5. BLOCO DE CONSTITUCIONALIDADE BRASILEIRO: A APROXIMAÇÃO DA
5.2 Componentes do bloco de constitucionalidade no Brasil
5.2.1 Os princípios constitucionais
A constituição, diz-se mais uma vez, é um sistema de regras e princípios, por isso, além de regular determinadas situações, a nossa Constituição expressamente trouxe alguns princípios, como o princípios processuais da ampla defesa (art.5º, LV) e do contraditório (art.5º, LV), o princípio da separação dos poderes (art.2º), os princípios das relações internacionais da igualdade entre os Estados (art.4º, V) e o da defesa da paz (art.4º, VI), os
princípios administrativos da moralidade, eficiência e impessoalidade, todos expressos no caput, do art.37 da CF, além de outros princípios nela constante.
José Afonso da Silva392, com base em Canotilho, sustenta que os princípios
constitucionais podem ser resumidos em duas vertentes: princípios políticos-constitucionais, que seriam decorrentes de uma decisão política fundamentada, em especial sobre a forma política da nação, nos viés de Schmitt, assim sendo os princípios da República existentes nos art.1º ao 4º da Constituição federal; e os princípios jurídico-constitucionais, que seriam informadores da ordem jurídica nacional, e por vezes seriam desdobramento dos princípios políticos constitucionais, como o princípio da supremacia da constituição, da igualdade, da liberdade. Também se incluiriam nessa modalidade os princípios-garantias, como o princípio do devido processo legal, do juiz natural, do contraditório, dentre outros.
Quantos aos princípios expressos, diante da sua qualidade de norma constitucional, como visto em tópico anterior, é bastante claro que já faz parte do bloco por ser formalmente constitucional, não havendo necessidade de estudo em separado.
Mas, além dos princípios expressos, em diversos julgados, o Supremo Tribunal confirmou a constitucionalidade de diversos princípios implícitos às disposições constitucionais ou decorrentes do princípio da dignidade humana. Segundo Gisela Gondin
Ramos393, em obra exclusiva sobre o tema, a admissão de presença de princípios implícitos no
ordenamento jurídico decorre de “nova concepção de norma jurídica, para além dos limites impostos pelo positivismo clássico, em que a mesma é construída em sentido e extensão, pelo intérprete”.
Na ADPF 130/DF no qual entendia a violação da liberdade de informação jornalística pela Lei de Imprensa, em especial pela previsão de indenizações, o princípio da proporcionalidade394 foi utilizado como técnica fundamental de decisão:
5. PROPORCIONALIDADE ENTRE LIBERDADE DE IMPRENSA E RESPONSABILIDADE CIVIL POR DANOS MORAIS E MATERIAIS. Sem embargo, a excessividade indenizatória é, em si mesma, poderoso fator de inibição da liberdade de imprensa, em violação ao princípio constitucional da
proporcionalidade.
Apesar de constar em diversos outros julgamentos à referência a este princípio (e, também, do princípio da razoabilidade) é interessante notar que neste, após ponderar sobre dois blocos de direitos, o STF entendeu que a violação ao segundo bloco (resultante na
392 SILVA, José Afonso. Op.cit.p.92-93.
393 RAMOS, Gisela Gondin. Princípios jurídicos. Belo Horizonte: Forum, 2012, p.102.
394 Não obstante, é necessário registrar que alguns doutrinadores não reconhecem a proporcionalidade como um
responsabilidade civil) não estava em proporção com o reconhecimento do valor ao direito de imprensa:
PONDERAÇÃO DIRETAMENTE CONSTITUCIONAL ENTRE BLOCOS DE BENS DE PERSONALIDADE: O BLOCO DOS DIREITOS QUE DÃO CONTEÚDO À LIBERDADE DE IMPRENSA E O BLOCO DOS DIREITOS À IMAGEM, HONRA, INTIMIDADE E VIDA PRIVADA. PRECEDÊNCIA DO PRIMEIRO BLOCO. INCIDÊNCIA A POSTERIORI DO SEGUNDO BLOCO DE DIREITOS, PARA O EFEITO DE ASSEGURAR O DIREITO DE RESPOSTA E ASSENTAR RESPONSABILIDADES PENAL, CIVIL E ADMINISTRATIVA, ENTRE OUTRAS CONSEQUÊNCIAS DO PLENO GOZO DA LIBERDADE DE IMPRENSA.
O princípio da proporcionalidade, no contexto mundial, foi primeiramente introduzido
pelo ordenamento suíço. Porém, como ressalta André Ramos Tavares395, foi na Alemanha
pós-guerra que obteve maior elaboração teórica e efetiva aplicação dos tribunais. Apesar do também chamado critério da proporcionalidade estar presente, em essência, em diversos ramos do Direito, foi com sua elevação a valor constitucional que sua amplitude foi exacerbada. Nos comentários de André Ramos Tavares:
No período pós-guerra, entretanto, os ordenamentos jurídicos euripeus, seguindo posição consolidada pelo Tribunal Constitucional da República Alemã, elevaram essa exigência ao Plano do Direito Constitucional. Com isso, a noção de proporcionalidade passou a contar com a amplitude e incidência muito maiores, já que se tornou parâmetro até – e especialmente – para a atuação do legislador infraconstitucional e dos órgãos julgadores, em todos os ramos de Direito, de forma generalizada.396
No mesmo julgado sobre a liberdade de imprensa, o STF proclamou o princípio constitucional da liberdade de imprensa, sob o argumento que a imprensa tem um todo bloco normativo dedicada a ela na constituição, “da comunicação social” (Capítulo V, título VIII), pois tem uma dimensão de importância na sociedade, de modo que pode influir o indivíduo ou até a opinião pública, revelando aspectos referentes à vida do Estado e da própria sociedade. Em continuidade, asseverou o STF:
A imprensa como alternativa à explicação ou versão estatal de tudo que possa repercutir no seio da sociedade e como garantido espaço de irrupção do pensamento crítico em qualquer situação ou contingência. Entendendo-se por pensamento crítico o que, plenamente comprometido com a verdade ou essência das coisas, se dota de potencial emancipatório de mentes e espíritos. O corpo normativo da Constituição brasileira sinonimiza liberdade de informação jornalística e liberdade de imprensa, rechaçante de qualquer censura prévia a um direito que é signo e penhor da mais encarecida dignidade da pessoa humana, assim como do mais evoluído estado de civilização.
395 Op.cit.p.772
Em outro acórdão paradigma, sobre a união civil entre pessoas do mesmo sexo –
batizada como “união homoafetiva”397 –, o Supremo entendeu que o afeto estava impregnado
de proteção constitucional e que a união concretizaria o princípio constitucional da busca da felicidade e seria decorrente do princípio da dignidade humana398. Destacamos o seguinte trecho da ementa:
O princípio constitucional da busca da felicidade, que decorre, por implicitude, do núcleo de que se irradia o postulado da dignidade da pessoa humana, assume papel de extremo relevo no processo de afirmação, gozo e expansão dos direitos fundamentais, qualificando-se, em função de sua própria teleologia, como fator de neutralização de práticas ou de omissões lesivas cuja ocorrência possa comprometer, afetar ou, até mesmo, esterilizar direitos e franquias individuais.
O princípio da busca da felicidade também foi trazido no caso Marcos José, no qual o TJPE condenou o Estado de Pernambuco a custear uma cirurgia para que o autor, vítima de um tiro em um assalto nas ruas do Recife, pudesse respirar sem dependência de aparelho mecânico. Tendo o Estado recorrido ao Supremo, o ministro Celso de Mello entendeu que o Estado de Pernambuco foi omisso na prestação de segurança, pois a localidade era ponto conhecido de prática criminosa e apontou que a vítima tinha o direito de viver de forma autônoma, buscando o seu direito à felicidade:
Essa é uma decisão que vale para essa situação extremamente singular. Mas nós consideramos os diversos princípios constitucionais envolvidos. (...) E também o postulado da dignidade da pessoa humana, que o Tribunal agora começa talvez uma jurisprudência ainda incipiente, a extrair um outro princípio, que é o direito à busca
da felicidade.
Como deixou claro o STF nesse e em outros julgados, o princípio da dignidade humana ocupa posição elementar e central no ordenamento jurídico, pois é matéria-prima para derivação de outros princípios e direitos.
O postulado da dignidade da pessoa humana, que representa - considerada a centralidade desse princípio essencial (CF, art. 1º, III) - significativo vetor interpretativo, verdadeiro valor-fonte que conforma e inspira todo o ordenamento constitucional vigente em nosso País, traduz, de modo expressivo, um dos fundamentos em que se assenta, entre nós, a ordem republicana e democrática consagrada pelo sistema de direito constitucional positivo.399
397 Quem institui o termo no nosso meio jurídico foi a jurista Maria Berenice Dias, na sua obra União
homossexual: o preconceito e a justiça. 3. ed. Porto Alegre: Livraria do Advogado, 2005.
398 É de se destacar que questão semelhante foi colocada para análise do Conselho Constitucional francês e que
por meio da decisão n° 2010-92 QPC de 28 de janeiro de 2011, o conselho entendeu constitucional a vedação entre pessoas do mesmo sexo estabelecida no código civil (art.144) por entender que tal disposição estaria de acordo com a constituição. Para o Conselho a modificação deve ser feita por via do parlamento, tendo fixado o entendimento, invocando o preâmbulo da constituição de 1946 e a declaração de direitos, que tal proibição não implicava restrição aos homossexuais viverem uma “vida familiar normal”, podendo constituir concubinato ou sociedade de fato.
Apesar de a dignidade humana ser referida como a matéria-prima para o reconhecimento de princípios implícitos ou decorrentes, ainda que não constante no texto escrito, há de se ter parcimônia com tal afirmação, pois pode-se abrir grande brecha retórica para se alegar a materialidade de inúmeras normas. Ademais, como alerta Eros Grau citado
por Gisela Gondin Ramos400, os princípios implícitos são declarados e não criados pela
jurisprudência, devendo-se evitar a arbitrariedade na sua formulação.
Desta forma, como ressalta Saul Tourinho401, a constituição traz consigo vários
princípios correlatos que, mesmo não expressos, inserem-se no seu conteúdo, pois são obtidos de forma implícita ou decorrente, sendo, portanto, possíveis de serem tomados como parâmetro para aferição da constitucionalidade de uma lei ou ato normativo.
Logo, diante do permissivo constitucional do §2, art.5, ou ainda que não tivesse, tendo em vista a constituição ser um sistema aberto, a possibilidade de princípios implícitos ou decorrentes, mesmo que provenientes da legislação ordinária ou internacional, serem invocados como parâmetro de controle, enriquecem o catálogo constitucional e, por conseguinte, o bloco de constitucionalidade.
Por outro lado, os princípios, independentemente de sua classificação (expresso ou implícito) funcionam como um limite para consideração de outras normas como pertencentes
ao bloco de constitucionalidade. Como vai sustentar Estrada Vélez402, em obra sobre os
princípios jurídicos e o bloco de constitucionalidade, os princípios jurídicos servirão como critério para incorporação das normas, pois estas não poderão aviltar os fundamentos axiológicos estabelecidos, tampouco a soberania jurídica.