1 INTRODUÇÃO
2.2 O princípio hologramático e o recurso da metonímia:
2.2.1 Os operadores do pensamento complexo e a polidependência dos
O primeiro é o operador dialógico e não dialético, na perspectiva de que
dialogia retoma a ideia constante do termo complexo, no sentido de que todos
os fenômenos se entretecem em conjunto, entrelaçadamente e não de forma
disruptiva, fragmentada e separada. Ao analisar o personagem Volta Seca,
faz-se necessário fazer uma leitura hologramática para buscar compreender os
elos de ligação entre os sistemas que contribuíram para sua edificação. A
escolha dos nomes dos capitães reflete muito dos ambientes nos quais
cresceram e até mesmo é possível inferir os arquétipos com os quais
interagiram.
Arquétipo, para Jung (2000), refere-se às especificidades, às
características físicas e psicológicas de um indivíduo, considerando-se as
possibilidades arquitetônicas utilizadas como bases de sustentação para a
construção deste sujeito. Trata-se de uma metáfora usada para ilustrar a
possibilidade do ser humano de herdar do pai e da mãe biológicos estruturas
inatas que viabilizam o desenvolvimento do aparelho psíquico. Analisando as
bases arquitetônicas para a construção de Volta Seca, pode-se perceber que
as mesmas bases se aplicam a muitos outros meninos e meninas que se
encontravam vivenciando experiências socioculturais semelhantes. Volta Seca
se considera afilhado de Lampião. Fica realizado quando sabe que seu
padrinho comete homicídios, especialmente contra as autoridades. Deseja se
tornar cangaceiro. Observe-se o seguinte fragmento:
(...) Volta Seca entrou no trapiche quando a madrugada já ia alta. O cabelo de mulato sertanejo estava revolto. Calçava alpercatas como quando viera da caatinga. O seu rosto sombrio se projetou dentro do casarão. Passou por cima do corpo do negro João Grande. Cuspiu adiante, passou o pé em cima. Apertado no braço trazia um jornal. (...) Sem se importar com as altas horas e com o fato de que todos presumivelmente já estavam dormindo, Volta Seca começa a gritar pelo professor, que sabia ler:
- Professor... Professor...
- O que é? – Professor estava semiadormecido. - Eu quero uma coisa.
Professor sentou-se. O rosto sombrio de Volta Seca estava meio invisível na escuridão.
- É tu, Volta Seca? Que é que tu quer?
- Quero que tu leia pra eu ouvir essa notícia de Lampião que o Diário traz. Tem um retrato. (...) O professor buscou uma vela, acendeu, começou a ler a notícia do jornal. Lampião tinha entrado numa vila da Bahia, matara oito soldados, deflorara moças, saqueara os cofres da prefeitura. O rosto sombrio de Volta Seca se iluminou. Sua boca apertada se abriu num sorriso. E ainda deixou o Professor, que apagava a vela, e foi par ao seu canto. Levava o jornal para cortar o retrato do grupo de Lampião. Dentro dele ia uma alegria primavera. (AMADO, 1937, pp. 46, 47).
O segundo operador recursivo ou da recursividade pode ser remetido à
situação de causa e efeito e efeito e causa reciprocamente. Utiliza-se para
ilustrar o princípio do anel recursivo, que segundo Morin: supera a noção de
regulação com a de autoprodução e auto-organização. É um anel gerador, no
qual os produtos e os efeitos são produtores e causadores do que os produz.
Os indivíduos humanos produzem a sociedade nas - e através de - suas
interações, mas a sociedade, enquanto todo emergente, produz a humanidade
desses indivíduos apartando-lhes a linguagem e a cultura (MORIN, 1999,
p.32). A recursividade na edificação do repertório comportamental pode ser
verificada no comportamento da maioria dos “Capitães da Areia”.
O personagem denominado Sem-pernas pode ilustrar o quanto a
recursividade dos fenômenos pode afetar a vida dos sujeitos especialmente
quando se trata de experiências envolvendo violências que violem a
integridade física, psicológica e simbólica do ser humano. Jorge Amado reflete
sobre isso quando atua como narrador onisciente intruso, no qual sua
omnisciência revela que sabe não somente sobre as ações dos personagens,
mas também de seus pensamentos.
Mergulha no fluxo de consciência do Sem-Pernas, explicitando ao leitor
a recursividade dos fenômenos vivenciados pelo menino no passado quando
fora para o reformatório. Expressa as marcas inesquecíveis, fruto da crueldade
sádica por parte dos soldados. Diante de tamanha arbitrariedade e
perversidade humanas, logo o menino internalizou as atitudes cruéis e passou
a exercitá-las, pois não tardou em se destacar como alguém que sabe mais
que nenhum outro provocar dor e sofrimento em outrem. As experiências de
vida, nesse caso, levam o indivíduo a internalizar os requintes de crueldade do
opressor e se apropriar de representações semióticas que acabam por se
retroalimentar cíclica e recursivamente.
O terceiro operador do pensamento complexo se refere ao holograma
conforme discutido no subtópico anterior. A partir dessas reflexões, cabe
aprofundar um pouco em algumas propostas concernentes à necessidade de
uma reconfiguração do pensamento, à luz das relações multifatoriais que se
estabelecem interconectadamente, tema do próximo assunto.
Ao chamar a atenção para o “modo mutilador de organização dos
conhecimentos”, em seu livro “Introdução ao Pensamento Complexo”, Morin
(2007) salienta sobre “a necessidade de uma tomada de consciência radical,
pois as ameaças mais graves em que incorre a humanidade estão ligadas ao
progresso cego e incontrolado do conhecimento (armas termonucleares,
manipulações de todo tipo, desregramento ecológico)” (p.9).
Ressalta o quão urgente se faz perceber que o modo disruptivo e
dissociativo como os conhecimentos têm sido trabalhados torna inviável a
apreensão da complexidade do real, pois ao segmentar, o fenômeno da
cegueira epistemológica ou da “patologia do saber” se autoamplifica. Em
reflexões apresentadas no capítulo intitulado “A inteligência cega” (idem, p. 9),
ao serem edificados por paradigmas simplificadores, profissionais da educação
e familiares podem apresentar severas dificuldades para compreender e
encontrar estratégias de como lidar com situações cotidianas consideradas
conflituosas, numa perspectiva de compreensão dos múltiplos condicionantes
circunstanciais que contribuem para constituir o fenômeno, a serem
considerados.
Apreender os enlaces entrecruzados de um emaranhado presentes em
um dado problema exige uma inteligência capaz de enxergar com maior
profundidade o processo histórico no qual cada linha foi se conduzindo, os
determinantes inseridos no contexto de construção deste emaranhado, pois em
se analisando com maior cautela e procurando aguçar a visão, será possível
encontrar soluções mais sábias.
Faz-se urgente viabilizar possibilidades de mudança no pensamento dos
educadores, um novo reconfigurar dos saberes preexistentes, o questionar-se
as verdades absolutas como possibilidade de abertura para diferentes visões.
A reconfiguração do pensamento moriniano parte da possibilidade de construir
a ética da compreensão (cum-prehendere, tomar em conjunto). Isso requer dos
profissionais reflexões inter-transdisciplinares, exige uma postura antropoética
da compreensão humana edificada sociocultural e afetivamente num
determinado tempo histórico, político, geográfico, econômico, a partir de
interações com meio físico e social no qual polifônicas vozes se entrecruzam
inter-semioticamente e, no processo sociointeracionista, atuam no plano
intrapsíquico dos sujeitos, re/construindo assim suas idiossincrasias.
Para tanto, “É preciso leiturizar”, ressalta Asinelli-Luz (2011), em suas
inferências sobre a necessidade formar leitores capazes de fazer leituras
críticas de mundo, de perceber além das entrelinhas, reflexivos, críticos e
propensos à transformação. No texto publicado na Gazeta do Povo
13, a
professora da Universidade Federal do Paraná recorre ao termo leiturização,
apresentado por Jean Foucambert (1994), do Instituto de Pesquisas
Pedagógicas da França, alertando que não basta formarem-se ledores, que
decifrem linearmente os códigos e signos apresentados sem sinal de
proatividade e interação com a mensagem expressa, nem leitores, aqueles que
interpretam bem e se posicionam, mas sem muita interferência na realidade.
É urgente que se edifiquem leiturizadores, capazes de reconhecer a
intencionalidade discursiva, de desvendar os esquemas e as amarras sutis
utilizadas para a dominação ideológica por parte do autor, e, a partir disso,
sentir-se desafiado a intervir de forma ativa na vida prática. Esta leiturização,
como princípio a ser adotado na ação educacional é imprescindível para
promover leituras na perspectiva do paradigma da complexidade.
Na “Teoria da Complexidade”, Morin (2005b) traz reflexões sobre a
construção de um ethos cultural que tenha como foco a antropoética, uma ética
centrada no humano de cada ser, dentre outras reflexões que realmente
possibilitam ampliar o horizonte de expectativas para o campo educacional.
Sugere uma “ética da compreensão”, construída a partir da ampliação dos
saberes numa perspectiva que ultrapasse o local para o global. O fenômeno
dialético é abordado por Morin ao propor como elementos antagônicos podem
ser complementares entre si. Unidade e Diversidade, a Parte e o Todo se
complementam a partir da dialogicidade e do pensar as particularidades que
compõem um determinado fenômeno. Isso implica considerar suas
inter-relações, os múltiplos condicionantes que o constituem no emaranhado das
teias sociais.
As inferências propostas pelo pensamento complexo possibilitam
promover insights sobre a necessidade urgente de atitudes altruístas e
empáticas que permitam aos seres humanos o deslocamento antropológico.
Também requer dos indivíduos um mergulho no universo de representações
semióticas do Outro, não somente para desenvolver e ampliar a cosmovisão
planetária, da interconexão dos entes nos quais os indivíduos interatuam afeta
e mútua e retroativamente por suas ações e/ou omissões, mas também para
aguçar a percepção sobre estratégias de leiturização, de práticas solidárias nas
quais haja a valorização das ações pró-sociais para a intervenção e a
transformação.
Em artigo sobre a origem da resposta empática e do comportamento
pró-social, “The Origins of Emphatic Responding and Prososcial Behaviour”,
Aronfreed, 1970, pontua que o comportamento solidário é frequentemente
estabelecido e mantido, pelo menos em parte, pelas consequências mediadas
externamente, como o louvor, o elogio, a contemplação.
Aronfreed fez uma experiência na qual a criança era submetida á expressão facial do adulto diante de uma determinada ação. Por exemplo, na primeira fase do experimento, garotas “positivas” de 6 a 8 anos, afetivamente empáticas foram condicionadas aos sinais expressivos de um adulto. (...) O adulto demonstrava para a criança o funcionamento de uma “ Cho ice Box” ( caixa com opção de escolha) que continha dois níveis. Quando um nível era pressionado, um pequeno doce era entregue. Quando o outro nível era pressionado, uma luz vermelha de três segundos aparecia. Em vinte experimentos, os adultos não expressavam nenhuma reação quando aparecia o doce. Quando a luz aparecia, o adulto sorria e falava excitado: “Lá a luz!”. Ao mesmo tempo em que sorria, ele abraçava a criança. Nos dois grupos de controle, o adulto ainda mostrava expressões positivas sem afeição física em direção a criança, ou demonstrava afeição física sem mostrar expressões positivas. (...) Na segunda fase da socialização, a criança operava a caixa surpresa. A luz vermelha foi desativada, mas agora o adulto sentou-se diretamente do outro lado da criança, observando o movimento da caixa. O adulto agora poderia ver outra luz vermelha que estava apenas visível para ela, e a criança foi avisada sobre a luz vermelha. A criança também foi avisada que ela poderia ficar com o doce e comer, ao pressionar um dos níveis. Quando o nível pressionado pela criança trazia o doce ou não trazia nada, o adulto se mantinha passivo. Quando o nível acionado acendia a luz vermelha, o adulto sorria e exclamava. “Lá a luz vermelha!” No entanto, a criança ficou em uma posição onde ela poderia conseguir o
doce por si mesma ou consequências prazerosas – a luz
vermelha – para o adulto. Os resultados mostraram que as
crianças eram mais propensas a sacrificar o doce pela luz vermelha, se elas tinham previamente experienciado a afeição do adulto ( sorrisos e abraços) do que se elas apenas viram os sinais expressivos positivos sem afeição física e vice-versa. Em geral, elas respondiam mais frequentemente para produzir luz vermelha para os adultos do que elas faziam para conseguir
doces por si próprias ARONFREED, 1970, apud (SCHLINGER,
1995, p. 240). (Tradução da pesquisadora).
A pesquisa acima mencionada enfatiza a importância dos elogios, das
trocas emocionadas de expressões que revelam aprovação e afeição,
elementos reforçadores positivos no comportamento das pessoas a partir do
olhar contemplativo das díades, tríades, tétrades com as quais laços afetivos e
afetantes são construídos empática e altruisticamente.
Morin (2005) ao questionar a fragmentação dos saberes e concepções
unidimensionais que desconsideram as inter-relações entre as partes com o
todo, propõe uma religação ética, por meio da congregação da autoética, da
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socioética e da
15antropoética, tão caras para atuar na humanização em prol
de uma ética planetária.
No livro: “Os Sete Saberes Necessários à Educação do Futuro”, Edgar
Morin (2006), de forma aprofundada, didaticamente apresenta algumas
possíveis estratégias para a construção de uma consciência planetária, que só
poderá ser acionada com a reconfiguração do pensamento. A partir do princípio
hologramático, retoma a constituição integral de um determinado objeto a ser
investigado, favorece a compreensão não fragmentada de todos os fenômenos
interatuantes que atuam na constituição da vida.
Neste sentido, o diálogo e a audiência precisam se tornar práticas
atitudinais cotidianamente para fertilizar pensamentos e entendimentos sobre
como lidar com situações corriqueiras diversas e adversas. Quando
professores, socioeducadores, gestores, educandos, socioeducandos, família e
comunidade se unem para compartilhar angústias convergentes e discutir
estratégias na solução pacífica dos conflitos, passam a perceber formas de
cooperação mútua como possibilidade de alcançar um objetivo comum, para as
quais cada um atue sinergicamente e com responsividade sobre a própria vida,
bem como sobre a vida do outro. Ao propor o paradigma da complexidade a
partir da reforma do pensamento, no capítulo oito de seu livro “A cabeça bem
feita”, Edgar Morin expressa que:
Há efetivamente a necessidade de um pensamento: - que compreenda que o conhecimento das partes depende do conhecimento do todo e que o conhecimento do todo depende do conhecimento das partes; - que reconheça e examine os fenômenos multidimensionais, em vez de isolar, de maneira mutiladora, cada uma de suas dimensões; - que reconheça e trate as realidades, que são concomitantemente solidárias e conflituosas (como a própria democracia, sistema que se alimenta de antagonismos e ao mesmo tempo os regula); - que respeite a diferença, enquanto reconhece a unicidade (MORIN 2001, p. 88).
Em suas inferências sobre o quão necessário é substituir um
pensamento que isola e separa, desmotivo e redutor, por um que une, um
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Socioética implica o agir eticamente no plano societário, no qual seja considerado o bem-estar da sociedade. Subjaz implicitamente que a condição humana seja assumida a partir do princípio da ética do senso de comunidade.
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Antropoética implica uma proposta de humanidade na qual cada um de fato assuma a própria condição humana, reconheça a necessidade de se pensar enquanto coletividade numa ética planetária na qual se projetem pensamentos e ações que venham ao encontro de um humanismo planetário.