Observação participante aliada à introspecção

No documento UNIVERSIDADE FEEVALE PRÓ-REITORIA DE PÓS-GRADUAÇÃO MESTRADO PROFISSIONAL EM INDÚSTRIA CRIATIVA BIBIANA SILVEIRA-NUNES (páginas 73-76)

5. CARTAS NA MESA

5.2. MÉTODOS DE COLETA DE DADOS E PROTOCOLOS ÉTICOS

5.2.2. Observação participante aliada à introspecção

Associado ao entendimento de Hine (2015) sobre Etnografia para a Internet, propomos o uso da introspecção aliada à observação participante (WALLENDORF; BRUCKS, 1993) como método de coleta de dados em campo. A observação participante aliada à introspecção é apontada pelas autoras como método empírico de pesquisa usado em estudos sobre consumo. Introspecção implica a existência de, no mínimo, um indivíduo fornecendo dados verbais sobre aspectos de sua experiência, sendo que estes estão disponíveis apenas a este individuo, não observável diretamente por outros. As autoras identificam, a partir de estudo bibliográfico da produção relacionada ao tema, cinco categorias de pesquisa introspectiva, diferenciadas pelo papel representado pelo indivíduo introspectivo. Este papel é determinado pelo nível de proximidade ou intimidade entre pesquisador e indivíduo introspectivo, o número de indivíduos introspectivos e sua função no estudo. Chamamos atenção à quinta forma de introspecção colocada pelas autoras,

reflexividade na pesquisa (para distingui-la da reflexividade como pesquisa), que ocorre em estudos etnográficos usando a observação participante como método. Ao construir uma interpretação, os observadores participantes usam duas fontes de dados: (1) material de observação e entrevista de pessoas em um grupo cultural em estudo e (2) material reflexivo que emerge de ser um participante que estuda esse grupo cultural. [...] Ao invés de autoridade desencarnada, a etnografia emprega cada vez mais a reflexividade na pesquisa adotando uma posição analítica e autoral que discute explicitamente a presença do observador participante em particular. Retrata o pesquisador envolvido em relação às pessoas estudadas, ao invés de objetivá-las (WALLENDORF; BRUCKS, 1993, p. 342, tradução nossa).

Como relatamos na Introdução, eu pesquisadora, como empreendedora, me configuro como ator na rede estratégica criada pela iniciativa empreendedora Negócio de Mulher. Por estar inserida nesta rede desde 2013, primeiramente como consumidora e posteriormente como parceira, tal experiência, a meu ver, configura-me tanto como pesquisadora quanto como indivíduo introspectivo, o que me engaja em relação com o sujeito de pesquisa, permitindo realizar um estudo aprofundado mediante experiências subjetivas dos processos analisados.

Wallendorf e Brucks (1993) apontam, como questões importantes a serem consideradas no uso desse método, 1) período de tempo coberto pela introspecção, 2) especificidade dos dados colhidos e 3) registro de dados. O Quadro 3 abaixo ilustra o uso do método e, posteriormente, descrevemos as questões de acordo com as autoras consultadas e apontamos como pretendemos lidar com cada uma delas.

Quadro 3 – Descrição dos passos adotados para a observação participante

PERÍODO DE TEMPO ESPECIFICIDADES DOS

DADOS COLHIDOS

REGISTRO DE DADOS

Retrospecção Dados particulares Print screens

Descrição contemporânea Dados generalizados Documentos de texto; Anotações em campo;

Tabelas de dados quantificáveis

FONTE: elaborado pela autora (2018).

Quanto ao período de tempo coberto pela introspecção, as autoras colocam três possibilidades: 1) Retrospecção, relatórios feitos no presente de um evento do passado, que vão desde eventos há muito tempo até eventos ocorridos no passado recente; 2) Descrição

contemporânea, o relatório introspectivo sobre experiências à medida que elas ocorrem. O

introspectivo pode manter um diário para registrar experiências ou pode verbalizar na presença de um pesquisador ao experimentar o fenômeno de interesse; e 3) Projeção para um futuro

hipotético, que pede ao sujeito que considere sobre respostas que possam ocorrer sob certas

circunstâncias. No presente estudo, nos preocupamos com Retrospecção e Descrição

contemporânea. Wallendorf e Brucks (1993) colocam como empecilho ao uso da memória de

longo prazo na retrospecção de fenômenos 1) a natureza reconstrutiva da memória de longo prazo e 2) a amostragem distorcida da memória do passado. Tais problemas não se fazem presentes no estudo pelo fato de os dados coletados serem fenômenos que ocorrem online, não dependendo da memória subjetiva do indivíduo introspectivo para sua reconstrução.

No que diz respeito à especificidade de dados colhidos, Wallendorf e Brucks (1993) apontam dois níveis de especificidade, indo de dados particulares a dados generalizados. Os dados particulares são fornecidos quando um introspectivo informa sobre experiências específicas associadas a um contexto único no local e no tempo. Já dados generalizados são fornecidos quando um introspectivo relata suas crenças sobre suas experiências ou respostas típicas ou comuns. Sobre níveis de especificidade, as autoras colocam que, apesar de pesquisadores estarem ultimamente interessados em articular princípios gerais que produzem regularidades no comportamento humano, tais princípios são mais bem fundados quando baseados em estados ou eventos específicos. Esses dados permitem ao pesquisador a análise sistemática de padrões de regularidades ao longo de várias instâncias, ao invés de contar com conclusões informais de informantes, estas baseadas em sua memória subjetiva do passado.

No presente estudo, nos valemos da introspecção para suprir a debilidade de tempo de incursão em campo – especificamos apenas 3 (três) meses para coleta de dados. Pelo fato de a pesquisadora estar inserida em campo, a rede estratégica formada pela iniciativa empreendedora

Negócio de Mulher, desde 2014, contamos com a experiência subjetiva do sujeito instrospectivo

– a pesquisadora. No que compete à memória, partimos de dados registrados pelas plataformas, não estando a pesquisa sujeita à memória subjetiva do informante, mas à memória objetiva dos dados registrados na plataforma.

Quanto ao registro de dados observados, contamos com o recurso print screen, captura do conteúdo visível em tela viabilizada por computadores e dispositivos móveis. Contamos também com documentos de texto, anotações realizadas em campo, instâncias de reflexão da pesquisadora em momentos de inserção em campo. Além disso, nos valemos de tabelas de dados quantificáveis que sustentem as observações subjetivas48.

48 Como documentação detalhada de introspecção, esse material ficará disponível online em pasta compartilhada no Google Drive, acessível pelo link http://bit.ly/DadosDissertacaoBSN.

No documento UNIVERSIDADE FEEVALE PRÓ-REITORIA DE PÓS-GRADUAÇÃO MESTRADO PROFISSIONAL EM INDÚSTRIA CRIATIVA BIBIANA SILVEIRA-NUNES (páginas 73-76)