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Os Conselhos Comunitários e o Policiamento Comunitário

No documento Violência urbana (páginas 140-143)

4. VIOLÊNCIA URBANA E AS NOVAS PRÁTICAS DE GESTÃO

4.3 Novos Horizontes na Área da Segurança Pública

4.3.1 Os Conselhos Comunitários e o Policiamento Comunitário

A polícia brasileira é considerada como uma das mais ineficientes do mundo, pois aproximadamente 97% dos crimes de homicídio ficam sem solução, contra “30%

nos Estados Unidos e no Japão” (ZAKABI et al, 2005, p. 70), e diante do pequeno número de casos resolvidos há um incremento no sentimento de impunidade. É por isto mesmo que um dos grandes desafios dos gestores municipais está em “criar e fortalecer os mecanismos de

76 Magnoli (2005, p. 2), fazendo alusão à situação enfrentada pela população carioca, nos últimos tempos, menciona a descomunal força de persuasão dos grupos criminosos, em especial aos vinculados ao tráfico de drogas, junto à comunidade, dando como exemplo o depoimento de um pai de família, que diante da imposição dos traficantes de um toque de recolher aos moradores, salienta: “os bandidos ordenam e as pessoas obedecem.

Todo mundo sabe: quem manda na favela é o chefe”. A partir deste depoimento verifica-se in loco que ante a ausência de um Estado social e protetivo, surge um estado paralelo, que passa a exercer abertamente o seu poder sobre a comunidade.

A inexistência ou a inadequação de meios legítimos para realização as aspirações populares, relacionadas ao âmbito da justiça, fortalece ainda mais o mundo do crime (LATERMAN, 2000, p. 40-41), pois ao mesmo tempo em que deslegitima o primado do monopólio da violência por parte do ente estatal, estimula abertamente a práticas vinculadas a idéia de vingança privada, tornando os populares reféns dos grupos criminosos.

gestão compartilhada, facilitando a construção de parcerias entre os setores público e privado e a comunidade envolvida, visando a convergência de ações, cooperação, participação comunitária e atuação de longo prazo” (DA MOTTA, 2002, p. 4), a exemplo do que pretende ser estipulado através da implementação dos Conselhos Comunitários de Segurança, vistos como entes catalisadores de programas de policiamento comunitário.

Sob este lume “é imperativo que se reconheça que a primeira ação concreta de política pública, no campo do combate à violência e à criminalidade, se refere à polícia”

(ABRANCHES, 1994, p. 151), sendo que os fatores que levam à necessidade de se modificar o aparato coercitivo do Estado vão desde a sua comprovada inoperância em debelar a criminalidade em muitas regiões, perpassando pela questão da corrupção de alguns de seus membros e chegando a carência de uma maior valorização dos direitos humanos e respectiva relação com a comunidade. Contudo, o combate às reais causas da violência urbana também perpassa por uma atuação mais efetiva da comunidade no trato de seus problemas.

Diante da constatação de que a violência policial não é causada apenas pela arma que o policial porta, mas por todas as distorções e deformações que caracterizam a organização policial” (ABRANCHES, 1994, p. 153), ganha espaço um novo modelo de policiamento, que prima por estratégias de prevenção aliadas a redução da criminalidade a partir da focalização das “necessidades consideradas particulares de cada comunidade, nome dado tanto a cidades como a pequenos bairros” (ZALUAR, 2002, p. 16). Este novo policiamento prevê que o foco seja deslocado para as regras inerentes ao patrulhamento, incentivando a cooperação entre os moradores, estimulando a descentralização do comando por área, valorizando o treinamento e o recrutamento de policial de serviços e de civis,

“liberando os profissionais para as funções mais especializadas da investigação e do patrulhamento pesado” (ZALUAR, 2002, p. 16).

O novo policiamento não estaria restrito apenas às novas estratégias focadas em mudanças organizacionais, como na maior participação dos policiais nas reuniões dos Conselhos Comunitários de Segurança, como também numa mudança de valores em especial no que concerne a um maior respeito aos direitos humanos (incluindo, neste rol: as técnicas de interrogação, a conduta dos policiais nas comunidades atendidas, a readequação da idéia de vigilância, o combate ao racismo, dentre outros).

Como exemplo, poder-se-ia mencionar que o embrião deste novo modelo de policiamento relaciona-se à fundação da primeira polícia metropolitana, ocorrida em Londres, fruto da iniciativa de Robert Peel em 1829. Como a solução para vencer os altos índices de criminalidade e de corrupção policial (que culminavam com um temor generalizado da

população frente aos abusos cometidos pelas forças coercitivas). Peel defendia que a solução estaria na criação de uma “polícia uniformizada, mas desarmada, que privilegia os recrutas que possuíam laços com a comunidade, e cujas carreiras profissionais foram montadas a partir do patrulhamento a pé” (ZALUAR, 2002, p. 16).

Analisando-se os Estados Unidos, vislumbra-se que o governo norte-americano apostou num aumento na quantidade de viaturas e nas tecnologias dos armamentos pesados como forma de combater a criminalidade. Tais medidas fizeram com que os policiais fossem estigmatizados como “caçadores motorizados, temidos e odiados pela população”

(ZALUAR, 2002, p. 17). Nos EUA, as transformações em prol de uma maior humanização do aparato coercitivo do estado tiveram seu início na década de 70, diante da busca por uma maior aproximação entre as forças policiais e a comunidade. Tais estudos desmistificaram antigas crenças, que não mais se mostravam válidas, como:

aumentar o número de policiais não reduz necessariamente a taxa de criminalidade nem a de resolução de crimes; a patrulha motorizada aleatória tampouco, o patrulhamento intensivo numa área de fato diminui o crime, mas temporariamente, pois o desloca para outras áreas, os crimes mais assustadores não são resolvidos pelo policial de patrulha que gasta seu tempo prestando serviços variados ou apenas patrulhando; o tempo de atendimento não altera a probabilidade de prender suspeitos, pois esta cai 10% num minuto depois do crime cometido; os crimes são resolvidos com prisão em flagrante, mas também quando alguém identifica, anota placas, nomes, endereços, etc. (ZALUAR, 2002, p. 17).

Entre outras mudanças importantes, na maioria dos programas de Policiamento Comunitário existentes, as patrulhas feitas com viaturas são substituídas pelo patrulhamento feito a pé (DINIZ, 2004, p. 2). Neste estilo de policiamento, de acordo com Barkan (1997 apud DINIZ 2004, p. 3), a polícia atua de forma bastante próxima com os residentes dos bairros em várias atividades direcionadas a redução do crime, como programas voltados para os jovens (lazer, educação pós-escola, primeiro emprego, etc.) ou mutirões para a limpeza e conservação de determinadas áreas deterioradas. Pois segundo o Coronel PMMG Rômulo Berbert Diniz (2004, p. 2).

na pior das hipóteses, mesmo que tais projetos não venham a contribuir significativamente para a redução da criminalidade nos grandes centros urbanos, eles podem implicar num novo patamar de relacionamento entre a Polícia e a comunidade, contribuindo para a melhoria no relacionamento entre ambos, o que já não é pouco, vez que a população, atualmente, desconfia da Polícia, tendo muitas vezes, como apontaram diversas pesquisas de opinião, mais medo dela do que dos próprios criminosos.

4.4 Experiências Municipais de Segurança Pública Baseadas em Fóruns Participativos

No documento Violência urbana (páginas 140-143)