Mapa 1 Região do chamado complexo malária-bromélia no sul do Brasil
2.2 OS ―GUARDAS TREPADORES‖ E O ARRANCAMENTO MANUAL
―Destruindo os gravatás protegeis a vossa vida e a do povo dessa cidade.‖177
A epígrafe escolhida para este subcapítulo são palavras utilizadas pelo redator do Relatório de atividades do SNM, relativo ao distrito com
sede no munícipio de Brusque, que abrangia ainda as cidades de Vidal
Ramos, Nova Trento, Tijucas e São João Batista, sobre as atividades referentes ao ano de 1960. Ao longo do relatório, seu autor, João Baptista Martins, como era de praxe em todos esses documentos, apresenta com minúcias os trabalhos realizados no distrito ao longo do ano a que se refere o relatório. Para referendar suas informações, o redator faz uso de mapas, quadros e tabelas explicativas, que elucidam ainda mais os serviços prestados e os resultados obtidos; e, para complementá-las, transcreve um texto de sua autoria sobre os gravatás, solicitando a apreciação da chefia da circunscrição, com o intuito de que, caso recebesse aprovação, fossem mimeografadas ou impressas, em torno de mil cópias, para posterior distribuição entre professores, ―a fim de que tenham conhecimento do habitat do anofelino, do perigo a saúde que representa e da necessidade de destruí-los‖.178 Em seu texto, de forma sucinta e de fácil compreensão, o autor ressalta características das bromeliáceas, chama a atenção para o fato de ser esta planta o criadouro dos anofelinos e descreve como ocorre o desenvolvimento do mosquito na água acumulada no tanque da planta. No que concerne à doença em si, faz apontamentos sobre: sua transmissão, o desenvolvimento do microrganismo no indivíduo e os sintomas apresentados pelo doente. Por fim, ressalta a importância da destruição dos gravatás nas árvores ou no chão e caracteriza a atividade como ―um dever que cumpre a todo o cidadão‖179
. Suas últimas palavras são as que se escolheu para abrir este subcapítulo.
Essas palavras nos dão a dimensão de como a bromélia foi considerada a vilã no que concerne aos surtos de epidemia de malária que, como visto, há muito assolavam o litoral catarinense, mas se
177 MARTINS, João Baptista. Departamento Nacional de Endemias Rurais. Circunscrição Santa Catarina, Setor Brusque. Relatório Anual de atividades da campanha contra a malária. Brusque, 1960.p.28.
178 Idem. 179 Ibidem. p. 30.
encrudesceram na década de 1940, apresentando ainda altos índices em algumas regiões no decorrer dos anos 50 e 60 do século XX. Mas, afinal, por que somente a partir da década de 1940 essa conotação tão negativa se abate sobre as bromeliáceas? A resposta para tal questionamento pode estar ligada aos conhecimentos que foram adquiridos acerca dos hábitos do vetor da doença, conhecimentos esses provenientes dos estudos realizados na referida década em diversas regiões do litoral catarinense.
No ano de 1943, o SNM iniciou uma série de pesquisas sobre os anofelinos no sul do Brasil. Procurando ampliar os conhecimentos acerca dos agentes etiológicos e dos vetores da malária, importantes entomologistas e malariologistas se deslocam para Santa Catarina e iniciam uma série de estudos e pesquisas. Cidades como Florianópolis, Blumenau e Brusque serviram de palco para tais estudos.
A Ilha de Santa Catarina foi o cenário para pesquisas entomológicas que se iniciaram no ano de 1943 e abrangeram as localidades do centro, do Ribeirão da Ilha e do Cacupé. As pesquisas se iniciaram, e os resultados obtidos em Florianópolis ratificaram o que há muito era apontado nos registros de internações e nos relatórios de saúde do estado: eram nas épocas de maior calor e umidade que a doença atingia seus maiores índices. Os pesquisadores assinalaram os meses de março, abril e maio como os de maior incidência da enfermidade. No período de observação, de julho de 1943 a junho de 1946, em Florianópolis e seus arredores, o número de casos de malária comprovados em laboratório foi: 163, em janeiro; subindo para 254, em fevereiro; 400, em março; e 600, em abril, período de maior incidência. A partir do mês de maio, os números entraram em declínio: esse mês apresentou 467 casos; junho, 204; julho, 138; caindo para 84, em agosto; e 79, em setembro. Os meses de outubro e novembro marcaram o início de uma nova ascensão, sendo registrados 84 e 114 casos respectivamente. Em dezembro, houve novamente uma pequena queda, sendo contabilizados 84 casos da doença. O Gráfico 2 demonstra tais informações:
Gráfico 2 - Demonstrativo do número de casos de malária por mês em Florianópolis (outubro de 1943 – dezembro de 1944)
Fonte: Revista Brasileira de Malariologia e Doenças Tropicais. v. XVIII, n. 3 e 4.p. 557 - 5579, jul./dez. 1966. p. 576
No gráfico 2, verifica-se o que já era apontado desde o final do século XIX e nas décadas iniciais do XX pelos documentos oficiais: a malária se fazia sentir mais fortemente entre o final da primavera até o início de outono, atingindo seu pico nos meses de verão. Toda esta
época se caracteriza, no litoral catarinense, pelo calor e pela alta umidade. Nesse período, a incidência dos mosquitos transmissores da malária aumentava, tornando-se iminentes os surtos epidêmicos nas áreas onde a doença era endêmica.
As descobertas científicas também elucidaram questões referentes aos agentes etiológicos, tendo as análises dos dados obtidos identificado três espécies de Plasmódios humanos enquanto responsáveis pelo desenvolvimento da doença no litoral catarinense: o P. vivax, o P.
malarie e o P. falciparum. Os estudos efetuados pelo SNM
demonstraram que;
O P. vivax, predomina ligeiramente sobre o P.
falciparum mantendo a endemia; o falciparum é o
principal responsável pelos recrudescimentos epidêmicos anuais e pelos surtos a longo intervalo. O P. malariae embora compareça, de modo geral, em menor escala que aqueles, aí se apresenta com maiores índices já encontrados no Brasil, chegando, em algumas localidades a predominar sobre as demais espécies.180
De acordo com os resultados obtidos sobre a incidência do Pl.
malarie em Santa Catarina, através da análise de amostras de sangue,
constatou-se sua presença, até dezembro de 1944, em 120 localidades do estado, distribuídas nos municípios de Florianópolis, Araquari, Biguaçu, Blumenau, Brusque, Gaspar, Indaial, Itajaí, Laguna, Nova Trento, Palhoça, Porto Belo, São Francisco, São José e Tijucas. Nesses municípios, os que apresentaram mais alta densidade deste Plasmodio foram: Tijucas com 55,0%, Palhoça com 21,7%, Florianópolis 8,6%, Biguaçu 7,6%, Brusque 5,8%, Itajaí 5,5% e São José 5,4%. Somente em Florianópolis, capital do estado catarinense, o Pl. malarie foi encontrado em 21 localidades: ―Armação, Barra do Sul, Cachoeira, Cacupé, Caicanga Caminho das Três Pontes, Canasvieiras, Florianópolis (sic: área central), Itacorubi, Lagoa, Morro da Cruz, Pântano do Sul, Ratones,
180 PINOTTI, Mário; RACHOU, René G.; FERREIRA, Mário O.Alguns aspectos epidemiológicos da malária no litoral sul do Brasil, em zona de transmissão por anofelinos do sub-gênero Kerteszia. In: Revista Brasileira de Malariologia e Doenças Tropicais. Homenagem a Renê Rachou. V. XVIII, n. 3 e 4, Jul – dez. de 1966. p. 619.
Ribeirão, Rio Tavares, Rio Vermelho, Saco Grande, Sambaqui, Santo Antônio, Sertão, Vargem Grande.‖ 181
No que tange à transmissão da doença, as investigações revelaram que, no caso de Santa Catarina, a incidência da malária apresentava uma particularidade: os insetos vetores da doença faziam parte dos anofelinos do subgênero Kerteszia. Estudos realizados nos locais onde a malária se manifestava, desvelaram que os criadouros preferenciais das espécies desse subgênero de mosquitos são as águas de chuva acumuladas em plantas conhecidas como bromélias ou gravatás, espécie típica da Mata Atlântica. Daí o fato de a malária transmitida pelo Kerteszia acompanhar as regiões de florestas tropicais do sul do Brasil. Através do Mapa 2 é possível identificar o Domínio da Mata Atlântica ou Bioma da Mata Atlântica no Brasil.182
181 FERREIRA, Mario de Oliveira; RACHOU, Renê G. Alguns dados sôbre a incidência do PL. Malarie no Estado de Santa Catarina. Revista Brasileira de Malariologia e Doenças Tropicais, v. 18, n. 3 e 4, jul./dez. 1966. p.554.
182 Vale destacar que, no Brasil, originalmente o Bioma Mata Atlântica espalhava-se por cerca de 1 milhão de km², restando atualmente apenas 17% deste total que encontram-se em pontos isolados. Ao longo do tempo, perturbações antrópicas como a exploração de madeira, a agricultura, a industrialização, a colonização, a pecuária, a urbanização e até mesmo o combate à malária, promoveram o desmatamento.