• Nenhum resultado encontrado

Os factos provados

No documento 22 de fevereiro de 2022 (páginas 32-41)

1- A Autora e o Réu foram casados um com o outro sob o regime imperativo de separação de bens.

2- Por decisão proferida pela Conservatória do Registo Civil ... em 25 de Novembro de 2010, entretanto transitada em julgado, foi decretado o divórcio entre a Autora e o Réu.

3- Encontra-se descrito na Conservatória do Registo Predial ... sob o nº ...15, da freguesia ..., um prédio urbano, sito na Rua ..., ..., em ..., freguesia ..., concelho ..., composto por casa com cave para garagem, ... para comércio, ... para serviços e logradouro, com a área coberta de 459,62 m2, e área descoberta de 3.412,38 m2, e a área total de 3872 m2, inscrito na matriz predial urbana da União das Freguesias ..., ... e ... sob o artigo ...07, sobre o qual existe um registo de aquisição a favor do Réu e da Autora, com indicação de que seriam casados sob o regime de comunhão geral de bens, realizada através da apresentação nº 132, de 12-4-2013.

4- Por escritura de compra e venda, outorgada em 11 de Abril de 2003, no Cartório Notarial de ..., a fls. 38, do livro 203-E, II e EE venderam ao Réu, constando na escritura a indicação de que ele seria casado com a Autora no regime de comunhão geral de bens, um prédio rústico, sito em ..., freguesia ..., com a área de 3.872 m2, inscrito na matriz predial rústica da freguesia ... sob os artigos ...76 e ...77, descrito na Conservatória do Registo Predial ..., sob o nº ...15, da freguesia ....

2. O direito

2.1 Das nulidades

2.1.1- Omissão de pronúncia

Alega a Autora/Recorrente que o acórdão recorrido, na sequência do que se verificou com a sentença de 1.ª instância, não emitiu pronúncia acerca da compropriedade dos prédios urbano ...07 e rústicos ...76 e ...77, cometendo, com isso, a nulidade prevista no artigo 615.º, n.º1, alínea d), do CPC (ex vi do artigo 666.º do mesmo CPC).

A nulidade por omissão de pronúncia (nos termos do artigo 615.º, n.º1, alínea d), 1ª parte, do CPC, é nulo o acórdão quando “deixe de pronunciar-se sobre questões que devesse apreciar”) decorre da exigência prescrita no n.º2 do artigo 608.º, do CPC, nos termos do qual “O juiz deve resolver todas as questões que as partes tenham submetido à sua apreciação, exceptuadas aquelas cuja decisão esteja prejudicada pela solução dada a outras”.

Constitui posicionamento pacífico na doutrina e na jurisprudência quanto ao

sentido a dar ao termo legal “questões”, distinguindo-o dos “argumentos” ou

“razões” invocados pela parte, pelo que só a ausência de apreciação daquelas é determinante da nulidade em referência.

Igualmente tem vindo a ser uniformemente entendido que não há omissão de pronúncia sempre que a matéria tida por omissa ficou decidida, ainda que implícita ou tacitamente, no julgamento da matéria com ela relacionada.

Acresce que nada obriga a que o tribunal aprecie todos os argumentos invocados pelas partes, impondo-se apenas que indique a razão que serve de fundamento à decisão proferida.

A forma como a Recorrente coloca a questão do vício que imputa ao acórdão evidencia o equívoco sobre o qual constrói o seu posicionamento, uma vez que, não só não tem em devida conta o alcance a dar à expressão legal “questões”

ínsita na alínea d) do artigo 615.º do CPC, como descura um aspecto de ordem processual inultrapassável: o princípio do pedido, que tem consagração no artigo 3.º, do CPC.

Com efeito, começando por este último aspecto, as instâncias efectivamente não emitiram pronúncia quanto à “compropriedade” dos prédios rústicos identificados na petição sob os n.ºs ...76 e ...77. Porém, não o poderiam fazer pois nada foi pedido nesse sentido, conforme afirmou o acórdão recorrido ao pronunciar-se sobre a nulidade da sentença suscitada na apelação, “não foi pedida a divisão de dois imóveis, mas apenas de um, pois a A. (…) só pediu a divisão do prédio identificado no art. 3º da PI: só pede a divisão deste prédio e não de outro”.

Como já ensinava Manuel de Andrade, “o processo só se inicia sob o impulso da

parte, mediante o respectivo pedido”[1], cabendo ao autor o ónus de definir a sua pretensão, ou seja, formular o pedido na petição inicial (artigo 552.º, n.º1, alínea e), do CPC ), o qual baliza a intervenção do tribunal (artigo 609.º, n.º1, do CPC).

Sempre que o autor não exercite plena e eficazmente a sua pretensão[2], uma vez ultrapassada a fase processualmente adequada para colmatar a deficiência petitória através da ampliação do pedido (artigo 265.º, n.º2, do CPC), não pode o juiz, oficiosamente, suprir tal omissão.

Assim, sublinha-se, o tribunal a quo não emitiu nem podia emitir pronúncia acerca da “compropriedade” dos referidos prédios rústicos.

No que se reporta ao prédio urbano ...07, ao invés do que alega, o tribunal a quo conheceu da questão que lhe cabia tomar conhecimento, que de acordo com o pedido deduzido, se reportava à divisão do mesmo alegadamente em compropriedade das partes.

A acção de divisão de coisa comum destina-se a pôr termo à contitularidade de direitos reais (artigos 925.º, do CPC. e 1412.º, do Código Civil).

No caso, o acórdão recorrido considerou que os autos evidenciavam uma situação que não tinha cabimento no âmbito deste tipo de acção – que pressupõe a compropriedade da coisa a dividir -, uma vez que a edificação construída em terreno da exclusiva propriedade do Réu através de montantes suportados também pela Autora, não a fazia adquirir qualquer direito de (com)propriedade sobre ela[3].

Verifica-se, assim, que o tribunal recorrido apreciou a questão não tendo

concluindo, porém, no sentido pretendido pela Autora, situação que não tem cabimento nos vícios de decisão por omissão de pronúncia.

Não incorre, pois, o acórdão em nulidade por omissão de pronúncia, nem em qualquer outra, designadamente as previstas nas alíneas b) e c) do artigo 615.º do CPC, que a Recorrente se limita a enunciar sem proceder à sua concretização.

Ainda assim, sempre se dirá que tendo o acórdão recorrido feito consignar os fundamentos de facto e as razões jurídicas em que alicerçou a respectiva decisão[4], e não se verificando na construção lógica da mesma que a conclusão a que chegou devesse ser em sentido oposto/ou diverso da que resultaria face aos fundamentos nela indicados, não se vislumbra o cometimento de qualquer das alegadas nulidades.

2.2 Da manifesta inviabilidade da acção

Face ao alegado e peticionado, assente a realidade fáctica relevante e atento o que se impõe considerar como o adequado enquadramento jurídico a aplicar, o tribunal recorrido decidiu com acerto ao concluir pela manifesta improcedência da acção (ainda que não possamos acompanhar, em toda a sua extensão, a posição assumida no acórdão), pois que a causa de pedir invocada pela Autora não podia conduzir ao deferimento da pretensão que a mesma deduziu na presente acção.

Observou o acórdão recorrido a tal respeito:

- “No caso concreto, segundo o alegado na petição inicial, em causa está a construção de uma casa num terreno da exclusiva propriedade do R e essa

construção terá sido efetuada alegadamente com um empréstimo suportado pelo R e pela A durante o casamento em que vigorava a separação de bens.

Ora, assim sendo, não há compropriedade mas apenas o direito da A a compensação por benfeitorias.

O prédio em causa nunca adquiriria a qualidade de bem comum, dado que, por força de regra específica do regime de bens sobre que foi contraído o casamento das partes, tal imóvel é um bem próprio do R.

O terreno continuará, assim, a ser bem próprio, havendo lugar a compensação por benfeitorias realizadas (com a construção da moradia), em caso de dissolução do casamento por divórcio.”.

Este entendimento tem apoio em grande parte da jurisprudência deste STJ, que tem vindo a considerar que constitui benfeitoria, e não acessão imobiliária, a construção de um prédio urbano em terreno próprio do outro cônjuge[5].

Considerou, assim, o tribunal a quo que perante o regime de separação de bens que vigorava entre os cônjuges, não podendo a Autora ser considerada comproprietária do imóvel onde foi feita a construção, enquanto lesada (por ter, conjuntamente com o Réu, suportado os custos dessa construção), restava-lhe a possibilidade de peticionar a compensação pelo valor despendido a título de benfeitorias, não sendo a acção de divisão de coisa comum o meio processual adequado para o efeito.

Insurge-se a Recorrente invocando os seguintes argumentos:

- a interposição da presente acção decorre de determinação judicial proferida

nos autos de Inventário n.º 3/12.... (que correu termos na Secção Única do Tribunal Judicial ...), onde foi proferido despacho de improcedência (e considerado que o processo próprio a adoptar era a acção de divisão de coisa comum);

- a improcedência da presente acção conduz a um beco processual sem saída impedindo-a de ver reconhecidos os seus direitos, não tendo sido administrada a justiça no caso concreto;

- o acórdão recorrido é contraditório daquela decisão proferida nos autos de inventário, transitada em julgado, devendo, por isso a mesma a prevalecer, por força do disposto no artigo 625.º do CPC;

- os meios de prova fornecidos no processo imporiam que o tribunal concluísse no sentido de que a aquisição do prédio rústico, através da escritura de 11-04-2003, foi efectuada, por si e pelo Réu, em comum e partes iguais.

A argumentação em que a Recorrente alicerça a revista visando a revogação da decisão recorrida não pode ter acolhimento, porquanto:

- a decisão proferida nos autos de inventário (que julgou verificada a existência de erro na forma de processo absolvendo o Requerido, BB, da instância) não formou caso julgado no que toca aos fundamentos nela consignados quanto a considerar a acção de divisão de coisa comum o meio processual adequado para a Autora fazer valer a sua pretensão. Consequentemente, não é oponível no âmbito da presente acção, carecendo de cabimento processual a aplicação do disposto no artigo 625.º, do CPC;

- a circunstância de as partes estarem convictas, quando da aquisição do

imóvel, de que o regime de bens do casal era o da comunhão e de ser esse o regime que se fez constar da escritura de compra e venda e da inscrição registral, constitui factualidade infirmada no processo face à demonstração de que Autora e Réu eram casados sob o regime de separação imperativa de bens;

nessa medida, como foi já realçado na sentença há “um erro na inscrição de registo predial que se encontra realizada sob o prédio em causa”, tendo sido

“feita prova de um facto que permite elidir a presunção realizada pela inscrição de registo predial realizada sobre o prédio”;

- no regime de separação de bens inexiste um património comum do casal, sendo os bens próprios de um ou de outro cônjuge, ou titulados em compropriedade por ambos;

- a acção especial de divisão de coisa comum reporta-se unicamente às situações de compropriedade, não abarcando as referentes ao património comum de um casal, que consubstancia realidade jurídica diversa da compropriedade.

Assim sendo, não se verificando no caso uma situação de compropriedade, carece de justificação a pretensão de divisão de coisa comum.

O acórdão recorrido, porém, qualificou como benfeitoria a construção feita no terreno propriedade do Réu (na pendência do casamento com a Autora em regime de separação de bens).

Não acompanhamos tal entendimento pois a qualificação da construção de um imóvel no terreno como benfeitoria tendo em conta a natureza da figura[6]

mostra-se duvidosa.

Assim sendo, temos por melhor adequado o posicionamento que considera que, nestas circunstâncias (aplicação de dinheiro por ambos os cônjuges para a edificação de uma casa implantada em terreno que, embora apenas propriedade de um deles, foi construída na convicção de constituir património pertencente à comunhão conjugal, que se manteria e de que ambos iriam beneficiar), a compensação pela atribuição patrimonial da Autora, cuja causa jurídica se extinguiu pela dissolução do casamento, permite a aplicação da condictio ob causam finitam [7], podendo, pois, ser tutelada pelo instituto do enriquecimento sem causa.

Improcedendo, assim, na sua totalidade, as conclusões do recurso, há que confirmar o acórdão recorrido ainda que com fundamento não de todo coincidente.

IV. DECISÃO

Nestes termos, acordam os juízes neste Supremo Tribunal de Justiça em julgar improcedente a revista.

Custas pela Recorrente.

Lisboa, 22 de Fevereiro de 2022

Graça Amaral (Relatora)

Maria Olinda Garcia

Ricardo Costa

Sumário (art. 663º, nº 7, do CPC).

_____________________________________________________

[1] Noções Elementares de Processo Civil (1976), p 372.

[2] Mostrando-se inócua a alegação de factualidade da qual o autor não extraia consequência em termos de formulação de pedido.

[3]Entendeu ainda o tribunal a quo que tal situação apenas permitia à Autora o direito a uma compensação por benfeitorias, direito que não podia ser alcançado através da acção instaurada.

[4] Quanto ao dever de fundamentar as decisões que se impõe ao juiz por imperativo constitucional e legal, mostra-se pacificamente aceite na doutrina e jurisprudência que só a falta absoluta de fundamentação (fáctica ou jurídica) conduz à nulidade da decisão, não integrando tal vício, uma fundamentação deficiente que apenas pode merecer cabimento em sede de erro de julgamento.

[5] Acórdão do STJ de 30-04-2019, Processo n.º 5967/17.7T8CBR.S1, a que se poderá aceder através das Bases Documentais do ITIJ.

[6] Já que a benfeitoria destina-se a conservar ou melhorar a coisa - cfr. Vaz Serra, em anotação ao acórdão do STJ de 16-07-1974, RLJ ano 108, citado no acórdão deste tribunal de Acórdão do STJ acórdão de 16-02-2016, Processo n.º 3036/11.2TBVCT.G1.S1.

[7] Cfr. neste sentido o citado acórdão do STJ de 16-02-2016, bem como o de 13-04-2010, proferido no âmbito do Processo n.º 6025/05.2TBSXL.L1.S1, a que se pode aceder através das Bases Documentais do ITIJ. Na doutrina, Menezes Leitão, O Enriquecimento Sem causa no Direito Civil, Almedina, Coimbra, p 499, igualmente citado no acórdão de 16-02-2016 já referido.

Fonte: http://www.dgsi.pt

No documento 22 de fevereiro de 2022 (páginas 32-41)

Documentos relacionados