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O principal resultado tecnológico do período de 1984 a 1992 foi o desenvolvimento do Sistema de Tratamento de Imagens (SITIM) e do Sistema de Informações Geográficas (SGI) para ambiente PC, equipamento que trouxe a expectativa de se ampliar o espectro de usuários das tecnologias de sensoriamento remoto. No início dos anos 1980, a aquisição de computadores de grande porte era possível apenas a algumas instituições de pesquisa, o que limitava o uso das tecnologias desenvolvidas pela DPI. A chegada ao mercado dos PCs, a um custo mais acessível, permitindo o uso de computadores a uma gama maior de usuários, criava uma grande expectativa de mudanças no cenário. A tendência das evoluções tecnológicas apontada na época era de diminuição do custo dos equipamentos de informática e aumento da capacidade de armazenamento e processamento de dados, o que seriam essenciais para quem lidava com imagens de satélite.

A DPI começou a desenvolver a Unidade de Visualização de Imagem (UVI), a partir da UAI, que foi apresentada em 1984, na Feira de Informática, realizada no Rio de Janeiro. Também neste mesmo ano, a primeira versão do SITIM, o SITIM-110, foi apresentada no Simpósio Brasileiro de Sensoriamento Remoto, no Rio de Janeiro. O SITIM-110 foi desenvolvido em um “microcomputador nacional de 16 bits compatível com o IBM-PC/XT, [acoplada a ele] uma unidade de armazenamento e visualização de imagens [, a placa UAI],

desenvolvida originalmente para receber imagens de satélites meteorológicos” (SOUZA et al, 1986). A UAI, além de ser acoplada ao microcomputador, era conectada a uma unidade de fita magnética, que formava o sistema completo para tratamento de imagens.

Em 1985, o INPE fez a entrega do primeiro SITIM-110 para o Laboratório de Sensoriamento Remoto de Campina Grande (PB), como parte da política de C&T da época, dedicada às atividades do INPE. O Ministério da Ciência e Tecnologia (MCT) deu apoio à instalação de laboratórios regionais de sensoriamento remoto dotados de tais equipamentos. Outros laboratórios como este foram instalados em outras instituições do país. Estes equipamentos, com tecnologia da DPI, eram produzidos pela Engespaço, com aquisição financiada pela Financiadora de Estudos e Projetos (FINEP), também ligada ao MCT.

Em 1986, a DPI lançou o sistema SITIM-150, no Simpósio Brasileiro de Sensoriamento Remoto, em Gramado (RS). Esta versão do SITIM foi lançada em ambiente MS-DOS (um PC-286 com 8Mhz e 256 Kb de memória), com uma placa gráfica com capacidade de 1024x1024x24 bits, além de interfaces de leitura de fita para microcomputadores (ERTHAL et al., 1986; SOUZA et al., 1990). Já o Sistema de Informação Geográfica (SGI) começou a ser desenvolvido em 1984, para ambiente MS-DOS, sendo lançada a sua primeira versão neste mesmo Simpósio, em Gramado. No ano seguinte, em 1987, o primeiro SITIM-150 foi entregue ao Instituto Oceanográfico da USP. Ainda haveria o SITIM 200 e 300 (SOUZA et al., 1986), absorvendo os avanços tecnológicos na área de informática, trazendo melhorias ao desempenho dos microcomputadores, como também no módulo de aplicativos desenvolvidos pela DPI, que contava ainda com o SGI integrado, mesmo que parcialmente, ao SITIM.

Segundo Souza (2009), a experiência no tratamento de imagens digitais teria levado o INPE a fechar parcerias na área médica, para o desenvolvimento de aplicações para o armazenamento e manuseio de imagens de tomografia, ultrasom, raio-x e gamagrafia, entre outros tipos de exame. Técnicas de inteligência artificial vinham sendo utilizadas para a “extração de informações não diretamente presentes nas imagens, (...) [mas na] identificação automática de deficiência cardíaca pela análise de uma seqüência de imagens de um coração” (SOUZA et. al., 1986). As pesquisas de tratamento e processamento de imagens têm como base qualquer tipo de imagem, não necessariamente a de satélites, daí a possibilidade de se utilizar os conhecimentos desta área em outras aplicações. As parcerias com grupos de pesquisa e usuários finais dos softwares da DPI em outros setores de atividade, além de representar novos desafios revertiam em reconhecimento e legitimação científica.

No final dos anos 1980, a trajetória dos desenvolvimentos da DPI levou a convergência das tecnologias de tratamento de imagens e de sistema de informações geográficas para uma mesma base computacional, muito embora, no início, a integração destes dois sistemas no SITIM/SGI não ocorresse efetivamente. Eram interligados numa mesma plataforma computacional, mas cada um operando em ambientes diferentes. O desenvolvimento do SITIM/SGI em ambiente PC-DOS foi pioneiro internacionalmente. Enquanto a primeira versão do sistema foi lançada no Brasil em 1986, apenas em 1988 o principal fabricante americano (ESRI), líder de mercado, lançou um produto para micro- computadores (PC-ArcInfo) e com capacidade inferior ao SITIM/SGI. Por este motivo, durante a década de 1980, o produto se estabeleceu como o principal SIG usado no Brasil para a área ambiental (CÂMARA e MONTEIRO, 2002). O sistema foi utilizado por 170 universidades e institutos de pesquisa até 1994. Os projetos ambientais desenvolvidos por instituições brasileiras de pesquisa com SITIM/SGI foram os seguintes:

a) o levantamento dos remanescentes da Mata Atlântica Brasileira (cerca de 100 cartas- imagem), desenvolvido pela empresa IMAGEM Sensoriamento Remoto, sob contrato da ONG SOS Mata Atlântica;

b) a cartografia fito-ecológica de Fernando de Noronha, realizada pelo NMA/EMBRAPA; c) o mapeamento das áreas de risco para plantio para toda a Região Sul do Brasil, para as culturas de milho, trigo e soja, realizado pelo CPAC/EMBRAPA;

d) o estudo das características geológicas da bacia do Recôncavo, através da integração de dados geofísicos, altimétricos e de sensoriamento remoto, conduzido pelo CENPES/Petrobrás. (CÂMARA, 1996)

A DPI procurou apoiar grandes programas que faziam uso do sensoriamento remoto, tanto no INPE, como em outras instituições do País. Internamente, o grupo não ficou atrelado somente às pesquisas do Departamento de Sensoriamento Remoto do INPE, atendendo também ao Centro de Previsão do Tempo e Estudos Climáticos (CPTEC). Em 1988, a DPI coordenou e desenvolveu, em cooperação com o CPTEC e o Centro Europeu de Previsões de Tempo de Médio Prazo (European Centre for Medium-Range Weather Forecasts - ECMWF), o sistema MicroMAGICS para visualização de gráficos e imagens em Meteorologia.

O MicroMAGICS era considerado um sub-produto dos desenvolvimentos da DPI, já que o SITIM/SGI era a principal plataforma de suas inovações. Este sistema contou com grande aceitação na comunidade nacional e internacional, sendo utilizado por diversos serviços meteorológicos da Europa e pelo Departamento Nacional de Meteorologia (DNMET)110. Segundo Monteiro (2009), estes desenvolvimentos apesar de não estarem entre

as principais atividades da DPI, deram a possibilidade de projetar melhor a capacidade de inovação do grupo dentro e fora do País.

Do ponto de vista do financiamento da pesquisa, a DPI nos anos 1980 contou com fontes alternativas de investimento e não somente com os recursos da União que chegavam através do INPE. De 1984 até o início dos anos 1990, os desenvolvimentos da DPI receberam, pelo INPE, cerca de US$ 150 mil. Boa parte dos recursos, no entanto, mais de US$ 1 milhão no mesmo período, veio de outras fontes internas do INPE (como o CPTEC e o programa CBERS), mas principalmente de fontes externas, como IBM, FAPESP, CNPq, "royalties" e Diretoria de Serviço Geográfico, do Ministério do Exército.

A Engespaço teve um ganho de US$ 7 milhões com a comercialização do SITIM e SITIM/SGI em um período inferior a 10 anos. A DPI demonstrava grande capacidade de inserção de seus projetos dentro de uma perspectiva tecnológica, industrial e comercial. Nesta primeira fase, as alianças com grupos internos, do Departamento de Sensoriamento Remoto, foram fundamentais. Os pesquisadores deste Departamento eram de diferentes áreas de formação – geologia, geografia, agronomia, urbanismo, oceanografia, engenharia florestal, ecologia, entre outras. As pesquisas desenvolvidas nestas áreas adotavam como principal metodologia a extração de dados de imagens de satélites de sensoriamento remoto, inicialmente uma operação mais simples, executada por técnicos que geravam as imagens em papel, no formato analógico. A perspectiva era de que o uso desta metodologia, no início utilizada somente no INPE, deveria se disseminar para fora da instituição. Para isso, seria fundamental que o pesquisador, usuário final das tecnologias da DPI, fosse treinado e capacitado a operar o software de tratamento de imagens e o SIG para então extrair e manusear os dados de interesse nas imagens de satélite digitalizadas. Havia ainda o apoio da direção do INPE para a disseminação e uso dos softwares da DPI. Dentro do INPE, os projetos dedicados a políticas públicas do governo federal, como o levantamento anual do desmatamento da Floresta Amazônica, passariam a utilizar o software da DPI.

Já a contribuição dos pesquisadores da DSR, que deveriam ser os principais usuários das tecnologias da DPI, não se limitou a disseminação de seus produtos. Também foram fundamentais, como usuário, no aperfeiçoamento das tecnologias da DPI ao apontar novas necessidades de aplicativos. Este foi um dos principais mecanismos que a DPI contou para evoluir nos desdobramentos das tecnologias de seu domínio. Outra forma foi a própria evolução da informática, que colocava no mercado máquinas cada vez mais potentes, de melhor desempenho e com novos recursos, que abriam novas possibilidades de desenvolvimento.

Muitas dissertações de mestrado, realizadas nesta época, faziam uso do SGI e contaram com o apoio técnico da equipe da DPI. Além disso, muitas das contribuições que passaram a fazer parte dos desenvolvimentos das tecnologias de tratamento de imagens e geoprocessamento, incorporados ao SITIM e SGI, bem como ao SPRING, foram fruto de dissertações de mestrado e teses de doutorado dos próprios integrantes da DPI.

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