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Capítulo 1. O problema teórico

2.2 Ordem do universo, felicidade e liberdade

O predomínio da análise negativa das três idéias regulativas faz que na KrV o status noumênico das mesmas seja o suficientemente opaco como para que não mantenham nenhuma relação com seus equivalentes práticos introduzidos na KpV. Isto, que bem poderia se identificar como um limite do pensar com bases transcendentais sólidas, será identificado por Kant como um problema a ser resolvido.

Assim, na segunda Crítica, o sujeito noumênico adquire outro significado. É o verdadeiro portador da autonomia do sujeito e com ela de sua liberdade. Pode optar por mudar o mundo —que se apresenta ante ele como fenômeno— e gerar fins para o que neste acontece. A moral requer como garantia de sua existência da possibilidade de que o sujeito esteja por fora do mundo da natureza (fenômeno) e não se submeta às leis mecânicas do mesmo, senão que aja de acordo a sua vontade, a uma intenção, um fim, um propósito. Do mesmo modo, as idéias de alma, de liberdade que age (tendo efeitos) na natureza como um todo e de Deus passam a se integrar ao sistema da moral como postulados da Razão Prática. Enquanto postulados não podem ser provados, mas têm que ser supostos por aqueles que concebam um mundo onde a ação moral e a felicidade sejam possíveis. Temos como resultado desta segunda crítica um sujeito noumenal — que comparte, digamos, o mesmo “corpo” com o sujeito fenomênico— e um aceso prático —embora limitado— às três principais formas do todo (idéias regulativas e postulados da razão prática).

Assim, o problema da liberdade se enlaça aqui com o problema da felicidade. A antinomia da razão prática é apresentada como uma tensão entre virtude e felicidade, dever e inclinação ou satisfação do prazer: “[O]u o apetite de felicidade tem que ser a causa motriz de máximas da virtude, ou a máxima da virtude tem que ser a causa eficiente da felicidade.” (KpV, A 204)

Com referência ao fato de que as inclinações ou nossa tendência à felicidade seja a causa da virtude, pode-se remeter a toda a “Analítica da Razão Prática” como argumentação

Thus is added to the negative concept of freedom (spontaneous independence of foreign laws) the positive concept of freedom (autonomous self-legislation). There is a loss only of lawless freedom: «Where the moral law speaks there is no longer, objectively, a free choice [Wahl] as regards what is to be done. (KU § 5, V, 210)»”

contrária. No entanto, que a virtude seja causa da felicidade será também para Kant impossível,

porque toda a conexão prática das causas e dos efeitos no mundo, como resultado da determinação da vontade, não se guia segundo disposições morais da vontade mas segundo o conhecimento das leis naturais e segundo a faculdade física de usá-las para seus propósitos, consequentemente não pode ser esperada nenhuma conexão necessária, e suficiente ao sumo bem, da felicidade como a virtude no mundo através da mais estrita observância de leis morais.

A antinomia fica formulada destarte:

Ora visto que a promoção do sumo bem, que contém esta conexão em seus conceitos, é um objeto aprioristicamente necessário de nossa vontade e interconecta-se inseparavelmente com a lei moral, a impossibilidade do primeiro caso [sumo bem] tem que provar também a falsidade do segundo [lei moral]. (KpV, A 205)

Temos então o problema das leis naturais como problema fundamental não só no nível teórico, porém também no nível prático. Os postulados da razão prática irão preencher este espaço, do ponto de vista formal, naquilo que a razão tem direito a esperar, embora não possa determiná-lo pela sua mera vontade. O agir virtuoso não produz felicidade mais que de forma contingente, e só pensando num autor inteligente pode-se esperar que seja necessariamente assim. O estado de ânimo que se identifica com a felicidade não é determinado pelo agir moral.

É algo muito sublime na natureza humana [o] ser determinado imediatamente a ações por uma lei racional pura e até a ilusão de considerar o subjetivo dessa determinabilidade intelectual da vontade como algo estético e como efeito de um particular sentimento orgânico (pois um sentimento intelectual seria uma contradição) (KpV, A 210).

Mesmo assim, Kant não aceita uma total desvinculação do plano sentimental ou material do agir do plano formal. A consciência da lei gera este prazer que é o respeito. De forma que se pode pensar que o conhecimento da mesma afeta à subjetividade sob a forma de um sentimento sobre o qual nada mais podemos conhecer, exceto que não é explicável a partir da psicologia empírica. Desta forma, a moral não é conhecida de outro modo que não a partir

de um “insight moral” de dimensões objetivas e subjetivas. 44 Isto não quita relevância à

determinação fundamental inteligível, porém permite compreender melhor a proposta kantiana no que diz respeito a sua eficácia nos seres de carne e osso.

Por sua parte, as idéias de razão de imortalidade da alma e da existência de um criador passam a ocupar o lugar de postulados da razão pratica. Assim sendo, são consideradas como corolários necessários dos legítimos interesses da razão prática quando valora tanto a dimensão do agir ético como da felicidade (como satisfação das inclinações),

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unidas sob uma idéia de justiça para o justo. Não são, então, meras motivações, são

conseqüências necessárias, de umatendência natural da razão a pensar o mundo moralmente.

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Isto não pode implicar uma extensão teórica do conhecimento, porém prática, o que ficará garantido pelo fato de:

ser dada a priori uma intenção [Absicht], isto é, um fim com objeto (da vontade) que, independentemente de todas as proposições fundamentais teológicas [teleológicas (Grillo), teóricas (Hartenstein)], é necessariamente representado como prático por um imperativo (categórico) que determina imediatamente à vontade; e esse é aqui o sumo bem. Mas este não é possível sem pressupor três conceitos teóricos (para os quais, por serem simples conceitos puros da razão, não se deixa encontrar nenhuma intuição correspondente, por conseguinte, pelo caminho teórico, nenhuma realidade objetiva), a saber, liberdade, imortalidade e Deus. (KpV, A 241-2)

Estes conceitos teoricamente problemáticos adquirem necessidade a partir da necessidade pratica do sumo bem como conjunção de moralidade e felicidade, conjunção que não é cognoscível por nenhum tipo insight moral, mas pensável a partir das categorias no seu uso especulativo, dotadas de necessidade, ao entender de Kant, por um objetivo prático. Este objetivo prático ou fim é o sumo bem, que adota a forma de causa final com respeito ao agir moral e indica as crenças necessárias a partir das quais podemos esperar a realização da suma justiça em cada ato moral (embora este seja um fim em si mesmo): a imortalidade da alma e a existência de Deus.

A razão, por seu lado, não entra em conflito consigo mesma ao deixar entrar pela porta prática o que outrora jogou pela janela teórica, pois a primazia da razão prática sobre a teórica sobre os objetos que são comuns a ambas encontra-se garantida, no entender de Kant, na medida em que a “vinculação não seja porventura contingente e arbitrária mas fundada a

priori sobre a própria razão, por conseguinte seja necessária.” (KpV, A 218-9)

Isto nos poderia fazer crer que a unidade da razão, e com ela o sistema crítico, fica explicada na segunda Crítica: a unidade do teórico e do prático estaria dada a partir da primazia da razão prática que agiria sob o mundo sensível gerando novas séries causais (as quais se reconheceriam como “fatos de razão” tanto do ponto de vista objetivo como do subjetivo) e regularia o uso não empírico dos conceitos do entendimento. O resto, a saber, o conhecimento do mundo natural, ficaria nas mãos do entendimento e suas regras. 46

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Cfr. KpV: Livro II Dialética da Razão Pura Prática. 46

Porém, as harmonias necessárias entre o conhecimento e o mundo, e a moral e a felicidade ainda preocupam a Kant como problemáticas à unidade da razão, deixando dificuldades sistemáticas que ainda precisariam ser tomadas em consideração. 47