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1. Pensamento, conceito e pedagogia

1.5 Os componentes do conceito de filosofia

Retomemos a pergunta que abre o capítulo: o que é pensar por conceitos? A exposição deste subcapítulo seguirá três textos: (1) o primeiro capítulo da primeira parte do livro O que

é filosofia? (DELEUZE; GUATTARI, 1997c, p. 25-47) que recebe o título O que é um conceito?; (2) o artigo de Sílvio Gallo (2000) publicado na revista Perspectiva – um dos

artigos levantados em nossa pesquisa - com o nome O que é filosofia da educação?

Anotações a partir de Deleuze e Guattari; (3) a primeira parte da obra Deleuze e a educação

escrita por Sílvio Gallo (2003). Nesses dois últimos textos, o professor da Unicamp comenta a obra de Deleuze com vistas à educação, mostrando a força e consistência de algumas das publicações na área; essas análises não ficam devendo nada às leituras e interpretações estritamente filosóficas, visto que expressam uma leitura minuciosa, sistemática e inventiva da filosofia da diferença, realizando uma problematização concreta sobre a função da filosofia da educação.

Bem, comecemos determinando no que não consiste o pensamento por conceitos. A filosofia não é uma reflexão, não é contemplação nem comunicação (GALLO, 2000, p. 53; GALLO, 2003, p. 42-45; DELEUZE; GUATTARI, 1997c, p. 14); o conceito não é uma identidade, não é uma categoria nem um universal. Ao definir os “falsos pretendentes” do conceito, Deleuze e Guattari estão se opondo a uma série de concorrentes. Em primeiro lugar, ao dizer que a filosofia não é reflexão eles estão se contrapondo à tradição universitária da filosofia, que reduz a disciplina ao comentário ou reflexão sobre tema ou autor. Ao se posicionarem contra a filosofia contemplativa, Deleuze e Guattari tem por adversária à tradição platônica que sugere ser a filosofia a apreciação espiritual das ideias. A recusa da comunicação enquanto tarefa essencial à filosofia consiste numa crítica muito pouco disfarçada à teoria da ação comunicativa de Habermas, que via na filosofia um exercício de diálogo e negociação democrática voltado à produção de consensos gerais. O pensamento representacional subjaz em todas essas imagens da filosofia. É este o principal inimigo da filosofia da diferença.

Nessa acepção, o que Deleuze e Guattari condenam quando denunciam o pensamento representacional? Eles condenam a imagem da filosofia enquanto imagem idêntica, enquanto cópia exata da realidade, mas, sobretudo, eles denunciam a ilusão transcendental que atribui

ao pensamento um fundamento universal e exterior. Quais são as implicações desa crítica à epistemologia da ciência? A ciência seria uma ficção sem relação com a realidade? Se o pensamento não é representação ou reprodução de uma imagem idêntica, o que é o pensamento? A ciência produz um conhecimento que articula um discurso historicamente constituído com uma série de dados empíricos produzidos por meio da seleção e processamento dos dados retirados da natureza; a ciência não decodifica a natureza, ela recodifica ou sobrecodifica os fluxos desterritorializados do caos-mundo. O pensamento é produção ativa, invenção e criação de novos meios de conhecer, de ver e de sentir. A filosofia consiste na criação de um novo mundo, de uma nova perspectiva construída por meio de conceitos.

O conceito é constituído por diversas partes e faz parte de uma máquina muito mais complexa, que, por um lado, é composta de palavras, frases, parágrafos, argumentos e exemplos e, por outro, é formada a partir da conexão entre diferentes conceitos e personagens em um Plano de imanência pré-filosófico. Enfim, cada filosofia é um conjunto de conceitos relacionados que se reúnem em um mesmo Plano e cada conceito é, em si mesmo, um composto de partes que traça um pequeno território. Os componentes conceituais, que trataremos na sequência do texto, são as partes internas do conceito, enquanto as proposições que expressam o conceito consistem em sua parte exterior.

Todavia, como já o dissemos, o conceito se diferencia das outras formas de conhecimento em razão de sua natureza endorreferente e imanente. Ora, como é possível conciliar o caráter imanente do conceito e o fato dele pertencer a um conjunto no qual cada parte é exterior às outras? Se a imanência diz respeito a univocidade do ser (ZOURABICHIVILI, 2004, p. 38-39, 56; SPINOZA, 2009, p. 29), como pode o conceito constituir uma imanência e ao mesmo tempo possuir uma exterioridade? Deleuze e Guattari argumentam que um conceito não é proposicional (DELEUZE; GUATTARI, 1997c, p. 35), ou seja, não se refere às proposições, entretanto, não se pode negar, o conceito é inseparável das palavras e frases que o invocam. Disso decorre que não há conceito sem um livro que o suporte. Pois bem, se um conceito, tal qual um acontecimento, não existem fora das proposições que o exprimem (DELEUZE, 2009a, p 188), como é possível ser o conceito ao mesmo tempo não proposicional, endorreferente e efeito produzido a partir de frases e argumentos que lhe são exteriores?

É necessário retomar a leitura que Deleuze faz dos Estoicos para responder a essas questões. Em Lógica do Sentido (2009a), Deleuze constitui uma teoria da linguagem e do sentido baseada na obra de Lewis Carroll, um dos conceitos centrais dessa obra é o de acontecimento. Ora, um acontecimento é expresso por um verbo ou uma ação que manifesta uma modificação incorpórea nos corpos. Um exemplo simples é a voz de prisão dirigida de um policial a um criminoso: ela não modifica a configuração física de nenhuma das partes, entretanto a voz de prisão expressa uma ação que restringirá a liberdade do corpo de um homem por um certo período de tempo. Esse acontecimento, a voz de prisão, não pode ser predicado de nenhum evento natural, ele está necessariamente ligado a um ato de linguagem ou como dizem os ingleses speech act. O acontecimento e o conceito são incorpóreos que se atribuem aos corpos (Sobre o efeito incorporal na filosofia estoica: DELEUZE, 2009a, p. 5- 12, p. 97-102. Sobre o conceito: DELEUZE; GUATTARI, 1997c p. 32).

Segundo Deleuze, o acontecimento é o fundamento da linguagem. Não cabe aqui explicar os pormenores, o que nos interessa é uma característica muito peculiar desse conceito. Um agenciamento é um conceito de duas faces, uma voltada às proposições e outra aos corpos. Em razão desta natureza, o acontecimento tem um lugar especial na linguagem, pois ele enlaça as duas dimensões essenciais ao pensamento: a palavra e as coisas. Por conseguinte, o acontecimento funda a linguagem, na medida em que articula a série de palavras e sons à série de eventos reais. O Acontecimento, laço e lastro da linguagem, opera no mesmo plano que o conceito (DELEUZE; GUATTARI, 1997c, p. 33), instaurando-se na articulação ou na dobra entre os planos das coisas e o da língua. O essencial está nessa dobra, pois nela se repete o ato de fundação da linguagem e do pensamento, a articulação entre as palavras e os estados de coisas. O conceito repete o ato original de criação e, por conta disso, ele é a causa imanente de sua expressão linguística e de sua efetuação nos corpos ou, dito de outro modo, o conceito, apesar de múltiplo, se diz sempre no mesmo sentido, o da diferenciação. Isso só pode ocorrer, pois a natureza e a essência unívoca do conceito é ser múltiplo. As categorias são incompatíveis com a univocidade do ser na medida em que enquadram e colonizam as diferenças puras.

A category is the name that is proper to a territory of Being (for example, matter, form, substance, or accident, etc.); but it can equally apply to one of the senses of Being, for all fixedness of the ontological division entails the ruin of univocity. Whoever thinks by categories maintains by this very fact that Being is said in several senses (according to essence or existence, as Idea or as simulacrum, etc.). Conversely, if Being can only be said in a single sense, then it is impossible to think

by categories. (…) The true philosophical method must absolutely refrain from any dividing up of the sense of Being by categorical distributions, or from any approximation of its movement by preliminary formal divisions, however refined these may be. The univocity of Being and the equivocity of beings (the latter being nothing other than the immanent production of the former) must be thought "together" without the mediation of genera or species, types or emblems: in short, without categories, without generalities. (BADIOU, 1999, p.58)

Para compreender melhor o vínculo entre a unidade e a multiplicidade da filosofia e do conceito será necessário retomar alguns pontos da filosofia de Spinoza. A discussão é vasta e complexa e, considerando que será necessário retomá-la logo a seguir, a postergaremos um pouco.

O conceito é a um só tempo singular e múltiplo, pois cada conceito é, ao mesmo tempo, uma singularidade assinada (DELEUZE; GUATTARI, 1997c, p. 16) e um composto de partes que se articulam em uma heterogênese (GALLO, 2003, p. 46-47; 2000, p. 55). Deleuze e Guattari dão o exemplo do conceito cartesiano de cogito ou, o que dá no mesmo, o de eu. Por um lado, o conceito de Descartes é uma assinatura ou uma expressão de singularidade na medida em que ele rearticula a razão entre o sujeito e a entendimento, inscrevendo uma novidade no seio do pensamento. A filosofia moderna começa com Descartes. Por outro lado, o conceito de cogito pode ser dividido em partes:

O enunciado total do conceito, enquanto multiplicidade, é: eu penso "logo" eu sou; ou, mais completamente: eu que duvido, eu penso, eu sou, eu sou uma coisa que pensa. É o acontecimento sempre renovado do pensamento, tal como o vê Descartes. O conceito condensa-se no ponto E, que passa por todos os componentes, e onde coincidem E' — duvidar, E" — pensar, E'" — ser. Os componentes como ordenadas intensivas se ordenam nas zonas de vizinhança ou de indiscernibilidade que fazem passar de uma à outra, e que constituem sua inseparabilidade: uma primeira zona está entre duvidar e pensar (eu que duvido não posso duvidar que penso), e a segunda está entre pensar e ser (para pensar é necessário ser). Os componentes apresentam-se aqui como verbos, mas isto não é uma regra, basta que sejam variações (DELEUZE; GUATTARI, 1997c, p. 37-38)

Além disso, o conceito de cogito se relaciona com uma série de outros conceitos como Deus, as “coisas em si”, o espírito, o corpo e a prova ontológica. Há uma sequência entre os conceitos e, ao mesmo tempo, uma circularidade que faz com que cada conceito remeta à série inteira como uma peça necessária e essencial. O conceito é ao mesmo tempo um relativo e um absoluto. Relativo na medida em que ele organiza um certo número de componentes internos segundo “zonas de vizinhança”, que se articulam a uma série de outros conceitos que

vêm a “solucionar” um determinado problema que, por sua vez, traça um plano ou, dito em outas palavras, um outro “mundo possível” (GALLO, 2000, p. 55).

Dissemos acima que o plano de imanência é traçado simultaneamente à criação de conceitos: como isso ocorre? O que assegura a unidade entre esses dois elementos? São os problemas aos quais os conceitos ao mesmo tempo vêm conformar e solucionar. Os problemas de uma época ou de uma linhagem filosófica, que atravessam a obra de diversos autores, articulam grandes blocos históricos caracterizado por uma diversidade de posições. Como diz Sílvio Gallo (2000, p. 55) “Todo conceito é criado a partir de problemas. Ou problemas novos ou problemas que o filósofo considera que foram mal colocados”. O problema de como os homens saem do estado de natureza e entram no estado de civilização atravessa todo o iluminismo. Observa-se o mesmo problema repetido em diversos autores. Locke, Hobbes e Rousseau – para citar somente alguns dentre os mais notórios – se colocaram repetidamente a mesma questão, mas em cada caso, o tratamento conceitual, o peso dado a certos elementos e mesmo as noções consideradas eram diferentes.

Locke sublinha a ameaça do homem ao homem como principal razão para a fundação da sociedade, Hobbes, por sua vez, destaca o caráter de exceção e de guerra generalizada que caracteriza a sociedade natural, argumentando que os homens abdicam de parte de seus poderes – a parte da força – para cessar essa ameaça constante; Rousseau crê em um homem naturalmente independente e bom, destacando as virtudes e a longa duração do estado de Natureza, defende que foi a necessidade, a conveniência e a piedade natural que deram origem ao primeiro estado de sociedade, feliz infância da humanidade, que, com o tempo, decai e corrompe-se devido ao amor próprio dos homens. O mesmo problema é repetido sob a condição de se diferenciar em cada autor. Nesse sentido, apesar do problema preexistir aos filósofos, eles apenas assumem uma materialidade na medida em que é determinado por um conjunto de conceitos. Tomados em sua virtualidade os problemas dizem respeito a um plano filosófico abstrato e permanecem em estado de não determinação. Tomados em suas atualizações, os problemas dizem respeito a um conjunto singular de conceitos que condiciona o problema geral a uma perspectiva específica. Ao privilegiar o estado de guerra e a violência da natureza, a filosofia hobbesiana tende à monarquia, ao privilegiar os interesses conflitantes dos homens, Locke tende ao republicanismo, ao ressaltar o amor de si e a piedade, a doutrina de Rousseau tende à democracia.

Note-se que a escolha e o peso dado aos conceitos são fundamentais na determinação dos problemas e das soluções. Ademais, é possível notar que em cada uma dessas filosofias são os pressupostos éticos e pré-filosóficos que condicionam a escolha dos conceitos que por sua vez determinam o problema. Logo, há uma reciprocidade na fabricação de cada um dos componentes de uma filosofia. Os pressupostos éticos e ontológicos condicionam a escolha dos conceitos que por sua vez determinam o problema, entretanto, o problema em sua virtualidade existe antes dos conceitos e configura o plano de imanência mais geral ao qual se inscrevem diversas filosofias diferentes. Não obstante, o plano geral de pensamento de uma época ou corrente filosófica é traçado a partir de problemas abstratos que são efetivados em suas diversas atualizações, de tal forma que o problema iluminista do surgimento da sociedade não existe fora das diversas filosofias que o tomam para si.

Logo, apesar de ser necessariamente original, o conceito tem uma história, dado que toma seus problemas e partes de seus componentes de outras filosofias e de outras formas de conhecimento. Retomando o problema dos iluministas, poderíamos isolar uma história que começa com Hobbes, passa por Locke, depois por Rousseau e Hume chegando, por fim, a Kant50. Todos eles, de alguma forma, enfrentaram esse mesmo problema que conjuga a

natureza, as luzes e a civilização. Um estudo cuidadoso dessa história revelaria uma série de continuações e rompimentos entre os filósofos, a formação de linhas de pesquisa e a formulação de uma série de novos problemas que perduram até os nossos dias. Portanto, poderíamos dizer que, se por um lado o conceito possui uma história, por outro ele possui um devir (DELEUZE; GUATTARI, 1997c, p. 17) através do qual ele se repete sob a condição de se diferenciar. Entretanto, como ressalta Sílvio Gallo (2000, p. 55) não podemos pensar que

[...] a história do conceito é linear, ao contrário, é uma história de cruzamentos, de idas e vindas, uma história em ziguezague, enviesada. Um conceito se se alimenta das mais variadas fontes, sejam filosóficas sejam de outras formas de abordagem do mundo, como a ciência e a arte.

Isso só é possível pois a filosofia se compõe de diversos plano sobrepostos e justapostos. O conceito constitui a menor unidade do plano, às filosofias singulares corresponde um segundo nível de contração, os blocos históricos ou a-históricos que reúnem filósofos em problemáticas comuns e abstratas, implicam um terceiro nível; ao conjunto de todos os níveis somados dá-se o nome Plano de imanência. Poderíamos ainda acrescentar um

último Plano, a Terra, o conjunto de todos os corpos e estratos, físicos, químicos, biológicos, antropológicos e linguísticos. Voltaremos a essa questão na sequência. O que se deve aprender aqui é que toda filosofia fabrica e se desenrola sobre um Plano de imanência “[...] sobre os qual são gerados conceitos”. (GALLO, 2000, p. 57).

Por fim, o conceito mantém uma relação de imanência com o caos. A filosofia, a ciência e a arte recortam o caos, cada qual a seu modo, e o utilizam como matéria do pensamento. O caos é, portanto, o fora da filosofia, mas um fora que se inscreve no seio do pensamento, ele é o substrato que reúne todas as diferentes formas de pensar em um estado de absoluta indeterminação. A realidade, nesse sentido, é produzida quando uma das três disciplinas apreende o caos: “Um conceito é um conjunto de variações inseparáveis, que se produz ou se constrói sobre um plano de imanência, na medida em que este recorta a variabilidade caótica e lhe dá consistência (realidade). (DELEUZE; GUATTARI, 1997c, p. 267)”. Talvez seja possível fazer um paralelo entre a distinção entre coisa em si, o fenômeno da filosofia kantiana e a distinção entre caos e realidade na filosofia da diferença. Para Kant somente o fenômeno, ou seja, a forma como as coisas aparecem para nós, pode ser conhecido, as coisas em si mesmas são ininteligíveis. Em O que é filosofia? o mundo e as coisas, o universo e o cosmo são compreendidos enquanto relações caóticas inapreensíveis de velocidade infinita, enquanto que a realidade, como se observa no trecho supracitado, é um produto das disciplinas que recortam o caos. A realidade é uma produção do conhecimento, um condicionamento do mundo em si mesmo. A analogia com Kant refere-se estritamente a essa questão e nenhuma mais.