3. PRINCÍPIOS REGENTES DO INSTITUTO
3.10. Oralidade
Para melhor compreensão do princípio, iniciaremos o capítulo com breve e sucinta análise histórica da oralidade na evolução do direito99.
O princípio teve berço no processo romano, circunstância em que o juiz formava sua livre convicção a partir da observação pessoal e imediata dos fatos e das provas que lhe eram submetidos, afastando-se de critérios formais e pré- estabelecidos. O juiz romano julgava de acordo com sua consciência, extraindo a conclusão dos elementos que lhe eram trazidos, não se prendendo a fórmulas, nem a convenções preordenadas. Neste contexto, o princípio da oralidade teve seu primado, possibilitando ao julgador melhor formar sua cognição daquilo que apreciava diretamente.
Neste período a oralidade estava intimamente associada à concentração dos atos, à imediatidade, à irrecorribilidade das decisões é à livre convicção do juiz. Depois de ouvidas as partes, o juiz determinava diligências para exame da coisa, ouvia testemunhas, procedia a inspeções pessoais, ponderava os elementos e os indícios e proferia a sentença. As provas deveriam ser colhidas pessoalmente pelo magistrado. Era defeso às partes interromper a continuidade dos atos praticados ao longo do procedimento apelando das decisões interlocutórias proferidas.
Na evolução histórica, sob acentuada influência germânica, formou-se o processo romano-canônico, que tinha princípios muito diversos daquele modelo que descrevemos no início. Neste período de profundas transformações, o procedimento passou a ser caracterizado por uma série de normas formais,
prevalecendo o sistema da prova legal em substituição à livre convicção do magistrado. A oralidade e todos os paradigmas a ela vinculados, como a imediatidade, a concentração e a identidade física do juiz, foram suplantados pela escrita e pela formalidade. Os fatos e as provas não eram mais dirigidos ao convencimento do magistrado, mas à parte contrária, a natureza pública do processo não encontrou mais espaço num ambiente em que a relação processual passou a ser entendida exclusivamente como um conflito de interesses privados.
Durante toda a Idade Média, atingindo a Idade Moderna, prevaleceu o apego às formalidades, sendo que a escrita predominou nas relações processuais.
O rompimento deste modelo deu seus primeiros passos com a renovação dos estudos científicos, a restauração e o fortalecimento da idéia de Estado (publicistas do século XVIII, como Montesquieu) e, juntamente com tais ideais, a vinculação do processo com o direito público. Neste contexto foi restabelecido o princípio da livre convicção do julgador.
Com o objetivo de consagrar os ideais de justiça, celeridade e eficácia do procedimento, foi resgatada, no período das reformas processuais empreendidas no século XIX, a oralidade que vigorava no direito romano no período dos formulários (entre 149 a.C. até o século II d.C.) e da cognitio extra ordinem (ano 294 a 534 d.C).
Importante notar que nesse movimento evolucionista do processo, a culminar na redescoberta da oralidade, o que se objetivava era possibilitar que a entrega da prestação jurisdicional ocorresse em conformidade com a pretensão, ou seja, a realização da boa e tempestiva justiça.
E para a efetivação de tais objetivos, nada mais adequado do que a aproximação entre o julgador e a prova, sendo a oralidade o instrumento hábil a tal fim.
A história, sobretudo o processo romano nos períodos em que predominou a oralidade, permite-nos extrair a conclusão de que o processo oral é o que melhor se adapta às demandas da vida cotidiana, eis que prestigia o contato direto e imediato do juiz com os elementos necessários ao seu convencimento.
A colheita da prova oral de forma pessoal pelo próprio juiz (imediatidade) que irá julgar a causa (identidade física) facilita a aferição da sinceridade da prova. Por conseguinte, assegura a excelência e a efetividade da prestação jurisdicional, que podem restar comprometidas no processo eminentemente escrito, em que a palavra falada e o contato imediato do julgador com a prova são substituídos pela formalidade das petições e retratação dos fatos por meio de documentos, tornando fria e distante a realidade ocorrida e que se pretendia resgatar durante o processo.
Consoante ressaltamos nos itens anteriores, os sinais emitidos pelo tom e firmeza da voz, a segurança na forma de apresentar e referir-se a certos fatos, os trejeitos das partes e das testemunhas nos depoimentos são transmitidos apenas por meio da oralidade, perdendo-se completamente ao serem reproduzidos pela forma escrita.100
Neste diapasão, Jeremias Bentham prelecionava:
“Não pode o juiz conhecer por suas próprias observações esses caracteres de verdade tão relevantes e tão naturais que se manifestam na fisionomia, no som da voz, na firmeza, na prontidão, nas emoções de medo, na simplicidade da inocência, no embaraço da má-fé; pode- se dizer que ele cerrou a si próprio o livro da natureza, e que ele se
100 Para o mestre italiano Chiovenda, a oralidade é um princípio “segundo o qual as deduções das partes devem
normalmente fazer-se a viva voz na audiência, isto é, no momento e lugar em que o juiz se assenta para ouvir as partes e dirigir a marcha da causa”, ob. cit., p. 93.
tornou cego e surdo em casos nos quais é necessário tudo ver e tudo ouvir”.101
Assim, ao defendermos a vantagem da oralidade, notadamente na instrução probatória, não estamos aqui fazendo mera apologia ao jogo de palavras e aos debates entre os contendores, nem à eliminação de toda e qualquer forma escrita de retratação dos atos. O que defendemos, na verdade, é a prevalência da oralidade enquanto princípio a assegurar a entrega da prestação jurisdicional eficaz, tempestiva e justa.
A importância do referido princípio, desta feita, além da correlação que guarda com os princípios da imediatidade, da identidade física do juiz, da concentração dos atos processuais em audiência e da irrecorribilidade das decisões interlocutórias102, justifica-se por prestigiar de forma mais célebre, eficiente e transparente o resgate da realidade dos fatos que se imiscui nas formalidades do processo tradicionalmente escrito.
Em que pesem os benefícios rendidos pela oralidade ao resultado do processo, todavia, podemos asseverar que não foi totalmente encampada pelo direito processual civil brasileiro contemporâneo.
Embora tenha sido, por resultado da grande influência dos ensinamentos de Chiovenda, acolhida de forma ampla pelo legislador no Código de Processo Civil de 1939, seus ideais restaram mitigados no Código de Processo Civil de 1973 (conforme exposição de motivos do Código103),
101 Apud CHIOVENDA, ob. cit., p. 999.
102 SANTOS, Moacyr Amaral, Primeiras linhas de direito processual civil, 2º vol., pp. 85-86.
103 Exposição de Motivos do CPC/73: Capítulo IV, “Do Plano de Reforma”, item II, 13: “O projeto manteve, quanto ao
processo oral, o sistema vigente, mitigando-lhe o rigor, a fim de atender a peculiaridades da extensão territorial do país. O ideal seria atingir a oralidade em toda a sua pureza. Os elementos que a caracterizam são: a) a identidade da pessoa física do juiz, de modo que dirija o processo desde o início até o julgamento; b) a concentração, isto é, que em uma ou em poucas audiências próximas se realize a produção das provas; c) a irrecorribilidade das decisões interlocutórias, evitando cisão do processo ou a sua interrupção contínua, mediante recursos, que devolvem ao Tribunal o julgamento da decisão impugnada. (...) Atendendo a estas ponderações, julgamos de bom aviso limitar o sistema de processo oral, não só no que
notadamente no que diz respeito à concentração dos atos e das provas em audiência e à irrecorribilidade das decisões interlocutórias.
A propósito, o modelo processual do Código de 1973 resultou num misto, em que a forma escrita passou a ter presença notável durante as várias fases do procedimento.
Mesmo não tendo atingido sua plenitude na norma processual civil positivada, a oralidade provocou, ao longo dos anos que sucederam à entrada em vigor do CPC de 1973, reação entre os juristas, atentos para sua importância em relação à efetividade e à celeridade da entrega da tutela jurisdicional. A doutrina, por conseguinte, retomou os debates acerca da relevância do procedimento oral, o que culminou em algumas reformas legislativas, sendo seu maior exemplo a Lei nº 9.099/95, a disciplinar o procedimento dos Juizados Especiais Cíveis e Criminais.104
Em contraposição ao que ocorreu com o modelo original de processo adotado pelo CPC de 1973, o direito processual do trabalho trouxe logo em sua gênese o princípio da oralidade105, tendo a Consolidação das Leis do Trabalho lhe reservado tratamento especial em matéria de instrução probatória.
Sempre na vanguarda do direito, o processo do trabalho, também no que refere à oralidade, acabou por influenciar grande parte das reformas havidas no processo comum, notadamente a Lei dos Juizados Especiais.
Em análise do princípio da oralidade no processo civil, penal e trabalhista, concluíram Cintra, Grinover e Dinamarco que o último foi o único a homenagear em sua inteireza o princípio em comento:
toca ao princípio da identidade da pessoa física do juiz, como também quanto à irrecorribilidade das decisões interlocutórias (...)”.
104 Art. 2º da lei 9099/95 – O processo orientar-se-á pelos critérios da oralidade, simplicidade, informalidade, economia processual e celeridade, buscando, sempre que possível, a conciliação ou a transação.
105 Embora não tenha vingado, o Anteprojeto de Código de Processo do Trabalho elaborado e apresentado por Mozart Victor Russomano, em seu artigo 4º, prestigiava a simplicidade do processo do trabalho, elegendo a oralidade como um dos mais importantes princípios a reger o procedimento.
“Já as coisas se passam diversamente no processo trabalhista, que viu romper com os esquemas clássicos, estruturados para acudir a um processo de índole individualista e elitista. Correspondendo às exigências específicas dos trabalhadores, o processo do trabalho operou importantes modificações em direção a um processo simples, acessível, rápido e econômico, permeado de verdadeira oralidade, de publicização e democratização.” 106
A oralidade do processo trabalhista (CLT, artigos 848, 852 e 852-H), com destaque na fase instrutória e na colheita das provas em audiência (princípio da concentração), tem por fim garantir a plena realização da justiça social, à medida que facilita a perquirição da verdade em decorrência da aproximação do juiz em relação aos fatos e aos elementos necessários à sua cognição.
A predominância da oralidade no procedimento trabalhista justifica-se, além da concentração dos atos em audiência, da imediatidade do juiz na colheita da prova e da irrecorribilidade das decisões interlocutórias, também em razão da íntima relação que mantém com outros princípios que a informam. São eles:
1) princípio do impulso oficial, que na instrução revela-se na livre investigação das provas e nos amplos poderes instrutórios do juiz;
2) princípio inquisitório, com traços marcantes no processo trabalhista, notadamente em matéria de produção de provas107.
Neste sentido, merecem destaque as lições de Chiovenda:
“Um processo, portanto, pode diferenciar-se dos outros:
106 CINTRA, GRINOVER e DINAMARCO, ob. cit., p. 326.
107 A iniciativa do juiz em matéria de instrução não prejudica e nem exclui a necessidade das partes na produção das provas necessárias à demonstração dos fatos que servem de fundamento a suas alegações.
a) Conforme aplica ou deixa de aplicar, ou aplica em diferente medida, os princípios (entre si estritamente conexos): da oralidade (...).
(...)
d) Conforme sejam as atividades de simples impulso processual, a saber, destinadas unicamente a fazer progredir a lide, confiadas às partes (princípio do impulso processual da parte), ou ao juiz (princípio do impulso processual de ofício), predominantemente, o segundo, nos processos orais (adiante, nº 206).
e) Conforme se atribua a coleta do material de cognição (fatos e provas) exclusivamente às partes (princípio de disposição ou da iniciativa ou da responsabilidade das partes), ou se admita em maior ou menor grau a ingerência do juiz nessa operação (princípio inquisitório ou da iniciativa do juiz); ingerência que só se concebe praticamente no processo oral (adiante, nº 261).
Por estas razões, concluímos que a oralidade exerce importância singular na instrução processual, conferindo-lhe utilidade no resgate da verdade dos fatos e, por conseguinte, assegurando efetividade e credibilidade à decisão.