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Os processos de negociação de subjetividades com e

3.3.   Adaptação e nacionalidade nas primeiras construções de

3.3.4   Os processos de negociação de subjetividades com e

A variedade de destinos por onde os primeiros mestres se esta- beleceram é algo bastante interessante, principalmente pelo fato deles não se conhecerem no Brasil e serem de estilos ou linhagens diferentes de capoeira, só vindo a ter contato aqui na Alemanha. Entretanto, como ponto em comum, as principais portas de entrada foram as turnês dos espetáculos de cultura Brasileira que contavam com números de capoei- ra em sua programação.

A procedência dos grupos de espetáculos parafolclóricos que cruzaram o Oceano Atlântico na década de 1970 concentrava-se no Rio de Janeiro e em Salvador. A maioria do elenco destes espetáculos era negra, tinham um nível básico de inglês e estavam conectados ao mundo globalizado através da Black Power. Características que determinaram os modos e maneiras pelas quais as primeiras traduções negociadas da prática da capoeira se deu sendo atravessada por novos contextos socio- culturais.

Outro fator que pode ser considerado importante ao processo diz respeito à circulação destes sujeitos, pois os mestres que se estabele- ceram na Alemanha não o fizeram em primeira instância, passando pri- meiramente algum tempo viajando em turnês. Contexto este que ofere- cia uma fluidez através da qual eles iam se familiarizando com as novas condições de possibilidades para uma construção de uma imagem de si na Europa, sem serem absorvidos por este sistema. De tal sorte, eram aceitos como diferentes, uma espécie de embaixadores culturais que tinham o direito de manter suas tradições. Por não terem residência fixa e serem inseridos como artistas não sentiam tanto as pressões e exigên- cias de uma adaptação à cultura e regras anfitriãs. Com isso foram ga- nhando tempo para irem melhorando o inglês ou o alemão e com isso se ambientalizando com as regras manipulando-as posteriormente para se reposicionarem subjetivamente.

Por último e em concomitância, as condições legais ofertadas pelo governo alemão nas diferentes épocas para reconstrução dos sujei- tos migrantes. No caso das décadas de 1970 e 1980, como dito, o lugar de artista era algo aceitável, permitido e até de certa maneira incentivado pelo governo alemão. Como artistas representantes da cultura brasileira na Alemanha não concorreriam no mercado de trabalho, pois não have- ria como a cultura brasileira ser transmitida naquele momento se não através de um brasileiro. Os capoeiristas portanto ingressaram social- mente pelo viés artístico, assumindo legalmente tal lugar e determinan- do assim algumas peculiaridades para a disseminação da capoeiragem por toda a Europa.

Com efeito, não se pode explicar o lugar de subjetivação cons- truído sem a presença do contexto por onde ela vem negociando esses espaços. No caso da Mestra Maria do Pandeiro, a cidade de Bremen é a segunda mais antiga cidade-estado do mundo, onde se desenvolveu um espirito de liberdade e autonomia aduaneira iniciado por sua participa- ção na liga Hanseática estabelecendo uma forte conexão com as cidades também Hanseáticas holandesas. A religião protestante, a proximidade do dialeto falado, da arquitetura e organização urbana voltada para o mercado de Bremen colabora com a histórica relação desta cidade alemã com os holandeses. Fato que fez com que a capoeiragem em Bremen tenha chegado através dos circuitos criados na Holanda.

As margens do Rio Weser, a navegação e o comercio marítimo em Bremen sempre foram suas principais atividades, uma cidade de transito e fluxo que criaram condições de possibilidades para vários movimentos socioculturais, o movimento feminista no caso, por onde a mestra se estabeleceu. A exceção de ser uma mulher, branca e de nível social mais elevado que os demais mestres que a antecederam, a mestra nos apresenta um amostra de como outras trajetórias de vida diferente das dos pioneiros vão se inserindo nos circuitos estabelecidos pela capo- eiragem na Alemanha.

No caso de Mestre Paulo Siqueira e seu processo de negociação se deu inicialmente de maneira similar à de Mestre Martinho, por ter sido selecionado no Brasil pelo seu viés artístico. No entanto, quando na Alemanha, ganhou ares de atividade física, por ter dado aulas em uma academia de artes marciais. Com o passar do tempo, e com o alargamen- to de sua rede de contatos, foi aos poucos retornando ao mundo artístico, fazendo apresentações junto com Martinho. Uma subversão do lugar de artes marciais inicialmente reservado para ele que apresenta um modus operandi que primeiramente aceita mas que com o tempo, e uma maior

afinidade com as regras impostas, manipula tais regras negociando ou- tros lugares possíveis de subjetivação.

Assim como nos outros casos, o contexto do lugar onde o músi- co capoeirista decidiu fixar residência é de suma importância para me- lhor entender o processo de negociação que ele estabeleceu. A cidade livre também hanseática de Hamburgo, contém o maior porto marítimo da Alemanha e mais importante lugar de transbordo de mercadorias do mar do norte. Com o tempo, a cidade foi se especializando também em ser um espaço de liberdade de expressão, fato bastante importante para que se tornasse possível o ensino e a prática da capoeira por Mestre Paulo Siqueira.

Da mesma maneira que Bremen, Hamburgo é um lugar de pas- sagem, de fluxo livre pela sua autonomia político-administrativa. Assim o mestre desenvolveu seu trabalho a partir das características de fluxo, tendo sempre poucos alunos e estando já na sua quinta geração. Da mesma maneira que Mestre Rogério, mestre Paulo Siqueira também passa boa parte do tempo em transito, viajando para outras cidades onde dá aulas, workshops e apresentações.

Finalizada esta última referência direta ao campo, inicia-se no próximo capítulo a parte onde se pretende analisar o campo realizado na Alemanha através da teoria, a fim de se iniciar um debate que não ape- nas abranja os antigos estudos sobre a capoeira, mas também os trans- grida.

4. CAPITULO III - TRANSNACIONALISMO, FLUXOS E FRON- TEIRAS NO SÉCULO XXI

Tendo em vista um maior aprofundamento da situação in between, abordarei neste capitulo o terceiro e até então último momento da capoeiragem na Alemanha. Período que teve início em 2000 e se estende até a atualidade.

A divisão se deu por uma substantiva mudança dos fatores e ca- racterísticas que dominaram a prática da capoeira na Alemanha desde a referida década. Portanto, colocarei em foco algumas narrativas dos que iniciaram sua historia como professores e mestres de capoeira na referi- da época. Neste período alguns alemães, ou não-brasileiros residentes na Alemanha, começam a dar aulas de capoeira providenciando um maior borramento tanto das posições de alunos e professores como também da questão da nacionalidade como fator delimitador de fronteiras.

A questão da prática da capoeira como uma prática cultural transnacional, vem se mostrando de suma importância para que se possa ter um maior entendimento do movimento e transformações que vem ocorrendo. Da mesma maneira, a transnacionalização dos estudos sobre a capoeiragem, ou seja, das pesquisas sobre a prática da capoeira fora do Brasil, vem de tal sorte a colaborar com um lado ainda pouco academi- camente explorado desta prática. Ainda mais pertinente, e o que vejo de mais inédito, é o aprofundamento de uma perspectiva não brasileira da questão.

De tal modo, entendi como pertinente adentrar no capítulo que se inicia na perspectiva não brasileira da capoeiragem, que se intensifica e se estabelece durante o século XXI. Preocupei-me aqui em abordar mais o contexto de fronteira como também dos fluxos que atravessam tais fronteiras e que vão com o tempo, transgredindo, manipulando e misturando elementos até então distintos.

No capitulo que se segue é possível notar um entrelaçamento maior e uma reconfiguração de elementos diferenciados pela fronteira estabelecida através da capoeira na Alemanha a partir da década de 1970 entre brasileiros e não brasileiros.

Não obstante, a problematização do ponto de vista dos alunos e praticantes estrangeiros na Alemanha se apresentam aqui como algo muito importante. Como eles entendem o mundo da capoeira? Quais os lugares reservados para eles? Tomando por base a situação vista no capitulo anterior, de que os mestres e professores mais antigos tinham a

nacionalidade como fundamental para se constituírem enquanto sujeitos. Me indaguei se esta questão seria também relevante para os alunos na Alemanha. Até o verão de 2012 eu tive apenas um contato superficial com os alunos pela dificuldade de acesso e, na maioria das vezes, por eles serem mais cuidadosos e reservados que os mestres e professores brasileiros. Portanto percebi que estava faltando um entendimento mais aprofundado de seus códigos e regras no sentido de poder melhor inter- pretar seus meios, significados e ações.

Para isso eu precisei insistir em um maior contato com os alu- nos. Porque eles escolheram capoeira? Como se desenvolve este proces- so? O que significa isso para eles? De um ponto de vista metodológico, eu precisava escapar da zona de conforto em que eu estava. Eu precisava fugir da posição de “brasileiro professor de capoeira” e procurar por outros contextos onde tanto minhas habilidades acadêmicas, posição de antropólogo em campo, quanto de capoeira, um “nativo” capoeirista, eram questionados ou não legitimados. Eu precisava experimentar ou- tros pontos de vista como também voltar o meu olhar mais para a pers- pectiva do aluno. O desafio para a temporada de inverno de 2012 estava lançado.

4.1 Reflexividade metodológica: experiências de um deslocamento li-