crianças, uma vez que ele já tinha voz. Procuramos, sim, instigá-lo a soltar a voz.
[...] precisamos conhecer nosso aluno. Conhecê-lo como representante da sua classe; como sujeito capaz de agir sobre sua trajetória; como narrador, produtor e consumidor de cultura que, através de e na linguagem, imprime suas marcas, reelabora o seu passado, vive o seu presente e tem possibilidade de não aprisionar o seu futuro. Precisamos ouvi-lo, aprender com ele, trocar com ele. A troca, o intercâmbio fazem com que o conhecimento passe pelo social – a fala é o espaço de troca por excelência. Só ampliando espaços de fala poderemos criar laços afetivos e só assim ele se sentirá confiante e inteiro. Só confiante e inteiro ele estabelecerá as pontes entre sua vida cotidiana e o mundo ao seu redor. (LEITE, 2005, p. 87)
Valorizamos, na verdade, as expressões utilizadas pelas crianças em interação com seus outros sociais, ouvindo-as e vendo-as como sujeitos pertencentes e produtores de lugares e culturas, não apenas na pesquisa aqui realizada como na vida. (VASCONCELLOS, 2007)
Ainda, enfatizamos que a linguagem - verbal e não-verbal - privilegiou a concepção que a contempla como forma de interação, uma vez que, como afirma Geraldi (1999a, p.41), “[...] mais do que possibilitar uma transmissão de informações de um emissor a um receptor, a linguagem é vista como um lugar de interação humana. [...]” E foi essa interação que nos acompanhou no decorrer de toda a pesquisa, ou seja, em todas as formas de coleta de dados. Interação na qual os participantes se tornam sujeitos, num espaço de constituição de relações sociais.