9. RESULTADOS E DISCUSSÃO
9.1 Os Conselhos Locais de Saúde: composição, atividades realizadas e livros atas
9.1.2 Os conselheiros: ausências e desligamentos
A pesquisa realizada na França, por Gilles Monceau (2009), com representantes de pais de escolares em conselhos, revela uma diferença entre a quantidade de professores e de representantes, sendo a participação majoritária de professores. Esta investigação apresenta similaridades e divergência com os dados dessa pesquisa. Como divergência verificamos a presença equitativa na constituição do CLS e como similaridade identificamos a participação nas reuniões é diferenciada, com baixa
permanência dos usuários, considerando o período em que é eleito até o final do mandato, fato este, explorado ao longo deste subitem.
De acordo o decreto vigente sobre os CLS, a composição de membros deve ser paritária, no entanto, nos CLS investigados, ambos possuem 6 representantes da associação dos moradores, 4 representantes dos usuários, 10 dos servidores e 1 gerente, no início da gestão. Não condiz com o decreto, como mencionado no método da presente pesquisa. A justificativa para a inclusão de suplentes para os RU e RAM é justamente a questão do frequente desligamento e ausências. Na tabela a seguir relacionamos a quantidade e o motivo do desligamento:
Tabela 6 – Total de representantes dos usuários e da associação de moradores e os motivos dos desligamentos/ausências
CLS Código Número de participantes inicialmente Número de participantes atualmente Motivos CLS 1 RAM 3 Titulares 3 suplentes 1 Titular 0 suplentes Problemas de saúde RU 3 Titulares 1 suplente
1 Titular Mudança de cidade; Problemas pessoais; Agenda de trabalho CLS 2 RAM 3 Titulares 3 suplentes 2 Titulares 0 suplentes
Não especificado; Agenda de trabalho RU 3 Titulares 1 suplente 2 Titulares 0 suplentes Desmotivação; Problemas de saúde
Fonte: dados da pesquisa.
No CLS 1, um RU era suplente, mas devido ao pedido de desligamento do titular, passou a assumir a função. Verifica-se que, dos 10 RAM/RU, somente 2 estão participando das reuniões mensais. No CLS 2, do total de representantes, 4 permanecem frequentes nas reuniões do CLS, o dobro do primeiro CLS.
Um dos fatores observados, pode ser potente para a participação, principalmente dos RAM, é a atuação da AM ao qual estão vinculados. A AM pertence a área de
abrangência da UBS do CLS 1 não está desenvolvendo atividades. Já a outra AM está ativa e desenvolve atividades como, por exemplo, a revitalização de praças do bairro.
Em relação a participação dos servidores, a tabela a seguir demonstra o número de funcionários que participam das reuniões dos CLS.
Tabela 7 – Total de representantes dos servidores e os motivos dos desligamentos/ausências CLS Número de participantes inicialmente Número de participantes atualmente Motivos CLS 1 5 Titulares 5 suplentes 3 Titulares 3 suplentes
Horário do serviço; Demanda do atendimento; Transferência de local do trabalho CLS 2 5 Titulares 5 suplentes 1 Titular 1 suplente
Não tinha conhecimento da função; Demanda do atendimento.
Fonte: dados da pesquisa.
No CLS 1, o número de RS supera o número de RAM/RU, estabelecendo uma relação de 6 para 2, respectivamente. Entretanto, as reuniões são abertas à população, outros servidores são convidados a participar, sem poder de voto, mas podem contribuir com a discussão. Há um movimento contrário no CLS 2, sendo 2 RS e 4 RAM/RU.
Durante a investigação, por meio da observação, foi possível notar que o gerente da UBS (CLS 1) realiza a divulgação da reunião do CLS para todos os funcionários, fixando avisos no registro de ponto dos servidores e nos corredores da unidade. Também pede para os funcionários avisarem os demais antes da reunião. O gerente da UBS (CLS 2) faz o contato via telefone aos RAM e RU reforçando sobre a data e horário da reunião; não foi notado outro tipo de divulgação para os RS. Nota-se o movimento dos gerentes de lembrar os demais conselheiros sobre a data e o horário da reunião, priorizando os titulares. Este movimento demonstra uma preocupação com as reuniões.
A não participação da maioria dos suplentes é relacionada à própria questão da suplência, participação na ausência dos titulares. Todavia, a maioria refere não ser comunicado sobre participar na ausência do membro efetivo. Alguns suplentes informaram que a participação até o presente momento foi no dia da votação.
Um dos RS não sabia de sua condição de suplente, segundo o gerente da UBS, ele não foi avisado das reuniões por ser suplente.
Quando fui me apresentar e apresentar a pesquisa, ele fez uma cara de espanto ao saber que era suplente. A gerente demonstrou ficar um pouco desconcertada com a reação dele, e disse que não o chama para a reunião, porque ele é suplente (Diário de Pesquisa - 05/10/17). Em relação a ser suplente devido a indisponibilidade de tempo, quando indagados, dizem que aceitaram por não terem a responsabilidade e sentem-se tranquilos em relação a ausência nas reuniões devido ao aviso prévio da não disponibilidade e pelo fato dos suplentes participarem na ausência do efetivo.
Agora [neste mandato] por questão de tempo eu pedi para ser suplente, porque eu não tenho disponibilidade de participar de todas as reuniões, acontecem à tarde durante o período de expediente e muitas vezes eu estou trabalhando, estou atendendo um cliente eu não posso priorizar o conselho em detrimento do meu ganha pão (RAM 2 CLS 2).
[...] como eu não tinha uma responsabilidade, porque eu seria um suplente, se caso faltasse alguém, se desse algum problema, ele me chamaria e eu participaria. Então eu falei “não, se for dessa forma eu vou”, mas até hoje parece que ele não precisou de mim, então eu nunca fui (RAM 3 CLS 2).
A questão de ser suplente parece “isentar” o conselheiro da responsabilidade de estar presente em todas as reuniões e fica como um sujeito na retaguarda, aguardando ser solicitado e isto não ocorre, devido à valorização da presença do presidente e da necessidade do quórum para dar encaminhamentos. A título de exemplificação, citar as reuniões para dar seguimento nos ofícios de requisição de insumos à SMS.
Os demais RU e RAM aposentados não participam devido aos problemas de saúde, sendo um dos motivos de preocupação da gerência, como na fala:
[...] a [nome] está com problema de saúde e está afastada por ordens médicas, então me preocupa isso, hoje são as duas, amanhã vai ser a [nome]. O presidente da associação já não está vindo, eu fico com receio do conselho morrer por falta de participação social de conselheiros mesmo (Gerente CLS 1).
Os espaços legitimados nascem para um propósito. Entretanto, esses espaços poderiam deixar de existir quando não há, na atualidade, o uso? Goulart (2010) considera a participação dos usuários nos conselhos de saúde como recente e do modo
como está ocorrendo há muitos entraves, mas é melhor “qualquer uma” do que a inexistência deste espaço (GOULART, 2010, p.56).
O movimento de autodissolução ou denominado força de autodissolução, na AI, está presente em todas as instituições. Esta força pode ser invisível e está em constante contradição (LOURAU, 1993). Trata-se da capacidade de previsão da própria morte de um grupo e a partir disso, pode decidir sobre a extinção ou não do grupo, quando não exerce a função que lhe foi dada (BAREMBLITT, 2002), ou seja, o propósito para o qual foi criado (FORTUNA et al, 2014).
Em suma, os conselheiros foram desligados devido a problemas pessoais e de saúde. As ausências são de conselheiros suplentes que assumiram a função para compor o quadro de votação, sem o compromisso de estarem presentes nas reuniões e/ou atividades desenvolvidas pelos CLS devido ao tempo. Há o receio do CLS não ter mais representantes devido o possível movimento de autodissolução.