Lista 3: personagens da corporação policial: praças, soldados, cabos e oficiais
3.3. Refletindo sobre a revolta
3.3.1. Os policiais e liberais
Em São José do Rio Pardo, a polícia era contrária aos republicanos e, ao que tudo indica, seguia as ordens do liberal Saturnino Barbosa, corroborando com a proposição de Karl Monsma de que os delegados ou subdelegados exerciam o poder de polícia com o intuito de favorecer seus interesses. Por outro lado, ao contrário do que afirma Monsma, em São José, os praças atacaram os grupos mais abastados da cidade e não apenas italianos ou libertos.242 Porém, em relação aos negros e pardos e aos italianos, ela agia com violência, tendo agredido um italiano dois dias antes da revolta, o que provocou a colônia a revidar a ação dos policiais.243 Nesse sentido, o ataque da
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MONSMA, Karl. “op. cit., 27 a 29 de março de 2008. Disponível em <http://www.brasa.org/
Documents/BRASA_IX/Karl-Monsma.pdf> Acesso em 2 jun 2014.
243“Destacamento policia acommette maiores violencias espancaram hontem italiano sem motivo colonia
polícia ao hotel Brasil foi um episódio conveniente para a revanche dos italianos, que se reuniram aos republicanos, compuseram o “povo” e prenderam os praças no quartel.
Outro aspecto que podemos sugerir acerca do comportamento dos praças é que a ação violenta da polícia pode ter sido um caso isolado e só agiram assim porque eles estariam a favor de Saturnino Barbosa, por representarem o Estado e os republicanos serem contrários a essa ordem. Essa proposição seria uma conclusão inocente para o comportamento dos praças, porque ela implicaria em um cumprimento da lei e, se assim fosse, eles não mentiriam nos depoimentos e não haveria contradição nos testemunhos, como é o caso do depoimento do cabo Bernardino. De qualquer forma, para todos os casos, hierarquicamente, os praças respondiam ao subdelegado, que era monarquista. A maior autoridade na cidade era o presidente da Câmara, que era o capitão Saturnino, um liberal, o qual os praças deveriam atender seu chamado e acatar suas ordens, bem como as do subdelegado.
Assim, eles teriam se comportado apenas como uma força armada que defenderia os interesses da ordem vigente e teriam mentido, agredido e ameaçado deliberadamente os republicanos em detrimento da função a qual existia a força policial, “se postar como agentes de uma ordem ideal. Esperava-se que fossem capacitadas a
apaziguar o ambiente de desordem”.244 Se eram realmente monarquistas, não sabemos, pois nenhum deles se posicionou politicamente. Pelo contrário, tentaram a todo o momento retirar qualquer cunho político dos depoimentos, o que poderia sugerir um envolvimento com as ideias monarquistas, porque desmerecer ou suprimir o conflito entre republicanos e liberais da revolta significaria uma vitória dos liberais. A congruência dos depoimentos dos praças sugere uma preparação prévia para que as palavras fossem semelhantes. O único momento em que isso se modifica é o
Polícia 1889. Apud.: MONSMA, Karl. “op. cit., 27 a 29 de março de 2008. Disponível em
<http://www.brasa.org/ Documents/BRASA_IX/Karl-Monsma.pdf> Acesso em 2 jun 2014.
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testemunho do praça Bernardino Augusto da Silva, que tenta corroborar com o depoimento do cabo Rego, mas isso não invalida a sugestão de que seu testemunho havia sido forjado ou combinado como os dos outros praças.
Nesse sentido, levantamos algumas hipóteses relativas à história dos praças e soldados em São José do Rio Pardo. Na primeira, eles estavam vinculados aos liberais e defendiam a monarquia.245 Na segunda, apenas agiam seguindo ordens, sem se posicionarem politicamente. E, na terceira, a ação violenta dos praças e soldados era fundamentada na ideia apenas de “manter a ordem” contra as “pessoas perigosas”.246
Na primeira hipótese, sabemos que eles estavam vinculados aos liberais porque recebiam ordens do capitão Saturnino, líder liberal, e do subdelegado, também liberal.247 Por outro lado, não obtivemos fontes suficientes para comprovar a adesão à monarquia por parte desses homens da lei. Há uma discussão desenvolvida por André Rosemberg que associa os policiais paulistas ao movimento abolicionista. Segundo ele, esses homens deixavam de agir quando a situação pendia para a liberdade dos cativos. Cita um exemplo ocorrido em Piracicaba, no início de 1888, quando “o destacamento
não fez frente à população, que nas ruas, esperava a chegada do trem que trazia de volta escravos fugidos”248, com o intuito de facilitar a fuga dos cativos capturados. Há duas questões a serem observadas no episódio de Piracicaba. A primeira é que o destacamento policial de Piracicaba defendia os abolicionistas e a segunda, ele agia segundo seus interesses, mesmo diante das ordens dos superiores. Nesse sentido, Rosemberg afirma que os policiais tinham tendências abolicionistas, mas o que mais chama a atenção nesse evento é a ação dos policiais à revelia do comando, ou seja, eles
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Talvez fossem adeptos do abolicionismo e, por isso, fiéis ao império, mas não encontramos nada que provassem essa hipótese.
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MONSMA, Karl. “op. cit., 27 a 29 de março de 2008. Disponível em <http://www.brasa.org/ Documents/BRASA_IX/Karl-Monsma.pdf> Acesso em 2 jun 2014.
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SÃO PAULO, op. cit., 1889.
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ROSEMBERG, André. De chumbo e festim: uma história da polícia paulistas no final do Império. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo; Fapesp, 2010, p. 420-1.
fizeram a escolha de descumprir as ordens do delegado, mesmo diante de uma possível punição. André Rosemberg também afirma que muitos dos policiais tinham tendência republicana, citando alguns momentos em que isso ficou evidenciado em fontes no interior de São Paulo, mas em São José do Rio Pardo, eles lutaram contra os republicanos. Não obtivemos dados que confirmassem se os policiais eram abolicionistas ou monarquistas, mas sabemos que ali não eram republicanos porque se fossem poderiam ter agido como fizeram em Piracicaba e descumprido as ordens do subdelegado que era liberal.
Na segunda hipótese, os praças estavam apenas cumprindo as ordens recebidas sem terem vinculação política com nenhuma das facções. Não temos como saber se eles só responderam às ordens dadas, mas sabemos que não eram republicanos porque não se importaram em obedecer aos liberais tendo a brecha de simplesmente não obedecer. Assim, acreditamos que a segunda hipótese é a menos plausível para explicar o comportamento dos praças.
A terceira hipótese seria relativa ao comportamento dos policiais que teria o objetivo de dar manutenção à ordem, impedindo negros, pardos e imigrantes, grupos mencionados como as “pessoas perigosas”249
, a descumprir as leis e cometer crimes. Os praças e soldados agiram realmente com violência para com os italianos na zona rural de São José do Rio Pardo. Em uma nota do jornal, foi mencionado que eles teriam agredido gratuitamente um italiano de uma das colônias, o que gerou certa insatisfação entre os imigrantes.250 Essa hipótese não invalida as anteriores porque estando a favor dos liberais ou apenas cumprindo ordens, a polícia agiu com violência. Porém, o que pode ser ressaltado é que a agressividade dos policiais estava direcionada aos republicanos que eram em maioria doutores, fazendeiros e comerciantes, grupo que
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MONSMA, Karl. “op. cit., 27 a 29 de março de 2008. Disponível em <http://www.brasa.org/ Documents/BRASA_IX/Karl-Monsma.pdf> Acesso em 2 jun 2014 e ROSEMBERG, op. cit., 2010.
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estava fora do conceito de “pessoas perigosas”.251
Assim, nossa terceira hipótese se aplicaria ao comportamento da polícia, mas não explicaria porque o ataque aos líderes republicanos no hotel Brasil, já que esses indivíduos eram a elite local e não justificaria a agressão a eles para conter as “pessoas perigosas”.
3.3.2. Os italianos
O outro grupo mencionado era composto pelos italianos, que dividimos em dois tipos: os que viviam na cidade e os das fazendas. Essa divisão corrobora com a que foi realizada pelos próprios italianos dentro da Sociedade de Mútuo Socorro XX de Setembro. Temos entre nossos personagens aqueles cujos nomes eram conhecidos pelos depoentes porque eram atuantes na sociedade riopardense, como comerciantes e pequenos artesãos, constituindo-se, assim, os italianos da cidade. Sugerimos que eles também se encontrassem em posição contrária à polícia porque não eram ricos e sofriam os desmandos dos praças, levando à insatisfação em relação à corporação. Não temos como afirmar se eram republicanos, porque não se manifestaram diretamente favoráveis à doutrina, mas tocavam a marselhesa nas festividades e, na hipótese de serem republicanos, não poderiam se manifestar oficialmente por causa do estatuto da Sociedade Italiana que não permitia a filiação ou definição política por parte dos associados.
Já os italianos das fazendas, acreditamos que estavam diluídos entre as pessoas que teriam vindo por ordem dos fazendeiros republicanos. Não sabemos se a adesão desses homens à revolta está relacionada também à insatisfação com a polícia estadual ou se eram simpáticos às ideias republicanas. Em relação à república, segundo
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coronel Manoel Corrêa de Sousa Lima, toda a cidade já estava “republicanizada”252, mas à primeira vista isso significava que os eleitores eram republicanos e não, necessariamente, aqueles que nem chegavam à condição de votar eram adeptos dessas ideias. Como não temos fontes suficientes para conhecer as motivações dos italianos das fazendas, devemos no ater ao que foi dito acerca da presença deles na revolta.
Para o presidente da província, a participação de italianos era arriscada porque os trabalhadores estrangeiros eram um grupo perigoso se estivesse envolvido com política. Ele insinuou que se eles fossem conhecedores do sistema político nacional e passassem a interferir, poderiam se rebelar violentamente contra os seus patrões. Assim, deveriam ficar de fora de qualquer discussão política.253 Mas não foi o que aconteceu em São José do Rio Pardo. Ali eles compuseram a massa que foi denominada „povo‟ pelos republicanos e, diante disso, foram inseridos conceitualmente no sistema político nacional, mesmo que setorialmente. A manifestação de insatisfação dos italianos ocorreu em nome da sociedade cujo presidente afirmou que eles não eram capangas e que a sociedade não se posicionava politicamente, mas não desmentiu a participação da revolta, nem uma possível crença na república.