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O “eu” relativo e não inerentemente existente, talvez uma ideia um tanto perturbadora para a ocidentalidade, pode ser melhor entendida lançando mão do conceito de originação interdependentexxxvii. Em uma ilustração, a luz de uma vela não existe por si, mas em função da vela, que só existe em função do pavio, da cera, do fogo do fósforo e de quem a acenderá. Um exemplo de Thubten Zopa Rinpoche, ilustra de forma bem humorada a visão budista sobre o “eu”: “Se o “eu” fosse independente, então seria capaz de funcionar de forma autônoma. Por exemplo, o meu “eu” poderia ficar aqui sentado lendo, enquanto o meu corpo iria à cidade(...).xxxviii

A originação interdependente, por interligar todos os objetos e seres em um mesmo pano de fundo em que nada existe independentemente e em que tudo está intimamente ligado a tudo e em permanente transformação, depreende de si mesma a importância das ações que a pessoa – consciente de si – tem para com seus semelhantes e ambiente. Destas ações e intenções, segundo outro conceito chave, o karma, resultará a reconfiguração do próprio indivíduo conforme seus méritos e

deméritos, tanto em um futuro renascimento como na vida atual. Destes princípios e da correta compreensão da realidade desenvolvem-se, de maneira lógica, as noções de deveres budistas, preconizadas no conceito de Sammakammantaxxxix.

Decorrente destas percepções e fundamentados no dharma, os editos gravados em pedra espalhados na Índia pelo imperador Ashoka configuram-se talvez num dos primeiros registros históricos que claramente expressam uma ideia de direitos humanos universal. Ashoka reinou durante o século III A.C. sobre o norte da atual Índia e Nepal e converteu-se ao budismo, após chocar-se com a brutalidade e violência da guerra, numa batalha entre suas tropas e as do antigo reino de Kalingaxl. Destacam-se, para efeitos de análise, quatro de seus editos:

I - Obrigações dos dirigentes:

“Assim como eu desejo para meus filhos que eles sejam dotadosxli da felicidade deste mundo e do outro mundo, assim eu desejo o mesmo para todos os homens;”

II - Universalidade das leis:

“Uma vez que é desejável que haja uniformidade na lei e também a uniformidade na justiça, a partir deste momento em diante essa é a minha declaração”;

III - O direito a defesa:

Para os homens que já foram sentenciados, que estão em confinamento e tenham sido condenados à morte, três dias foram concedidos por mim como seu legítimo direito, a fim de que algum de seus parentes possa apresentar recurso por sua vida;

IV - Provisão das necessidades básicas:

Em todos os lugares, existem dois tipos de tratamento médico estabelecidos, o tratamento para homens e o tratamento para animais. Ervas medicinais úteis para homens e animais foram importadas e

plantadas onde elas não eram encontradas. Do mesmo modo, raízes e frutos também foram importados e plantados onde não eram encontrados. Árvores foram plantadas, estradas e poços foram escavados para a utilização de homens e animais. Nas estradas, árvores banyan foram plantadas por mim a fim de dar sombra aos homens e animais. Bosques de mangueiras foram plantadas a cada meia Krosaxlii, em que fiz poços serem escavados. Casas de descanso durante a noite foram construídas. Muitos pontos de água foram fornecidos em vários lugares para a utilização de homens e animais (WIZARD, 2000)xliii.

V – Liberdade religiosa e exercício de aceitação intercultural:

Uma pessoa não deve honrar apenas sua própria religião e condenar as dos demais, mas deve honrar as demais religiões por esta e outras razões. Assim fazendo, auxiliará sua própria religião a crescer e oferecerá honras às demais religiões, igualmente. Agindo de outra maneira que essa, a pessoa irá cavar o túmulo de sua própria religião e também prejudicar as religiões dos outros. Quem honra sua própria religião e condena as religiões dos outros, faz isso por devoção à sua própria religião, pensando: “Vou glorificar minha religião”. Mas, ao contrário, agindo assim prejudicará sua própria religião gravemente. Assim, a harmonia advinda do espírito de concordância é positiva: que todos ouçam, e estejam dispostos a ouvir as doutrinas professadas uns pelos outros. (RAHULA, 2006)

Nestes editos os direitos de crianças, de pessoas condenadas pela justiça e mesmo de animais foram declarados, talvez pela primeira vez na história, sem restrição a castas ou classes sociais, bem como a liberdade religiosa e a apologia a este valor. Este marco desempenha um papel importante ao contestar a crença de que apenas no ocidente greco-romano centrado no indivíduo uma filosofia de direitos humanos poderia ter nascido. Talvez as fundações para a construção deste pensamento, e mais importante, para o avanço para além do ponto onde ele se encontra atualmente existam também no seio das civilizações orientais e no budismo, presentes numa percepção de direitos que começam não no indivíduo, mas nos mais vulneráveis, que não têm a capacidade de defenderem sua dignidade por si mesmos e evocam o dever alheio para sua proteção.

Sendo a dignidade o objetivo a ser atingido, faz-se necessário, portanto, definir o que se pretende entender com o termo e verificar como seu significado se alterou durante os últimos séculos. Em 1936 O dicionário Webster traz o verbete dignidade como elevação de caráter, valor intrínseco, excelência (...) nobreza nos modos, aspecto ou estilo. Quarenta anos mais tarde o dicionário Thesaurus em 1977 adereça dignidade conjuntamente a prestígio, estima, reputação, honra, glória, bom nome, fama (BODDHI, 2010). Numa atual edição do dicionário Oxford, a estes significados soma-se a qualidade ou estado de ser digno (worthy of, no original) de honra ou respeito.xliv

Um monge budista da tradição Therāvāda, Bikkhu Boddhi, ocidental e

norte-americano, traz interessantes contribuições sobre a ideia de dignidade no budismo:

A pessoa que representa o máximo da dignidade no Budismo é o arhat, ou libertado, que alcançou o cume da autonomia espiritual: a libertação dos ditames da cobiça, raiva e delusão. A própria palavra arhat sugere essa noção de dignidade: significa “aquele que é digno”, que merece a generosidade de devas e humanos. (BODDHI, 2010)

No budismo, a dignidade inata dos seres humanos não provém de sua relação com um Deus onipotente ou por serem dotados de uma alma imortal, mas advém da posição privilegiada da vida humana dentro do vasto espectro de seres sencientes, sem excluí-los. Longe de reduzir os seres humanos a frutos do acaso, o Buda histórico afirmou ser o reino humano o reino mais especial, exatamente no centro espiritual do cosmos. xlv Se a existência individual do homem é transitória e passageira, a condição de homens existirem, e a existência do reino humano de encarnações não o é.

6.3 BUDISMO, DIREITOS POLÍTICOS E DIREITOS SOCIAIS: FONTES DA