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CAPÍTULO 3 – FUNDAMENTOS DA RESPONSABILIDADE SOCIAL DA EMPRESA

3.1 Origens da Responsabilidade Social da Empresa

Para o trato acerca da responsabilidade social, necessário se faz relembrar o surgimento dos direitos fundamentais que se deu no terceiro milênio a.C. e que a sua evolução, passando pelo Código de Hamurabi, pela participação dos cidadãos na política na Grécia Antiga e, principalmente, pelo Direito Romano, sendo que todos estes momentos influenciaram sobremaneira o fortalecimento dos direitos fundamentais. Com o passar dos tempos, novos direitos visando a proteção do indivíduo foram surgindo e, em especial, com a Revolução Industrial, evocou-se a necessidade de se tutelar os direitos sociais dos indivíduos, especialmente no que diz respeito ao trabalhador (incluindo-se a mulher e as crianças).

Os direitos sociais que foram surgindo ao longo do tempo (iniciados efetivamente com a Revolução Industrial e com a positivação em algumas Constituições, como a Mexicana e a de Weimar, sem prejuízo da menção ao surgimento da Organização Internacional do Trabalho) visavam precipuamente a proteção do trabalho digno, com a contraprestação devida, financeira ou protetiva à incolumidade física do trabalhador339. Visivelmente organizações internacionais colaboraram para a propagação desta necessidade de criação de direitos sociais340, notadamente contribuindo para a normatização de algumas normas protetivas dos direitos fundamentais e sociais dos trabalhadores.

338 MELO NETO, Francisco P. Responsabilidade Social e Cidadania Empresarial: a administração do terceiro setor. Rio de Janeiro: Qualitymark, 1999, p. 83-84.

339 A matéria foi tratada neste presente trabalho no Capítulo 1, item 1.1.

340 O assunto será abordado no item 3.3.

Lopes341 sintetiza o nascimento das primeiras normas protetivas dos trabalhadores erigido pelas constantes lutas sociais do pós-Revolução Industrial:

A legislação operária responde, prima facie, a uma solução defensiva do Estado burguês para, através de um quadro normativo protector [sic] dos trabalhadores, prover à integração do conflito social em termos compatíveis com a viabilidade do sistema estabelecido, assegurando deste modo, a dominação das relações de produção capitalistas. Não é, por isso, nenhuma casualidade que as primeiras leis operárias versem precisamente sobre aqueles aspectos da relação laboral em que se haviam manifestado os resultados mais visíveis da exploração dos trabalhadores, abordando, assim, a limitação do trabalho das mulheres e menores, a redução dos tempos de trabalho, o estabelecimento de salários mínimos ou, finalmente, a preocupação pelas condições de segurança e higiene no trabalho e a prevenção dos riscos profissionais.

Com o surgimento dos direitos sociais se deu o aparecimento do solidarismo, sentido em que Comte342 aponta que o espírito positivo é diretamente social. Assim, a Revolução Francesa é que foi a mola propulsora para o surgimento do princípio da função social.

Duguit343 explica que Comte conceituou a função social como sendo o dever de agir, pois todo cidadão constitui um funcionário público com tarefas mais ou menos definidas que determinam as suas obrigações e pretensões; no mais, este princípio universal deve estender-se à propriedade, na qual o positivismo vê, acima de tudo, uma função social que tem por objetivo formar e a administrar os capitais, com os quais cada geração prepara as tarefas da geração seguinte.

Apesar de ter sido já tratado no capítulo I do presente trabalho, vale lembrar que a Constituição Mexicana de 1917344, em seu artigo 27, § 3º, abordou a ideia da função social da propriedade, seguida pela Constituição de Weimar.

E é assim que a função social da propriedade evolui para a função social dos meios de produção e da empresa. Carvalhosa345 informa que o economista alemão W. Rathenau entendeu que o interesse social se assemelha ao público em substituição ao papel do Estado,

341 PALOMEQUE LOPEZ, Manuel Carlos. Tradução Antônio Moreira. Direito do Trabalho e Ideologia.

Coimbra: Almedina, 2001, p. 30.

342 COMTE, Auguste. Discurso sobre o espírito positivo: título III. Tradução José Arthur Giannotti e Miguel Lemos. São Paulo: Abril Cultural, 1978, p. 77. (Coleção Os Pensadores)

343 DUGUIT, Léon. Fundamento do Direito. Tradução de Eduardo Salgueiro. Porto Alegre: Fabris, 2005, p.

240.

344 Daniel Morenoao referir-se à Assembleia Constituinte que foi convocada para elaboração da Constituição Mexicana assevera que “poucas vezes o pensamento jurídico foi devedor de forma tão determinante da realidade social e das idéias [sic] postas em jogo, como no caso da mencionada Assembléia [sic]. Foram assinaladas como causas fundamentais algumas de tipo econômico, sobretudo a dura exploração que sofriam os camponeses e as paupérrimas condições em que viviam os operários”. (MORENO, Daniel. Derecho Constitucional Mexicano.

Cidade do México: Porrúa, 1996, p. 227).

345 CARVALHOSA, Modesto. Comentários à Lei de Sociedades Anônimas. 4. ed. São Paulo: Saraiva, 2008, p. 505.

que passa, assim, a ser exercido pela empresa privada. O papel do economista e do empresário, então, muda no pós-guerra, de modo que as grandes empresas devem auxiliar na a recuperação econômica de seu País, não se restringindo somente aos interesses dos acionistas.

Para Marques346, a origem do princípio da função social remonta ao filósofo Aristóteles, que foi o primeiro a afirmar que aos bens se deveria dar uma destinação social.

Também não se pode deixar de lembrar a influência de São Tomás de Aquino, quando afirmou que o proprietário não poderia abstrair-se do dever de zelar pelo “bem comum”347.

A expressão “função social”, no entendimento de Tomasevicius Filho348 seria uma reestruturação das categorias jurídicas direito subjetivo e dever jurídico, podendo ser definida como

o exercício de um direito subjetivo, de tal modo que se atenda ao interesse público, não apenas no sentido de não impor restrições ao exercício desse direito, mas também no sentido de acarretar uma vantagem positiva e concreta para a sociedade. Dessa forma, entende-se a idéia [sic] de que a propriedade obriga ou que há um poder-dever de o indivíduo atender ao interesse público no exercício de seu direito subjetivo.

Comparato349 afirma que “a grande transformação ocorreu quando se passou a considerar legítima a organização estatal e a ordem jurídica em função de fins ou objetivos determinados, cuja realização se impõe à coletividade”, organização que se deu pela Constituição Federal, primariamente, e pelas leis orgânicas, secundariamente, não cabendo somente ao Estado tal observância, mas a todos, inclusive às pessoas de direito privado, como principais agentes da atividade econômica.

A noção de função social, no sentido empregado por Comparato350, significa o poder-dever do proprietário de vincular o objeto da propriedade a um destino determinado. O adjetivo social evidencia que o objetivo da função corresponde ao interesse coletivo. Trata-se, na realidade, de um poder-dever sancionável pela ordem jurídica, que se interliga aos bens de produção e que não são os que são destinados ao uso pessoal, denominados bens de consumo.

No entanto, sob o prisma de Friedman351, a responsabilidade social não pode ser ônus da empresa, pois o objetivo do empresário é a obtenção de lucro pela sociedade

346 MARQUES, Benedito Ferreira. Direito agrário brasileiro. 2. ed. Goiânia: AB Editora, 1998, p. 49.

347 Ibid., p. 49.

348 TOMASEVICIUS FILHO, Eduardo. A função social da empresa. Revista dos Tribunais, São Paulo, ano 92, v. 810, p. 33-50, abr. 2003, p. 37-38.

349 COMPARATO, Fábio Konder. Direito empresarial: estudos e pareceres. São Paulo: Saraiva, 1990, p. 6.

350 Ibid., p. 32.

351 FRIEDMAN, Milton. Capitalismo e Liberdade. Disponível em:

<http://www.libertarianismo.org/livros/celmf.pdf>. Acesso em: 16 abr. 2014.

empresária e, pensar o contrário, é ter uma “concepção fundamentalmente errada do caráter e da natureza de uma economia livre” e fundamenta para tanto, que:

Se homens de negócios têm outra responsabilidade social que não a de obter o máximo de lucro para seus acionistas, como poderão eles saber qual seria ela? Podem os indivíduos decidir o que constitui o interesse social? Podem eles decidir que carga impor a si próprios e a seus acionistas para servir ao interesse social? É tolerável que funções públicas, como imposição de impostos, despesas e controle, sejam exercidas pelas pessoas que estão no momento dirigindo empresas particulares, escolhidas para estes postos por grupos estritamente privados?

Apesar do entendimento esposado pelo autor, conforme entende Tomasevicius Filho352, “a função social da empresa constitui o poder-dever de o empresário e os administradores da empresa harmonizarem as atividades da empresa segundo o interesse da sociedade, mediante a obediência de determinados deveres, positivos e negativos”.

Magalhães353 conclui que, a partir dos conceitos acima estudados, pode-se pensar em um conceito de função social da empresa, sendo que tal função deve-se firmar no equilíbrio entre o direito de propriedade e a efetivação do fim social da atividade econômica, respeitando os preceitos legais e principiológicos, bem como proporcionando benefícios individuais e coletivos; apesar disso, não se pode perder de vista a função primordial da empresa que é visar o lucro, pois sem ele a sociedade pode ir à insolvência, de modo que função social não se confunde com assistência social. É inegável a submissão da empresa a esse princípio para adequá-la aos ditames sociais contemporâneos, no entanto, não é crível que a função social possa predominar sobre os direitos e interesses individuais, devendo o empresário fazer conciliar o interesse da empresa com os da coletividade.

Apesar da utilização do termo função social no sentido de bem maior à coletividade, não se confunde com o objeto social da empresa, que é o objetivo das atividades exercidas pela sociedade. De qualquer forma, função social ou responsabilidade social está positivada no ordenamento jurídico brasileiro, cujo trato será feito nos tópicos vindouros.

352 TOMASEVICIUS FILHO, Eduardo... Op. Cit., p. 40.

353 MAGALHÃES, Rodrigo Almeida. A autonomia privada e a função social da empresa. In: FIUZA, César; SÁ, Maria de Fátima Freire de; NAVES, Bruno Torquato de Oliveira (Coord.) Direito civil: atualidades II – da autonomia privada nas situações jurídicas patrimoniais e existenciais. Belo Horizonte: Del Rey, 2007, p. 343-344.

3.2 Perspectivas Atuais e Históricas da Amplitude do Conceito de