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Os pensamentos e o pensar

DA PSICANÁLISE À NEUROPSICANÁLISE DO INCONSCIENTE À CONSCIÊNCIA

2. Desenvolvimentos do inconsciente

2.2. Os pensamentos e o pensar

Se, em Klein (1952/1987), os mecanismos de identificação projetiva e introjetiva possuem um estatuto ontogenético, Bion (1957/1988, 1959/1988, 1962/1988) faz destes mecanismos os pilares fundamentais sobre os quais assenta o seu modelo do funcionamento psíquico. Para ele, existe um grau normal de identificação projetiva - por oposição a um grau excessivo - que, associada à identificação introjetiva, constitui a base sobre a qual repousa o desenvolvimento normal. Tendo em conta que, desde o início da vida, existe um vínculo emocional muito intenso entre o bebé e a mãe, a identificação projetiva é considerada por Bion (1962/1988) como precursora da comunicação normal entre ambos; neste sentido, insere-se num contexto claramente interpessoal, assumindo os dois protagonistas um papel fundamental. A mãe, enquanto objeto real, assume aqui uma maior importância do que nas teorias freudianas - para quem o objeto é, sobretudo, um objeto de satisfação (objeto pulsional) - e também do que nas teorias kleinianas - cujas conceções ainda se ligam às teorias da líbido e ao princípio do prazer (o bom objeto é o que satisfaz e o mau é o que frustra), revelando uma constante acentuação da atividade fantasmática em detrimento da realidade do objeto; a mãe é, fundamentalmente, um objeto pensante - a ligação entre bebé e mãe baseia-se numa experiência emocional intensa e profunda e é uma ligação essencialmente psíquica -, um objeto com qualidades psíquicas.

Segundo Bion (1962/1987), o bebé comunica à mãe as perceções, sensações e sentimentos que lhe despertam ansiedade e sofrimento, os quais são sentidos concretamente e com os quais só pode lidar através da expulsão - “elementos β” (elementos não psíquicos, restos informes de substância protomental que não adquiriram o estatuto de representação [“protopensamentos”] e, portanto, inutilizáveis para o desenvolvimento psíquico) -, projectando-os (identificação projetiva) para dentro dela. Se este sofrimento for acolhido e transformado pela “capacidade de rêverie” da mãe - isto é, pela sua capacidade de pensar com amor sobre o seu bebé, de prestar atenção, compreendendo e atribuindo “significado aos movimentos psicomotores que procuram uma razão” (Dias, 1988, p. 162), no fundo, pela sua capacidade de o sonhar, conferindo-lhe valor na sua fantasia -, o que vai ser devolvido por ela é um temor leve e perfeitamente suportável. A esta função (psíquica) transformadora da mãe Bion chamou “função α” - a capacidade de rêverie é um fator da função α da mãe -, e aos elementos β, metabolizados, desintoxicados, transformados (simbolicamente) pela mãe e reintrojetados pelo bebé chamou “elementos α” - elementos que representam experiências emocionais vividas e partilhadas, logo, elementos simbólicos, elementos que permitem a construção de significados sentidos e com sentido e, por isso, elementos do pensamento.

É, então, no seio desta relação dinâmica continente/conteúdo - concebida como uma relação de identificação projetiva mútua entre o bebé e a mãe -, bem como através do processo dinâmico entre posição esquizoparanoide/posição depressiva - que corresponde às oscilações entre a tendência à desintegração e à integração - que o bebé vai, no decurso do seu crescimento, desenvolver o seu funcionamento psíquico, internalizando o continente e a capacidade deste em desempenhar a função α. Como refere Bion (1962/1987), o bebé introjeta a atividade dos dois indivíduos, de modo a instalar-se nele o dispositivo continente/conteúdo, como parte do aparelho da função α. Assim, o bebé, para além de introjetar os elementos α, internaliza também a função α da mãe e, com esta, tem no seu interior os meios para pensar (elaborar, compreender e dar sentido) os estímulos sensoriais e as experiências emocionais, isto é, tem no seu interior a capacidade de transformar os elementos β em elementos α. Por sua vez, estes, ao proliferarem no psiquismo e ao aderirem entre si, vão permitir a estruturação daquilo a que Bion (1962/1987) chamou “barreira de contacto”, a qual, do mesmo modo que uma “membrana semi-permeável” (Grinberg, Sor, & Bianchedi, 1973; Mancia, 1987/1991; Zimerman, 1995), cumpre a função de demarcar tanto um contacto como a separação e o intercâmbio entre o consciente e o inconsciente e entre o

mundo real externo e o interno, impedindo que cada um invada o outro, exercendo, portanto, uma função delimitadora da mente, uma função topográfica. Este processo vai provocar uma alteração da situação psíquica do bebé, pois, gradativamente, conceitos de espaço e de tempo podem desenvolver-se, o que tem consequências a nível do desenvolvimento da consciência. Como refere Bion (1962/1987), “a existência da consciência e da inconsciência depende de uma prévia produção de elementos α pela função α” (p. 58). A consciência é, aqui, uma consciência que tem uma relação estreita com o pensamento e com as emoções - pensar sobre a experiência emocional -, sendo resultado do funcionamento pleno da função α.

De referir que “barreira de contacto” é uma expressão oriunda da primeira formulação do aparelho psíquico de Freud (1895/1996, 1900/1996) e que, ao ser retomada por Bion (1962/1987), ocupa, na sua formulação, o local tópico do pré-consciente, se bem que com uma conceptualização diferente, na medida em que é constituída de forma contínua, a partir do exterior, sendo, portanto, de origem objetal. A sua natureza dependerá da natureza e da qualidade dos elementos α que a formam e da relação que assumem entre si, podendo, por exemplo, aglomerar-se ou ordenar-se sequencialmente. Porque é de origem objetal e se constrói na relação entre bebé e mãe, qualquer falha na comunicação emocional, resultante da falha da função α da mãe, conduz a que as sensações e os protopensamentos (elementos β) do bebé, ao não serem transformados, deem lugar à sua reintrojeção, pelo que o bebé não terá outra alternativa senão o recurso à contínua identificação projetiva, agora com força e com frequência crescentes. A continuidade deste processo pode levar à reintrojeção de um “pavor sem nome” (Bion, 1957/1988), o que impede, obviamente, a formação da função α no bebé e, portanto, a criação da barreira de contacto. Em vez disso, vão proliferar os elementos β, que se aglomerarão - sem integração e sem vinculação entre si - e formarão o que Bion (1962/1987) designa por “tela β”, a qual, ao contrário da barreira de contacto, não possibilita o estabelecimento das diferenças entre o consciente e o inconsciente, entre a realidade interna e a externa, entre a vigília e o sono, entre o passado e o futuro, não se formando, portanto, uma barreira delimitadora da mente, ficando, consequentemente, comprometidas as demarcações necessárias à atividade do pensamento. Como sublinha Bion (1970/1991), “como defino o pensamento, quem não produz ‘elementos α’ não consegue pensar” (p. 21). Ficam, assim, comprometidos o acesso à capacidade de pensar e de refletir sobre si próprio e sobre os outros, a consciência de si, a estabilização da consciência de si.

A importância da formação da função α é tal que, para além das formulações anteriores - formação ou não da função α -, é postulada ainda uma terceira possibilidade, denominada “reversão da função α”. Neste caso, a formação da função α já se iniciou, mas, como resultado de uma catástrofe psicológica, a estrutura relacionada com a função α altera-se, com consequências na barreira de contacto, que se dispersa, que se desagrega. O resultado é, nestes casos, um claro comprometimento da atividade do pensamento, um claro comprometimento da capacidade de organização das experiências, um claro comprometimento dos processos da consciência. Estes são os casos das psicoses, casos que, como Grotstein (1990/1999) precisa, não conseguem processar ou transformar os seus acontecimentos em pensamentos, mas, pelo contrário, são eles próprios transformados pelas experiências não processadas.

Transformar é mudar de forma e, na sua teoria das transformações, Bion (1965/1991) distingue entre um estado inicial, um processo de transformação, e um produto final. Estritamente relacionado com o conceito de transformação está o de “invariância”, que é o que fica inalterado no processo de transformação. No plano psíquico, distingue vários grupos de transformações: as transformações de movimento rígido, as transformações projetivas e as transformações em alucinose.

As primeiras são as que implicam pouca deformação e deixam invariáveis certos significados e outras características, como o tempo e o espaço - o que faz com que as memórias passadas sejam atualizadas sem grandes alterações -, pelo que, no caso de transformações na área das emoções, dos pensamentos e das palavras (que os representam), a utilização de códigos comuns (usar o mesmo idioma) permite ao interlocutor entender o significado ou o sentido.

As transformações projetivas são o resultado de uma transformação cujo processo é dominado pelos mecanismos de clivagem, de projeção e de identificação projetiva e, porque estes mecanismos levam à confusão entre sujeito e objeto, entre real e imaginário, e porque não respeitam os limites espaçotemporais habituais - o antes pode confundir-se com o hoje, que é o ontem, e o perto é o longe ou o longe é aqui -, fica difícil estabelecer a relação entre o estado inicial e o produto final destas transformações.

Por último, nas transformações em alucinose, torna-se ainda mais difícil estabelecer a relação entre o estado inicial e o produto final, dado que este pode ser uma alucinação (visual, auditiva, táctil, ou outra) que o indivíduo manifesta ou não, e, neste caso, nem sequer se tem

acesso ao produto final. Se, nas transformações projetivas, os símbolos se desvanecem, nas transformações em alucinose não há lugar à criação de símbolos ou a qualquer outra manifestação que tenha a qualidade de poder representar algo; portanto, aqui, é o próprio pensamento que aparece perturbado, é a consciência que aparece alterada. Pensamos que estes diversos tipos de transformações e a conjunção destas se referem a diferentes formas de comunicação do sujeito consigo próprio e revelam diversos modos de ser e de estar consciente.

Importa, ainda, acrescentar que Bion (1962/1987, 1962/1988) estabelece uma diferença entre pensamentos e pensar, sendo este último um desenvolvimento imposto ao psiquismo, pela pressão dos pensamentos. Deste modo, aqueles são considerados como genética e epistemologicamente anteriores à capacidade de pensar, ao “aparelho de pensar pensamentos”. Os pensamentos também foram classificados segundo a história do seu desenvolvimento: pré-conceção, conceção, pensamento propriamente dito e conceitos. Bion (1962/1987, 1962/1988, 1970/1991) cria, então, a “teoria do pensar”, ligando-a à relação “continente-conteúdo”, teoria concebida como uma relação de identificação projetiva mútua entre o bebé e a mãe, assumindo a mãe o papel de continente acolhedor e transformador das experiências (conteúdo) da criança. Esta teoria começa por sublinhar que o bebé tem uma expectativa inata do seio, um conhecimento a priori do seio, que designa por pré-conceção, a qual, associada a uma realização positiva - quando o bebé é posto em contacto com o próprio seio, tendo uma vivência de satisfação - dá lugar a uma conceção. Quando, pelo contrário, a pré-conceção não se encontra com o seio real, vivenciado como a presença de um não seio ou seio ausente dentro dele, sofrendo, portanto, uma realização negativa - isto é, a união da pré-conceção com uma frustração -, pode dar lugar (ou não) ao aparecimento do pensamento propriamente dito. A tolerância à frustração torna-se, neste caso, um fator importante para o desenvolvimento, quer da pré-conceção, quer do pensamento: “A incapacidade excessiva, pois, para tolerar a frustração, tende a retardar o desenvolvimento da pré-conceção” (Bion, 1970/1991, p. 26). Bion (1962/1988) refere ainda que: “A incapacidade de tolerar a frustração poderá obstruir o desenvolvimento dos pensamentos e da capacidade de pensar” (p. 104).

Para que o pensamento possa surgir, é preciso, então, que a capacidade de tolerar a frustração seja suficiente para que o não-seio no interior se torne um pensamento e se desenvolva um aparelho para pensar. Pelo contrário, a intolerância à frustração leva à fuga desta e, em vez da sua modificação, o que deveria ser um pensamento torna-se um objeto mau

que apenas se presta a ser evacuado, através do uso da identificação projetiva mais omnipotente e menos realista. Esta última situação determina que não se processe a capacidade de formar símbolos, o que resulta na impossibilidade de aceder à conceptualização, à abstração, à discriminação e à generalização, ficando-se, portanto, próximo da equação simbólica, tal como Segal (1993) a descreveu.

Bion (1965/1991) relaciona, assim, o pensamento com a capacidade de reconhecer e de experimentar a ausência, facto que o leva a afirmar que o domínio do pensamento é “um espaço ocupado por não-coisas” (p. 115). Aliás, a importância de tolerar a ausência foi afirmada e desenvolvida por Segal (1993), ao relacioná-la com o simbolismo, sendo o símbolo encarado como um precipitado do luto pelo objeto. É ainda de salientar que foi Freud (1900/1996) quem, inicialmente, se referiu à importância da ausência, ao elaborar a teoria da realização alucinatória do desejo e do nascimento da representação, aquando da sua inevitável deceção, isto é, quando o bebé esboça a representação da fonte e do objeto ausentes. Para Matos (1983/2002), à realização alucinatória do desejo - que já é uma representação (uma imagem) e ocorre depois da alucinação da experiência sensível de satisfação - segue-se o fantasma ou fantasia e, com isso, “a organização de uma realidade interna, consciente e/ou inconsciente” (p. 276). Para que não ocorra o sentimento de perda há, então, a elaboração da ausência da mãe, isto é, há a conversão (transformação) da ausência na interiorização de uma presença potencial. Como precisa Grotstein (2000/2003), a consciência da alteridade entra, normalmente, na realidade psíquica do bebé quando este acede à constância do objeto, isto é, “quando o objeto total (agora um sujeito) é substituído por uma representação simbólica internalizada do objeto (no lugar em que o objeto costumava estar)” (p. 106, grifo do autor).

Por sua vez, López-Peñalver (1993) refere-se à importância da ausência como a matriz que dá lugar à constituição de uma presença. A ausência é, assim, condição da presença, condição do ser. A capacidade de tolerar a ausência foi também acentuada por Perron (1994), quando afirma que a falta, a ausência, fundam uma dialética que conduzirá à elaboração simbólica, ao pensamento. A ausência é, portanto, condição do pensar, condição da consciência. Como precisa Chiozza (2009), é a necessidade de superar a frustração, através do conhecimento, que conduz à ideia de que a autoperceção da consciência nasce face à necessidade de examinar e melhorar os processos do pensamento.

Dando uma grande relevância aos processos do pensamento, Bion (1962/1987, 1970/1991) mostrou que, na base destes processos, estão experiências afetivo/emocionais.

Com efeito, o pensamento surge da transformação destas experiências. Pensamento que pressupõe, aqui, uma sequência de processos inconscientes que se iniciam na pré-conceção. Pensamento que se vai desenvolvendo numa relação com o inconsciente e com o consciente. Consciente e inconsciente que remetem, segundo Bion (1965/1991), a estados da mente: “Por definição, o termo consciente refere-se a estados dentro da personalidade; a consciência da realidade externa decorre do estar ciente da realidade psíquica interna. Em suma, a consciência da realidade externa advém da aptidão da pessoa para tolerar lembrar-se da realidade interna” (p. 96).

Ainda segundo este investigador, o nascimento da consciência enquanto capacidade de pensar está dependente da formação do aparelho para pensar os pensamentos. E sublinha que o desenvolvimento desta consciência e deste aparelho é fruto do funcionamento do que designa por “personalidade não psicótica da mente”. Esta conceção, que postula uma duplicidade inerente ao sujeito humano, surge no artigo “Diferenciação entre a personalidade psicótica e a personalidade não-psicótica”, artigo onde Bion (1957/1988) se refere à coexistência ativa e sincrónica de aspetos contraditórios num mesmo indivíduo: “personalidade psicótica” e “personalidade não-psicótica”. Relativamente à personalidade psicótica, afirma que esta tem uma conceção egocêntrica do mundo e que usa a omnipotência, a negação da distância (com a ocupação do espaço do outro) e a perturbação do ritmo temporal, para além da oposição a qualquer dependência. A esta personalidade psicótica opõe-se a personalidade não-psicótica, que aceita as limitações da realidade, que tolera a distância e que aceita a passagem do tempo, que respeita as ligações, que admite a presença e o direito do outro, que reconhece a dependência e tolera o desejo, que é capaz de admiração, que ultrapassou a omnipotência e que, tomando consciência da sua própria ignorância, pode chegar ao conhecimento.