Origem e evolução da expressão “ação afirmativa”

No documento IGUALDADE ÉTNICO-RACIAL E POLÍTICAS DE COTAS E COMPENSAÇÃO. Jurisprudência do STF e Bibliografia Temática (páginas 56-60)

A expressão “ação afirmativa” (...) remonta à Ordem Executiva 10.925, expedida em 1961 pelo presidente norte‑americano John F. Kennedy para se garantir igualdade na contratação de trabalhadores pelas empreiteiras que firmassem contratos com o Governo Federal, que passaram a ter de assegurar que os candidatos aos postos de trabalho por eles oferecidos fossem empregados sem preconceito de raça, credo,

cor ou origem nacional. A partir da Ordem Executiva 11.246 as políticas de combate à discriminação do Governo dos Estados Unidos da América assumiram caráter ativo, passando não apenas a vedar práticas discriminatórias, mas também a estabelecer “medidas efetivas em favor de membros de minorias étnicas e raciais, de várias for‑ mas (recrutamento, contratação, transferência, níveis salariais e benefícios indiretos, promoção, treinamento etc.), com o escopo de corrigir as iniquidades decorrentes de discriminações presentes ou passadas”. Em 1978, a legitimidade de política de ação afirmativa foi submetida ao exame da Suprema Corte norte‑americana no caso Regents of the University of California vs. Bakke, oriundo da irresignação de Allan Bakke contra programa de admissão especial da escola de medicina da Universidade da Califórnia, que reservava dezesseis de suas cem vagas a estudantes pertencentes a minorias e estudantes desfavorecidos educacional e economicamente. Embora a Suprema Corte norte‑americana tenha decidido pela ilegitimidade da reserva de vagas como forma de execução da política de ação afirmativa, observou‑se, então, que a finalidade de se superar a substancial e crônica falta de representatividade de minorias na profissão médica era razão suficiente para justificar o uso do critério raça como um daqueles que poderiam ser considerados nas admissões à instituição de ensino. A ação afirmativa no direito norte‑americano não demorou para deixar de representar mera garantia formal de tratamento igualitário no acesso ao emprego e tornar‑se atuação efetiva do Estado e de instituições privadas para favorecer minorias historicamente discriminadas no acesso à educação e ao emprego. A mudança na acepção dessa expressão, talvez não por acaso, reflete alteração no conteúdo jurídi‑ co do princípio da igualdade nas democracias ocidentais contemporâneas. Desde a década de 1960 do século XX, esse princípio deixou de representar simples vedação de tratamento discriminatório, passando a demandar do Estado a concepção de ins‑ trumentos de promoção da igualdade jurídica efetiva. Como leciona Ingo Wolfgang Sarlet, “a compreensão material da igualdade (...) caracteriza a evolução do princípio no âmbito do constitucionalismo moderno, para um dever de compensação das desigualdades sociais, econômicas e culturais, portanto, para o que se convenciona chamar de igualdade social ou de fato, embora também tais termos nem sempre sejam compreendidos da mesma forma”. No plano infraconstitucional, desde 1969 há previsão expressa de atuação concreta do Estado brasileiro para assegurar o de‑ senvolvimento ou a proteção de minorias raciais, com a finalidade de garantir‑lhes, em condição de igualdade, o pleno exercício dos direitos humanos e das liberdades

fundamentais. É o que se dispõe no art. II, item 2, da Convenção Internacional sobre a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação Racial (Decreto 65.810/1969): (...) Determinação semelhante também pode ser extraída da Constituição de 1988, que tem no princípio da igualdade material um de seus princípios fundamentais. Desde seu preâmbulo, cuja força de vetor interpretativo do texto constitucional foi reco‑ nhecida por este Supremo Tribunal (ADI 2.649, de minha relatoria, Tribunal Pleno,

DJE de 17‑10‑2008), a Constituição da República demonstra a finalidade do Estado

Democrático brasileiro de “assegurar o exercício dos direitos sociais e individuais, a liberdade, a segurança, o bem‑estar, o desenvolvimento, a igualdade e a justiça como valores supremos de uma sociedade fraterna, pluralista e sem preconceitos (...)”. Nessa mesma linha, no art. 3º da Constituição se elegem como objetivos fundamentais da República Federativa do Brasil a construção de uma sociedade livre, justa e solidária, a erradicação da pobreza e da marginalização e a redução das desigualdades sociais e regionais e a promoção do bem de todos, sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de discriminação. Como sustentei em trabalho doutrinário sobre o tema, todos os verbos dos incisos do art. 3º da Constituição da República determinam ao Estado a implementação de comportamentos ativos orienta‑ dos à consecução dos objetivos neles arrolados. Assim, “se a igualdade jurídica fosse apenas a vedação de tratamentos discriminatórios, o princípio seria absolutamente insuficiente para possibilitar a realização dos objetivos fundamentais da República constitucionalmente definidos”. (...) No art. 5º da Constituição da República, além de se prescrever, em seu caput, que “todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza”, garante‑se aos brasileiros e estrangeiros residentes no país o direito à igualdade, determina‑se a punição do tratamento discriminatório que atente contra direitos e liberdades fundamentais e se caracteriza a prática do racis‑ mo como crime inafiançável e imprescritível: (...) Na própria Constituição, ademais, determina‑se a implementação de ação afirmativa na contratação de portadores de necessidades especiais, atribuindo‑se à lei reservar percentual de cargos e empregos públicos a essas pessoas e definir critérios especiais de admissão para elas, como forma de “compensar (...) os desníveis e as dificuldades que afetam os indivíduos que compõem esse grupo vulnerável” (RMS 32.732 AgR, relator o ministro Celso de Mello, Segunda Turma, DJE de 1º‑8‑2014).

[ADC 41, rel. min. Roberto Barroso, voto da min. Cármen Lúcia, j. 8‑6‑2017, P, DJE de 17‑8‑2017.]

Legislação

Constituição da República Federativa do Brasil/1988

Art. 1º, II, III e IV – Art. 3º, I, III e IV – Art. 4º, VIII – Art. 5º, caput, XLI, XLII, § 1º e § 2º – Art. 6º, caput – Art. 37, I, II e VIII

Convenção Internacional sobre a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação Racial/1965 (promulgada pelo Decreto 65.810/1969)

Art. I – Art. II, item 2

Pacto de São José da Costa Rica/1969 (promulgado pelo Decreto 678/1992)

Art. 29

Declaração de Durban/2001

Políticas orientadas à adoção de medidas e planos de ação: n. 99

Lei 12.228/2010 (Estatuto da Igualdade Racial)

Art. 1º, parágrafo único, I

Lei 12.990/2014

Injúria

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