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Os discursos sobre a sexualidade

No documento Dissertação Carina Versão final (1) (páginas 50-54)

CAPÍTULO II – SOBRE AMORES E ROMANCES

II. 5 Os discursos sobre a sexualidade

O “avanço da importância da sexualidade na sociedade ocidental, e a sua manifestação em várias facetas da mesma, tem levado várias pessoas a falar da sexualização da sociedade” (Giddens, 1992, p. 18). A sexualidade, assim posta, pode ser tanto entendida como a temática que envolve as relações sexuais, como discursos criados sobre a sexualidade. Em uma perspectiva foulcaultiana, dessa forma colocada, os discursos sobre a sexualidade são frutos da invenção da mesma, e fazem parte de diferentes processos próprios da formação, e consolidação, das instituições modernas. Nessa ordem, os discursos do sexo são utilizados como elementos de construção e de controle dos sujeitos (Cardoso, 2017).

Nessa perspectiva, o saber sobre o sexo, e o próprio falar sobre sexo, são ações que conferem certo poder a quem discursa, pois de certa forma é este indivíduo que no ato de fala detém a verdade sobre o sexo. Como visto anteriormente – no capitulo I – em relação aos regimes disciplinares, o controle sobre o sexo levou as instituições modernas a dissiparem certas verdades, não somente pelo controle sobre o ato sexual, mas também sobre a reprodução. São discursos, por exemplo, sobre a histeria do corpo feminino, da perversão e um certo segredo sobre a sexualidade infantil. Segundo Cardoso (2017, p. 18), na percepção de Foucault, sexo deve ser entendido como sexualidade – “enquanto um aspecto da identidade que, considera-se normativamente, todas as pessoas possuem, e que é fundamental para entender quem cada pessoa é realmente”.

Segundo Giddens (1992), o sexo é um “segredo” criado pelos textos que o repudiam e, ao mesmo tempo, por aqueles que o celebram. A própria confissão, vista como penitência no século XVIII, na modernidade passa a ser usada como procedimento pelo qual os sujeitos são estimulados a produzir discursos de verdade a respeito da sua sexualidade. Não se trata somente de dizer o que e como foi feito – o ato sexual em si – mas de reconstituir nele e ao

seu redor, os pensamentos e as obsessões que o acompanham, as imagens, os desejos, as modulações e a qualidade do prazer que o contém (Foucault, 2017). O exercício da confissão é capaz de produzir efeitos sobre o próprio sujeito (Giddens, 1992), como o autojulgamento e a culpa, pois, ao confessar-se, o sujeito que pronuncia estabelece uma normalidade para si, em uma espécie de “grelha de análise” para sua autocompreensão (Cardoso, 2010).

Para Cardoso (2010, p. 18), “a relevância da sexualidade como veredicto da identidade opera no contexto do dispositivo de sexualidade” e segundo o pesquisador, a definição de dispositivo “parece ser múltipla e flutuante”. Cascais (2009 apud Cardoso, 2017, p. 19), procura sintetizar o significado do conceito, e encontra em uma entrevista de Foucault um possível resumo do que é um dispositivo:

Aquilo que tento abranger sob este nome é, em primeiro lugar, um conjunto resolutamente heterogéneo que comporta discursos, instituições, arranjos arquitetônicos, decisões regulamentares, leis, medidas administrativas, enunciados científicos, proposições filosóficas, morais, filantrópicas, em suma: o dito, bem assim como o não dito [...]. O próprio dispositivo é a rede que se pode estabelecer entre estes elementos. Em segundo lugar, aquilo que eu queria incluir no dispositivo é justamente a natureza do laço que pode existir entre esses elementos heterogéneos. [...] Em terceiro lugar, por dispositivo, entendo uma espécie – digamos – de formação, que, num dado momento histórico, teve por função maior responder a uma urgência. O dispositivo tem, pois, uma função estratégica dominante.

As relações constituídas entre o dito e o não dito são uma estratégia dominante para base de um dispositivo; são estratégias de relações de força que sustentam tipos de saber e que são por eles sustentados (Cardoso, 2017, p. 20). Segundo Foucault (2017), a sexualidade é criada pelos discursos – da psicologia e da medicina; e ao se criar verdades até então inexistentes, cria-se também novas posições de sujeitos, entre as quais se constituem as relações de poder:

[...] a instância de dominação não se encontra do lado do que fala (pois é ele o pressionado), mas do lado de quem escuta e cala; não do lado do que sabe e responde, mas do que interroga e supostamente ignora. E, finalmente, esse discurso de verdade adquire efeito não em quem o recebe, mas sim, naquele de quem é extorquido. (Foucault, 2017, p. 70).

Nikolas Rose (1998) identifica o papel da psicologia – e as ciências psicológicas – na produção de sujeitos, e análise (e crítica) de seus comportamentos. As ciências psicológicas são consideradas tecnologias de subjetivação, que consistem em práticas que os indivíduos aplicam em si mesmos, e nos outros, em função de autodisciplina, autocontrole, e da própria felicidade. Essa dinâmica é movimentada por meio da tecnologia

da confissão, em que o sujeito compreende e se compreende e, se dá a compreender, ao mesmo tempo em que se sujeita a uma rede de autoridades que faz coincidir o sujeito que fala com aquilo que ele fala, inserindo o próprio em um regime de verdade (Rose, 1998).

A psicologia se expande ao se posicionar a favor da autonomia dos sujeitos, e como forma de atingir tal vontade. Segundo Cardoso (2017, p. 18), dizer que o horizonte de possibilidades para o indivíduo se amplia, não é o mesmo que dizer que o sujeito é dono e senhor de todas possibilidades; dessa forma, entender “que as ciências psy funcionam como tecnologias de subjetivação é também dizer que funcionam como formas de produção de conhecimento sobre esse objeto que elas mesmas criam, o sujeito contemporâneo individualizado, medicado e classificado”, e sexualizado.

A propagação e a popularização das ciências psy nas sociedades contemporâneas, ou seja, a “psicologização da sociedade” – atreladas a uma ideia de trajetória para a conquista de autonomia e felicidade – “nos leva a compreender as condições atuais da formulação de sujeitos” (Cardoso, 2017, p. 19), e o mesmo processo leva a um conjunto de conceitos que reduzem as inter-relações – entre elas, relações amorosas e sexuais – como elementos (e problemas) centrais a resolver.

Por isso, equipes de técnicos, sexólogos, e especialistas variados estão prontos para escavar o segredo que ajudaram a criar. O sexo é dotado de vastos poderes causais e parece influenciar muitas ações diversas. O próprio esforço dispendido na investigação transforma o sexo em algo clandestino, sempre resistente a observação despreocupada. Como a loucura, a sexualidade não é um fenômeno já existente, aguardando análise racional e correção terapêutica. O prazer erótico se transforma em “sexualidade” a medida que a sua investigação produz textos, manuais, e estudos que distinguem a “sexualidade normal” de seus domínios patológicos. A verdade e o segredo do sexo foram determinados pela busca e pelo acesso fácil a tais “descobertas”. (Giddens, 1992, p. 30).

Nessa lógica se insere o próprio objeto de estudo. O blog Casal Sem Vergonha conta com um arsenal de colaboradores que se posicionam como pseudoespecialistas sobre as temáticas do “sexo sem tabus” (e dos relacionamentos amorosos). O blog, ao ser identificado como um meio discursivo, integra-se ao dispositivo da sexualidade no momento em que tem como premissa expor, pensar, e discutir os tabus sobre o sexo nos dias atuais. Ao se apossar do tema “da sexualidade” para produção de seus conteúdos e textos, insere-se na ordem da produção de verdade sobre o sexo, ou o regime da verdade sobre o sexo – no lugar daquele que fala, mas também do que escuta. O blog é ao mesmo tempo tecnologia de subjetivação para aquele que o escreve e edita, como instrumento de verdade para aquele que o acessa e

lê. No próximo capítulo o esforço se concentrará em situar o objeto de estudo, bem como perceber o contexto em que o mesmo se insere.

No documento Dissertação Carina Versão final (1) (páginas 50-54)