Os diários na profissão docente

No documento O diário de bordo como instrumento de reflexão crítica da prática do professor (páginas 76-81)

2. ESCRITA DE PROFESSORES

2.2 ESCRITA DOS DIÁRIOS UM PANORAMA

2.2.2 Os diários na profissão docente

Nesse tópico apresentaremos as pesquisas relacionadas ao uso dos diários por professores que atuam na Educação Básica.

Esperança (2007) discute a escrita dos professores por meio dos chamados “diários de

docência”. Estes serviram de suporte para os encontros pedagógicos que aconteceram,

bimestralmente, em uma escola pública da periferia do município do Rio Grande, com professoras regentes de turmas dos anos iniciais do ensino fundamental, onde a autora atuava como coordenadora pedagógica20.

Por sugestão da coordenação pedagógica, em 2007, o grupo de professoras iniciou os

registros escritos de reflexões sobre a prática. Segundo a autora,

Os diários de docência se constituem em um instrumento capaz de orientar a reflexão coletiva nos encontros pedagógicos: indicando temas/problemáticas para aprofundamento que revelam dilemas e desafios experienciados pelas professoras nas diversas situações de aprendizagem. (2007, p. 2)

Tais encontros pedagógicos foram considerados espaços de formação docente e, por sua vez,

compreendidos como “processo contínuo e inacabado”. A discussão sobre os fundamentos e

as práticas de alfabetização e letramento predominou durante a formação e, por via de conseqüência, foi tema recorrente nos diários de docência. Segundo a autora, a recorrência da problematização sobre os processos de alfabetização por parte dos docentes explica-se pelo fato da escola atender alunos dos anos iniciais do ensino fundamental e, como se sabe, é nesse momento da escolaridade que se consolida a apropriação da leitura e da escrita, e pelo fato dos alunos das classes de alfabetização apresentarem um alto índice de repetência.

Esperança descreveu o percurso da produção dos diários e atestou a ampliação das reflexões das professoras em relação ao processo de apropriação da leitura e da escrita pelos alunos. A autora defendeu a ideia de que “a reflexão sobre a ação apresenta a possibilidade de

(re)significação das práticas pedagógicas.” (p. 5) Todavia, destacou também que, embora

tenha havido uma aceitação por parte das professoras para (re)pensar suas práticas e os desafios em sua atividade profissional, por meio dos registros escritos, inexiste, nos diários, um diálogo entre a experiência prática e a teoria, o que dificulta a compreensão dos processos educativos.

Esse é um ponto considerável também nos diários escritos no contexto de nossa pesquisa. Poucas são as referências feitas às teorias educacionais, embora as professoras estejam

constantemente em situações de estudo/pesquisa/discussões sobre as mesmas. A partir dessa constatação, algumas perguntas se evidenciam: no seu fazer diário, como as professoras relacionam suas ações a essas teorias? Onde fica (como fica) o movimento praxiológico, tão discutido no capítulo anterior? Como as teorias auxiliam na resolução dos problemas práticos da profissão? Se é certo (e eu acredito nisso) que as professoras formulam suas próprias teorias acerca de seu fazer, por que as mesmas pouco emergem de suas escritas reflexivas? Podem algumas formas de resolução dos problemas profissionais ser lampejos das teorias que fundamentam as professoras e que não estão explícitas para elas mesmas? Esses são questionamentos que me movem. A perspectiva de que muitas vezes os professores não se reconhecem como produtores de saberes/teorias relativos à própria profissão gera em mim uma angústia. Fico pensando em como poderemos nos tornar (como coletivo) exclusivamente responsáveis pelos aspectos inerentes a nossa profissão se muitos deles ainda são incógnitas para aqueles que a exercem? Como auxiliar os professores a assumirem sua docência de

maneira “completamente completa”? São os diários de bordo uma alternativa salutar para nos

acercarmos dessas questões?

Pecoits (2009) partiu da pergunta: que relações se estabelecem entre a escrita de diários por professoras, a equipe de trabalho da escola e a professoralidade de todos os envolvidos nesse processo, para desenvolver sua pesquisa a respeito dos registros das professoras e a constituição da professoralidade das mesmas. A autora aponta que a escrita dos diários não é a única maneira de formar os professores; que o processo de formação não está todo nas mãos dos professores, mas que os diários exercem um importante papel no que tange a apresentar os professores a eles mesmos. Como a própria autora esclarece,

Nesse contexto, a escrita diária (ou com outra periodicidade), sobre o que se vive, o que se escolhe, o que se tem dúvida, é uma ação que preserva o vivido, o escolhido, o acontecido, o pensado, o dito. O registro escrito pode – se assim resolvermos olhar para ele – preservar, dar visibilidade, guardar, iluminar nosso processo de formação. (p. 115)

Essa autora apresenta uma crítica contumaz em relação à classificação dos diários feita por Zabalza (1994). Segundo ela, não é necessário dizer se os diários são reflexivos ou esquemáticos, uma vez que ambos dão pistas sobre seus autores e seus processos. Permito-me aqui uma posição. Em alguns casos, as categorizações ou classificações são vistas com maus olhos por determinados pesquisadores. Acredito que muitas vezes elas não são fôrmas, onde tudo deva se encaixar. Mais do que isso, são alternativas que nos permitem pensar nos

problemas. A classificação apresentada por Zabalza é uma tentativa de nos indicar que geralmente os registros dos professores seguem esse caminho, mas que existe a possibilidade dessas categorias se entrecruzarem ou de surgirem novos caminhos – como a pesquisa de Zibetti apresentou. Não necessitamos redescobrir a roda todas as vezes que nos embrenhamos em uma pesquisa. Podemos contar com a colaboração dos que já percorreram essa trajetória e buscar a partir daí as nuances do inusitado.

Como resultados da pesquisa, a autora aponta o diário como: a) instrumento para a troca de experiências; b) subsídio para produzir encontros; c) subsídios para produzir outros documentos; d) possibilidade de autoformação. Esses são pontos condizentes com as análises e os resultados encontrados também pela nossa pesquisa. Os mesmos serão abordados no próximo capítulo de maneira mais aprofundada.

Sampaio (2008) nos apresenta uma pesquisa realizada a partir dos diários de aula produzidos pelas professoras da Educação de Jovens e Adultos, do programa SESC LER. Tomando como ponto de partida questionamentos trazidos pela prática de formadora/coordenadora dessas professoras, a autora se propõe a compreender que conhecimentos são esses produzidos pelas professoras e como eles se expressam por meio dos diários de aula. Conforme nos explica,

Mas, que tipo de conhecimento era aquele, como eu me relacionava com ele, que importância ele tinha nas ações de formação que eu planejava? Muitas questões importantes para o debate da áreas de educação e para a escola estavam ali: a relação professoras-coordenadoras; a autoria e a autonomia das professoras em relação a própria prática; a formação continuada de professoras; a cultura escolar; a relação entre teoria e prática; a valorização dos conhecimentos das professoras. (p. 16)

Os diários escritos pelas professoras serviam de instrumentos de formação, tanto para elas quanto para as coordenadoras/formadoras, uma vez que a maior parte das turmas do programa estava localizada em outros estados. As professoras redigiam diariamente seus diários e, de tempos em tempos, os enviavam para as formadoras na sede do SESC LER. Esses diários serviam a dois propósitos: em primeiro lugar, permitir o acompanhamento do trabalho realizado pelas professoras para as coordenadoras/formadoras que estavam no RJ e, em segundo lugar, possibilitar às professoras uma maneira de refletir criticamente sobre o que fazem. Ao longo da pesquisa percebeu-se que os relatórios serviam também aos objetivos de

registrar o desenvolvimento dos estudantes, funcionar como instrumento de análise e sistematização da prática, registrar a prática pedagógica de maneira a utiliza-la como

ponto de partida para a formação continuada, socializar as experiências, documentar a história do projeto. (p. 41/42)

Os principais objetivos do estudo eram valorizar o saber docente, a professora como produtora de conhecimento, o conhecimento produzido a partir da prática pedagógica e a consideração desta prática como um lugar de produção de conhecimento e aprendizagem. A pesquisadora desenvolveu o trabalho no sentido de ultrapassar aquilo que já sabia a respeito dos diários, procurando investigar sobre a reflexão das professoras e como o ato de escrever/refletir é constituído e construtor da autoria. Sampaio destacou alguns limites com os quais se deparou ao longo da pesquisa: a) o fato de que muitos registros eram só fragmentos das práticas; b) os limites da relação de poder, ou seja, o fato de escrever para a coordenação e não para si próprias gerou um movimento de tensão;

A autora apresentou ainda algumas considerações acerca da pesquisa realizada. Uma delas diz respeito às relações entre os sujeitos envolvidos no projeto e entre eles, os conhecimentos e os saberes construídos. Destaca o fato de como os profissionais envolvidos podem aprender – e têm de fato aprendido – com a escrita de seus relatórios, aprendizagem essa que ultrapassa em muito a perspectiva inicial de formação dos professores. Ela apontou que os relatórios das professoras foram instrumentos para a sua própria reflexão e aprendizagem. Por fim, a autora indica que as maiores aprendizagens da pesquisa dizem respeito à: 1) relação com a escrita (sua, de suas colegas coordenadoras, das professoras) que é marcada pelas relações de poder, de conformidade, mas também com a possibilidade da ousadia e do enfrentamento; 2) relevância do diálogo. Durante todo o trabalho este ponto ficou amplamente em evidência, seja pelo forma como as professoras produziam seus registros, seja pela forma como as

coordenadoras liam esses registros, sejam pela forma como “conversavam” entre si e com os

relatórios.

Os aspectos relacionados com a intenção da escrita dos diários de bordo e com o diálogo possível por meio dele – primeiro da sugestão dada às professoras para fazê-los, depois da leitura que deles fiz, depois de quando se tornaram objetos de pesquisa –, como abordados por Sampaio (2008), também são aspectos que marcam a mim profundamente. Ao mesmo tempo em que tento não relevar tanto o fato de que esta escrita dos diários pode ser determinada pela minha posição de coordenadora, sei que não há como desconsiderar essa variável completamente. Faço minhas as angústias da autora, quando diz que ser pesquisadora envolvida de maneira tão contundente com o objeto de pesquisa, abrir-se para dele apreender

todos os sentidos possíveis, é como saltar de bungee jump, há o risco do salto, mas há a

alegria de se sentir intensamente viva, “educadoramente” viva.

No documento O diário de bordo como instrumento de reflexão crítica da prática do professor (páginas 76-81)