Ocupação Carolina Maria de Jesus

No documento UNIVERSIDADE FEDERAL DE MINAS GERAIS ESCOLA DE ARQUITETURA. Carina Castro Pedro (páginas 54-59)

Pouco mais de dois anos após a experiência da ocupação Zezeu Ribeiro e Norma Lúcia e sua consolidação, a ocupação Carolina Maria de Jesus foi realizada na madrugada do dia 6 de setembro de 2017, uma quarta-feira anterior ao feriado da Independência do Brasil, organizada pelo MLB na Avenida Afonso Pena, 2.300, uma das mais importantes vias de Belo Horizonte que liga diversos pontos da regional centro-sul. O imóvel de 15 andares, localizado no bairro Funcionários, dentro dos limites da Avenida do Contorno, é de propriedade da Fundação Sistel de Seguridade Social, um fundo de previdência privado para ex-funcionários da companhia Telebrás, e que esteve subutilizado desde 2010 quando a Secretaria de Estado de Saúde deixou de operar no local, passando a ser locada apenas a loja do térreo para o funcionamento de uma casa lotérica.

A mobilização envolveu 212 famílias provenientes dos despejos de outras ocupações, da moradia de aluguel ou que se encontravam em situação de rua. O movimento, que considera os edifícios ociosos como “latifúndios verticais”, seguiu um modelo semelhante ao que já utilizava nas ocupações horizontais, onde há a regulação da entrada e saída de

pessoas com portaria e caderno de registro, cozinha coletiva e creche para as crianças, cronograma das atividades do dia e escalas de trabalho na segurança e na limpeza do imóvel.

A ocupação recebe o nome de Carolina Maria de Jesus, uma das mais importantes escritoras brasileiras, mulher negra nascida no interior de Minas Gerais, que já esteve em situação de rua e foi moradora da favela do Canindé em São Paulo com seus três filhos, trabalhando como catadora de recicláveis. A obra de Carolina, reconhecida principalmente pelo seu relato testemunhal da pobreza extrema em forma de diário e denúncia, compartilha vivências próximas às das famílias da ocupação, passando pela segregação e exclusão das classes populares no espaço urbano, como na passagem sobre o título do livro Quarto de Despejo: “[...] é que em 1948 nós, os pobres, que residíamos nas habitações coletivas, fomos despejados e ficamos residindo debaixo das pontes. É por isso que eu denomino que a favela é o quarto de despejo de uma cidade. Nós, os pobres, somos os trastes velhos” (JESUS, 2014, p. 195).

Dessa maneira, a apropriação do espaço da ocupação, especialmente para a realização de atividades que envolviam a cultura popular, foi um fator relevante, à medida também que o edifício ocupado possuía grandes espaços livres que possibilitavam sediar eventos de diversos tipos como grupos de leitura, festas, shows, teatro, exibição de filmes e também de debates sobre a questão urbana, da moradia e de pautas do movimento negro, feminista e LGBT. Além disso, o prédio era localizado próximo à Escola de Arquitetura da UFMG, o que permitiu ampla interação com os alunos e professores da escola que realizavam atividades no espaço e também atuavam como assessoria técnica. Isso contribuiu para a acomodação dos ocupantes, o desenvolvimento das relações sociais e a formação política dos mesmos, mas também, especialmente, para o apoio da opinião pública a respeito da ocupação.

Figura 9 - Peças gráficas de divulgação dos eventos na Ocupação Carolina Maria de Jesus

Fonte: Redes sociais da Ocupação Carolina Maria de Jesus (MLB)30, 2017 e 2018.

Figura 10 - Fachada da Ocupação Carolina Maria de Jesus na avenida Afonso Pena

Fonte: Maick Hannder/Bhaz, 2017.

Porém, o movimento popular sofreu uma ação judicial sendo determinada pela 14ª Vara Cível da Justiça do Estado de Minas Gerais a reintegração de posse favorável à empresa proprietária logo nos primeiros dias da ocupação do imóvel. Com isso, uma das estratégias utilizadas pelo MLB para evitar o despejo dos moradores foi a vigília cultural, com atividades

30 Fanpage da ocupação Carolina Maria de Jesus, disponível em:

<https://www.facebook.com/ocupacaocarolinamariadejesus>. Acesso em: 10 abr. 2019.

acontecendo dia e noite atraindo diversos públicos na região e frustrando a possibilidade de uma ação violenta por parte da polícia militar.

No entanto, diante da inevitabilidade do despejo, as lideranças do movimento buscaram canais de diálogo com a Prefeitura Municipal e o Governo do Estado, o que resultou em um acordo com a COHAB-MG para transferência das famílias para outro imóvel no centro da cidade através de um convênio que permitiria a locação desse por dois anos até a construção da moradia definitiva em terrenos cedidos na regional do Barreiro.

Convênio celebrado com o Movimento de Luta nos Bairros Vilas e Favelas - MLB, datado de 26.06.2018. Objeto: concessão de subsídio temporário para provimento de moradia às famílias beneficiárias em situação habitacional de vulnerabilidade temporária ou de emergência da denominada “Ocupação Carolina Maria de Jesus”, em Belo Horizonte/MG [...] (COHAB MINAS, 2018, p. 51).

A mudança de endereço da ocupação em julho de 2018 foi uma conquista importante para os moradores da Carolina Maria de Jesus, uma vez que as famílias não foram desalojadas e há a perspectiva de atender a demanda com uma nova produção habitacional. Porém, esse atendimento é parcial, uma vez que a ocupação reivindicava o acesso ao centro e ao que ele oferece. Sendo assim, o prédio alugado através do acordo com o governo estadual passa a ser também objeto de disputa, uma vez que se trata de um imóvel abandonado por mais de 20 anos e que as lideranças alegam que o proprietário possui uma dívida milionária de IPTU.

O edifício que foi o antigo Internacional Plaza Palace Hotel31, localizado na Rua Rio de Janeiro 109, consta no Plano de Reabilitação do Hipercentro de Belo Horizonte, assim como imóvel da ocupação Zezeu Ribeiro e Norma Lúcia, como um dos prédios ociosos recomendados para serem adaptados para uso residencial. O prédio de 14 andares32 e 96 quartos, no entanto se encontrava em péssimo estado de conservação, possuindo lixo e entulho no seu interior, além de problemas na parte elétrica e hidráulica, fazendo com que

31 O imóvel é anunciado para venda com a seguinte descrição: “o Hotel possui 96 apartamentos, divididos em 14 andares e conta com 40 vagas de garagem. Sala de reuniões, sala de ginástica/musculação, sauna, estacionamento, restaurante, piscina. Quartos de solteiro com 28 m², quartos de casal com 35 m², quartos triplos com 40 m² e quartos quádruplos com 48 m². O Hotel fez muito sucesso no passado, atualmente está desativado a procura de novos investidores”. Informações retiradas do site: Imovelweb

<https://www.imovelweb.com.br/propriedades/hotel-internacional-plaza-palace-bh-2921614809.html>.

Acesso em: 10 mai. 2019.

32 A escadaria da ocupação, que faz o papel de rua, onde se dão os encontros e se conectam as habitações, é retratada no vídeo documental “As Escadas da Carolina - O olhar das crianças das ocupações urbanas”, realizado outubro de 2018 em uma oficina de fotografia e vídeo ministrada pela autora com as crianças moradoras da ocupação. Mais informações em: <https://www.youtube.com/watch?v=1CW1VQDmuHE>.

Acesso em: 10 out. 2018.

os ocupantes tivessem diversas dificuldades com o abastecimento de água e luz e com a precariedade das moradias, sendo necessário realizar reformas e pressionar o proprietário para garantir condições mínimas de habitabilidade no edifício. Outra questão é a dificuldade de realização de atividades de cultura e lazer no local, que não possui espaços amplos como o prédio anterior, tomando parte da vida social das famílias que antes estavam inseridas também em um contexto de maior acesso à informação e a à cultura.

Figura 11 - Anúncio imobiliário do Hotel Internacional Plaza Palace

Fonte: Imovelweb, 2019.

Figura 12 - Ocupação Carolina Maria de Jesus na rua Rio de Janeiro

Fonte: Registros da autora, 2018 e 2019.

Atualmente o MLB, movimento organizador da Carolina Maria de Jesus, busca reivindicar o acesso permanente ao centro, tanto através da pauta de luta pelo direito à cidade, como também pelas melhorias realizadas no imóvel pelos moradores com assessoria técnica de estudantes e professores de arquitetura, resultando em diversas reformas buscando a reabilitação para a moradia digna.

No documento UNIVERSIDADE FEDERAL DE MINAS GERAIS ESCOLA DE ARQUITETURA. Carina Castro Pedro (páginas 54-59)