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Observando a realidade: idosos ganham destaque

Partindo do princípio que os acadêmicos, não fosse o estado de isolamento social e a suspensão das aulas presenciais, estariam indo à UBS para a realização das atividades práticas da disciplina, a transposição desta etapa de observação da realidade se desenvolveu como tal, em ambiente virtual. Assim, com a participação da médica da equipe de saúde, foi possível desenhar o cenário da causado pela pandemia, em relação ao processo de trabalho.

A UBS continua funcionando das 7h às 16h com a equipe técnica (equipe de enfermagem, médica, atendentes de saúde) e o administrativo funcionando até as 18h. Nenhum grupo de educação em saúde está funcionando devido a questão de não ter aglomerações no momento e da sala disponibilizada para esses trabalhos não estar adequada para receber pessoas nessa pandemia. As visitas domiciliares continuam acontecendo conforme a necessidade e com restrições, pois a equipe está menor, com apenas duas a três pessoas, e todos utilizam EPIs. Há EPIs para todos os funcionários, mas procuram trocar as máscaras por turnos, uma no período da manhã e outro no da tarde. Caso haja atendimento a pacientes com sintomas respiratórios há uma troca imediata de máscara e avental.

No início da pandemia não havia máscaras N95 em grande quantidade e, portanto, elas não eram estão sendo utilizadas a todo momento, apenas quando havia uma maior exposição. Quanto às consultas, a agenda programada foi cancelada ficando apenas a demanda espontânea, porta aberta. Sendo assim, o paciente chega à Unidade e é acolhido primeiramente pela enfermeira ou pelas técnicas, caso chegue com uma queixa aguda que necessita passar pela consulta médica há um encaminhamento para a médica. Caso o paciente venha devido a doenças crônicas ou para trazer exames laboratoriais e de imagem que foram pedidos antes da pandemia, a técnica registra todos no sistema, e se houver alguma alteração é encaminhado para a médica. O Pré-natal, no início da pandemia, houve suspensão, mas retornaram, mesmo com o isolamento e as gestantes continuam sendo programadas pela UBS e, horários marcados e separados, normalmente uma ou duas gestantes para cada período. Consultas de puericultura diminuíram e os recém-nascidos estão sendo atendidos em domicílio, quando não há possibilidade é marcado em horários tranquilos em que não há nenhum caso de sintomático respiratório.

A maioria dos municípios decretou o afastamento preventivo de trabalhadores em grupos de risco. Isso acabou acarretando uma maior diminuição no número de membros

a Unidade caso tenha motivos que possam esperar. Houve uma divulgação maior no número de telefone da Unidade, para as pessoas renovarem suas receitas médicas, e também para tirar dúvidas. São realizadas muitas orientações de queixas urinárias, de dores, como se fosse uma tele consulta por telefone (sem vídeo).

Uma grande preocupação são os idosos, maioria no território e com baixo acesso as informações instantâneas, sendo que boa parte da população idosa sob responsabilidade da equipe é acometida por alguma doença e agravo crônico não transmissíveis, as quais se manifestam de forma mais árdua na idade avançada. Ou seja, apresentam doenças incuráveis que necessitam de um acompanhamento rigoroso, a fim de manter a qualidade de vida.

De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), o envelhecimento é um processo biopsicossocial intrínseco ao desenvolvimento humano, que reflete diretamente as condições econômicas, políticas, sanitárias, sociais, históricas e culturais de uma dada população (BRASIL, 2006). Adotou-se, nesse estudo, o critério proposto pelo Estatuto do Idoso, conforme a Lei Federal 10.741/03, que considera idosa a pessoa com idade de 60 anos ou mais.

Em decorrência da rápida transição demográfica pela qual atravessa o Brasil, fruto de importantes transformações sociais, históricas e culturais, o número de pessoas nessa faixa etária cresceu expressivamente, atingindo aproximadamente 11,7% do total da população brasileira em 2015 (MIRANDA; MENDES; DA SILVA, 2016). Estima-se que em 2050 o número de idosos no mundo ultrapasse a marca de dois bilhões, e com a maioria habitando países em desenvolvimento (MIRANDA; MENDES; DA SILVA, 2016). No campo da saúde pública, estudos apontam para a correlação entre a transição demográfica e a epidemiológica, com forte tendência ao incremento das condições crônicas de saúde, especialmente das doenças crônicas e da modificação do perfil de morbimortalidade (DUARTE; BARRETO, 2012).

Apesar do notável envelhecimento populacional, ainda há pouca visibilidade e valorização dessa parcela da população. Verifica-se constantemente visão estigmatizada, preconceituosa e estereotipada, reforçando a discriminação etária e contribuindo para o envolvimento de crenças e ações que ridicularizam os idosos. Nesse contexto, em contrapartida, a pandemia COVID-19 aflorou o destaque aos idosos, principalmente devido ao potencial de risco dessa população, por apresentar alterações decorrentes da senilidade.

Problematizando: preocupações com os idosos

Com a pandemia, os idosos tornaram-se um grupo de interesse proeminente. Tendo em vista o amplo e complexo campo da saúde da pessoa idosa, múltiplas formas de cuidado e fazer em saúde emergem nesse contexto, com demandas relevantes e singulares. As ações de proteção, em geral, incluíram a estratificação etária, que apesar de benéfica como organização do serviço, contribuiu para reforçar preconceitos antigos da

sociedade, traduzidos em imagens, vídeos, frases, músicas, com exposição dos idosos e supervalorização de características negativas. Um exemplo nítido é o “carro do ‘cata véio’”, que além de promover o ageísmo, torna evidente as dificuldade de os idosos cumprirem o distanciamento social.

Outra preocupação é a configuração dos arranjos familiares brasileiros. Há idosos que residem sozinhos ou com o cônjuge e outros com muitos parentes, envolvendo um ambiente familiar com várias gerações reunidas. Os agentes que compõem o conjunto familiar podem incluir filhos, netos, bisnetos, cônjuges e outros membros. Na coabitação, os idosos podem assumir papel de cuidador de outros, incluindo crianças, adolescentes, adultos ou idosos dependentes. Isso requer habilidades para atender às particularidades de diferentes gerações, assim como sobrecarga. Há maior nível de sobrecarga em cuidadores idosos que moram com crianças, principalmente devido à obrigatoriedade do cuidado diário (LOUREIRO et al, 2013) e isso revela-se preocupante, quando entre os cuidados orientados durante a pandemia COVID-19, está o distanciamento social.

Entre as recomendações para segurança dos idosos durante a pandemia, há também o distanciamento e isolamento social. O distanciamento social denota a necessidade da reconfiguração dos comportamentos, com prioridade para ações de higiene constantes, como lavagem das mãos, uso de álcool em gel, distanciamento de outras pessoas, etiqueta respiratória, cuidados ambientais e emocionais (DE ALMEIDA HAMMERSCHMIDT; SANTANA, 2020). Neste sentido, a família e a sociedade podem se tornar um sistema de apoio ao idoso. O afeto e o cuidado são mecanismos valiosos. É tempo de relacionamentos permeados por respeito, verdade, informação e pactuação conjunta de atividades diárias e escolhas.

É necessário definir e defender que o distanciamento social não pode caracterizar abandono, portanto, cada família em conjunto com o idoso precisa refletir e discutir as estratégias importantes para seu contexto. Neste momento de pandemia COVID-19, o afastamento físico reflete ato de amor, carinho e consideração, além de ser estratégia de proteção.

Além disso, existe uma problemática importante que envolve os idosos institucionalizados. Estudos preliminares apontam que, nestas realidades, a infecção pelo SARS-CoV-2 é alta, com sugestão de taxa de mortalidade para maiores de 80 anos superior a 15% (MACHADO et al., 2020). Este contexto é considerado de alto risco para infecção, pois envolve predominantemente idosos, diversos com comorbidades crônicas e dificuldades para atividades da vida diária; contato frequente de cuidadores e visitantes; e convivência em aglomerados.

Outra preocupação frequente é com o estímulo do idoso para utilizar ferramentas tecnológicas. Essas podem possibilitar aproximação social, porém, historicamente, a população idosa no Brasil apresenta dificuldade de acesso aos recursos tecnológicos e baixa escolaridade. Infelizmente, este fato interfere na aquisição de conhecimentos sobre a pandemia, assim como limita as possibilidades de comunicação, principalmente durante o distanciamento, dificultando a orientação dos comportamentos individuais e coletivos.

Teorizando: idosos e a Atenção Primária à Saúde

A Atenção Primária à Saúde (APS) é o primeiro nível de atenção em saúde e representa um conjunto de ações, no âmbito individual e coletivo, que abrange a promoção e a proteção da saúde, a prevenção de agravos, o diagnóstico e o tratamento, com o objetivo de desenvolver uma atenção integral que impacte positivamente na situação de saúde das coletividades. Trata-se da principal porta de entrada do Sistema Único de Saúde (SUS) e em relação à pessoa idosa e à sua rede de suporte social, incluindo familiares e cuidadores (quando existente) espera-se oferecer uma atenção humanizada com orientação, acompanhamento e apoio domiciliar, com respeito às culturas locais, as diversidades do envelhecer e a diminuição das barreiras arquitetônicas de forma a facilitar o seu acesso (BRASIL, 2006).

Na população de idosos, evidencia-se que muitos são acometidos por doenças e agravos crônicos não transmissíveis (DANT) - estados permanentes ou de longa permanência - que requerem acompanhamento constante, pois, em razão da sua natureza, não têm cura. Essas condições crônicas tendem a se manifestar de forma expressiva na idade mais avançada e, frequentemente, estão associadas (comorbidades). Podem gerar um processo incapacitante, afetando a funcionalidade das pessoas idosas, ou seja, dificultando ou impedindo o desempenho de suas atividades cotidianas de forma independente. Ainda que não sejam fatais, essas condições geralmente tendem a comprometer de forma significativa a qualidade de vida dos idosos (BRASIL, 2006).

Frente a esse contexto, os profissionais de saúde devem compreender as especificidades dessa população e a própria legislação brasileira vigente, visto que o processo de diagnóstico consiste em um atendimento multidimensional e influenciado por diversos fatores. No idoso, a Atenção Primária assume um papel extremamente relevante na estratificação de risco e, consequentemente, no reconhecimento daquele que necessite de atenção diferenciada.

Os profissionais, portanto, devem estar atentos para o atendimento dessa classe como: estabelecer uma relação respeitosa, considerando a sabedoria advinda de toda uma experiência de vida, além do maior senso de dignidade e prudência; chamar a pessoa por seu nome e manter contato visual, preferencialmente, de frente e em local iluminado, considerando um possível declínio visual ou auditivo; partir do pressuposto de que o

idoso é sim capaz de compreender as perguntas e orientações que lhe são feitas, nunca se dirigindo primeiramente a seu acompanhante. Além de utilizar uma linguagem clara, evitando a adoção de termos técnicos que podem não ser compreendidos. Em resumo, essas ações devem ser realizadas a fim de que contribuam para um atendimento efetivo e adequado para a classe.