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2 POLÍTICAS DE DESENVOLVIMENTO DO MODELO PRIMÁRIO

2.2 CONFLITOS TERRITORIAIS PELO ENCLAVE DE EXPORTAÇÃO CIPS

2.2.1 Os primeiros conflitos década de 1970-2000

Apesar das previsões realizadas por alguns cientistas sobre os impactos devastadores - do mangue, da restinga, da expropriação dos camponeses/as, da mudança nos modos de vida dos camponeses/as - que provocaria o CIPS antes do megaprojeto ser criado - já citados no capítulo anterior - o empreendimento foi instalado e continua se desenvolvendo em detrimento da natureza e das comunidades locais.

No ano de 1975 foi realizado o primeiro plano de manejo do CIPS. Em 1983 foi instituído o Decreto Estadual 8.447 que determinou o zoneamento do CIPS. Nele havia duas áreas residenciais: Zona Residencial - ZR - e Zona Residencial Turística -ZRT:

Art. 11 - O zoneamento do solo constante do mapa anexo, fica detalhado como segue:

§ 6º - ZONA RESIDÊNCIAL (ZR) – subdividida nas unidades caracterizadas como se segue: a) – Zona Residencial de Expansão de Nossa Senhora do Ó, de Cabo e Ponte dos Carvalhos (ZR-1, ZR-3 A, ZR-3B e ZR- 3C), a primeira situada no Município de Ipojuca e as demais no Município do Cabo, cujo uso está sujeito às adequações e restrições impostas pelos Regulamentos Municipais, Estaduais e Federais em vigor. b) – Zonas Residenciais a serem implantadas (ZR-2, ZR-3D), a primeira no chamado Engenho Boa Sica e a outra nos Engenhos Boa Vista e Jurissaca, onde são consideradas adequadas, além do emprego residencial já implícito, os demais usos especificados no Plano Básico Urbanístico da área.

§ 7º - ZONA RESIDENCIAL TURÍSTICA (ZRT) – localiza-se nas Praias de Gaibú, Itapuama, do Paiva e Pontal do Cupe, com idênticas finalidades para usos da Zona Residencial, e com especial destinação aos programas de turismo (PERNAMBUCO, 1983).

Nossa Senhora do Ô, Cabo e Ponte dos Carvalhos eram consideradas áreas de expansão para moradia. Inclusive nas entrevistas com as mulheres do Centro das Mulheres do Cabo fomos informados que esses foram os locais de instalação dos que moravam nas terras do que hoje é Suape. Sobre o engenho Boa Sica não temos informações de sua existência, portanto, não podemos saber o que aconteceu, e os engenhos Boa Vista e Jurissaca estavam nas periferias do CIPS.

Segundo relatos dos camponeses/as entrevistados do engenho Tiriri, na época do início da instalação do CIPS vários camponeses/as saíram de seus territórios, mas não houve um processo de expropriação generalizado. Enquanto as indenizações não foram feitas, os

camponeses/as continuaram nas suas terras, cultivando-as e mantendo os animais de criação, reproduzindo as suas vidas.

Em 1983, Grandejan e Martins publicaram um artigo no qual mostraram o processo de instalação e expropriação que estava acontecendo na área escolhida pelo CIPS. Inclusive apresentaram um quadro (QUADRO 2) que indicava a população atingida pelo Projeto.

Quadro 2 – Situação da população atingida pela implantação do Projeto Suape. Fonte: Grandejan e Martins, 1983.

Como podemos ver no quadro, os autores diferenciaram os moradores residentes da área ligados à Cooperativa Tiriri, os “residentes particulares” e os não residentes, chamados de migrantes e transferidos. E, para cada caso, mostraram a relação de trabalho, econômica e de moradia no período anterior à instalação do porto e no ano de 1983. O panorama de mudança não beneficiou a nenhuma das categorias identificadas. O trabalho dos moradores virou temporário, a maioria deles não tinha mais terra e alguns deles moraram em casas aparentemente cedidas pela Empresa Suape e nas periferias da cidade. Com base nessa pesquisa, Martins se apresentou em 1983 na Assembleia Legislativa de Pernambuco - ALEPE - para fazer a denúncia do que estava acontecendo no que hoje é Suape.

Ainda, um artigo de 1984, de Rachel Lins, fez uma comparação entre duas terras onde moravam os camponeses/as, mas tiveram que sair, e onde foram morar depois da expropriação. A primeira com 4.900 ha., situada no que hoje é Suape entre os municípios de

Cabo de Santo Agostinho e Ipojuca, e a segunda, com 2.317,75 ha., localizada entre os municípios de Cabo de Santo Agostinho, Ipojuca e Paudalho. Ela mencionou que as condições eram bastante diferentes, especialmente no que se refere à presença de mangue e camboas, nas primeiras, que permitiam uma fonte adicional de alimentação e renda aos agricultores, sendo que na segunda o domínio era de monocultivo de cana-de-açúcar. Isso mostrou que as condições dos camponeses/as expropriados pioraram ao terem de se mudar para essas novas terras.

Nos primeiros anos as empresas instaladas foram a Petrobras - que construiu quatro tanques de armazenamento de álcool - e, a BR distribuidora, a Texaco, a Esso e a Shell, que se transladaram para o CIPS em 1986 devido a um incêndio de um navio de combustível no porto de Recife.

O segundo período de instalação de empresas e construção do CIPS ocorreu na década de 1990. Seguindo a lei de modernização dos portos, o Complexo construiu um cais de usos múltiplos e iniciou a circulação de produtos através de contêineres. Em 1991, através do documento "Diretrizes da Política Nacional dos Transportes", este foi incluído entre os onze portos prioritários para investimento em infraestrutura do Brasil. O governo de Fernando Henrique Cardoso criou, em 1996, o Programa Brasil em Ação (com duração até 1999), que dispunha recursos para a construção do seu porto interno.

Valdeci Monteiro dos Santos (2012), codiretor da consultora Planave-Projetec, que realizou o plano diretor do CIPS (2010), em uma entrevista para o Instituto Unisinos explicou que:

Pode-se dizer que, até meados de 2005, Suape se caracterizaria por investimentos no porto e na instalação de empresas de médio porte, com baixa complexidade tecnológica, pouca exigência de qualificação profissional e limitada capacidade de irradiação na economia regional. Vale lembrar que as décadas de 1980 e 1990 e os anos iniciais do Século 21 foram marcados pelo baixo crescimento e, em especial, por um processo de desindustrialização da economia estadual (DOS SANTOS, 2012).

Isto significa que, apesar de haver a intenção de fazer crescer o CIPS a partir dos investimentos do Programa Brasil em Ação, efetivamente não se observou resultados significativos. Deste período não há muitos dados, mas os camponeses/as comentam que nessa época houve uma nova onda de expropriações semelhante à ocorrida no início da construção do CIPS. Talvez devido justamente às tentativas de fazer do CIPS realmente um complexo industrial portuário.

No início da década de 1990 houve um processo de ocupação da área do que hoje é Suape por 600 famílias, constituindo a Fazenda dos Trabalhadores, formada por cinco engenhos: Arendepe, Penderama, Tabatinga, Conceição Nova e Pirajá.

2.2.2 E os conflitos continuam e se intensificam com o PAC - Décadas de 2000, 2010 até