Com a descrição do comportamento do fenômeno na amostra, constatou-se que, em síntese, a estratégia de retomada por um objeto nulo, largamente di- fundida entre os falantes brasileiros (de acordo com a literatura da área) foi predominante somente entre os dados das entrevistas sociolinguísticas (45%), único gênero representativo de uma oralidade prototípica na amostra analisa- da, embora a variante tenha ocorrido também nos demais gêneros. A retomada com um SN anafórico, por sua vez, demonstrou uma frequência expressiva de uso na maioria dos gêneros observados, à exceção justamente das entrevistas sociolinguísticas, nas quais foi a estratégia menos utilizada (10%). Isso permite relacionar tanto o emprego do objeto nulo ao contexto de modalidade oral como o uso do SN anafórico ao contexto de modalidade escrita. Esta variante,
no entanto, atingiu seus maiores índices entre as notícias, anúncios, crônicas e tirinhas, ao passo que os editoriais, artigos científicos e teses/dissertações acadêmicas, gêneros escritos que pressupõem um maior grau de planejamento linguístico, revelaram o uso predominante do clítico acusativo. Dessa forma, entende-se que o objeto nulo se mostra representativo da oralidade em opo- sição aos objetos expressos SN e clítico, associados, portanto, à modalidade escrita.
A estratégia com pronome lexical ocorreu em nossa amostra exclusiva- mente nos dados de entrevistas, especialmente as sociolinguísticas (30%2), não
sendo verificado qualquer uso da variante nos demais gêneros, o que permite relacioná-la simultaneamente ao domínio da oralidade e ao contexto de menor grau de planejamento/monitoração linguística. O clítico acusativo, por outro lado, atingiu seu ápice de produtividade nos gêneros escritos que implicam um mais alto nível de planejamento em sua construção (editoriais, artigos cien- tíficos e teses/dissertações acadêmicas). Neste caso, considera-se para estes gêneros um maior grau de planejamento linguístico dada, entre outros quesi- tos, a demanda de tempo para a (re)formulação de seus textos, frente a outros gêneros escritos que, em tese, exigiriam um período de planejamento mais curto, como as notícias e os anúncios, por exemplo. Esse comportamento con- duz a uma associação entre o uso dessa variante e os contextos de modalidade escrita e de maior monitoração linguística, de modo concomitante e contrá- rio ao comportamento da variante pronome lexical. Assim, essas variantes se mostram particularmente influentes no que tange ao registro mais ou menos monitorado de uso da língua, enquanto aquelas (objeto nulo e SN anafórico) parecem atuar maiormente no que difere suas modalidades oral ou escrita.
O Quadro 1 abaixo sintetiza os traços do fenômeno relacionados aos dife- rentes contextos do compósito modalidade oral/escrita e registro mais ou me- nos monitorado de uso da língua, tal como identificados a partir dos resultados da análise realizada.
2 Ainda assim, o pronome lexical alcançou menos de 50% de uso nesse contexto, o que provavelmente remete ao “paradoxo do observador” (LABOV, 2008 [1972]) envolvido nas entrevistas sociolinguísticas. Estima-se que a frequência de uso dessa variante deva aumen- tar conforme diminui o nível de atenção dada à fala. No entanto, ressalta-se a dificuldade de coletar e analisar gêneros de fala ainda mais espontânea, dos quais não dispomos em nossa amostra.
Quadro 1 Traços do acusativo anafórico de 3ª pessoa conforme contextos do compósito modalidade e registro de uso da língua
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Pode-se notar, portanto, certa simetria no comportamento das variantes do fenômeno no corpus em questão. O objeto nulo e o SN anafórico compor- tam-se de maneira oposta, sendo o objeto nulo representativo da modalidade oral e o SN anafórico mais característico da modalidade escrita, ao passo que o clítico acusativo e o pronome lexical apresentam um comportamento tam- bém em oposição, porém relativo ao nível de planejamento dos gêneros, e não apenas à modalidade de uso da língua: o emprego do clítico remete a uma associação entre a modalidade oral e o registro mais monitorado, e o uso do pronome lexical pressupõe uma associação entre a modalidade oral e o regis- tro de menor monitoração linguística.
Em vista disso, optou-se por estabelecer, em caráter experimental, os seguintes critérios para a formulação dos continua de gêneros textuais da amostra. Para o continuum de oralidade-letramento, propôs-se identificar os gêneros em que sobressai o traço [+nulo], os quais serão característicos, por conseguinte, de maior oralidade. Em outras palavras, os gêneros que revelam maior probabilidade de uso do objeto nulo determinarão os pontos mais orais do eixo fala-escrita. Para o continuum de monitoração estilística, a maior pro- babilidade de uso do clítico acusativo definirá o caráter mais monitorado do gênero, sendo considerados menos monitorados, aqui, os gêneros que apresen- tem menor probabilidade de uso do clítico3. Com esse propósito, observaram-
-se os resultados em pesos relativos obtidos com a rodada de clítico acusativo
versus demais variantes no programa Goldvarb X, já explicitados na Tabela
2, e realizou-se nova rodada, controlando o objeto nulo versus as variantes 3 Constatou-se que o nível de monitoração linguística incide diretamente sobre a probabili- dade de uso do clítico acusativo, haja vista a ocorrência ínfima da variante pronome lexical no
corpus, o que, em certa medida, demonstra o caráter mais escrito e até mesmo mais monitora-
expressas SN anafórico e clítico acusativo4, cujos resultados são expostos na
Tabela 3 a seguir.
Tabela 3 Aplicação das variantes objeto nulo x objeto expresso (SN e clítico)
A partir desses resultados, não surpreende que as entrevistas sociolinguísticas se caracterizem como o gênero de maior oralidade, com peso relativo .96 de favorecimento ao emprego do objeto nulo. Como segundo gênero mais oral, entretanto, aparecem os anúncios, que, embora propriamente escritos, demonstram forte probabilidade de carregar traços da oralidade, favorecendo o uso da categoria zero com peso relativo .81. Na sequência, encontram-se as entrevistas impressas e as tirinhas também como gêneros representativos da modalidade oral, com pesos relativos .70 e .69, respectivamente. Em ordem, os gêneros mais escritos da amostra foram as crônicas, que desfavoreceram o objeto nulo com peso relativo .16, os artigos científicos; as teses/dissertações e as notícias, com pesos relativos .33, .35 e .37 de desfavorecimento à categoria zero; e os editoriais e cartas de leitor, que desfavoreceram o uso dessa variante com peso relativo .45. Dessa forma, é possível visualizar o seguinte continuum 4 Nesta etapa, foram eliminados os dados de pronome lexical, já que esta variante é também associada ao contexto de modalidade oral, com a particularidade de pressupor, com base nos critérios aqui estabelecidos, uma oralidade menos monitorada. Por esse motivo, exibe-se o total de 230 dados na Tabela 7, em lugar de 238, que foi o total de dados geral do corpus.
de oralidade-letramento (figura 1) referente ao comportamento do acusativo anafórico de terceira pessoa na amostra aqui investigada:
Figura 1 Continnum de oralidade-letramento dos gêneros da amostra
No que se refere à monitoração estilística dos gêneros, o editorial se re- velou como o gênero de mais alta monitoração, com peso relativo .96 de fa- vorecimento ao emprego do clítico, seguido pelos artigos científicos e teses/ dissertações acadêmicas, com pesos relativos .76 e .72, respectivamente. As cartas do leitor e as notícias demonstraram também o traço de gêneros mais monitorados, favorecendo o uso do clítico com pesos relativos .71 e .53. No entanto, cabe mencionar o provável processo de (re)edição que deve nortear a produção dessas cartas de leitor até sua efetiva publicação nas revistas, o que provavelmente influencia esse favorecimento de .71 à estratégia de maior prestígio social. Na contramão desse processo, encontram-se as entrevistas sociolinguísticas e jornalísticas, os anúncios, as tirinhas e as crônicas, que des- favoreceram o uso do clítico, nesta ordem, como pesos relativos .07, .22, .26, .37 e .435:
Figura 2 Continnum de monitoração estilística dos gêneros da amostra
Como se pode observar, os gêneros distribuídos ao longo dos continua de oralidade-letramento e monitoração estilística naturalmente se encontram em determinados pontos, mas podem se diferenciar em outros. Ressalta-se, pois, que o entendimento de maior ou menor monitoração estilística, aqui, considera apenas a maior ou menor probabilidade de uso do clítico acusativo, como critério estabelecido, o que não esgota as reais influências que atuam na composição do nível de formalidade das diversas situações comunicativas. A separação dos continua de modalidade e registro foi assim realizada na tentati- va de ilustrar seus “macropontos” de encontro e seus eventuais desencontros, em decorrência das particularidades da cada gênero. Dessa forma, há grupos de gêneros que refletem o extremo mais oral e informal dos continua – as en- trevistas sociolinguísticas e impressas, os anúncios e as tirinhas – e outros que se encontram no extremo oposto, caracterizando-se como gêneros mais escri- tos e mais formais – os artigos científicos e as teses/dissertações acadêmicas.
Em função dos critérios estabelecidos para a formulação dos continua, os editoriais, particularmente, não se enquadraram exatamente no extremo de maior letramento em nossa amostra, embora configurem naturalmente um contexto de escrita. Ocorre que, nestes, não houve sequer uma ocorrência da variante SN anafórico – a que caracterizaria o contexto de modalidade escrita –, fato que decorre, no entanto, da quase totalidade de uso do clítico acusa- tivo entre os dados do gênero (cf. Tabela 1), configurando-o como o extre- mo de maior formalidade em nossa amostra. Em contrapartida, as crônicas, por exemplo, embora situadas no extremo de maior letramento do continuum referente à modalidade, não atingiram um alto grau de formalidade em nossa amostra (a partir dos critérios aqui estabelecidos), ocupando o meio [–for- mal] do continuum de monitoração estilística. Tal condição parece razoável, no sentido de que as crônicas seriam um domínio de forte letramento, mas, ao mesmo tempo, de maior liberdade de escrita, com um caráter mais subjetivo e particular. Já os anúncios, por exemplo, apesar de serem literalmente escritos, podem sugerir certa intenção de interação e proximidade com o público, o que os relaciona às características da modalidade oral e à informalidade do registro de uso da língua.
Com base nesses resultados, propõem-se algumas orientações para o ensino do fenômeno, expostas na próxima seção.