Capítulo 5 – Análise de dados e considerações finais
5.1. Como o material Start foi utilizado em sala de aula
5.1.2. Os primeiros dias de aula com o material Start
Tanto os alunos quanto a professora mostraram-se cheios de expectativas positivas em relação ao início das aulas com o material Start por diversos motivos: era um material diferente, cumpriria a exigência do uso da sala de informática e, por ser um material em fase experimental, oferecia um caráter de importância avaliativa em todos os envolvidos. A própria professora acessou o material de sua casa, conforme o combinado52, e preparou as aulas. Durante as 4 primeiras aulas em cada turma,
apenas participei como observadora, não realizando intervenção alguma. Nessas aulas, foi possível perceber que apesar do material possuir uma proposta diferenciada, a professora e os alunos apropriaram-se dele através de uma dinâmica muito semelhante a que já ocorria na sala de aula, ou seja, a professora detinha a palavra a maior parte do tempo e os alunos aguardavam sua orientação para saber qual seria a atividade a ser realizada.
Todavia, é preciso pontuar que devido ao conteúdo do material ser muito diferente dos conteúdos das atividades em que essa dinâmica costumava ocorrer, houve um grande estranhamento por parte da professora e dos alunos e momentos de silêncio entre todos que pareciam expressar um certo desconforto e estranhamento com o que estava ocorrendo.
Por exemplo, o primeiro post do material trata-se de um post do personagem Tom em que ele narra sua vinda para São Paulo, seu encontro com a turma e com o centro em que estudará língua inglesa. Consideramos esse post como parte fundamental do material para que haja o entendimento da história que envolve todas as suas atividades e, também, porque já traz para a primeira aula vários pontos de discussão sobre linguagem, como o modo de escrita em um blog pessoal e as expressões linguísticas de Tom, que remetem ao lugar de onde ele veio e que são reproduzidas na escrita com termos como “uai”.
Uma expectativa do design instrucional desse material era que houvesse o envolvimento dos alunos na temática através da introdução do professor. Era
52 Conforme já mencionado neste trabalho, apresentei o material para a professora e disponibilizei os acessos para que ela pudesse estudá-lo de sua casa.
esperado que ocorresse o uso combinado das diferentes mídias (podcast e texto), de modo a despertar uma discussão que abordasse ao menos as diferentes características de linguagem, como traços regionais e graus de formalidade53, ou as
possibilidades de circulação de textos na internet e a oportunidade de transmitir áudio através da tecnologia e dos seus novos modos de comunicação.
Contrariando o esperado, a primeira aula para a primeira turma ocorreu da seguinte maneira: a professora leu todo o texto em voz alta para a sala, sua leitura foi pouco contínua pois, nos momentos que demandavam uma mudança no modo de falar por traços regionais na língua, a professora realizava uma pausa e lia o texto modificando-o, retirando as entonações e tornando a linguagem mais próxima da sua variável linguística. Os alunos pareciam não prestar muita atenção em sua leitura e, no momento seguinte, em que ela iniciou o podcast, eles já estavam muito dispersos. Percebi que ao fim do podcast, a professora parecia um pouco confusa em como prosseguir. Ela retomou a aula, pedindo a atenção dos alunos, mostrou para eles que as atividades encontravam-se nos outros botões do menu lateral e orientou-os a realizar todas até o fim da aula. Na segunda turma, a dinâmica da aula foi muito semelhante exceto que não houve a parte do podcast: após a leitura do post, os alunos já iniciaram as atividades.
As duas próximas aulas que ocorreram foram destinadas pela professora para a correção das atividades e observou-se que, também durante essas aulas, houve um conflito entre o esperado (como expectativa de proposta do material) e o ocorrido. A dinâmica aplicada durante a correção manteve-se a mesma aplicada com os outros materiais (folhinhas de exercício e atividades do livro didático) com os quais tanto a professora quanto os alunos estavam acostumados. Nessa dinâmica, as respostas são dadas pela professora e os alunos vão corrigindo, explicitando suas dúvidas. Essa dinâmica não é aplicável ao material Start já que esse oferece a possibilidade de autocorreção e o protótipo não armazena as respostas dos alunos. Assim, durante essas aulas houve um estranhamento por parte das classes quanto aos objetivos da professora pois os alunos deram-se conta de que estavam refazendo todas as atividades já corrigidas pelo material só que, naquele momento, sob a orientação da professora.
53 A questão do regionalismo tinha como objetivo que, através da discussão sobre as variações regionais da língua materna, os alunos e a professora se sensibilizasses sobre o fato de há também essas diferenças na língua inglesa – o que é tratado mais adiante no material Start.
Ao final dessas quatro aulas, reuni-me com a professora para avaliarmos como estava sendo utilizado o material Start. A professora mostrou-se frustrada com o desenrolar das aulas e confusa com o uso do material, pois, para ela, parecia que o material a deixou fragilizada perante a sala, que ele parecia muito automatizado descartando a necessidade da presença de um professor para conduzir a aula e que os alunos estavam tão desinteressados quanto antes.
Esse cenário deixou claro que no material estava faltando algo que melhor orientasse o professor quanto às possibilidades que esse oferecia e também quanto à importância da presença de um professor para conduzir o seu uso e, dessa maneira, senti-me motivada a preparar algumas aulas em conjunto à professora. Feita essa constatação, discuti com a professora sobre as expectativas da proposta do material e sobre como poderiam ser aulas. Realizamos encontros semanais e observamos as aulas foram então melhores aproveitadas tanto pela professora quanto pela classe. Ciente da dificuldade da familiarização e apropriação de propostas pedagógicas novas, sempre que possível eu realizava intervenções na aula, oferecendo possibilidades à professora sobre o que fazer com as atividades.
A análise que segue utiliza para sua organização os aspectos discriminados durantes as revisões e alterações na construção do protótipo do Start (como tornar o material um blog; explorando o meio digital; trabalhando os multiletramentos). Esses pontos foram descritos no capítulo 3 e a análise busca refletir sobre eles de maneira empírica visando delinear parâmetros para futuras revisões e melhorias no material.
5.1.3. Explorando o blog como pretexto na construção do material
Durante a construção do protótipo do material Start, elegemos três aspectos para serem desenvolvidas na tentativa de aproximar cada vez mais o material de um formato real de blog, como já explicitado anteriormente, sendo os posts temáticos por semana, a reflexão sobre os diferentes tipos de linguagens e o recurso de seção de comentários.
a. Posts temáticos por semana
Foi possível perceber que o fato dos posts estarem alinhavados através do mesmo tema repercutiu em resultados positivos durante as aulas com o material.
Houve a possibilidade do aprofundamento do tema pelos alunos, a partir do momento em que o conteúdo manteve um mesmo tema na distribuição dos cincos posts de cada agrupamento semanal - isso fez com que o tema eleito pudesse ser reforçado e desenrolado gradualmente durante diferentes atividades, sem ser afetado pelo fato de ser abordado em aulas que ocorrem em diferentes dias de semana. A retomada do tema por diferentes personagens fez com que os alunos se situassem mais no contexto das atividades e é possível que tenha contribuído para que o aluno não perdesse o interesse.
Segundo o depoimento da própria professora em um de nossos encontros, os posts temáticos lhe abriram a possibilidade de intercalar o uso do material com outros materiais e atividades. Durante os testes, isso ocorreu apenas durante uma aula em que a professora precisava aplicar uma avaliação que já estava agendada em seu calendário escolar, no entanto, ela avaliou que a longo prazo isso facilitaria seu uso desse material. De acordo com ela, é muito comum que os alunos dispersem seu interesse do tema e do foco dos materiais, inclusive os que ela considera que na visão deles é interessante, como por exemplo um filme: geralmente, não é possível passar um filme inteiro em uma só aula devido à sua duração. Quando a continuação do filme é passada, há desinteresse dos alunos na segunda metade do filme porque perde-se a sequência narrativa. Assim, para ela, o fato do material manter reforços e retomadas sobre o que está sendo visto auxilia que os alunos mantenham-se envolvidos e também que ela tenha maior liberdade para planejar suas aulas, explorando o tema e ampliando questões em foco.
b. Maior realismo aos posts através de estilos diferentes de escrita
As alterações realizadas na linguagem do material na busca por aproximá- lo mais de um blog real (cada personagem com estilos particulares) foram norteadas pela expectativa de engajar os alunos a realizarem as atividades e a quem sabe motivá-los a possuir o próprio blog (dada a busca de aproximar o material o quanto fosse possível de um blog da internet).
Durante as aulas com o material foi possível observar que essas expectativas foram atendidas com base em dois indícios. O primeiro é que os alunos envolveram-se com os personagens ao ponto de reconhecer neles características próprias e dos colegas, nos momentos em que apelidaram-se com os nomes dos
personagens e diziam frases como “Nossa, a Conny aqui falou como eu falo” e “A
Saby parece a fulana quando ela tenta me explicar alguma coisa”. Essa relação da
vida real pode tê-los tornado mais engajados no uso do material.
O segundo foi quando em uma das turmas (lembrando que eram duas turmas de 9 º ano) um dos alunos questionou se era possível ele também possuir seu próprio blog e esse comentário gerou uma conversa entre os colegas de que inclusive eles poderiam fazer um blog da turma para diferentes fins. A continuidade disso infelizmente não foi possibilitada no instante em que a professora retomou as atividades e cessou a conversa.
No encontro com a professora após essa aula, ela confessou não saber como proceder para atender a vontade dos alunos já que ela própria não saberia como ajudá-los a fazer um blog. Mostrei-me disposta a auxiliá-la, mas, mesmo assim, a professora recusou a possibilidade justificando pelo fato de que estávamos no meio do semestre e ela já possuía muitas outras atribuições. Dessa forma, é possível inferir que mesmo que o material tenha mostrado que é possível instigar os alunos a serem autores no espaço da internet, ainda é preciso um trabalho que viabilize isso e que considere também o professor enquanto aprendiz em processo de apropriação dessas tecnologias e gêneros digitais. Sendo uma experiência teste inserida em uma aula regular, é possível prever outros resultados se a dinâmica de sala de aula for direcionada desde o início por um material diferenciado como o Start.
c. Seção de comentário: espaço aberto para a interação dos alunos
Como já descrito, os designers deixaram no material Start o recurso de seção de comentários disponível aos alunos, mesmo que esse recurso não estivesse ainda conforme a expectativa do material – uma seção para cada post. Essa decisão, conforme já dito, foi tomada para que houvesse a possibilidade de observar como os alunos lidariam com esse espaço.
Durante uma das primeiras aulas vimos que muitos alunos interessaram- se por aquela seção e perguntaram sua função. A professora, que já havia sido orientada por mim, explicou aos alunos que era um espaço em que eles podiam inserir seus próprios textos comentando o que achassem pertinente com relação aos posts daquela semana. A partir da explicação da professora, alguns alunos tiveram a iniciativa de tentar inserir seus comentários. Isso acabou não sendo possível por uma
falha de design que precisa ser prevista. No espaço de comentários da plataforma
Wordpress (na qual foi publicado o material), é preciso que seja inserido um endereço
de e-mail para que possa ser inserido um comentário e nenhum dos alunos das turmas testadas possuíam um endereço de e-mail e sequer estavam familiarizados com essa utilização de contas de e-mail.
Como poderíamos esperar, isso resultou em uma grande dispersão do foco da aula pois tanto a professora quanto os alunos não sabiam como lidar com essa situação. Para melhor entendê-la, perguntei aos alunos o que eles utilizavam para comunicar-se e como eles lidavam com as contas nas redes sociais e obtive a resposta de que os e-mails que eles possuíam (para os que possuíam) foram criados apenas como pretexto para criar uma conta nas redes sociais e que a comunicação entre eles era feita através delas e de aplicativos disponíveis para dispositivos móveis, como celulares. Então, a partir desse cenário, foi decidido pela professora que esse espaço não seria mais utilizado e mesmo que os alunos tenham compreendido isso, foi possível observar a frustração deles, e também da professora, quanto ao funcionamento do material. Isso pode ser um forte indício de que o uso de materiais digitais precisa incluir a possibilidade de interação do usuário ou remeter à possibilidade de comunicação em redes sociais.
Além disso, avaliamos a partir dessa experiência que a seção de comentários, para que seja eficaz em seus propósitos, precisa ser melhor planejada no material, pois acreditamos que sua permanência gerará impactos positivos no processo de aprendizagem dos alunos. Por exemplo, acreditamos que esse recurso ofereceria ao aluno um espaço para uma maior participação individual com o próprio material. Além disso, através desse recurso, seria possível trabalhar as novas formas de comunicação e participação social usando as novas tecnologias, uma vez que é um recurso comum em outros espaços presentes na internet. Esse é um caminho possível de desenvolver a autonomia e as competências o aprendiz para a colaboração e a negociação de sentidos, assim como para a autoria.
5.1.4. Explorando os recursos do meio digital
A análise dos dados indicou que as alterações realizadas no material durante a construção do protótipo que visavam melhor explorar os recursos digitais
explorando o potencial interativo do meio garantiu resultados positivos no uso de sala de aula.
Foi observado em sala de aula que as atividades em que os alunos precisavam interagir com o material através de cliques, escolhas e manuseios como o drag and drop (clique, segure e arraste) motivava-os em realizar as atividades e instigaram a colaboração entre os alunos que compartilhavam suas descobertas sobre novas maneiras de atuar naquele ambiente digital. Esses resultados inspiram mais dedicação em explorar os recursos digitais no momento de desenvolvimento de uma nova versão do material.
Uma solicitação da professora em um de nossos encontros fora da sala de aula foi que as respostas das atividades não sejam disponibilizadas para o aluno, uma vez que isso demanda uma autonomia ainda não desenvolvida por eles que em sua maioria clicam nas respostas antes de tentar realizar atividade e que isso gera um desconforto nos momentos de correção uma vez que os alunos dispersam-se por já ter visto as respostas. De acordo com a professora, os momentos de correção em sala de aula fazem também parte de seu planejamento pedagógico pois há espaço para dúvidas, questionamentos por parte dela e inclusive a reflexão sobre quais estão sendo as dificuldades dos alunos.