2 A GEOGRAFIA E OS ESTUDOS SOBRE COMÉRCIO
2.2 OS ESTUDOS SOBRE COMÉRCIO E CONSUMO NO BRASIL
Os estudos sobre o comércio no Brasil, embora ainda em números reduzidos quando consideradas outras temáticas, apresentam reflexões teóricas e empíricas sobre o comércio e delineiam-se no sentido de analisar quais e como ocorrem as transformações e suas implicações no nível da estruturação do espaço urbano e as repercussões que provocam no tecido econômico e empresarial.
Dentre os estudos realizados no Brasil sobre o comércio e consumo, destaca- se o trabalho de Milton Santos, organizado ainda na década de 1970, que, ao analisar a economia urbana dos países subdesenvolvidos, elaborou uma teoria espacial na qual propõe de modo simplificado a existência de dois circuitos espaciais. Trata-se fundamentalmente de um circuito superior e um circuito inferior.
O circuito superior é o resultado direto da modernização tecnológica, é constituído por modernos, novos e/ou grandes empreendimentos: bancos, novas formas comerciais (redes de supermercados, grandes lojas, novos espaços comerciais), indústria de exportações, indústria urbana moderna, serviços modernos, atacadistas e transportadores.
Este circuito coexiste com o circuito inferior, formado por atividades ligadas ao setor popular da economia (pequeno comércio, bodegas, ambulantes, pequenos empreendimentos), os quais se situam parcialmente distantes dos avanços tecnológicos, da modernização e do grande capital. Este circuito está voltado, sobretudo, aos indivíduos que não se beneficiam ou se beneficiam parcialmente desses progressos e técnicas modernas e das atividades a eles ligadas. O circuito inferior é constituído, essencialmente, por serviços não modernos, fornecidos a varejo e pelo comércio não moderno e de pequena dimensão. Trata-se, nesse caso, de uma forma gerada pela situação do subconsumo, a qual, Pierre George se referiu em sua obra Geografia do Consumo.
Outra referência importante são os trabalhos desenvolvidos por Silvana Pintaudi, considerados um marco na discussão sobre o comércio na perspectiva da geografia crítica brasileira, quando discute a localização dos supermercados na metrópole paulista, Pintaudi (1981) superando as interpretações feitas até então pelos geógrafos clássicos e teoréticos sobre o comércio varejista na cidade. Ao discutir as estratégias locacionais dos supermercados na cidade de São Paulo, Pintaudi (2010) buscou ir além da aparência das formas e, evidenciando a partir dessa análise, a forte concentração financeira e territorial que a implantação desta forma comercial impôs no espaço da metrópole.
Prosseguindo seus estudos sobre a atividade comercial na metrópole paulista, Pintaudi (1989) estudou a implantação dos shoppings-centers, que embora voltadas para outro setor da distribuição de bens de consumo corrente, suas análises também evidenciaram a forte concentração do capital, nesse momento associado ao setor imobiliário e envolvendo fragmentos do território. A partir de então, Pintaudi (2010) se debruçou no estudo das formas comerciais no espaço urbano, procurando em suas discussões ir além da aparência das formas.
Entretanto, nas metrópoles contemporâneas, são observados novos padrões de localização da atividade comercial, marcados pela tendência de desconcentração espacial desta atividade, nos quais os critérios clássicos de centralidade geométrica
do abastecimento e de proximidade foram substituídos pela facilidade de circular e de estacionar veículos, que facilitaram a localização periférica das grandes superfícies comerciais, rompendo assim com a estrutura secular de comércio urbano marcado pela proeminência da área central, de modo que são observados novos equilíbrios entre o centro e as periferias.
Convém destacar ainda as pesquisas desenvolvidas no âmbito do Núcleo de Estudos em Comércio e Consumo (NECC/UNESP), coordenado pela professora Silvana Pintaudi, o qual desenvolve pesquisas sobre o comércio e o consumo na cidade como forma de contribuir para o conhecimento do espaço social que se produz e que é condição de reprodução das relações sociais. Dentre os principais trabalhos realizados se destacam as seguintes temáticas: as franquias (ORTIGOZA, 1997); os mercados municipais (RIGO, 1995); o comércio atacadista (CLEPS, 1997); os hipermercados (CLEPS, 2004); o comércio de 24 horas (SILVA, 2003).
Ainda no âmbito dos estudos desenvolvidos sobre o comércio e o consumo na geografia brasileira destacam-se as pesquisas realizadas por Susana Pacheco, professora da Universidade do Estado do Rio de Janeiro que coordena o Grupo Terciário de Estudos do Rio de Janeiro (GETER). No âmbito do GETER são priorizadas as discussões sobre as mudanças socioeconômicas produzidas pela economia de serviços nas cidades.
Ressalta-se também os trabalhos desenvolvidos por Castilho (2001), que abordam a relação entre comércio e turismo e seu rebatimento no processo de produção do espaço em Recife (PE); os estudos de Diniz (2004; 2011) nos quais analisa o pequeno comércio de bairro na cidade de Campina Grande (PB); o trabalho de Ortigoza (2010) sobre o desenvolvimento do consumo e seus impactos na produção do espaço urbano.
Cabe ainda ressaltar os estudos desenvolvidos por Gomes (2009), que desde os anos 2000, busca entender o terciário no âmbito da dinâmica urbana das cidades norte-rio-grandenses, com ênfase na região metropolitana de Natal e em pequenas cidades do Estado.
Diante desse quadro, compreende-se que a Geografia brasileira nos últimos anos tem apresentado importantes avanços teórico-metodológicos, decorrentes principalmente do esforço desses pesquisadores, que têm colocado na pauta dos estudos geográficos a temática do comércio e consumo, contribuindo assim para
construção de um leque atualizado de conceitos que buscam dar conta e/ou se aproximarem do entendimento da realidade.
O nosso trabalho insere-se nessa perspectiva de preocupações sobre o entendimento das mudanças pelas quais tem passado a atividade comercial nos últimos anos, principalmente no tocante à adoção de novas estratégias de gestão pelo comércio tradicional em pequenas cidades do Rio Grande do Norte, a partir da formação de redes associativistas, por meio das quais o pequeno comércio vem assumindo novos conteúdos inerentes ao meio técnico-científico-informacional.
Analisando as redes associativistas de comércio podemos colocar em evidência algumas das novas características que estão se processando nas pequenas cidades, pois se tem a compreensão de que a análise da atividade comercial possibilita a compreensão do espaço urbano e sua complexidade, bem como pode-se perceber as mudanças na sociedade, na estrutura urbana, e na evolução dos valores.
3 AS TESSITURAS DAS REDES ASSOCIATIVISTAS DE COMÉRCIO NO