Fundamentos teóricos e metodológicos
4. Os agrupamentos do discurso e a nossa pesquisa
O subtítulo desta tese, que prefigura seus objetos, é “um estudo sobre o discurso no primeiro rock argentino”. Por que essa conexão dada pela preposição “em”, por que titulamos “no” e não, por exemplo, “do”? A vertente de música urbana que iria recebendo o nome de “rock argentino”, especificamente suas primeiras etapas, é, como explicamos na Introdução, nosso principal objeto de estudo. E o abordamos a partir do discurso, como dimensão em que a materialidade linguageira é afetada pelo real sócio-histórico. Porém, não cremos que possa haver discurso “de” um gênero ou campo em particular. Mesmo que tenhamos como objeto de investigação um agrupamento desse tipo, que é do nosso interesse para contribuir, nos estudos das humanidades, para a reflexão sobre a produção cultural de um país em determinada época, cumpre partir do reconhecimento, que deriva do que explicamos em 2 em torno do interdiscurso, de que a ordem do discurso não se configura por esse tipo de agrupamentos, mas os atravessa. Fazemos aqui uma analogia com o que Orlandi (1996) distingue como “ordem” e “organização” na língua, mas, no nosso caso, tratando dos modos como as práticas sociais organizam conjuntos textuais estabilizados sob denominações, especificamente no terreno da produção de bens culturais. Esses conjuntos são um ponto de partida, e foram, no nosso estudo, como veremos no capítulo seguinte, parte fundamental dos critérios de constituição de corpus, mas nossa meta é construir hipóteses sobre como determinadas regularidades discursivas e posições de sujeito os atravessam contraditoriamente, mostrando traços do conflito ideológico e das relações de força em que sua própria delimitação se desenvolve. Trataremos, então, neste item, sobre a relação contraditória entre esses agrupamentos e a regularidade.
32 4.1 Problematizando os agrupamentos
Embora não situada na perspectiva de uma análise do discurso que atendesse ao funcionamento linguístico, a reflexão de Foucault ([1969] 1972), proposta por ele mesmo como interrogação acerca de como construir uma história das ideias e dos saberes, teve uma forte projeção sobre o desenvolvimento posterior dos estudos discursivos nas ciências da linguagem, mesmo para aqueles que escolheram objetos de análise em domínios muito diferentes, como a política ou a mídia. Já tratamos no item 2 sobre aspectos da sua recepção por uma corrente específica da análise do discurso, mas aqui vamos nos deter em uma problemática particularmente desafiante: a das unidades possíveis para a análise, os agrupamentos textuais que podem constituir um corpus de trabalho para o pesquisador.
A primeira parte da obra referida (A Arqueologia do Saber) começa precisamente enunciando a necessidade de questionar totalidades dadas como “obra” ou “livro”, mas também alguns conjuntos previamente estabelecidos pelas tradições críticas, dentre eles alguns de especial interesse para quem trabalha nos estudos da linguagem:
Hay que inquietarse también ante esos cortes o agrupamientos a los cuales nos hemos acostumbrado. ¿Se puede admitir, tal cual, la distinción de los grandes tipos de discurso, o la de las formas o géneros que oponen unas a otras, la ciencia, la literatura, la filosofía, la religión, la historia, la ficción etc., y que hacen de ellas especies de grandes individualidades históricas? (FOUCAULT, [1969] 1972, p 35)
O questionamento está direcionado tanto ao trabalho com discursos da contemporaneidade quanto à aplicação dessas classificações a discursividades do passado. Não é uma preocupação de Foucault, como surge do excerto e da leitura integral da obra, diferenciar entre “tipos”, “gêneros”, “domínios” ou outras classificações do modo como se tenta nos estudos discursivos ou textuais. Mas essas categorias não deixam de ser atingidas pela pertinência dessa interrogação.
Sabido é que, ao longo da Arqueologia..., Foucault vai formulando a noção de “formação discursiva” como tentativa de abranger regularidades entre enunciados. Sua reflexão sobre o próprio enunciado como “función que cuza un dominio de estructuras y
33 de unidades posibles” (ibidem, p 145) formula como condição, para essa função, a relação com um sujeito concebido como lugar a ser ocupado e a existência de um “domínio associado”. Essa noção é reformulada ao longo da explicação como “campo adjacente”, “espaço colateral”, “campo associado” e “campo enunciativo”, e evidencia a necessidade de novos agrupamentos e conjuntos, constituídos por relações que, do ponto de vista dos estudos discursivos, poderíamos resumir como “dialógicas” e/ou “parafrásticas”, embora Foucault não tenha empregado esses termos naquela obra, e que certamente são diferentes das relações que podem fundamentar agrupamentos como “tipos discursivos” ou “gêneros do discurso”.
Vale a pena, no entanto voltar ao ponto em que o autor discorre sobre a necessidade de questionar os “grandes tipos” e “gêneros”, para notar que o questionamento por ele proposto chama a atenção para um aspecto da existência dessas classificações que é de grande interesse para o que aqui tentaremos desenvolver:
De todos modos, esos cortes -ya se trate de los que admitimos, o de los que son contemporáneos de los discursos estudiados-; son siempre ellos mismos categorías reflexivas, principios de clasificación, reglas normativas, tipos institucionalizados: son a su vez hechos de discursos que merecen ser analizados al lado de los otros, con los cuales tienen, indudablemente, relaciones complejas, pero que no son caracteres intrínsecos, autóctonos y universalmente reconocibles. (FOUCAULT, [1969], 1972, p 36).
Precisamente, esses recortes são “fatos de discurso”, ou, diríamos nós, de um metadiscurso que se produz em práticas verbais que classificam. Práticas, segundo o caso, mais ou menos insititucionalizadas e de maior, menor ou nula proximidade com as disciplinas da linguagem. O fato de que conjuntos de enunciados se agrupem sob o nome de um gênero é resultado de uma sedimentação de processos de denominação e classificação, que pode passar pela mídia, pela escola, por formas menos institucionalizadas da interlocução, pelo campo científico ou juntamente por vários desses lugares, e cremos que as “relações complexas” que esse agrupamento tem, tanto com os textos que inclui como com os discursos que o delimitam merecem ser estudadas, o que implica reconhecer e tentar situar esse agrupamento.
Por uma parte, já a teorização bakhtiniana abriu a possibilidade de hipotetizar relações dialógicas mediadas pelo gênero, que, pela sua inserção em determinadas práticas, favoreceria uma “expressividade típica” do gênero para a palavra (BAKHTIN,
34 [1953] 1997, p 311-312). Inversamente, delimitar a identidade de um gênero levando em conta seu papel nas práticas sociais traz consigo a dimensão dialógica da linguagem, o confronto de vozes e perspectivas que se manifesta nos textos agrupados nessa tipologia.
4.2 Agrupamentos, espaço social e interdiscurso
Beacco (2004) desenvolve uma reflexão em relação à delimitação e identidade dos gêneros na contemporaneidade. Como se verá, não concordamos em alguns aspectos, devido ao que nos parece uma divergência mais geral em relação ao funcionamento social e político, mas nos parece interessante trazê-la à tona pela produtiva e original diferenciação que estabelece entre três maneiras de considerar essa categoria, permitindo prever que os três modos não levem, necessariamente, a recortes coincidentes. O gênero, segundo o autor, poderia ser abordado de três pontos de vista. O primeiro, do que denomina como “linguística popular”, tem a ver com a representação do senso comum: estudar, por exemplo, os processos que levam a que determinados grupos identifiquem e denominem um texto como “coluna de opinião” mesmo que ele não apareça sob esse nome. O segundo, com o estabelecimento de um determinado gênero como categoria mais ou menos “prototípica” por linguistas e analistas do discurso, com base em regularidades e variações entre séries de textos. O terceiro, que é o que nos interessa mais neste trabalho, se relaciona ao que o autor denomina “espacialidade social” do gênero (ibidem, p 116): sua implantação em determinados lugares sociais.
O autor põe em jogo, para a abordagem dessa espacialidade social, uma noção de “comunidade discursiva” de cunho etnolinguístico, que abrangeria os produtores e consumidores de determinados bens culturais. É a respeito dessa caracterização, bem como da relação proposta entre essas “comunidades” e a mídia que, como antecipamos, não concordamos com Beacco. Para o estudioso, o espaço midiático, segundo estratégias de oferta e demanda, redistribui os produtos dessas comunidades, que são atribuídos a determinados gêneros. Nós cremos que, mais do que estratégias, atuam relações de forças das quais a mídia é partícipe como fator político. Por isso, como o mostram os muitos casos na história da passagem do popular (quer como música, teatro, narração, ou informação pública) para a mídia (STEIMBERG, 1998) com o desenvolvimento da
35 cultura de massa7, a percepção social de um gênero se modifica e se completa ao começar a ser reproduzido e circular nesses domínios. Essa circulação também se relaciona ao papel sociohistórico do gênero.
Assim, mais do que “comunidades” em relação com uma mídia guiada pela oferta e demanda de um suposto mercado livre, nos parece adequada a visão de um espaço social de forças em conflito, como a que encontramos em Bourdieu ([1976] 2003 e [1971] 2010). Dessa teorização provém a noção de “campos”, espaços estruturados de posições desiguais em relação a uma prática. A entrada de determinado gênero nos modos contemporâneos de reprodução e circulação que atribuímos à cultura de massa, como também seu desenvolvimento em qualquer tipo de espaço institucional, mesmo não midiático, faz com que ele participe de um ou mais subcampos: político, educacional, de produção de bens simbólicos, ou das mediações entre esses e outros, conforme a prática social em que se insere. Principalmente na produção e circulação de bens simbólicos, há muitos casos em que um determinado gênero chega a constituir em torno de si um subcampo conformado pela sua crítica, seu público, e por diferentes formas de institucionalização e consagração8.
Como veremos no próximo capítulo, a consolidação do que depois se denominaria “rock argentino” é um caso praticamente laboratorial desse processo de conformação de um gênero-campo. Principalmente no período que localizamos nesta pesquisa, no qual, devido à sua condição relativamente periférica em relação ao mercado e a uma série de fatores políticos que serão abordados oportunamente, é possível perceber, nele, o “efeito de série” a que nos referimos em 2. Porém, e contraditoriamente, as vozes que nele se percebem não obtêm sua orientação dialógica nos limites do gênero-campo, mas pela relação com um interdiscurso. A regularização não é explicável sem atender aos processos parafrásticos que a vinculam, como veremos a partir dos capítulos III e IV, com espaços que são descontínuos, tanto entre si quanto em relação ao gênero-campo: as vulgatas de diversas fases do pensamento existencialista e do marxismo no campo cultural argentino da época, a preeminência que ganham alguns objetos tidos como “evidência” nos saberes desse campo, expressões muito anteriores do drama e da canção popular urbana, dentre
7 No capítulo próximo especificaremos o alcance que daremos à denominação “cultura de massa” nesta
tese.
8 Na música urbana de tradição popular do século XX há vários exemplos, alguns expandidos por diversos
países, como a “cumbia” (FERNÁNDEZ L´HOESTE e VILA, 2013) ou “chamamé” (HIGA, 2010), outros relacionados a um espaço nacional, como o samba brasileiro ou o tango argentino nos seus períodos de consolidação e entrada na mídia radiofônica (MENEZES, 2012).
36 outras filiações. Inclusive as configurações predominantes para as vozes e perspectivas no jogo enunciativo, e o conjunto dos traços estilísticos recorrentes no gênero-campo, todos fatores que intervêm de um modo não evidente na sua própria identificabilidade no espaço social, parecem ganhar coerência nessas relações interdiscursivas. Elas têm a ver muito mais com a dimensão sociohistórica do gênero, com o confronto que lhe deu lugar no campo da produção de bens simbólicos, do que com a configuração formal dos “exemplares” que nele são localizados.