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CAPÍTULO 2 CONHECENDO OS SUJEITOS, O CAMPO EMPÍRICO E OS

2.2 Os instrumentos e o desenvolvimento do trabalho de campo

Utilizamos como instrumentos de coleta de dados a entrevista semiestruturada e a observação da realidade, esta última apoiada em anotações de campo. Através da entrevista semiestruturada foi possível ouvirmos os sujeitos a respeito das suas trajetórias de vida, concepções sobre o mundo e o futuro, enquanto que, com as anotações de campo, fizemos registros de informações sobre os sujeitos e reflexões sobre a realidade observada no campo empírico.

Os jovens foram selecionados a partir de um levantamento entre aqueles que estavam nas comunidades no período de dezembro 2010 a janeiro 2011, tiveram disponibilidade maior a participar da pesquisa e que estivam na faixa etária entre 15 e 29 anos. Assim, foi possível a participação dos que “estão morando” na comunidade e dos que “estão viajando”31

. De posse desta informação, iniciamos a realização dos convites pessoalmente aos jovens das quatro comunidades e o agendamento das entrevistas.

As entrevistas foram realizadas entre meados de dezembro/2010 ao final de janeiro/ 2011. O agendamento das entrevistas com as jovens foi fácil, pois elas estão mais em casa quando não estão na escola (principalmente para as que estudam) nem no trabalho da roça, diferentemente da situação dos jovens que normalmente trabalham o dia todo longe de casa.

31“Está viajando”, no singular, e “estão viajando”, no plural, são termos frequentemente usados para informar a condição de migração temporária.

Por isso, o maior número de entrevistas foi realizado como os jovens nos finais de tarde durante a semana, considerando as ocupações durante o dia, e em alguns casos nos finais de semana para atendermos aos que trabalham em Salvador, por exemplo, e que retornam para casa a cada quinze dias.

É importante ressaltarmos que nas quatro comunidades pesquisadas existe um número restrito de jovens dentro da faixa etária definida para a investigação, particularmente Massapê, Entrada e Pau D‟arco, fato justificado pelo alto índice de migração jovem para as cidades32. O baixo índice de jovens morando nas comunidades nos fez pensar na estratégia de realizarmos as entrevistas entre dezembro e janeiro, por ser um período de retorno temporário desses jovens às comunidades. Mas, no final do ano 2010 não houve incidência de jovens migrantes na região, mas ainda assim conseguimos falar com dois jovens que estavam na comunidade por ocasião das festas de final do ano.

Para se ter uma ideia da escassez da presença juvenil nessas comunidades, no Massapê existia apenas seis jovens dentro da faixa etária pesquisada (cinco participaram da entrevista), sendo que uma jovem iria viajar para Santa Catarina no início de fevereiro (e viajou mesmo) como o marido. Na comunidade de Entrada foi possível conversamos com todos os jovens que estavam dentro da faixa etária (quatro). Em Pau D‟arco conseguimos conversar com três jovens que se encontravam na comunidade, sendo que dois deles estavam planejando viajar pra Santa Catarina também em fevereiro (e viajaram); além deles só existem morando na comunidade mais duas jovens (as quais se recusaram a fazer a entrevista). Já em Alecrim existe um número maior de jovens, considerando a realidade das outras comunidades quanto a este aspecto, pois além dos cinco que participaram da entrevista, ainda existem aproximadamente oito jovens morando na comunidade dentro da faixa etária definida para a pesquisa.

À elaboração do roteiro de entrevista, buscamos a redação das questões de forma que se distanciasse de modelos formais e diretos, objetivando possibilitar uma conversa descontraída, embora direcionada, entre entrevistador e entrevistando, não perdendo de vista o rigor da pesquisa científica. Por isso, durante as entrevistas evitamos uma leitura monótona das questões, buscando o diálogo em torno das questões suscitados no roteiro. Em muitos casos, foi desnecessário uma sequência ordenada das questões, pois dentro da conversa buscávamos do entrevistado as informações necessárias à investigação.

32De acordo a relatos de quem presenciou, no início de janeiro de 2011 saiu da praça de Teofilândia um ônibus lotado de teofilandenses das diversas comunidades do município, não só homens como também mulheres, com destino a Santa Catarina. Normalmente, os homens vão para o trabalho na construção civil e as mulheres vão trabalhar como cozinheiras em restaurantes, garçonetes e/ou empregadas domésticas.

A forma como as perguntas foram lançadas variou muito de uma entrevista para outra, o que levou-nos a substituição das questões de entrevista por “tópicos da conversa”. Essa descoberta se deu no delongar das entrevistas, ao notar que, assim, os jovens se sentiam mais à vontade na conversa, mesmo com a presença do gravador. O privilégio à entrevista semiestruturada justifica-se “porque esta, ao mesmo tempo que valoriza a presença do investigador, oferece todas as perspectivas possíveis para que o informante alcance a liberdade e a espontaneidade necessárias, enriquecendo a investigação” (TRIVIÑOS, 2009, p. 146).

A importância da relação de confiança entrevistador-entrevistado33 foi notável durante as conversas. Esse fator facilitou muito o contato, a disponibilidade e a confiança deles no trabalho, já que se tratava de falarem de si mesmos, das trajetórias e experiências de vida, que, muitas vezes, envolvem questões de identidade, intimidade etc. Além da timidez, a falta do estabelecimento da relação de confiança pode ter sido o motivo de recusa de duas jovens a participarem do trabalho, ambas da comunidade do Pau D‟arco.

As entrevistas tiveram tempo estimado em 5 horas e 51 minutos de gravação. O menor tempo de entrevista registrado foi de 12 minutos e 08 segundos e o maior, 28 minutos e 17 segundos, média calculada em 19 minutos e 47 segundos por entrevistado (a). Consideramos que o tempo de realização das entrevistas foi satisfatório às informações pretendidas.