• Nenhum resultado encontrado

12 – Os filmes: dramatizando o Senhor e a Senhora

Quando esteve no programa Vitrine, da TV Cultura, em dezembro de 2002, Marcelo Rossi deixou algo suspenso no ar:

“Já entramos em tudo, Internet, rádio, TV. Faltava só um lugar, que é um sonho há três anos. E tem um diretor, que eu não posso te falar agora, que há três anos ele quer fazer algo religioso (...). Um filme religioso” (Entrevista concedida ao Programa Vitrine, ao jornalista Marcelo Taz, da TV Cultura, exibido em 18/12/2002).

Pelo exposto, via-se que a próxima investida do padre seria no cinema. Numa outra entrevista, Rossi destacou que um funcionário da Universal havia lhe dito “Padre, só falta o cinema”. Ao conversar com o então presidente da gravadora, Marcelo Castelo Branco, a proposta não vingou, pois a gravadora não tinha estrutura para filmagem no Brasil. Diante desse impasse, o religioso fechou contrato com a Sony e sua subsidiária, a Columbia Pictures. Juntamente com a nova gravadora, Marcelo Rossi pretendia produzir um longa-metragem sobre religião e evangelização no Brasil. E de fato, ele veio em 2003. O título é bastante sugestivo para um padre formado na Renovação Carismática: Maria, Mãe do Filho de Deus.

A produção é de Diler Trindade – que tem em sua cartela os filmes de Xuxa e Renato Aragão e busca a fixação de um cinema de grande público no Brasil – e dirigido por Moacy Góes. Foi orçada em R$ 6 milhões, contou com 63 atores, figurino de 400 peças e chegou a envolver 500 profissionais num dia de filmagem. A produtora realizou megaoperação mercadológica antes de apresentar o projeto ao padre. Passou dois anos estudando o filão de filmes com temas espirituais e formando grupos de discussão com católicos, especialmente carismáticos. As filmagens envolveram locações em dunas a 500 quilômetros de Natal e tiveram o apoio do Governo do Estado do Rio Grande do Norte, de prefeituras e do Exército (MARTHE e VALLADARES, Veja, 2003: 96-103).

A distribuição pela Columbia movimentou R$ 1,8 milhões e o lançamento teve megaoperação de marketing. A ofensiva incluía lançamento em dez capitais com o padre, além de sua participação em programas de TV. Tendo como co-produtor a Globo Filmes, o longa foi divulgado em programas como “Xuxa no Mundo da Imaginação” e a “Turma do Didi”. A Rede Vida exibia o trailer quatro vezes ao dia.

Além disso, a distribuidora negociou com o México e a Espanha a venda do filme, dublado pelo próprio padre (MARTHE e VALLADARES, Veja, 2003: 96-103).

Assim como as demais atividades artísticas, o padre não recebeu cachê. O contrato foi firmado entre a Columbia e o Terço Bizantino e previa que 50% do lucro obtido com a bilheteria seria destinado às obras sociais do Santuário. A partir de 10 de outubro de 2003, começou a ser exibido nas salas de cinema, alcançando a sétima maior bilheteria do cinema nacional desde 1995. Em menos de um ano, o filme se transformou num DVD, estrategicamente lançado no Dia das Mães, que também bateu recordes de vendas.

O filme focaliza duas épocas distintas e, ao mesmo tempo, aproximadas pela esforço para tornar os episódios bíblicos relativos a Jesus e Maria como plausíveis no quotidiano dos fiéis. O primeiro momento se passa num pequeno no Brasil contemporâneo. Maria Auxiliadora (Giovana Antonelli) deixa com o padre sua filha de sete anos (Ana Beatriz Cisneiros), enquanto vai ao hospital saber se a garota sofre ou não de grave doença. Para distrair a pequena, Marcelo Rossi lhe conta a história de Maria. A saga de Jesus é narrada de forma didática através da imaginação da criança. Nesse segundo momento, a mãe (Antonelli) de Joana é Maria e Jesus (Luigi Baricelli) é o mesmo moço que lhe dera um bombom no caminho da Igreja. Nas cenas com a menina, Marcelo Rossi interpreta a si mesmo e faz a narração. Na história bíblica ele encena o anjo Gabriel.

Embora distintos no tempo e no espaço, o filme intercala os dois momentos. Ao mesmo tempo em que conta a história à criança, mantém seus afazeres de vigários, presta auxílio espiritual numa cadeia e numa enfermaria de um hospital e recebe as visitas de seus pais e de Dom Fernando Gomes. As dores das duas Marias em relação ao sofrimento de seus filhos sãos aproximadas. Ambas são constituídas como modelos

ideais de obediência, fé e dedicação aos filhos. Maria, Mãe do Filho de Deus termina com o retorno de Maria trazendo o resultado do exame de saúde da sua filha. Emocionada, a mãe informa ao padre a cura de Joana, graça atribuída por ambos a Nossa Senhora. Ao final, Marcelo Rossi agradece a Deus pela graça concedida.

A incursão do padre Marcelo pelas telas não parou com o primeiro filme. Em 2004 é produzido o segundo longa, intitulado Irmãos de Fé. A produção e a direção são as mesmas do filme anterior, com um custo estimado em R$ 6,6 milhões, recursos advindos da lei de incentivos fiscais. Conta a vida do apóstolo Paulo de Tarso, judeu convertido ao cristianismo. Mostra cenas em que Saulo (depois Paulo de Tarso) persegue, aprisiona, tortura e assassina cristãos, sua conversão ao cristianismo e seus esforços evangelizadores.

A aproximação entre as histórias bíblicas e o quotidiano brasileiro é utilizada como estratégia de plausibilidade, como feito em Maria, Mãe do Filho de Deus. Novamente a intenção é enfatizar a importância da “ajuda espiritual” na solução de problemas. Se no primeiro filme a intercessão divina concebeu a cura a uma menina com suspeita de doença grave, em Irmãos de Fé a religião foi fundamental no resgate de um jovem infrator. O filme é iniciado com cenas de violência em São Paulo, quando dois menores fazem um seqüestro relâmpago de um casal da terceira idade. Após a prisão de Paulo, um dos menores, sua irmã vai ao encontro do padre Marcelo no santuário do Terço Bizantino. Após acolhimento, ambos se dirigem a uma unidade da FEBEM para visitar o menor preso. Padre Marcelo presenteia o menino com uma Bíblia. Após resistência, o jovem inicia a leitura do livro, especificamente da história da conversão de Paulo de Tarso. Aos poucos, essa história é narrada através de intercalações com a contemporaneidade. As duas histórias se cruzam. Padre Marcelo converterá o garoto Paulo, interno da Febem, assim como Jesus o fez com Paulo.

A produção cinematográfica do padre Marcelo Rossi não se diferencia das demais estratégias e bens simbólicos ofertados aos fiéis. Nos dois filmes até então produzidos é notável o propósito de mostrar a plausibilidade das histórias bíblicas. As realidades dessas histórias ambiciona atualizar o mundo cristão fazendo com que tais realidades apareçam como óbvias e que sucessivas gerações de indivíduos sejam socializados de tal modo que esse mundo seja real para eles (BERGER,1985). Maria, Mãe do Filho de Deus e Irmão de Fé se inserem num conjunto de práticas e rituais de legitimação específicos que mantêm a fé acima e além de sua sustentação básica por um meio social (BERGER, 1996).

Capítulo 3

Inovação e Tradição no pensamento do padre