3. OS PROGRAMAS DE TRANSFERÊNCIA DE RENDA E A PROMOÇÃO DE IGUALDADE DE GÊNERO
3.2. OS IMPACTOS DO PROGRAMA BOLSA FAMÍLIA NA VIDA DAS MULHERES
Neste item procuramos elencar categorias, que segundo estudos causam impactos na vida das mulheres, estes iram contribuir para analisarmos, os ganhos e os impasses em relação a inserção da mulher do PBF. Para isso são destacados: a igualdade de gênero; a autonomia das mulheres e a inserção no mercado de trabalho.
A igualdade de gênero
Na operacionalização do Programa Bolsa Família, podemos perceber que uma intenção é promover a igualdade de gênero, pois o mesmo tem a mulher como prioritária para titularidade do benefício, no entanto, analisamos que essa igualdade é ilusória. Na verdade o que existe é um reforço às representações sociais de gênero, pelo fato de sobrecarregar a mulher, dando- lhes uma responsabilidade que não deveria ser somente delas, como os cuidados do âmbito doméstico. Não responsabilizando os homens pelos mesmos cuidados, podendo assim continuar tendo sua postura de irresponsabilidade diante da família. (SILVA; BARBOSA, 2009). A fala do presidente Lula durante a divulgação do Programa reforça essa percepção.
_ “Nós priorizamos dar o cartão para a mulher, porque achamos que a mulher age com mais responsabilidade diante da família. A mulher, ela tem tanta responsabilidade com a sua família, que se ela tiver um centavo e dez coisas para fazer, ela vai escolher o que melhor atenda os interesses dos seus filhos para cuidar”11.
De acordo com a revista Época on-line esta é a fala de Luiz Inácio Lula da Silva, presidente na época, em um programa de rádio. Devemos ressaltar
11
que, de acordo com a própria fala do ex-presidente, a titularidade do benefício é preferencialmente dada para as mulheres e não obrigatoriamente.
Mas que, no entanto, ficou bem claro que a mulher, melhor que o homem saberá dar o destino certo para o dinheiro. Isso também é percebido na sociedade de modo geral, que acredita que destinar o repasse financeiro as mulheres, mães de famílias significa um progresso, por acreditar que a mulher irá saber melhor do que os homens o destino empregar do dinheiro, por priorizarem as necessidades familiares, já que os homens poderão utilizar o recurso indevidamente, como por exemplo, com bebidas alcoólicas, cigarro, jogos entre outros, deixando a sua família em segundo plano. (SILVA; BARBOSA, 2009).
De fato podemos perceber através das experiências no campo de estágio, que as mulheres na grande maioria, utilizam o repasse do benefício para o bem estar da sua família, principalmente no provimento dos seus filhos, como compra de material escolar, calçados, alimentos entre outros. A mulher, neste sentido, acaba renunciando de forma natural as suas necessidades individuais para favorecer outros membros de sua família, por acreditar que esse é seu dever e sua obrigação perante seus familiares.
A forma como as mulheres gastam esses benefícios nos remete, para percepção que as próprias mulheres têm de si mesmas, ao naturalizarem as suas tarefas para o âmbito restritamente doméstico e reprodutivo, reforçando assim, as divisões sexuais do trabalho na esfera doméstica.
Essa divisão de trabalho também se faz presente no momento em que a mulher é intitulada pelo PBF como Responsável Familiar, as mesmas devem assumir compromissos com o Estado, que são elencados por Carloto e Mariano (2009), da seguinte forma: 1) a realização do Cadastro Único para inclusão da família no programa; 2) a atualização do mesmo cadastro a cada dois anos ou se antes desse período ocorre alguma modificação na situação familiar (por exemplo, mudança de endereço, alteração no número de pessoas no domicílio, oscilação nos rendimentos); 3) o recebimento do recurso repassado pelo programa; 4) a aplicação do recurso de modo a beneficiar coletivamente o grupo familiar; 5) o controle sobre crianças e adolescentes,
tendo em vista o cumprimento das condicionalidades do programa; e 6) a participação em reuniões e demais atividades programadas pela equipe de profissionais responsáveis pela execução e pelo acompanhamento do programa.
Segundo Gomes (2011), tais responsabilidades, principalmente do que diz respeito às condicionalidades do programa, como os compromissos com a saúde e educação infantil, sobrecarregam ainda mais as mulheres e reforçam a desigualdade de gênero. E é nesse contexto que a critica feminista chama a atenção para a corresponsabilidade do homem, ou seja, um envolvimento maior por parte deles, nesses tipos de programas.
A inserção no mercado de trabalho
Como já sabemos as mulheres inseridas no programa, são vistas como as provedoras das tarefas e cuidados domésticos, e em poucos exercem tarefas fora desse âmbito familiar.
Diante este aspecto Peixoto (2010), afirma que houve um avanço, ainda que precário, das mulheres no mercado de trabalho, mas que de modo geral não influenciaram nas mudanças no interior da família, sendo estes ainda vistos, como próprios da condição feminina.
Essa inserção precária da mulher no mercado de trabalho em muitos casos pode ser, como constatados durante o período de estágio no PBF, resultado da sobrecarga com os trabalhos domésticos e com os cuidados dos filhos, com isso as mulheres não conseguem empregos que venham de fato acarretar em mudanças no interior da família, ao contrário estes trabalhos são entendidos como fruto dessa divisão sexual do trabalho doméstico, pois enquanto os homens passam o dia fora de casa para trabalhar, as mulheres tem que encontrar trabalhos que possibilitem com que não tenham que deixar seus “compromissos” domésticos para exercer os mesmos, esses trabalhos muitas vezes são: faxinas eventuais, revenda de cosméticos catalogados, confecção de doces entre outros.
Outro fator que colabora com essa sobrecarga doméstica é a falta de serviços públicos oferecidos, pois em muitos casos a mulheres não conseguem trabalhar por não terem onde deixarem seus filhos, tendo em vista que em muitos municípios, carece de creches para atender toda a demanda.
Além disso, como já foi abordado, essas mulheres também são sobrecarregadas de responsabilidades com o cumprimento das condicionalidades do programa, que segundo Rodrigues (2008), na falta do cumprimento desses, a mulher tende a ser fonte de culpabilização.
Podemos ainda dizer que por trás dessa culpabilização há uma dupla punição para as mulheres, primeiro são punidas por levar a culpa por “não estar cumprindo” com as tarefas associadas ao seu papel de mães, segundo pela perda do benefício pelo não cumprimento das condicionalidades do programa.
Outro aspecto importante que devemos elencar é que dentre as condicionalidades do programa está a participação em reuniões e atividades sócio-educativas, as quais acontecem sempre nos períodos diurnos impossibilitando aquelas que trabalham fora de casa a participarem, reforçando a ideia da mulher como dona de casa, proveniente da esfera privada e do homem como pertencente da esfera pública.
No entanto Rodrigues (2008) destaca que após algumas entrevistas feitas à usuárias do Programa, ficou evidente que para aquelas mulheres, que de fato ocupam funções de mães e donas de casa integralmente, e que tem isso em sua rotina diária, e que por conta disso acabam ficando enclausuradas no universo da casa, essas reuniões e atividades sócio-educativas, assim como, de geração de renda, realizadas por meio do PBF assumem uma importância central na vida dessas mulheres. Pois é a partir dessas atividades que elas têm acesso às informações referentes ao Programa, trocam experiências, discutem questões pertinentes ao cotidiano de cada uma e são capacitadas para desempenharem melhor o cumprimento das atribuições no âmbito doméstico e no próprio Programa.
Segundo a autora o envolvimento dessas atividades, reflete profundamente no cotidiano dessas mulheres, por lhes proporcionar uma
inserção produtiva, ainda que em condições precárias, mas fundamental por representar para muitas, uma possibilidade de participação fora do universo da casa.
Diante disto, a autora aponta o aumento dos desafios e responsabilidade do Bolsa Família no sentido de promover projetos capazes de fortalecer efetivamente, as potencialidades dessas mulheres, e por meio da educação e capacitação, articulada com outras políticas públicas lhes proporcionar a inserção do mercado de trabalho.
A autonomia das mulheres
O PBF transfere preferencialmente o benefício para as mulheres, isso segundo os discursos oficiais, possibilita a construção da autonomia feminina, por proporcionar o poder de decisão para a aplicação do benefício.
Com isso, segundo Peixoto (2010) o PBF representa uma melhoria às condições imediatas de vida das famílias inseridas no Programa, com possibilidade de comprar alimento, medicamentos, gás, vestuários, material escolar e na manutenção da casa, com os pagamentos nas contas de luz, água e energia entre outros. A compra antecipada de itens domésticos básicos nos estabelecimentos da comunidade causa resultados positivos na vida das mulheres, em vistas do manejo dos recursos e o poder de decisão em como aplicar o recurso, dando-lhes assim, a possibilidade de adquirir créditos, e de programar seus gastos.
A mesma autora parte da premissa de que as condições de subsistência das famílias estão ligadas às condições de rendimentos de seus membros, e que os rendimentos dessas famílias beneficiárias do Programa são extremamente baixos e em muitos casos até mesmo inexistentes, sendo que em muitas vezes o recurso financeiro repassado pelo PBF é a única fonte de renda fixa e previsível. Para a autora, do ponto de vista social o Programa tem causado impactos na vida dos pobres, por possibilitar o acesso a uma renda mínima mensal familiar.
No entanto, podemos reconhecer que o beneficio pago pelo PBF não garante a mulher autonomia suficiente para que elas percebam uma mudança significativa nos papeis de gênero que lhes são atribuídas no âmbito familiar, Carloto e Mariano (2010), também defendem essa perspectiva ao afirmarem que:
A possibilidade de inclusão, via o acesso ao consumo mínimo necessário para a sobrevivência imediata da família, é um indicador simplista para afirmarmos que as mulheres tornam-se cidadãs. É preciso não só explicitar a concepção de autonomia como definir indicadores de avaliação no âmbito e limites de projetos e programas de transferência de renda. Autonomia, empoderamento e cidadania como objetivos das políticas dirigidas às famílias e que têm as mulheres como principais interlocutoras encerram uma série de questões a serem debatidas no plano cultural, social e econômico e abre um amplo espaço para a busca de alternativas em que deveriam estar presentes distintas vozes. (CARLOTO; MARIANO, 2010, n.p.).
Rodrigues (2008) também faz referência a esse aspecto, ao afirmar que a inserção no programa não significa porém, que as mulheres sintam uma mudança em seu status social ou uma maior autonomia, uma vez que a transferência de renda não é vista como um direito, a condição beneficiária se torna um elemento a mais no conjunto de estigmas, nos quais as mulheres têm que passar diariamente, pelo simples fato de serem mulheres, por serem pobres e por serem negras.
Nesse contexto, segundo Carloto e Mariano (2010), devemos tomar sexo e gênero, assim como cor e raça, como dimensões indispensáveis de análise acerca das políticas sociais. Neste sentido gênero e raça devem ser mobilizados como categorias de análise, levando em consideração a dupla discriminação que as mulheres negras sofrem. É necessário por tanto que se desenvolva indicadores que tenham uma perspectiva de gênero. E no caso das mulheres pobres e negras é preciso um refinamento desses indicadores.
A partir dessas análises podemos perceber que o benefício monetário passado para as famílias é muito baixo para que ocorra um impacto positivo na vida dessas famílias. As mulheres no que diz a respeito o BPF ainda estão atreladas as tarefas domésticas, sem muita perspectiva de mudança, uma vez que sua inserção no mercado de trabalho está condenada a subempregos,
devido as suas responsabilidades, e a conquista de sua autonomia não é suficientes para mudar sua condição, sendo que essa está limitada ao recebimento de um cartão bancário em seu nome.