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PARTE II QUADRO TEÓRICO DE REFERÊNCIA

3.5 Os Modelos de Homem e a Teoria Administrativa

Em toda a história do estudo da Administração, teóricos e profissionais, em suas obras escritas e em seus atos, fizeram suposições acríticas a respeito da condição humana. Compreender que tipos de circunstâncias sociais contemporâneas estão afetando atualmente cada indivíduo e, por conseqüência, as organizações, foi preocupação de Ramos (1984), ao constatar que a história contemporânea está gestando um novo tipo de homem, o qual denominou de “homem parentético”.

A evolução da teoria administrativa aqui apresentada se utiliza dos modelos de homem, como seu ponto de referência concebidos por Ramos (1984): o homem operacional, o homem reativo e o homem parentético.

Na teoria administrativa, sobretudo, na clássica, o homem operacional equivale ao homo economicus, usado na economia clássica. A validade do homem operacional tem sido aceita sem questionamento. Ele tem sido considerado um recurso organizacional a ser maximizado em termos de produto físico mensurável. De fato, as implicações desse modelo de homem para o design organizacional podem ser descritas em poucas palavras. Ele implica: (1) um método autoritário de alocação de recursos, no qual o trabalhador é visto como um ser passivo que deve ser programado por especialistas para atuar dentro da organização; (2) uma concepção de treinamento como uma técnica destinada a “ajustar” o indivíduo aos imperativos da maximização da produção; (3) uma visão de que o homem é calculista, motivado por recompensas materiais e econômicas, como trabalhador, um ser psicologicamente isolado e independente de outros indivíduos; (4) uma visão de que a administração e a teoria administrativa são imparciais, isentas ou neutras; (5) uma indiferença sistemática às premissas éticas e de valor do ambiente externo; (6) o ponto de vista de que aspectos da liberdade pessoal são estranhos ao design organizacional; (7) um conceito de que o trabalho é essencialmente um adiamento da satisfação.

Uma alternativa ao homem operacional foi sugerida pela primeira vez nos Estudos de Hawthorne, no início da década de 1930. Foi o início da Escola de Relações Humanas, que via o homem como um ser mais complexo do que supunham os teóricos tradicionais. Em contraste com os operacionalistas, os humanistas: (1) tinham uma visão mais sofisticada sobre a natureza da motivação humana; (2) não negligenciavam o ambiente social externo da organização e, por isso, definiam a organização como um sistema social aberto; e (3) não desconsideravam o papel desempenhado por valores, sentimentos e atitudes sobre o processo de produção.

O modelo de ser humano desenvolvido pelos humanistas pode ser chamado de homem

reativo, com tudo o que o termo implica. Para os humanistas, assim como para seus

antecessores, o sistema industrial e a empresa funcionam como variáveis independentes. O objetivo principal da Administração é estimular comportamentos que reforcem sua racionalidade específica. Embora os humanistas estivessem aparentemente mais preocupados com os trabalhadores e conhecessem melhor suas motivações, os objetivos que buscavam não haviam realmente mudado. Para despertar reações positivas em favor das metas da empresa, eles desenvolveram procedimentos para a cooptação de grupos informais, práticas para o “aconselhamento de pessoal” e habilidades para lidar com as relações humanas individuais. Viam o trabalhador como um ser reativo. Seu objetivo principal era ajustar os indivíduos aos contextos de trabalho, e não ao seu crescimento individual. O resultado final da utilização maciça de “relações humanas” era a inserção total do indivíduo na organização; em outras palavras, ele devia ser transformado no que W. H. Whyte Jr denominou de “homem organizacional”.

O “homem organizacional” surge na Teoria da Burocracia, e é considerado um ser isolado que reage como ocupante de cargo e posição através de incentivo material e salarial na busca da máxima eficiência. Essa teoria considera as pessoas como detentores de funções, impessoalmente, porque as pessoas são efêmeras e os cargos são permanentes na organização.

Na Teoria Estruturalista novamente surge o “homem organizacional”, enquanto aquele que desempenha papéis em diferentes organizações e que precisa possuir flexibilidade para acompanhar as mudanças, tolerância às frustrações para suportar os conflitos e permanente desejo de realização, bastante diferente do “homem organizacional” de Weber, basicamente impessoal.

Com a Teoria dos Sistemas, que dá ênfase ao ambiente, aparece o “homem funcional”, onde o indivíduo comporta-se em um papel dentro das organizações, inter-relacionando-se com outros indivíduos como um sistema aberto.

O “homem administrativo” emerge com o surgimento da Teoria Contingencial, sendo que o homem procura apenas a maneira satisfatória e não a melhor maneira de fazer um trabalho; não procura o lucro máximo, mas o lucro adequado, não o preço ótimo, mas o preço razoável.

Nas teorias administrativas identificadas observa-se, de uma maneira geral, uma hegemonia de valores econômicos em detrimento de valores humanistas. Principalmente porque o ser humano é considerado como mais um recurso organizacional para maximizar o

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lucro e minimizar os custos, o que é mensurado pela sua produção ou resultado final. Há, portanto, a busca do resultado por meio do ser humano, mas sem considerar os valores da condição humana. Embora hajam diferentes concepções do ser humano no espaço organizacional, contudo, todas têm a visão de que a organização é a totalidade do ser humano.

Alguns aspectos dos contextos organizacionais, que estavam em grande parte esquecidos no passado, estão a receber hoje uma atenção considerável. Por exemplo, está se dando agora mais atenção ao processo do que à estrutura; às tarefas do que às rotinas; às estratégias ad hoc do que aos princípios e prescrições; e o mesmo está acontecendo com as assim chamadas organizações em mudança, as organizações não hierárquicas e a gestão participativa. O ambiente é mais do que nunca uma preocupação central, o que até certo ponto explica a influência atual das abordagens sistêmicas. Além disso, liberdade e auto-realização vêm se tornando temas proeminentes em livros e nas salas de aula.

Estes aspectos demonstram alguns avanços, mas são ainda, na melhor das hipóteses, avanços meramente periféricos. De maneira geral, as atuais teorias e práticas de administração ainda não correspondem às necessidades dos tempos atuais e da condição humana. Conceitos como organizações em mudança, por exemplo, são articulados em termos reativos apenas; ou seja, estas organizações são testadas quanto a sua capacidade de responder de modo não crítico às flutuações que ocorrem em seu ambiente; elas não são testadas quanto a sua capacidade para assumir responsabilidade pelos padrões de qualidade e pelas prioridades desse mesmo ambiente. Essa teoria reativa parece basear-se em uma visão ingênua da natureza dos insumos e produtos. Ela considera, como insumos: as pessoas, os materiais e a energia, mas perde de vista os fatores éticos e valorativos do ambiente, cuja racionalidade e legitimidade são tipicamente desconsideradas. O ambiente é aceito como dado, e sua configuração episódica, restritiva; torna-se um padrão normativo inquestionável, ao qual as assim chamadas organizações em mudança devem se ajustar. Na verdade, estas são, assim, apenas “organizações adaptativas”; já as organizações em mudança deveriam ser aquelas que têm a capacidade de influenciar e modelar o ambiente, de acordo com critérios não necessariamente dados. Em outras palavras, a administração das micro-organizações deve ser vista como parte de uma estratégia geral orientada à administração de toda a sociedade.

A integração do indivíduo à organização constitui um outro problema. Aqueles que defendem esta integração ignoram o caráter básico e duplo da racionalidade. De fato, existe uma racionalidade cujos padrões nada têm a ver com o comportamento administrativo. Esta racionalidade, chamada substantiva e noética, respectivamente por Karl Mannheim e Eric Voegelin é um atributo intrínseco do indivíduo enquanto uma criatura de razão, e jamais pode ser entendida como dizendo respeito a qualquer organização.

De fato, a racionalidade noética não se relaciona sistematicamente com coordenação de meios e fins, do ponto de vista de eficiência. Ela deriva de imperativos imanentes à razão em si, entendida como uma faculdade específica do homem que impede a obediência cega a requisitos de eficiência. Assim, pode muito bem acontecer que, historicamente, um alto grau de desenvolvimento da racionalidade pragmática coincida com um alto grau de irracionalidade na esfera da razão noética. Ramos (1984) acrescenta ainda que, um comportamento humano que ocorra sob a égide da racionalidade noética pode ser administrativo apenas por acaso, mas não necessariamente. A organização e seus líderes podem julgar se um comportamento é racionalmente instrumental para suas metas, mas jamais sua adequação à racionalidade noética. Na verdade, é privilégio da racionalidade noética julgar a organização.

O modelo de homem parentético, proposto por Ramos (1984) pode dar à teoria administrativa a sofisticação conceitual que se faz necessária para enfrentar as questões e os problemas que causam tensões entre a racionalidade substantiva e a racionalidade funcional.

Na realidade, o homem parentético não pode deixar de ser um participante da organização. Mas, justamente por tentar ser autônomo, ele não pode ser entendido ou explicado pela psicologia da conformidade, como o são os indivíduos que se comportam de acordo com os modelos operacional e reativo. Ele possui uma consciência crítica altamente desenvolvida sobre as premissas de valor latentemente presentes em seu dia-a-dia. De fato, o adjetivo “parentético” deriva da noção de Husserl de “suspensão”, de estar “entre parênteses”. Husserl faz uma distinção entre uma atitude natural e uma crítica. “Natural” é a atitude do homem “ajustado”, despreocupado com a racionalidade substantiva e aprisionado em seu imediatismo. Já a atitude “crítica” suspende ou põe “entre parênteses” a crença no mundo comum, permitindo ao indivíduo atingir um nível de reflexão conceitual e, portanto, de liberdade.

O homem parentético é um reflexo das novas circunstâncias sociais, que hoje estão mais visíveis nas sociedades industriais avançadas, como os EUA, mas que irão eventualmente prevalecer em todo o mundo; e é ao mesmo tempo uma reação a essas circunstâncias. Enquanto a massa da população, nas sociedades menos evoluídas, interpretava a si própria e a realidade social de acordo com as definições convencionalmente estabelecidas, pensadores, como Bacon, Sócrates e Maquiavel, tiveram a capacidade de suspender suas circunstâncias internas e externas, podendo assim examiná-las com visão crítica. Esta claramente se qualifica como uma capacidade parentética. De fato, a suspensão equivale

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aqui a pôr as circunstâncias “entre parênteses”. O homem parentético consegue abstrair-se do fluir da vida diária, para examiná-lo e avaliá-lo como um espectador. Ele é capaz de distanciar-se do meio que lhe é familiar. Ele tenta deliberadamente romper suas raízes e ser um estranho em seu próprio meio social, de maneira a maximizar sua compreensão desse meio. Assim, a atitude parentética é definida como a capacidade psicológica do indivíduo de separar-se de suas circunstâncias internas e externas. Os homens parentéticos prosperam quando termina o período da ingenuidade social.

O mundo contemporâneo encontra-se num período de transição rumo à consolidação de um novo paradigma macro-societário, denominado de era global (DANIELS; DANIELS, 1996), sociedade aprendente (ASSMANN, 1998), a sociedade da informação ou era informacional (CASTELLS, 1999), a sociedade pós-empresarial ou sociedade pós-capitalista (DRUCKER, 1993, 1999) ou sociedade pós-industrial (LOJKINE, 1995; DE MASI, 2000). Esta sociedade em emergência parece configurar um ambiente propício para o homem parentético, todavia apresenta limites, próprios da sociedade centrada no mercado.

Outra característica importante do homem parentético diz respeito ao comprometimento ético com valores que o conduzem ao primado da razão (no sentido substantivo), em sua vida social e particular. Em conseqüência, sua relação com o trabalho e a organização é muito peculiar. Noutros termos, o homem parentético em suas ações busca demonstrar grande senso de individualidade e uma forte compulsão por encontrar sentido para sua vida. Não aceita padrões de desempenho sem um senso crítico, embora possa ser um grande realizador quando lhe forem atribuídas tarefas criativas. Ele evita trabalhar apenas com o intuito de fugir à apatia ou à indiferença, pois o comportamento passivo ofenderia seu senso de auto-estima e autonomia. Empenha-se no sentido de influenciar o ambiente, para retirar dele tanta satisfação quanto seja capaz. É ambivalente em relação à organização, tendo em vista seu entendimento de que as organizações têm que ser tratadas de acordo com seus próprios termos relativos, já que elas são limitadas por sua racionalidade funcional.

Não cabe mais à teoria administrativa legitimar a racionalidade funcional da organização, como tem feito em grande escala. O problema básico do passado era superar a escassez de bens materiais e de serviços elementares. Nessa época era técnica e socialmente necessário, e até mesmo inevitável, que houvesse um grande esforço nos ambientes de trabalho, o que já não é verdade hoje. O que provoca crises nas organizações de hoje é o fato de elas, por desígnio e por operação, ainda admitirem que as velhas carências continuam a ser básicas, enquanto de fato o ser humano contemporâneo tem consciência de carências críticas que pertencem a outra ordem, isto é, que estão associadas a necessidades que vão além do nível da simples sobrevivência.

Cada vez mais pessoas ampliam consciência de que a eliminação do esforço desnecessário é hoje uma possibilidade factível, o que condiciona suas atitudes diante do trabalho e da organização. É difícil motivar esses indivíduos com as práticas gerenciais tradicionais. Um número cada vez maior deles considera falacioso, para dizer o mínimo, administrar organizações sem levar em conta os condicionamentos que o sistema macro-social lhes impõe. O desenvolvimento e a renovação organizacionais só fazem sentido hoje na medida em que representem uma tentativa de dar às pessoas um sentimento de verdadeira participação social.

É por isso que hoje não basta administrar organizações; é necessário administrar a sociedade toda. O ambiente das sociedades industriais avançadas, em que a sobrevivência não constitui mais a principal razão para se trabalhar, está gerando uma nova atitude diante das organizações.

Na atual sociedade industrial avançada, o trabalhador médio se dá conta de que está perdendo a capacidade de lidar consigo mesmo e com o ambiente global. A tecnologia, como força não controlada, está pondo em risco a possibilidade do homem enquanto criatura racional, em vez de melhorar sua qualidade de vida. E como esse efeito não é inerente à tecnologia, mas decorre da estrutura política e institucional episódica dos sistemas industriais avançados, está surgindo um novo nível de conscientização humana, que estimula as pessoas a descartar comportamentos reativos. Essas pessoas sentem que têm a responsabilidade de redefinir as prioridades e metas tanto das organizações quanto do sistema social global, para que possam desenvolver suas “próprias propensões e predisposições individuais, e consumir não apenas bens manufaturados, mas a própria liberdade” (HARRIGTON, 1969 apud RAMOS, 1984, p. 272).

Estas são algumas das razões que estão levando a sociedade afluente a estilos parentéticos de vida. A emergência de novos valores no contexto das organizações representa uma forma de superar os sistemas de administração tradicionais. É o que certamente está implícito nas tentativas de projetar organizações que aprendem (SENGE, 1990; GARVIN, 1993; ARGYRIS, 1977, 1992), possibilitando também processos de aprendizagem do sujeito no espaço de produção de bens e serviços.

Há um descompasso, todavia, entre a perspectiva de um novo tipo de sujeito para as organizações: o ser humano total-multidimensional e o contexto das organizações que é a sociedade capitalista. O mundo econômico é voraz e objetiva sempre o acúmulo e a

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manutenção do seu status quo financeiro (LAFFIN, 2002). Portanto, o desafio está em conciliar essas duas perspectivas, para unir e não fazer a cisão, como defende Morin (2001a), pois fatalmente uma se sobrepõe a outra e essa perspectiva já é histórica, não determinista.