2.1 A COOPERAÇÃO INTERNACIONAL NO QUADRO
2.2.4 Os direitos sociais como direitos humanos de
será necessário desenvolver a construção dos direitos sociais para perceber que tal dimensão dos direitos exige e, ao mesmo tempo, promove a solidariedade entre as pessoas e entre os povos. Também será necessário construir o conceito de acesso à justiça no quadro dos direitos humanos.
Ao analisar o fundamento dos direitos humanos, Norberto Bobbio afirma que não há como sustentar um fundamento único e absoluto, entre outras razões, porque os direitos humanos são uma construção histórica de importantes nuances. Uma vez que são direitos
54 Esses tratados internacionais serão investigados no segundo capítulo desta tese, que se debruçará sobre o direito internacional positivo.
historicamente construídos, os direitos humanos articulam valores que, se forem considerados de maneira absoluta, acabam por impedir a efetivação uns dos outros:
[…] historicamente, a ilusão do fundamento absoluto de alguns direitos estabelecidos foi um obstáculo à introdução de novos direitos, total ou parcialmente incompatíveis com aqueles. (...) a oposição quase secular contra a introdução dos direitos sociais foi feita em nome do fundamento absoluto dos direitos de liberdade. O fundamento absoluto não é apenas uma ilusão; em alguns casos, é também um pretexto para defender posições conservadoras (BOBBIO, 2004, p. 22). Tema essencialmente histórico, os direitos humanos se construíram em diferentes gerações, ou dimensões55. É possível identificar, segundo Bobbio, três dimensões que surgiram sucessivamente, mas que não se substituem, não mitigam as anteriores, tampouco são separáveis. Ao contrário, as três dimensões dos direitos humanos convivem de modo interdependente e suas distinções impõem aos Estados, e aos intérpretes das constituições imensos desafios para a sua concretização.
A primeira dimensão se insere no contexto do iluminismo e das revoluções burguesas do século XVIII. Ela corresponde à reivindicação pelas liberdades públicas e pelos direitos políticos, com uma diminuição da interferência do Estado na esfera privada no indivíduo. Esses direitos de primeira geração se opunham à concentração de poder no Estado, reivindicando a liberdade (BOBBIO, 2004, p. 42).
À segunda dimensão, por sua vez, correspondem as reivindicações proletárias por intervenção estatal para a realização dos direitos sociais e por legislações protetivas aos trabalhadores, pobres e hipossuficientes. Esta dimensão se originou notadamente a partir do século XX, tendo como marcos inaugurais as constituições do México
55 A perspectiva dimensional dos direitos humanos suplantou a perspectiva geracional. Nesta perspectiva, utilizada por Bobbio, os direitos humanos eram classificados segundo categorias históricas independentes, o que poderia sugerir, equivocadamente, a ideia de sucessão entre os direitos ou a supremacia de alguns sobre os demais. Na perspectiva dimensional, adotado nesta tese, os direitos humanos são indissociáveis, indivisíveis, universais e atemporais, convivendo todos juntos na contemporaneidade, sendo que o desafio da sua implementação também se dá de forma conjunta. (SARLET, 2001, p. 49).
(1917) e de Weimar (1919). Os direitos econômicos e sociais se traduzem no agir estatal, através de programas de ação governamental e de políticas públicas (BOBBIO, 2004, p. 58).
Finalmente, à terceira dimensão de direitos humanos corresponde o contexto da globalização e o enfrentamento de desafios globais, que implicam direitos intergeracionais sem titulares definidos, como o direito ao meio ambiente sadio e equilibrado, a autodeterminação dos povos e o direito à paz, entre outros (BOBBIO, 2004, p. 66). Esta terceira dimensão traduz os direitos de fraternidade.
O desenvolvimento tecnológico deu guarida para o incremento de novos direitos. Nesse sentido, “o nascimento, e agora também o crescimento, dos direitos do homem são estreitamente ligados à transformação da sociedade, como a relação entre a proliferação dos direitos do homem e o desenvolvimento social o mostra claramente” (BOBBIO, 2004, p. 73).
Em muitos países, como o Brasil, o comprometimento com a realização de direitos humanos não se esgota no plano doméstico. Também no plano internacional o país se compromete a contribuir para a efetivação de direitos, seja para aumentar a efetividade dos direitos internamente, seja para o fazer alhures. É nesse sentido que o art. 4° da Constituição Brasileira enuncia, entre os princípios que regem suas relações internacionais, a cooperação entre os povos para o progresso da humanidade.
No plano internacional a positivação dos direitos humanos de primeira e segunda dimensão se deu de forma conjunta na Declaração Universal dos Direitos Humanos, de 1948. Por outro lado, tal positivação se deu de forma apartada a partir dos dois pactos de 1966. O Pacto de Direitos Civis e Políticos se refere a auto-aplicabilidade desses direitos, enquanto que o Pacto dos Direitos Econômicos, Sociais e Culturais compromete os Estados apenas a uma progressiva efetivação dos direitos que estabelece, na medida das possibilidades destes países. Na lição Flávia Piovesan:
[…] enquanto os direitos civis e políticos são auto-aplicáveis, na concepção do Pacto os direitos sociais, econômicos e culturais são programáticos. São direitos que demandam aplicação progressiva, já que não podem ser implementados sem que exista um mínimo de recursos econômicos disponível, um mínimo standard técnico - econômico, um mínimo de cooperação econômica internacional; especialmente, não podem ser implementados sem que representem efetivamente
uma prioridade na agenda política nacional. Para o Pacto, a implementação progressiva dos direitos sociais, econômicos e culturais reflete o reconhecimento de que a realização integral e completa desses direitos, em geral, não se faz possível em um curto período de tempo (PIOVESAN, 2011, p. 169).
No entanto, essa pretensa primazia de uns direitos sobre os demais está superada, sendo que os direitos de segunda geração são autênticos e verdadeiros direitos fundamentais:
Acredita-se que a ideia da não-acionabilidade dos direitos sociais é meramente ideológica e não científica. É uma pré-concepção que reforça a equivocada noção de que uma classe de direitos (os direitos civis e políticos) merece inteiro reconhecimento e respeito, enquanto outra classe (os direitos sociais, econômicos e culturais), ao revés, não merece qualquer reconhecimento (PIOVESAN, 2011, p. 174).
Assim, os direitos sociais são invocáveis e é ao Estado que cabe realizá-los. Essa função foi atribuída ao Estado durante o contrato social, quando os indivíduos abandonaram a autotutela e aceitaram a heteronomia por meio do Estado, que, por sua vez, tem o dever de fazer respeitar o direito vigente para todos.
A preocupação com os direitos sociais deve ser localizada no século XX, na transição de um estado liberal para um Estado social. Na sua concepção liberal, o Estado não deveria intervir na sociedade, atuando apenas na tutela dos direitos de primeira dimensão. Por outro lado, o Estado social idealizado pela constituição mexicana de 1917 se preocupava em equalizar as desigualdades sociais através da tutela dos direitos sociais, de segunda dimensão (DALLARI, 1998, p. 277). A partir daí se reconheceu o dever do Estado em matéria de direitos sociais, entre os quais se acha o direito de acesso à justiça. Esse dever se traduz em serviços a serem oferecidos pelo poder público no sentido de garantir uma igualdade de condições na hora do litígio judicial, indo desde a gratuidade do processo até a tutela de um prazo razoável.
Recorde-se que existem vários níveis de proteção de direitos: Que fique claro, uma coisa é a pretensão, mesmo que justificada com os melhores argumentos, outra coisa é a sua satisfação. À medida que as
pretensões aumentam, a sua proteção torna-se cada vez mais difícil. Os direitos sociais são mais difíceis de proteger do que os direitos de liberdade; a proteção internacional é mais difícil do que a proteção no interior do próprio Estado (BOBBIO, 2000, p. 483).
O tema específico do acesso à justiça será mais bem desenvolvido no segundo capítulo desta tese. Por ora, é importante afirmar que a efetivação deste direito é uma tarefa de toda a sociedade e, em primeiro lugar, do Estado.
Na doutrina de Mauro Cappelletti e Bryant Garth, o acesso a justiça é mais do que o acesso à jurisdição, mas o “acesso a uma ordem jurídica justa, que produzam resultados consentâneos, no tempo e no espaço” (CAPPELLETTI; GARTH, 2002). A partir disso, “há o rompimento do processo civil na sociologia jurídica, possibilitando trazer componentes aparentemente externos ao direito” como a preocupação com a desigualdade social e como ela impacta no sistema de justiça. Corroborando com a mesma ideia, Boaventura Sousa Santos, afirma que o movimento do direito e da justiça, só faz verdadeiramente sentido no âmbito de uma revolução democrática mais ampla que envolva a democratização do Estado e da Sociedade, doméstica e internacionalmente (SANTOS, 2008, p. 09).
A expressão “acesso à justiça” aponta a finalidade básica do sistema jurídico, de ser um meio pelo qual as pessoas podem reclamar seus direitos, e decidir suas controvérsias sob a proteção do Estado. Portanto, este sistema deve ser acessível a todos e gerar resultados legítimos tanto no campo individual como no social.
Neste contexto, “o acesso à justiça pode ser encarado como, o requisito fundamental, o mais básico dos direitos humanos de um sistema jurídico moderno e igualitário que pretenda garantir, e não apenas proclamar os direitos de todos” (CAPPELLETTI; GARTH, 2002, p. 13). Assim, o acesso à justiça é a porta de entrada para a reivindicação de todos os demais direitos humanos. Neste diapasão:
O “acesso” não é apenas um direito social fundamental, crescentemente reconhecido; ele é, também, necessariamente, o ponto central da moderna processualística. Seu estudo pressupõe um alargamento e aprofundamento dos objetivos e métodos da moderna ciência jurídica (CAPPELLETTI; GARTH, 2002, p. 13).
Nessa perspectiva, o alargamento dos métodos da prestação jurisdicional passa por um alargamento espacial, a fim de conferir o acesso à justiça nas relações internacionais. Esse alargamento da “moderna ciência jurídica”, de matriz estatalista, necessita romper as fronteiras nacionais para dar conta das relações jurídicas com elementos de conexão internacional tão em voga na contemporaneidade.
Finalmente, a afirmação, entre os direitos humanos, dos direitos sociais – ou seja, a afirmação da dimensão social dos direitos humanos – confirma a importância do princípio da solidariedade como fecho de abóbada dos princípios éticos, conforme a lição de Comparato, anteriormente referida.
Após verificar, nessa revisão bibliográfica inicial, os fundamentos da cooperação internacional na filosofia política kantiana e no discurso dos direitos humanos, é importante pensar como realizar internacionalmente o princípio ético da solidariedade. A hipótese de trabalho é que a resposta está na cooperação internacional. Então, é necessário esclarecer os fundamentos da cooperação internacional no âmbito da teoria das relações internacionais. Isso permitirá a construção de uma utopia realista que dará fundamento para interpretar a cooperação internacional como manifestação do princípio ético da solidariedade.
2.3 A COOPERAÇÃO INTERNACIONAL NO QUADRO DA TEORIA DAS RELAÇÕES INTERNACIONAIS
Em um mundo aterrorizado pela hipercomplexidade, hiperconsumo, hiperinsegurança, é difícil sustentar um discurso de solidariedade e de cooperação, ao invés de recrudescer a desconfiança, a intolerância e a xenofobia56. Não obstante isso, o aumento das desigualdades e a perpetuação do sofrimento humano pela ausência das mínimas condições de vida digna em um mundo em vertiginoso aperfeiçoamento tecnológico é algo que não se pode aceitar (IANNI, 2007).
Diante desse quadro, as iniciativas de cooperação internacional têm se ampliado de maneira significativa desde o fim da Segunda Guerra Mundial, tanto quantitativa quanto qualitativamente, em função do surgimento de organizações internacionais e da própria formação de
56As expressões são de Gilles Lipovetski (2007, p. 14) e inserem-se na concepção desse autor sobre “sociedade hipercomplexa”. O autor refere-se a uma nova sociedade, que funciona por hiperconsumo e não por des-consumo.
parcerias diplomáticas. Entretanto, a cooperação ainda encontra desafios teóricos no âmbito das relações internacionais. Esses desafios devem ser superados a fim de se poder afirmar, verdadeiramente, existir um dever de cooperação internacional.
Assim, a proposta deste subcapítulo da tese é delinear a cooperação internacional como uma proposição idealista diante de uma leitura realista da atualidade. É neste sentido que o tema da cooperação internacional será relacionado com os diferentes paradigmas teóricos das relações internacionais delineados por Martin Wight e Hedley Bull57 para perceber que cada um desses três modelos permitem visualizar diferentes concepções acerca da cooperação internacional58. São dois os propósitos dessa empreitada. O primeiro é fundar um dever de cooperação internacional no âmbito da teoria das relações internacionais, e isso será possível através da teoria crítica. O segundo é estabelecer balizas para melhor compreender a cooperação jurisdicional quando se fizer a analise documental na segunda parte dessa pesquisa.
A fim de esclarecer os fundamentos da cooperação internacional na teoria das relações internacionais, partir-se-á da compreensão dos três paradigmas clássicos da teoria das relações internacionais. Primeiramente serão abordados os paradigmas hobbesiano-maquiavélico e o paradigma grociano, onde será verificado a dificuldade de sustentar um dever de cooperação internacional (2.3.1), diferentemente do paradigma kantiano (2.3.2). A partir dessa terceira tradição, será entendido como a ética se materializa nas teorias normativas das relações internacionais (2.3.3). Por fim será visto como essa tradição se insere no discurso da teoria crítica das relações internacionais a fim de poder afirmar que a cooperação internacional é um dever (2.3.4).
57
Segundo Hedley Bull, ao longo de toda a história do moderno sistema de estados três tradições doutrinárias têm competido entre si: a hobbesiana, ou realista, que considera a política internacional como um estado de guerra; a kantiana, ou universalista, que preconiza a atuação, na política internacional, de uma comunidade potencial; e a grociana, ou internacionalista, para a qual a política internacional ocorre dentro de uma sociedade de estados (BULL, 2002, p. 35).
58
“Cada uma dessas tradições incorpora uma grande variedade de doutrinas sobre a política internacional, entre as quais muitas vezes não há uma conexão estreita. Em cada época, cada tradição usa uma linguagem distinta, focalizando temas diferentes e exibindo preocupações próprias” (BULL, 2002, p. 36).
2.3.1 Do paradigma hobbesiano-maquiavélico ao paradigma grociano