1 INTRODUÇÃO
2.1.1 Origens do termo, principais conceitos e aplicabilidades
Alexis de Tocqueville, escritor e historiador francês, em uma de suas viagens pela América no século XIX, ao admirar-se com o espírito
de cooperação e ajuda mútua que vigorava na sociedade norte- americana daquela época, sem saber, estava dando inicio à definição do termo “capital social”. E foi este vigor associacionista bastante
generalizado que levou o autor a dar origem à obra “A democracia na
América”, em 1830, um dos clássicos na literatura política (FRANCO, 2001). Porém, a primeira utilização conhecida do conceito foi feita por LJ Hanifan, supervisor estadual de escolas rurais no estado de West Virginia, nos EUA. Hanifan (1916) percebeu que o sucesso escolar se devia principalmente pelo envolvimento da comunidade, e como razão
disso, remeteu à ideia de “capital social”, para ele, significado de boa
vontade, camaradagem, relações sociais entre indivíduos e famílias. No entanto, quem primeiramente abordou o tema tal como o conhecemos
hoje foi a autora Jane Jacobs (1960), na obra “A vida e a morte nas
grandes cidades americanas”, investigando o motivo pelo qual algumas cidades norte-americanas não apresentavam uma vivacidade e dinamismo social tanto quanto outras. Ela chegou à conclusão de que esta vivacidade devia-se a um capital, um fator de desenvolvimento existente nas cidades, ao qual chamou de “capital social” (FRANCO, 2001).
Na área acadêmica, os primeiros estudiosos a tocar no tema foram Bourdieu (1980), Coleman (1988) e Putnam (1993), respectivamente. O primeiro acadêmico a definir o termo foi o sociólogo francês Pierre Bourdieu (1986, p. 249), o qual partiu da concepção de capital social como sendo "...a soma dos recursos reais ou virtuais que indivíduos ou grupos de indivíduos adquirem devido ao fato de possuírem redes duráveis de relacionamentos sociais mais ou menos institucionalizados de reconhecimento e conhecimento mútuos", estendendo sua noção de capital para além dos seus limites tradicionais, aplicando-a a dimensões não materiais e simbólicas.
James Coleman (1988), sociólogo norte-americano, foi quem trouxe para o debate acadêmico o tema, sendo considerado o autor mais relevante na área. Para ele, o capital social é definido pela sua função: “[...] uma variedade de entidades diferentes, com dois elementos em comum: consistem de algum aspecto das estruturas sociais e facilitam certas ações dos atores – sejam pessoas ou atores corporativos – no interior da estrutura” (p. 98). Afirma o autor que o capital social ajuda a manter a coesão social em função da observação às normas e leis, e de comportamentos como negociação em situação de conflito, prevalecendo à cooperação sobre a competição, o que é um fator de extrema importância numa sociedade ou numa comunidade.
Para Coleman (1988), capital social é uma característica das organizações sociais e está localizado no grupo ou em nível organizacional. E, assim, o capital social se dá por trocas provenientes das relações entre as pessoas que, por sua vez, facilitam a ação. Se o capital físico é totalmente tangível, sendo incorporado na forma material observável, e o capital humano é menos tangível, sendo incorporado nas habilidades e conhecimentos adquiridos por um indivíduo, o capital social, por sua vez, é ainda menos tangível, pois existe nas relações entre as pessoas. Para o autor, o capital social pode servir como um recurso para atores individuais ou coletivos, no entanto, o aborda como um recurso para atores individuais.
No entanto, o termo capital social só ganhou relevância após pesquisas desenvolvidas pelo cientista político, também norte-
americano, Robert Putnam (1993, p.177), segundo o qual “[...] diz
respeito a características da organização social, como confiança, normas e sistemas, que contribuam para aumentar a eficiência da sociedade, facilitando as ações coordenadas”. Argumenta o autor que o desempenho institucional independe do desenvolvimento econômico da região, mas sim da comunidade cívica. O estudo de Putnam (1993) se deu no contexto dos governos locais na Itália contemporânea, onde identificou através de uma ampla pesquisa empírica que o desempenho institucional estaria intimamente relacionado aos sistemas de participação cívica, se revelando uma forma essencial de capital social. Dessa forma, o capital social, quando presente em uma sociedade, fortalece a tomada de decisões e a execução de ações colaborativas que beneficiam toda comunidade.
Putnam (2000) aborda o capital social como um ativo importante individual e socialmente. As redes e os vínculos que nelas se dão entre pessoas têm um valor e são importantes para os indivíduos, os grupos e as comunidades. Desta forma, o autor considera o capital social como um bem público. E como o capital físico e o capital humano podem aumentar a produtividade individual ou coletiva, os contatos sociais também podem afetar a produtividade do indivíduo e de grupos de indivíduos (COLEMAN, 1988).
Apesar do KS não ser novidade teórica, vem assumindo cada vez mais uma nova dimensão na recuperação das consequências positivas da sociabilidade e das relações não monetárias presentes na sociedade, o que evidencia a importância do KS não apenas como
conceito teórico, mas também como um dos fatores geradores de desenvolvimento (PORTES, 1998).
Franco (2001) sugere que o conceito da palavra capital não se refere a um conceito econômico. Para o autor, capital social é um conceito político, já que estimula a articulação dos indivíduos, por meio de suas redes, em torno de seus objetivos comuns. Capital social, então, diz respeito à capacidade das pessoas se unirem, trabalhando em conjunto e se articulando em grupo para o bem comum. A articulação, a partir de grupos, pressupõe que haja um grau de confiança entre os membros de uma comunidade entre si.
Baquero (2006) reforça a ideia de que quando as pessoas tomam consciência da importância de trabalhar em conjunto, a ação coletiva é viável. Neste sentido, empoderar mediante redes de confiança fomenta o capital social entre as pessoas e pode traduzir-se na obtenção de bens tangíveis. Segundo o autor, não é um conceito meramente normativo, mas tem a utilidade prática para o desenvolvimento da qualidade de vida e da cidadania. Nesta linha é que alguns autores, tais como Nazzari (2003) acreditam que o capital social seria capaz de levar a uma maior prosperidade, bem estar e felicidade nas pessoas.
Porém, nem toda forma de capital social é positiva, e que este pode ser usado negativamente contra os que estão fora de uma determinada rede. Portanto, as interações de uma rede podem ser utilizadas para fins que não conduzam ao bem-estar de uma determinada comunidade (MARTELETO; SILVA, 2004). E, por isso, o tema vem sendo alvo de muitas críticas. Com isso, Nicola e Diesel (2003) argumentam que as propostas de desenvolvimento devem valorizar e investir em normas e redes que gerem consequências positivas, isto é, devem buscar a correlação positiva entre capital social e desenvolvimento, combatendo a negativa, seja a unidade, o indivíduo, o grupo comunitário ou a nação, aproximando a noção de capital social a de um recurso produtivo.
Em se tratando de economia, as trocas são vistas como maximizadoras do bem-estar e resultados sociais, como Stiglitz e Walsh (2003), através do reconhecimento de que ambas as partes ganham numa troca voluntária. Seja uma troca voluntária entre duas pessoas, entre uma pessoa e uma empresa ou entre residentes de dois países
diferentes, a troca pode aumentar o bem-estar das duas partes.
Assim, para Marteleto e Silva (2004) o capital social pressupõe a interação social entre, pelo menos, dois indivíduos. Com isso, a estrutura de redes por trás do conceito de capital social passa a ser
definida como um recurso da comunidade construído pelas suas redes de
relações. Para esses autores, “a construção de redes sociais e sua
consequente aquisição de capital social estão condicionadas por fatores culturais, políticos e sociais” (p.44). O que para esta pesquisa é primordial, no sentido de que entender sua constituição pode levar a sua utilização, como mais um recurso, neste caso, em favor de ações educacionais que sejam capazes de promover mudanças e melhorar as oportunidades sociais, a viabilidade econômica e as condições de vida da comunidade (BUARQUE, 2000).
Em 2003, pesquisadores do Banco Mundial, em estudos sobre pobreza e desenvolvimento, definiram seis dimensões para mensurar o capital social, sendo elas: grupos e redes, confiança e solidariedade, ação coletiva e cooperação, informação e comunicação, coesão e inclusão social e, poder e ação política (GROOTAERT et al., 2003). Explicando de forma mais detalhada:
grupos e redes: permite a percepção da diversidade das
associações de um determinado grupo e a participação dos indivíduos em redes informais e/ou organizações sociais; confiança e solidariedade: pressupõe a obtenção de
informações sobre a confiança que inspiram seus pares, prestadores de serviços essenciais e pessoas estranhas, e como essas percepções mudaram com o tempo;
ação coletiva e cooperação: pode-se obter dados sobre a
cooperação entre os membros da comunidade e a capacidade de desenvolvimento de ações coletivas;
informação e comunicação: é possível compreender o acesso à
informação sobre as condições de mercado e serviços públicos, e ainda, à infra-estrutura de comunicação;
coesão e inclusão social: permite identificar as diferenças que
podem desencadear conflitos, também os mecanismos utilizados para o gerenciamento dos mesmos, os grupos excluídos dos serviços públicos essenciais e as formas cotidianas de interação; e
poder e ação política: pode-se averiguar se o grupo detêm um
certo controle sobre instituições e processos que afetam diretamente seu bem-estar.
Para Marteleto e Silva (2004), variáveis como “confiança”,
operacionalizadas, “pois há um acordo entre os estudiosos do tema, segundo o qual não basta identificar o número de componentes das redes (ligações e nós), mas sim apreender a sua importância para a comunidade” (p.45).
2.1.2 Fontes de capital social
Adler e Kwon (2002) percebem que além do consenso básico que o capital social é derivado de relações sociais, há uma considerável discórdia e confusão sobre os aspectos específicos das relações sociais que criam capital social, ou seja, as fontes de capital social. As pesquisas sobre capital social podem ser divididas em duas vertentes: a primeira, que localiza a fonte de capital social na estrutura formal dos laços que compõem a rede social e a segunda que foca no conteúdo dos laços.
Adler e Kwon (2009) sintetizam as fontes de capital social a partir de Ostrom (1994), incorporando aspectos formais e de conteúdo, sendo elas: redes, normas e crenças compartilhadas. Em complemento, citam a confiança, com ressalvas, entretanto, devido à confusão existente na literatura sobre capital social, em que alguns autores a igualam ao capital social e outras a trazem como uma fonte, ou ainda, como uma forma. Acreditam os autores que a confiança é conceitualmente diferente de capital social, configurando-se, como fonte e ao mesmo tempo, efeito.
Da mesma forma, é importante se distinguir os recursos da capacidade de obtê-los em virtude de participação em diferentes contextos sociais (estruturas). Igualar o capital social com os recursos adquiridos através dele pode facilmente levar a proposições tautológicas (PORTES, 1998). Desta forma, Portes (1998) embasado em Coleman (1990), partindo-se de uma estrutura social possuidora de capital social, onde há doadores e receptores, nos mostra 03 (três) distinções importantes que se deve fazer ao tratar de forma sistemática o conceito: (a) os possuidores de capital social são aqueles que fazem as reivindicações, (b) as fontes de capital social são os que concordam com essas demandas, (c) os recursos em si. Estes três elementos são muitas vezes misturados nas discussões sobre o conceito, definindo, assim, os alicerces para a confusão nos usos e alcances do termo.
Um exemplo que Portes (1998) cita para fonte de capital social é que as pessoas podem pagar as suas dívidas em dia, fazer caridade, e obedecer as regras de trânsito, porque elas sentem a obrigação de se comportar desta maneira. As normas internalizadas que tornam possíveis
tais comportamentos são, então, apropriáveis por outros como um recurso. É o que Coleman (1988) chama de normas e sanções. Trata-se, para ele, de uma forma de capital social, juntamente com obrigações e expectativas, e canais de informação. Neste caso, todas as formas de capital social são tidas como recursos, as quais permitem que o indivíduo tenha acesso ao capital social.
Quando uma norma existe e é eficaz, constitui uma poderosa, embora às vezes frágil forma de capital social. Numa estrutura mais aberta, as violações de normas não são frequentemente detectadas e, por isso, não punidas. Assim, quando há pessoas não confiáveis, há um enfraquecimento do capital social (COLEMAN, 1988).
Seja qual for a fonte, indivíduos em estruturas sociais, com altos níveis de obrigações pendentes, possuem mais capital social sobre o qual se pode desenhar. A densidade das obrigações pendentes significa que a utilidade geral dos recursos tangíveis da estrutura social é amplificada por sua disponibilidade para os outros, quando necessário (COLEMAN, 1988).
Certos tipos de estrutura social, no entanto, são especialmente importantes para facilitar algumas formas de capital social. Com efeito, trazemos a noção de “fechamento” de redes sociais de Coleman (1988), a qual consiste numa propriedade das relações sociais que facilita as formas de capital social: “normas e sanções” e “obrigações e expectativas”. Normas surgem como tentativas de limitar os efeitos externos negativos ou encorajar os positivos. O “fechamento” mostra a existência de laços suficientes entre as pessoas, para que as normas sejam observadas por meio de sanções sociais (COLEMAN, 1988; SERAFIM; ANDION, 2010).
Numa estrutura social em que há fechamento, um conjunto de sanções eficazes é capaz de monitorar e direcionar o comportamento. Por exemplo, pais que têm filhos que estudam na mesma escola e mantêm uma frequência de contato, podem discutir as atividades das crianças e chegar a algum consenso sobre sanções e padrões (COLEMAN, 1988).
Com isso, identificamos diversos aspectos das relações sociais que são capazes de criar capital social, podendo-se diferenciá-lo, inclusive, de outros tipos de recursos pela dimensão específica da estrutura social subjacente a ele; capital social é o recurso disponível para os atores em função de sua localização no estrutura de suas relações sociais, argumento discutido por teóricos de análise de redes como Lin
(1981, 1999), Burt (1992, 1997, 2004) e Baker (1990). Há, neste sentido, para Adler e Kwon (2002), três facetas da estrutura social, cada uma delas enraizada em diferentes tipos de relações, são elas: relações de mercado, relações hierárquicas e relações sociais. Sendo este terceiro tipo de relação o que constitui a principal dimensão da estrutura social subjacente a capital social.
Por um lado, Granovetter (1985) trazendo a noção de “enraizamento”, adaptado de Polanyi (1957), sugere que as relações hierárquicas e de mercado são normalmente incorporadas no funcionamento das relações sociais, e na medida em que os três tipos de relações são essencialmente sociais, o seu distintivo conteúdo, assim, é secundário para a sua natureza social em comum. Quanto ao conteúdo das relações, pode-se citar: recursos, informações e afeição. Quanto à intensidade, os laços podem ser fortes ou fracos. Por outro lado, existe uma longa tradição de estudiosos argumentando que em sociedades modernas, econômicas e de relações hierárquicas, cujas relações foram progressivamente diferenciadas e desincorporadas, e, nessa medida, elas desenvolvem dinâmicas distintas.
Há, entretanto, uma espécie de capital social, o capital reticular que está intimamente ligado ao conceito de “bridging social capital”, onde sugere a construção de conexões entre grupos heterônomos por meio dos laços fracos, opondo-se à noção de “bonding social capital” que se relaciona com a ideia de laços fortes, em relações familiares e de amizade, habitualmente (BARON; FIELD; SCHÜLLER, 2000). Outra espécie de capital social é o “linking social capital”, conceito atribuído
pelo Banco Mundial (2003) como referente às ligações verticais entre os pobres e pessoas em postos de decisão em organizações formais. Adler e
Kwon (2002) salientam que o tipo de capital social “bridging” teria o
foco nas relações externas, enquanto os laços construídos no lado de dentro, através das coletividades teria relação com o conceito de
“bonding social capital”. Cada tipologia possui diferentes
características e, assim, propósitos diversos para os quais se mostram mais vantajosas.
Granovetter (1974) demonstrou, através de um amplo estudo empírico, que as redes sociais aumentam os índices de empregabilidade, e que os laços fracos (vínculos frágeis) são a peça fundamental devido ao acesso as informações que são trocadas através destes vínculos (bridging social capital), as quais não poderiam ser acessadas através dos vínculos fortes (família e amigos próximos), em que as informações veiculadas já são de conhecimento de todos da rede. Com isso, o autor
concluiu que aqueles que possuem mais vínculos frágeis (vínculos de amizade) que vínculos fortes (vínculos de família) obtêm informações mais relevantes e eficientes que os demais em relação ao mercado de trabalho.
Cabe destacar aqui os estudos de Burt (1992, 2004), nos quais o autor demonstrou que uma estrutura particular, denominada “buraco estrutural”, daria uma nova significação empírica ao conceito de capital social. Estrutura que está intimamente relacionada ao conceito de vínculos frágeis. Desta forma, admite-se que o sujeito que ocupa lugar central numa estrutura na qual apresenta “buracos estruturais” ou “vínculos frágeis”, possui uma vantagem perante os outros, podendo utilizá-la em seu próprio benefício, de uma organização (ou grupo) ou de todos os atores pertencentes a esta estrutura. Um fato importante é o acesso às novas informações, no qual este ator central possui privilégios devido a sua posição estrutural, podendo ser usada de forma oportunista ou solidária (moral). Esta vantagem, para Granovetter (1985), caso não esteja relacionada à rede social, a princípio não constitui um capital social. O que viria de encontro aos conceitos de capital social ligados à coesão social, laços fortes e solidariedade.
Baker (1990, p.619) segue na linha de Lin (1981, 1999) e Burt (1992, 2004), limitando o termo às estruturas de redes de relações, definindo o conceito de capital social como “um recurso que os atores fazem derivar de estruturas sociais específicas e usam depois para a realização dos seus interesses; recurso esse criado por alterações na relação entre atores”. Os autores desta vertente partem, portanto, de uma concepção de capital social conducente à ideia de “bem privado”, no que o ator se vale de um recurso coletivo para conseguir benefícios próprios, devido a sua posição estratégica dentro da rede.
2.1.3 Capital social como um bem público versus capital social como