Acordo ouvindo sons de conversas que mais parecem brincadeiras de crianças se divertindo. Olho para lá e para cá, procurando algo entres os vãos dos galhos de uma grande árvore frondosa. Vejo um grupo de jovens a passar. Entusiasmo-me! Levanto e saio interessada na direção daquele bando. Vou subindo na diagonal, buscando caminhar em paralelo com aqueles sons vindos de cima. O vento traz uma brisa úmida e ensolarada, colorindo o esforço da subida com um arco-íris. Os sons aumentam e mudam, ganhando mais volume e velocidade. Sons de pássaros começam a se confundir com conversas de pessoas. Uma nova paisagem parece próxima. Vou ao encontro, mantendo o faro aguçado na paisagem: Um povoado vai surgindo à frente.
Dia movimentado. Feiras diversas acontecendo. Alimentos, utensílios, artesanias e atividades culturais desenham um átrio em meio à vegetação abundante. Atrativo para todos os sentidos. Experimento delícias regionais que aquecem minhas vísceras de mais vontades. Paro para apreciar aquele ambiente e ouço uma música que me chama atenção. Aproximo-me e converso com um músico que, vendo meu arco e flecha, comenta sobre um torneio que acontecerá dali poucos dias. Interessadamente, decido ficar e participar do evento. Depois sigo, guiando os passos conforme a curiosidade me inspira.
Especiarias, artes, belezas simples e interessantes nesta aldeia distante e pulsante de possibilidades. Chão batido cheio de força e presença. Depois de um tempo, tantos e diversos estímulos pedem pausa. Ponho-me a procurar um lugar para descansar e acalmar as ouriçadas imaginações sobre este lugar.
Passo dias conhecendo este novo ambiente até chegar o aguardado evento, conduzida pela novidade e certa sensação estrangeira de estar em contato com algo diferente. Momentos de abertura ao novo vão colorindo os dias. Muitas pessoas chegam de diferentes lugares. Profissionais, aprendizes e público no evento organizado em um
espaço arena. Começa a primeira rodada de apresentação do torneio de arco e flecha seguindo a ordem de inscrições, onde cada um exibe seus domínios em provas e etapas. De repente, avisto novamente aquele grupo juvenil de outro dia na trilha. Observo-os. O primeiro começa. Lança seu arco em direção ao alvo e algo inusitado acontece. Como se o alvo fosse eu, sinto o efeito da flechada atingindo meus olhos estarrecidos diante a imagem deflagrada:
Eu vi o Arqueiro! Ele me viu!
Imagem de efeito espelhado. Brilho das cores emanando mistério e poder em um instante todo preenchido. Paro, contemplo e gravo em minha memória aquele átimo de epifania. Iluminação poética. Revelando-se, rebelando-se diante dos meus olhos atentos ao que minha alma clama clara chama. Sol em luz de meio-dia!
Diante desse estalo potente no tempo dilatado das pupilas, recuo, me sento e deixo essa sensação percorrer pelo corpo, tentando capturar o inefável que pulsa e intriga. Aquela bela e instigante imagem provoca meus sentidos como animal em caça. No meu entorno, nada é abalado. A habilidade do próximo participante é demonstrada e as apresentações seguem-se normalmente. Eu, no entanto, fico concentrada naquele instante fotográfico, pulsando na veia da pele, a beleza luminosa refletida naquele corpo em florescência juvenil.
Após as provas do torneio daquele dia, continuo a observar os adolescentes dali, dedicando um bom tempo para pensar, me aproximar e conversar com eles até farejar um assunto interessante. Uma boa ideia para mim e para eles, um envolvimento mútuo. Para mim, uma elaboração do assunto iniciado pelo sonho. Para eles, a motivação de entrar em contato consigo através da arte cênica, já que, sendo uma fase de vida de intensas mudanças - a transição entre a infância e a juventude - o corpo psíquico, físico, emocional e espiritual passa por transformações diárias, caracterizando-se como um percurso divisor de águas e de valor ritualístico. Isso porque a brincadeira inocente pode tornar-se um jogo complexo, abrindo-se para nuances variadas, contraditórias e talvez complementares. Desafio existencial. Rito de passagem.
Então, é no transcorrer disso que surge a ideia genuína de jogar criativamente com o corpo do adolescente, permitindo um contato com um outro de si, ficcional, poético
e concreto. Nessa intenção antecipada por uma espontaneidade, nasce o curso de criação artística sobre o desejo de aventurar-se, ou, a narrativa artística de um corpo aventureiro.
Decidido isso, converso aqui e ali, buscando organizar um local dentro da comunidade. A escolha é uma escola onde acontece vários tipos de atividades culturais e educacionais voltados a adolescentes e adultos. Um ambiente de conhecimentos muito diversificados, centro de aprendizagens em meio a uma clareira de baixos e altos relevos. Sem dúvida, um ambiente interessante e contraditório.
Já o entorno dali não é nada amistoso. Não importa o horário, se é dia ou noite, há várias passagens inseguras, descuidadas e pouco iluminadas para o livre acesso dos habitantes. Há outros perigos, assaltantes peregrinos e traficantes aliciadores de menores. Um povoado movimentado, plural, mas que cresce de maneira desordenada.
Mesmo assim, para minha alegria incontida, a proposta chama a atenção e a divulgação também. Rapidamente um grupo interessa-se, inscreve-se e participa de um teste voltado à disposição e a criatividade corporal. Quarenta jovens selecionados. Vagas limitadas. Espaço pequeno. Mas uma variedade de corpos entusiasmados, predomina. Depois de dois grupos passarem pela audição, dezoito participantes são confirmados.
Já o corpo do espaço dos encontros do curso tem desenho retangular, simples, funcional e limpo. Chão duro e fresco. Iluminação básica, de cor branca. As variações são a luz natural do dia e da noite como possíveis nuances para o ambiente. A temperatura, nossa, um terror sem ventilador. E, o barulho dele ligado é como um enxame de abelhas desafiando os ouvidos e a concentração. Falando em som, consigo um que tem mais tamanho do que potência, mas serve.
Observo-os chegar à sala. Um a um com sorriso curioso aproxima-se da roda. Garotas e garotos irradiando detalhes cheios de visualidades. Cores, contornos e mistérios, para mim e para eles. A aventura se inicia, traçando linhas possíveis neste espaço de composição com aquela cena do sonho.
Informes gerais introduzem o caminho, com a definição dos encontros em dois dias seguidos ao longo de duas horas cada. Em seguida, uma troca sobre a ideia de corpo delineia a intenção do primeiro dia. Segue-se a prática de sensibilizar e aquecer o próprio corpo. Um tempo dedicado à respiração, ao toque, à temperatura da pele, à dimensão de partes e do todo de si. Movimento de acalmar os pensamentos e ampliar a percepção.
Na sequência desse movimento, começa um jogo criativo de tentar adivinhar quem é o escolhido de uma roda através de perguntas metafóricas, figuradas em objetos, lugares, cores, enfim, o que a imaginação quiser propor como questão a ser respondida. Até chegar na minha vez de perguntar ao grupo, vários deles fazem as suas usando a mesma introdução, como a seguir:
“Se essa pessoa fosse uma paisagem, que paisagem ela seria?”
Passa um tempo de envolvimento, descontração e divertimento, e lanço a pergunta que se mostra certeira como num movimento de arco e flecha em alvo:
“E se você fosse um personagem, que personagem você seria?”
A resposta vem sem fala, com acento à ação corporal. Para meu espanto, vejo que todos os presentes perfis são de heróis e vilões. Heróis predominam nos corpos adolescentes, desenhando posturas de antigos e modernos personagens em jogo com um imaginário cultural.
Narradora
O olho do artista, como disse Thomas Mann, tem um viés mítico sobre a vida; por isso, precisamos abordar o mundo dos deuses e demônios – o carnaval de suas máscaras e o curioso jogo do “como se “, no qual o festival do mito abole todas as leis do tempo, permitindo que os mortos voltem à vida e o “ era uma vez” se torne o próprio presente – com o olho do artista. (CAMPBELL, 2004, p.31)
Sabe-se até aqui que Aeiaa, instigada por desvendar seu sonho-enigma, organizou uma ideia antes mesmo de encontrar-se com o grupo de jovens que participariam daquela aventura criativa. Tratava-se de um curso que pudesse inspirá-la e àqueles com quem se encontraria. Então, diante daquele mistério vindo do mundo dos sonhos, ela continua sua busca e acaba encontrando algumas pistas durante um torneio de arco e flecha, numa comunidade distante de muita vegetação.
Durante o evento, em um dado momento das apresentações, a caçadora vislumbra um adolescente e perceberá uma atenção especial na representação de sua
postura corporal. A imagem representativa de um arqueiro. Isso a deixa com os sentidos animados, delimitando sua visão e percepção no corpo daquela cena.
Então, como num arremesso de flecha em alvo, um espaço de aproximação abriu-se entre eles, como que numa tensão entre sonho e realidade, promovendo um efeito espelhado, um reflexo. Uma espécie de ponte-porta entre consciente e inconsciente, buscando um sentido de olhar. Olhos4 saltados, colados, desejosos de indagar sobre
aquela bela epifania, a manifestação de um arrebatamento poético.
Foi assim que o espontâneo5 - ligado à dimensão da intuição – tornou-se intencional – ligada à dimensão da consciência – e esse potente situação reverberou a vontade de conversar, versar com aquela imagem iluminada por um instante de sopro potente no tempo, jogo com o inefável emanando força, beleza e fé cênica. A presença manifesta de um/uma personagem mítico/mítica na expressividade e dramaticidade de seu tempo, em rito com o sensível. Algo como um rito de passagem em que um conjunto de procedimentos de conexão com algo desconhecido e emergente demarca no espaço uma forma temporal, representativa, repleta de significações individuais e culturais.
Como bem considera Campbell (2001, p.77) “O rito é a representação do mito. Seja ele artístico ou espiritual, o rito é um caminho de aproximação e possibilita um diálogo simbólico com as energias, com os símbolos que inquietam ou amedrontam.”
Dessa maneira, o curso de criação artística emergiu de um desejo intuitivo e onírico que foi tomando coerência e novas formas depois do encontro com o corpo de um arqueiro, o qual, sem saber, convidou a arqueira Aeiaa a adentrar numa selva, em parceria, em boa companhia.
Em outras palavras, esta aventura insurgente foi se desvelando na minha frente durante uma tarde calorosa de uma oficina teatral para adolescentes6, considerados
4 “O olhar é carregado de todas as paixões da alma e dotado de um poder mágico que lhe confere uma
terrível eficácia. (...) Aparece como símbolo e como instrumento de revelação. Mais ainda, é um reator e um revelador recíproco de quem olha e de quem é olhado. O olhar de outrem é um espelho que reflete duas almas. (...) O olhar é como o mar, mutante e brilhante, reflexo ao mesmo tempo das profundezas submarinas e do céu.” (CHEVALIER; GHEERBRANT, 2007, p. 653).
5 “Entende-se que o espontâneo não há de identificar-se com o impensado. Identifica-se com o coerente e
com o intuitivo, com tudo o que, ao elaborar-se em nós, concomitantemente se estrutura em nós (...) abrangendo uma forma de autonomia interior e um grau mais alto de liberdade de ação ante possibilidades de viver e criar”. (OSTROWER, 2008, p.150).
6 Adolescentes – Público pesquisado com faixa etária entre 14 e 17 anos e que corresponde a uma importante
fase do desenvolvimento humano, demarcada por um período de extensas e profundas transformações psicofísicas e a transição da fase da infância para a juventude.
aqui a partir do termo “(...) derivado de adolescência e do latim adolescens e que significa crescer. Diz respeito aos aspectos psicológicos e sociais.” (COUTINHO, 2009). Isso inclui a consideração de que sua fisicalidade é entendida de maneira somática e multidimensional, constituindo-se na relação consigo e o meio de maneira qualitativa.
A cena epifânica ocorreu após uma sequência de exercícios corporais de sensibilização, durante um jogo criador baseado em representações metafóricas sobre si e o outro, dentro do qual a imaginação era o foco principal. As respostas deste jogo vieram em falas e depois movimentos, deflagrando ações corporais com um qualidade de presença dilatada e enfatizada na linguagem não-verbal. Envolventes rodadas passaram- se e, diante do inesperado, surge a questão manifestada numa qualidade expressiva e potente do corpo, na experiência direta e simbólica com um/uma personagem em busca de desafio. E, para embarcar nesta viagem alegórica repleta de sopros, suor e musculaturas, fechei o diário de bordo7 e pedi a todos que se apresentassem com seus personagens imaginados. E então, o alvo-questão me atingiu, fazendo pulsar a pergunta:
‘Onde está o herói?’
Onde como espaço, território. Território que também remete à ideia de habitação, espaço do corpo. Mas, que espaço ele habita? Quem é o herói desta trilha tão entrecortada de estradas e matas fechadas, de cenários variados e superpopulosos como os de grandes cidades do mundo?
Segundo o mitólogo Joseph Campbell, o herói é um
personagem universal que deu sua própria vida por algo maior do que ele mesmo. Há dois tipos de proeza: física e espiritual. O primeiro é impulsionado por um ato de coragem durante uma batalha ou por salvar uma vida. O segundo, ele aprende a lidar com o nível superior da vida espiritual humana e retorna com uma mensagem. (CAMPBELL, 2001, p. 131)
A partir dessa perspectiva, desenrola-se uma trajetória de pesquisa direcionando meu olhar para o herói mitológico, conforme é abordado em Campbell
7 Diário de bordo - Instrumento de registro de grande valor, pois é como um chão, base catalisadora de
pensamentos e reflexões que podem anunciar vindouras e profícuas ações como as perguntas tantas que, aos poucos, foram tomando consistência, a saber: Como manter uma aula estimulante para os adolescentes? Como tornar esse momento de encontro interessante para ambos (professora e alunos)? Como promover um ambiente de conhecimento em que a curiosidade e o prazer tenham mais presença?
(2007): “O herói mitológico não é patrono das coisas que se tornaram, mas das coisas em processo de tornar-se (...) A façanha do herói é um constante abalar das cristalizações do momento.”
Alicerçada por este conceito fundamental do personagem herói, a forma desse olhar foi se constituindo durante o processo de criação corporal, desdobrado na ideia conceitual de um corpo criativo em fazer artístico – corpoiesis –, construído por meio da experiência de empoderar-se poeticamente, através de ações físicas impulsionadas pelos sentidos sensoriais e cinestésicos.
Nas palavras de Grotowski apud Burnier (2001, p.33) “(...) a ação é algo mais, porque nasce do interno do corpo, está radicada na coluna vertebral e habita o corpo”. Já seu aprendiz-colaborador Richards (1993, p.3) refere-se a ações físicas como “uma capacidade nutrida pela prática”, e – acrescento –, atuando num amadurecimento da percepção de caráter cênico.
Ainda,
Uma tentativa de abordagem visando a uma definição que una os conceitos de ação de Decroux, Stanislavski e Grotowski deverá levar em conta que o termo ação física se refere sobretudo e antes de mais nada a: 1) ação, algo (um impulso, um élan) que nasça do tronco (da coluna vertebral); e 2) ela é física, ou seja, corporificada no momento em que acontece. (BURNIER, 2001, p.35)
E quanta movimento e força pode haver na ação de um corpo cênico. Uma potência enorme, capaz de provocar terremotos dentro, reverberando outras possibilidades de mundo. Uma desordem ordenada em constante organização, que proporciona conhecimentos sensíveis e mais beleza ao caminho. Um corpo cuja energia vital, a libido8, é compreendida de maneira ampliada, isto é, como uma energia criadora que transborda na pele o desejo consciente, presente e da qual emana, ao mesmo tempo, uma paradoxal ancestralidade. Essa ancestralidade diz respeito à memória atemporal, ou, a lembranças longínquas de difícil determinação cronológica. Pertence ao eco das
8 O psiquiatra e estudioso suíço Jung (2002, p.44) discorre sobre a libido como uma energia vital do corpo,
que se relaciona com a sexualidade, mas está para além dela, compondo-se de maneira dinâmica na adaptação da psique humana através de movimentos progressivos e regressivos. Nesta pesquisa, este conceito associa-se à manifestação das escolhas e da atuação de cada um dos adolescentes participantes, evidenciadas em seus comportamentos de adaptação e transformações psicofísicas ao longo deste processo de criação.
existências humanas no planeta, podendo ser rememoradas pelo mito e comemoradas no tempo do rito, com significações passíveis de atualização sobre um tema mítico. Um movimento do que é antigo se encontrando com o novo, de novo. Ação corporal universal manifestado na realidade mítica do agora.
Se “a realidade mítica é uma organização móvel, como um coração batendo, com marés de sentimentos e formas” (KELEMAN, 2001), então o presente errante e pulsante se faz em todos os instantes, demarcando tempos na História como um jeito descoberto para dar conta, faz de conta, faz e conta o que se consegue compreender de mistérios tantos. Assim, já que desvelar é preciso – ou, o conhecimento é irresistível –, que seja na verdade da criação, pois nela há mais mundo que se pode prever. É brincar, jogar e imaginar o que pode existir poeticamente entre a vida e a morte. Vidamorte. Amor. Mais amor, por favor. Amor pela criatividade. A criatividade de contar histórias, experimentar elementos poéticos e concretizá-los no corpo através de sentidos estéticos, éticos e espirituais.
Diante disso, a verdade daquele presente momento veio mostrar-me um diálogo surpreendente com a imagem arquetípica do herói – representação de uma ideia modelar ancestral, arquétipo9, repleta de valores culturais coletivos e individuais, herdados e em dinâmica relação de sentidos no tempo e no espaço de um corpo em processo, em se insere o movimento de progressão e regressão da libido.
O princípio da progressão e regressão é ilustrado pelo mito do dragão- baleia elaborado por Frobenius. (...) O herói é o ator simbólico do movimento da libido. O desaparecer no dragão representa a direção rumo à regressão. A viagem para o Oriente (a viagem noturna) e os fatos daí decorrentes simbolizam o trabalho adaptação frente às condições do mundo psíquico interno. O ser completamente tragado e o desaparecer do herói na barriga do dragão representam a renúncia completa a posicionar-se no mundo exterior. O dominar o monstro a partir de dentro é o trabalho de ajustamento às condições do mundo interno. O sair do corpo (eclodir/ nascer) com a ajuda do pássaro – que é simultaneamente um nascer do sol – é a retomada da progressão. É sintomático que, durante o tempo em que o herói permanece engolido, o monstro inicia a viagem noturna para o Leste, isto é, em direção ao nascer do sol, o que, na minha opinião caracteriza o fato de que a regressão não significa necessariamente um recuo, no sentido de um retrocesso ou uma degeneração, mas sim, muito mais, uma fase necessária à evolução, em que, no entanto, a pessoa não tem consciência
9 Ideias inatas - “Imagem primeira de caráter coletivo e inato. É o estado preliminar, zona onde nasce a
ideia (Jung). Ele constitui o ponto de junção entre o imaginário e os processos racionais”. (PITTA, 2005, P.18).
de tratar-se de um estágio do desenvolvimento, uma vez que se encontra numa posição forçada, que se apresenta como uma volta à primeira infância ou até ao estado embrionário no ventre materno propriamente dito. (...) Da mesma maneira, não podemos confundir progressão com evolução, pois o fluxo contínuo, ou o decorrer da vida, não é necessariamente evolução ou diferenciação, uma vez que desde os primórdios, certas espécies animais ou vegetais estacionaram, digamos assim, no mesmo estágio da diferenciação, e mesmo assim, continuam vivas. Assim também a vida anímica humana pode ser progressiva sem evolução e regressiva sem involução. (JUNG, 2002, p.49)
Nessa orientação fenomenológica, novas perguntas surgiram: O que isso quer dizer? O que quer dizer para mim? Desejosa em saber mais, busquei a saga do herói – personagem aventureiro que sai em busca de realizar uma missão e que, aberto à vida, pode exercitar olhares sobre si, o outro e o mundo de seu tempo presente.
E quem é o arqueiro? - É aquele que caça e combate os monstros, seus próprios monstros no sentido de uma claridade própria. Tem o arco e a flecha como instrumentos de poder e meditação. Reúne aspectos de tensão, distensão e arremesso com penetração, fecundação; unificação e síntese; rapidez e retidão. (CHEVALIER; GHEERBRANT, 2007)
Este personagem pode ser compreendido simbolicamente como uma máscara, atributo do tornar-se (CAMPBELL, 2004, p.31) uma representação ficcional, lúdica e intencional do sujeito em exercício estético particular. Por isso, comporta-se de maneira diversa e dinâmica, emanando memórias, estudos, imaginações geradoras de uma afetividade do corpo em ação poética. Corpo em processo de transubstanciação do mundo. Ainda em Campbell (2004, p. 36) [...] um princípio de libertação opera por meio