2.3 Morando em outros lares: relações sócio-familiares
2.3.1 Orfandade, parentesco sangüíneo e compadrio
Entre as crianças e jovens que moravam nos domicílios da cidade de São Paulo e não eram filhos dos chefes estavam os enteados. A condição de enteado abarcava os filhos que viviam ao lado de suas mães e de seus padrastos, sendo identificado apenas um caso de uma enteada que morava com a madrasta após o falecimento do pai. Ainda que essa categoria se afastasse da prática da criação de filhos alheios que analisamos, a sua própria identificação nas listas nominativas indicava uma forma de diferenciação social que existia na sociedade no período. Presente, sobretudo, no século XVIII, a condição de enteado foi mais comum no ano de 1765 tornando-se menos representativa nas listas seguintes: em 1775 encontramos apenas um enteado, reaparecendo tal condição em 1782 com quatro casos e 1822 com uma classificação.
A pouca representatividade dos enteados nas listas nominativas podia ocorrer devido à existência de um processo semelhante ao que acontecia com os órfãos que viviam ao lado das mães viúvas e eram classificados apenas em suas condições de “filhos”. Nessas situações, o padrasto ocupava o papel de substituto do pai falecido e as crianças e jovens – juridicamente consideradas órfãs ou enteadas – se dispersavam na categoria de “filhos”. Foi assim no fogo chefiado pela viúva pobre Luciana Bicuda (50), parda, moradora no bairro de Pinheiros em 1783 e 1804, que vivia com duas filhas (35 e 25). Anos depois, em 1807, ela estava casada com o também pardo Manoel Conceição (73) que se tornou o chefe do domicilio. As moças foram identificadas apenas na condição de “filhas” ao lado de outros quatro “filhos” adultos que, provavelmente, eram oriundos do primeiro matrimônio de Manoel. Sem escravos e vivendo de fazer louça, esse casal pobre de São Paulo incorporou filhos de diferentes uniões em uma mesma unidade doméstica, onde todos foram declarados - e quiçá considerados - filhos perante o recenseador, sem qualquer distinção a priori. 140
Além da possibilidade de dispersão dos enteados entre os filhos, havia casos de uma clara distinção entre filhos de diferentes matrimônios. Esse foi o caso de Mathias Leme Silva, viúvo, bastardo, morador no bairro de Santana e pai de duas “filhas”, em 1775.
Dois anos depois, Mathias se casou e as moças foram identificadas como “filhas da primeira mulher” ao lado de uma “filha” recém-nascida. 141
Um outro exemplo da possibilidade de dispersão dos enteados e órfãos na condição de filhos pode ser visto em um requerimento enviado ao governador da Capitania, em 1820. Florentino de Souza, viúvo há, pelo menos, cinco anos, criou dois filhos e um enteado, a quem “(...) tem servido de Pai...”. Do ponto de vista de Florentino, não havia diferença entre o tratamento dado aos filhos legítimos e ao enteado, sendo todos “alimentados e tratados”. Em nenhum momento o termo órfão ou enteado foi empregado para referir-se ao menino gerado no primeiro matrimônio da esposa de Florentino. Do mesmo modo, ele não se intitulava “padrasto” do menino mas sim “pai” e não abria mão dele a favor de uma tia materna que requeria a entrega do menino. No entanto, não podemos esquecer que se tratava de um requerimento ao governador, e apresentar-se como um pai zeloso e cumpridor de suas obrigações, podia auxiliar um despacho favorável. O que, de fato, ocorreu. 142
O padrasto também podia ser considerado um “inimigo” do órfão ou enteado, de maneira semelhante às interpretações jurídicas. Por isso, nomear um indivíduo como padrasto podia ser um recurso simbólico a fim de retratar aqueles que não cumpriam os deveres de “pai substituto”. Embora longe da erudição jurídica, a prática popular reforçava essa imagem negativa do padrasto. Na São Paulo colonial, Maria Anunciação se esforçava para enaltecer a péssima conduta do marido de sua mãe afastando-o de qualquer papel de pai e nomeando-o como padrasto ao longo de um requerimento enviado ao governador. Segundo Maria, ela era obrigada pelo padrasto a se prostituir, além de tê-la forçado a cometer um aborto. Grávida pela segunda vez em 1816, Maria fugiu de casa, moveu uma ação cível para demonstrar que era filha adulterina da mãe e, portanto, isenta do pátrio poder do suposto “padrasto”. Temendo ser presa, ela não compareceu ao julgamento da ação, perdeu a causa e se mudou para a cidade de São Paulo, onde vivia ao lado de dois filhos. Em 1823, Maria pretendia visitar a mãe que morava em Itapeva e um outro filho que
141 APESP, Maços de População, Nossa Senhora do Ó, 1775, nº 58 e Santana, 1777, nº 80. O termo “bastardo” aparecia, freqüentemente, nas listas populacionais. No ano de 1765, por exemplo, o bairro do Pari era descrito como sendo “quase todo de gente bastarda”. Conforme salientou Alzira Campos, em Portugal, bastardo se referia ao filho ilegítimo enquanto em São Paulo também estava ligado ao mestiço de homens brancos e mulheres indígenas, o mameluco. Ver, “Os agregados no tempo dos capitães-generais”, op. cit., p. 194-5.
estava sendo criado em Iporanga, mas acreditava que o “padrasto” podia obrigá-la a ir viver em sua companhia e, por isso, solicitou ao governo a revogação da prisão. Pedido que foi concedido. Independente da paternidade legítima ou não, a imagem do padrasto construída por Maria Anunciação mostrava um comportamento distante daquele previsto na legislação para o pai e certamente, reprovável aos olhos das autoridades: afastando-se de suas obrigações ele permitia ou mesmo forçava a prostituição e a prática do aborto por sua provável enteada. 143
Percebemos, então, que a paternidade podia ser exercida pelos padrastos de diferentes formas moldadas por contornos jurídicos ou sociais e costumeiros relativos aos cuidados paternos com os filhos. Para as crianças de tenra idade, a criação e a sobrevivência eram as principais responsabilidades de um bom pai que, evidentemente, deviam ser seguidas pelos padrastos. Para os enteados maiores, a conduta paterna devia conduzí-los a um comportamento honrado debaixo de sua autoridade. Desse modo, variando desde o cumprimento dos deveres prescritos aos pais – alimentação, vestuário e encaminhamento social – até a omissão e corrupção da conduta deles, o comportamento dos padrastos tinha diversas faces moldadas no cotidiano das relações.
Nas questões relativas à herança e aos bens dos órfãos, as autoridades judiciárias de São Paulo parecem ter seguido as orientações da legislação portuguesa evitando entregar a administração dos bens aos padrastos. Ao longo da segunda metade do século XVIII e das duas primeiras décadas do XIX, identificamos 18 inventários de moradores na cidade de São Paulo que tinham filhos e viúvas sobreviventes. Dentre eles, apenas um padrasto solicitou e recebeu a tutela de seus enteados passando a administrar todos os bens de seu antecessor, que totalizavam mais de 5 contos de réis acumulados em negociações mercantis. Nesse caso, todos os enteados eram maiores de 14 anos e permaneceram junto à mãe durante os doze anos de viuvez dela, ainda que fossem nomeados tutores para administrar a herança. Ao longo desse período, ela solicitou a troca da tutoria três vezes alegando pouco empenho na cobrança de dívidas. Nesse e em outros processos envolvendo órfãos com um dos pais vivos e pertencentes à elite, percebemos que a tutoria se aproximava muito mais da administração dos bens do que de qualquer responsabilidade pela criação e educação das crianças, uma vez que elas permaneceram com o viúvo ou a
viúva. E aqui temos os pontos centrais da legislação portuguesa relativa à orfandade: criação, educação e administração das heranças dos órfãos abastados. 144
Estas preocupações dos juristas eram nitidamente demarcadas pela origem social dos órfãos. Para os pupilos pertencentes às camadas populares, as prescrições eram bem sucintas. Lembrando que a condição jurídica de orfandade era delimitada pelo falecimento paterno, as crianças menores de três anos deviam ser amamentadas por suas mães e criadas gratuitamente até que completassem sete anos. A partir de então, as mães podiam enviá-las para o trabalho, sendo que os meninos deviam seguir o ofício do pai e as meninas eram empregadas em tarefas domésticas podendo receber o pagamento em forma de dote de casamento. Para garantir que os órfãos pobres fossem educados – educação entendida como o encaminhamento social para o trabalho – devia haver tutores designados pelos juízes de órfãos. 145
Os juristas portugueses também se preocupavam com a criação e educação dos órfãos pertencentes às camadas mais abastadas da população. Novamente sob a ótica da orfandade gerada pelo falecimento paterno, havia regulamentações para que as viúvas pudessem utilizar os bens dos filhos menores de três anos para contratar amas-de-leite, uma vez que elas não eram socialmente encarregadas de amamentá-los. Após essa idade, as mães podiam requerer uma quantia anual destinada à alimentação, vestuário e calçado que era retirada das legítimas dos órfãos. Até aos 12 anos, “aqueles que forem para isso” deviam ser enviados ao ensino das primeiras letras. A partir de então, o órfão era encaminhado na sociedade para tomar um estado “segundo a qualidade de sua pessoa e fazenda”, ou seja, os estudos, o casamento ou a vida religiosa. Obrigações que a viúva Maria Lima de Siqueira alegava ter cumprido em relação a seus onze filhos. Segundo suas
144
AESP, JO/SP, CO 558, caixa 81, Inventário de Lourenço dos Reis Galvão (1785), fls 3, 73 v, 147, 221, 227. Sobre a tutela entregue aos padrastos no século XVII paulista, ver: Deborah A. Leanza, “Entre a norma e o desejo: os filhos ilegítimos na sucessão patrimonial (Vilas de São Paulo e Santana de Parnaíba – séc. XVII)”, dissertação de mestrado, Unicamp, 2000, pp. 103-5.
145 Ordenações Filipinas, op. cit., Livro 1, tit. 88, § 10-11, 13; 16-18 e Livro 4, tit. 102, nota 1. A obrigatoriedade legislativa de tutelas para órfãos pobres parece ter sido totalmente negligenciada na América Portuguesa. Para o Rio de Janeiro, Renato Venâncio não identificou nenhum processo envolvendo expostos da Santa Casa. Ver: “Infância sem destino”, op. cit., p. 51. Para São Paulo de fins do século XVIII e início do XIX, também não encontramos tutelas especificamente voltadas à infância desvalida. Tal processo começou a ser implantado a partir de meados do século XIX, em um contexto da Lei do Ventre Livre, da Abolição e do movimento imigratório de trabalhadores livres. Ver, entre outros, Gislaine C. Azevedo, “De Sebastianas e Geovannis O universo do menor nos processos de Juízes de Órfãos da cidade de São Paulo, (1871-1917)”, dissertação de mestrado, PUC, São Paulo, 1995. Ver também, Anna G. Garcia Alaniz, Ingênuos e libertos:
palavras: “(...) depois que meu marido faleceu, criei e tratei a todos os meus filhos com muita honra e grandeza assistindo-lhes com todo o necessário tanto de sustento corporal,... pajens e cavalos e não podiam vir redutos de suas legítimas suprir tantas despesas...”. Com tais argumentações, a viúva justificava a ausência da entrega da parte da herança paterna aos filhos insistindo que se eles quisessem essa parte, teriam que pagar as despesas da criação e educação feitas por ela que deviam ser “arbitradas pelas autoridades.” Como nenhum dos herdeiros solicitou a legítima paterna, entendemos que eles concordavam que a mãe havia cumprido as suas obrigações. 146
Além das atribuições em torno da criação e educação dos órfãos mais abastados, uma segunda preocupação dos juristas era com a administração das heranças. Sendo considerados inaptos para reger qualquer bem até que fossem emancipados, os órfãos deviam ter tutores ou curadores escolhidos entre os parentes masculinos da criança, com preferência pela linha paterna. Apesar dessas recomendações, as mães ou avós podiam desempenhar a função desde que elas permanecessem no estado de viúva e vivessem “honestamente”. Os tutores podiam ser nomeados em testamento ou indicados pelos juizes de órfãos, sendo proibidos os menores de 25 anos, os escravos, os religiosos, os loucos, os infames, os doentes incuráveis, os pobres e os padrastos, enfatizando que esses últimos podiam solicitar licença junto às autoridades. Segundo os comentários de um jurista português, as designações de tutores e curadores eram usadas indiscriminadamente, embora a origem romana restringisse o primeiro às questões de pessoa e o segundo aos bens. Nos inventários pertencentes ao juizado de órfãos de São Paulo, o documento assinado pelos responsáveis chamava-se Termo de Tutela e Curadoria indicando que as duas funções eram exercidas simultaneamente, embora o termo “tutor” fosse o único a ser usado nas demais etapas do processo. Na tutoria assinada nos anos de 1770 pelo capitão José Gonçalvez Coelho, por exemplo, podemos observar tais procedimentos. Suas funções consistiam em “(...) bem e fielmente, com boa e sã consciência fosse e servisse de tutor... procurando e requerendo e defendendo e zelando de suas pessoas para que não pereçam por falta de patrocínio.” 147
146 Ordenações Filipinas, op. cit., Livro 1, tit. 88, § 10,13; 15; AESP, JO/SP, CO 545, Testamento e Inventário de D. Maria Lima de Siqueira (1769/1770), fl. 4.
147 AESP: JO/SP, CO 543, caixa 66, Inventário de Jerônimo Pinheiro Dias (1765), fl. 3 v. A diferença entre a curadoria e a tutoria explicaria a utilização das duas palavras no tit. 102, § 1-3, nota 1 do livro 4 das
Para a Capitania de São Paulo do século XVII e das primeiras décadas do XVIII, Maria Nizza da Silva identificou 128 testamentos com indicação de tutorias destacando que 75 testadores masculinos nomeavam as esposas como tutoras de seus filhos, sendo que em nove casos havia a divisão das tutorias com parentes masculinos. Apesar dessa nomeação, muitas viúvas não permaneciam como tutoras ao longo do processo de inventário, uma vez que se casavam. 148
Nas décadas seguintes, entre meados do século XVIII e início do XIX, identificamos uma diferença significativa na prática de nomeação de tutores, ao menos entre os testadores que moravam na cidade de São Paulo. Entre as centenas de testamentos feitos por eles e registrados em livros próprios pertencentes ao segundo cartório de notas da Capital, encontramos apenas dois casos de indicação de tutores. Significativamente, eram dois testadores que nomeavam as esposas como tutoras e administradoras dos bens de seus filhos. Tal ausência na indicação de tutorias foi ainda mais significativa na documentação do juizado de órfãos. Dentre os 13 testamentos anexados aos inventários de moradores daquela região e com herdeiros menores de 25 anos, nenhum nomeou tutor. 149
Nos casos em que o tutor não era indicado em testamento, a legislação encarregava ao juiz de órfãos de nomeá-lo, escolhendo-o entre os parentes paternos mais chegados e abonados. Dentre 45 inventários de moradores da cidade de São Paulo, com e sem testamento, pudemos identificar as relações entre tutores e órfãos em 25 documentos. Excetuando-se três casos de tutelas assinadas pelos pais e uma pelo padrasto, todos os outros envolveram parentes das crianças e jovens, ainda que por afinidade: 10 tios, 3 irmãos, 2 parentes, 2 primos, 2 avôs, 1 cunhado e 1 padrinho. Embora o juiz tivesse a prerrogativa de nomear os tutores, encontramos indícios de que tais nomeações apenas ratificavam escolhas feitas pelos próprios cônjuges sobreviventes, pelos inventariantes e mesmo pelos órfãos em comum acordo com os tutores. Tais indícios podem ser percebidos
Ordenações Filipinas. Apesar dos termos serem usados indiscriminadamente na documentação do juizado de
órfãos, houve um caso de nomeação de tutor e curador em diferentes pessoas. Ver: AESP, JO/SP, CO 548, caixa 71, Inventário de Theodozia Maria de Jesus (1771), fls 2 e 4.
148Maria B. N. Silva, História da Família..., op.cit., p. 39.
149 Para as duas nomeações de tutorias, ver: AESP, STC, CO 456, Livro de Registros de Testamentos nº 5, fl. 46 v. Testamento de João Ribeiro Machado (1787) e 48 v., Testamento de Manoel Gonçalves da Silva (1787)
no ano de 1772, quando o tenente Ignácio Xavier de Almeida assinava o termo de tutela “(...) a pedido da viúva e dos órfãos”. 150
Especificamente entre os tutores nomeados em casos de falecimento paterno com viúva sobrevivente, identificamos dez casos em que eram mencionadas as relações de parentesco - materno ou paterno – entre eles. Dentre esses casos, seis tutores eram parentes da viúva, sendo dois seus próprios pais e quatro irmãos. Mesmo quando não havia menção aos laços de parentesco entre a viúva e os tutores, podemos perceber indícios de que eles eram escolhidos graças a relacionamentos sociais pré-existentes, evidenciando possíveis estratégias para evitar a intromissão de estranhos na administração dos bens. Em 1791, por exemplo, o tenente Bernardo Luis do Rego era nomeado tutor de quatro órfãos filhos de pai falecido. Dez anos depois, em sua prestação de contas da tutoria, Bernardo revelava: “(...) aceitou a tutela por fazer favor à viúva.... essa como cabeça do casal ficou entregue de todos os bens...”. Nesses e em outros casos de viuvez feminina, percebemos que a nomeação da tutoria não significava nem a transferência dos bens para as mãos dos tutores e nem o envio das crianças para domicílios externos, situação que complementa os dados de nossa pesquisa nas listas nominativas de população, onde constatamos a presença maciça de filhos vivendo ao lado de suas mães viúvas ou casadas em segundas núpcias. 151
Além destas estratégias de nomeação de tutores masculinos oriundos de seus relacionamentos de parentesco, as viúvas aproveitavam algumas brechas legislativas que permitiam a conquista da tutoria de seus filhos, por meio de solicitações junto aos Provedores das Comarcas ou ao próprio Rei através do Tribunal do Desembargo do Paço, nos casos em que as legítimas ultrapassavam o valor de seiscentos mil réis e os súditos eram moradores em Portugal, conforme percebemos pelos inúmeros pedidos de tutela solicitados ao Desembargo do Paço de Lisboa. Nos casos de moradores na América Portuguesa, os requerimentos eram direcionados ao Conselho Ultramarino, como percebemos pela documentação enviada por uma parcela das viúvas moradoras na cidade de São Paulo. Nesses documentos, elas se apresentavam como mães dedicadas aos filhos, criando-os e sustentando-os. Assim se mostrava D. Anna Vicência Rodrigues de Almeida
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Ordenações Filipinas, op.cit., Livro 1, tit. 102, § 5. AESP, JO/ Inventário de João Siqueira Barboza (1775).
151 AESP, JO/SP, CO 551, Testamento e Inventário de João de Siqueira Barboza (1772/1774), fl. 5 v. e CO 564, Inventário de Joaquim da Silva Ferrão (1791), fls 3, 40 e seguintes. Para os outros inventários e testamentos, ver a citação de fontes ao final da tese.
que requeria a tutela de seus três filhos, por volta de 1794: “(...) a suplicante é uma pessoa das principais famílias que vive com toda a modestia e gravidade e tem a capacidade necessária para educar seus filhos e administrar os bens que lhe pertencem...”. Requerimento que foi deferido. 152
Nos citados casos em que as heranças dos órfãos eram mais avultadas, os processos de tutoria eram feitos na forma de “instrumentos de justificação”. Arrolando testemunhas, as viúvas deviam provar que possuíam os requisitos necessários para administrar os bens de seus filhos: ser viúva, honesta e capaz. Para tanto, elas utilizavam os relacionamentos pessoais, de parentesco e compadrio para conseguir bons testemunhos, que na cidade de São Paulo consistia em homens, portugueses em sua maioria, negociantes ou proprietários de engenho on interior da Capitania. Em última instância, as viúvas apelavam para a supremacia da maternidade em detrimento de critérios patriarcais na escolha do tutor. Segundo as palavras da paulistana D. Catarina Maria de Oliveira, viúva de um capitão e mãe de cinco filhos em 1783: “(...) acha-se não só no estado de viúva, e ser nobre, honesta e recolhida; mas também ter capacidade e regência de administrar os seus bens... órfãos os quais necessitam de tutores que não só lhe regiam os seus bens mas eduquem suas pessoas e porque em qualquer estranho senão acha aquele zelo, e cuidado que pede semelhante emprego, o que naturalmente recai na pessoa da suplicante pelo amor maternal...”. 153
Na verdade, as viúvas podiam administrar os bens do casal antes do falecimento