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Professores católicos

[…] Chegou o tempo de agir e do professorado católico entrar em fase de atividade para modernizar o Brasil. A pátria e a igreja esperam por vós! (Estrella do Sul, 20/11/32, p. 4)

A formação pedagógica propiciada pela Igreja Católica era divulgada na imprensa e estava atrelada à concepção de educação disputada pela instituição. Cabe explicitar que esta posição não é antagônica à concepção de educação do Estado; em alguns momentos ocorrem aproximações, em outros, afastamentos. As professoras são alvos de dupla pressão: primeiro, no que se refere ao exercício do voto e, segundo, relacionado ao fazer pedagógico.

Os professores que atuam com a educação primária são o foco das pressões, pois, neste setor, está concentrada a maior parte do professorado e são estes os responsáveis pela formação básica do sujeito. Nesta fase, a criança, futuro adulto, consolida os princípios da moral, foco central da educação católica.

O professor primário

Sinceramente, do fundo da alma, confesso que não reconheço quem mais trabalhe pela honra e glória da pátria e da humanidade, nem quem possa espalhar mais benefícios no mundo. É por pensar assim é que me sinto revoltada contra quem desconhece a influência da escola primária e muito mais ainda contra o próprio professor primário, que não avalia no devido grão, a grandeza de sua missão.

Porque o dever do professor não se limita, não deve se limitar a transmitir conhecimentos ao espírito do aluno unicamente, e sim procurar, por todos os meios, incutir-lhe os sãos princípios da moral, de par com os cuidados tendentes a assegurar-lhe robustez do corpo, pois a educação é um tríplice em seus fins’.

[...] (Estrella do Sul, 17/07/1932, p. 1)

No que se refere à formação dos professores, percebemos duas abordagens: primeiro, a veiculação de diversos textos e notas com o objetivo de estabelecer um padrão de conduta para os professores e, segundo, a divulgação de diversos eventos que objetivam a formação dos docentes.

Cabe ponderar que a formação relacionada aos conteúdos específicos é uma demanda apresentada pelos professores. A formação continuada era quase inexistente no período, os professores recebiam um plano para desenvolver por nível de ensino, mas eram poucos os recursos didáticos oferecidos. Considerando tal aspecto, podemos afirmar que propiciar cursos de capacitação era uma estratégia que funcionava para aglutinar professores.

O debate educacional explicitado nos impressos indica a realização de diversos cursos e seminários com objetivo de formação. Os eventos de formação apresentam conteúdos diversos e mesclam questões didáticas, questões teológicas e a prática efetiva dos ritos do catolicismo.

Sob a mesma inspiração e buscando possibilitar formação aos educadores, foram anunciados diversos retiros espirituais. Não localizamos a programação específica dos retiros, mas encontramos indicadores de que, no desenvolvimento dos mesmos, ocorria formação didática, formação espiritual e os professores assistiam a palestras que tratavam da organização da Igreja Católica no Brasil, pois o desafio posto para os católicos era a permanente necessidade de recatolizar o país. Os retiros consolidavam-se, na prática, como espaços de formação pedagógica, teológica e espiritual.

Retiro Espiritual

No dia 20 do corrente, às 18h, começará o retiro espiritual fechado para professoras e catequistas, no Ginásio Nossa Senhora do Bom Conselho, terminando na manhã do dia 24, véspera de Natal.[…](Estrella do Sul, 13/12/1934, p. 4)

Ainda sobre o que deveria ser tratado no cotidiano escolar, nota-se a crítica feita pela Igreja ao excesso de conteúdos e à memorização, em detrimento do ensino moral, que ocupava pouco espaço nas orientações curriculares. Buscando driblar tal aspecto, a orientação é bastante clara e investe na autonomia didática do professor como alternativa para resolver essa questão.

A escola e o ensino moral

O que acabamos de dizer é apenas uma indicação para os professores novos sobre a maneira como poderão tirar partido de tudo para dar vida ao seu ensino moral. Tivemos também em vista mostrar como é que se subordinando a estes interesses morais, as lições ganham uma nova inspiração e uma vida nova.

1º Dar, na formação dos professores, um lugar muito maior aos assuntos da pedagogia moral e refundir por completo o programa demasiado abstrato das escolas normais, onde a memória desempenha um papel considerável em demasia.

2º Melhorar notavelmente a situação material do professorado, a fim de que o cansaço, os cuidados, os trabalhos acessórios não privem os professores do necessário descanso, do frescor espiritual e do

recolhimento, sem os quais se pode ser um mestre-escola, mas não um educador de almas.

3º Desembaraçar os programas de muitos pormenores supérfluos em vários ramos, reservando-os para as escolas especiais ou profissionais. Substituir a pedagogia do pormenor por uma pedagogia viva que ponha todos os conhecimentos em relação com a verdadeira vida, para desenvolver a robustez do caráter e dar ao espírito uma inspiração que o impeça de atrofiar numa dada profissão, seja ela qual for. É este ensino primordial do trabalho que se tornou hoje impossível em virtude da multidão de coisas que se exige que a escola ensine. É impossível fazer coisa alguma a fundo; a escola, em vez de ser foco de cultura, não passa de uma engrenagem onde mestres e alunos têm em vista, acima de tudo, armazenar conhecimentos por processos aperfeiçoados e onde todas as aspirações a uma vida mais elevada são quase relegadas para um segundo plano. (A Palavra, 02/05/1931, p. 4)

O trecho 'Escola e ensino moral' é relevante para nossa análise, pois sugere a supremacia da Igreja às orientações do Estado, o que não indica uma ruptura com o mesmo, mas explicita um lugar autônomo ocupado pela Igreja Católica na sociedade. Também nos indica que a relação Igreja e Estado ocorre em um processo de constante negociação. Ainda cabe ponderar que o trecho valoriza o fazer docente e denúncia as condições limitadas de trabalho do professorado, garantindo, assim, a simpatia dos professores à manifestação católica neste setor.

A Divini Illius Magistri apresenta, no subtítulo referente ao ambiente da educação, um tópico tratando dos bons mestres e observa que as características intelectuais e morais são fundamentais ao professor. Sugere a organização dos mestres através de associações e afirma a relevância das atividades desenvolvidas pelo mestre.

Bons mestres

As boas escolas são fruto, não tanto de bons regulamentos, como principalmente dos bons mestres que, egregiamente preparados e instruídos, cada qual na disciplina que deve ensinar, e adornados das qualidades intelectuais e morais exigidas pelo seu importantíssimo ofício, se abrasam dum amor puro e divino para com os jovens que lhes foram confiados, precisamente porque amam Jesus Cristo e a sua Igreja de quem eles são filhos prediletos, e por isso mesmo têm verdadeiramente a peito o bem das famílias e da sua pátria. É por isso que nos enche a alma de consolação e gratidão para com a bondade divina, o ver como juntamente com os religiosos e as religiosas que se dedicam ao ensino, tão grande número de tais bons mestres e mestras – outrossim, unidos em congregações e associações especiais para cada

vez melhor cultivarem o espírito, as quais são bem dignas de serem louvadas e promovidas como poderosas e nobilíssimas auxiliares da ação católica -. (Divini Illius Magistri, 1929)

A orientação presente na Divini Illius Magistri, estimulando a organização de Associações de Professores, já havia ganhado espaço no Brasil um ano antes da publicação da encíclica, pois, em 1928, foi fundada a Associação de Professores Católicos do Distrito Federal, primeira APC (Associação de Professores Católicos) do Brasil. Ainda no mesmo ano, foi fundada a Associação Fluminense de Professores Católicos, em Niterói; foram gradativamente surgindo Associações de Professores Católicos por todo lugar e, em 1934, a CCBE (Confederação Católica Brasileira de Educação) coordenava 40 APCS em todo o país e arregimentava em torno 300 colégios católicos que reuniam 60 mil alunos e cerca de 6.200 professores122.

A ideia da criação de uma confederação brasileira de professores católicos foi lançada em meados de 1933, por Dom Xavier Mattos. Em 7 de setembro de 1933, durante o 1º Congresso Eucarístico Nacional, realizado na cidade de Salvador, Bahia, o projeto de fundação de uma Confederação Católica de Educação foi apresentado aos delegados das diversas associações de professores católicos ali representados, sendo por eles aprovado. (BARREIRA,1999, p. 178)

A CCBE foi criada então em 11 de novembro de 1933 e Everardo Beckheuser nomeado como primeiro presidente da instituição. Um ano depois de assumir a coordenação da CCBE, Beckheuser faz uma visita ao estado do Rio Grande do Sul e estabelece uma agenda que contemplava a capital e o interior; proferiu palestras relacionadas à educação, em Porto Alegre, e realizou duas conferências sob as seguintes temáticas: 'Ensino religioso e a renovação educacional' e 'A escola nova no Brasil'.

Dr. Everardo Beckheuser

Acompanhado de sua consorte, chegou a esta capital, a 17 do mês corrente, o Sr. Everardo Beckheuser, presidente da Confederação Católica de Professores de Educação e da Associação Católica de

122

Os dados da CCBE, referentes à quantidade de professores e alunos, foram recolhidos em 'Dicionário de Educadores no Brasil: da Colônia aos dias atuais” de Fávero e Britto (1999).

Professores Católicos. No cais, foi aguardado por destacados elementos católicos e saudado em nome do Exmo. Sr. Padre Luiz Gonzaga.

A noite de 18, no salão da Biblioteca Pública, iniciou uma série de conferências pedagógicas, perante seleto e numeroso auditório.

O Exmo. Sr. Arcebispo metropolitano presidiu a mesa, fazendo a apresentação do orador, que, em nome do professorado católico, foi saudado pelo Dr. Eloy José da Rocha.

A seguir, o Dr. Beckheuser iniciou a sua conferência sobre o tema: 'o ensino religioso e a renovação educacional'. No decurso de sua oração, pôs em destaque a ação do episcopado brasileiro, em fazer sair o Brasil do indiferentismo com que havia suportado por mais de 40 anos o laicismo governamental.

Fartos aplausos saudaram suas palavras finais.

Por último, ergueu-se D. João Becker, que, após agradecer ao Sr. Everardo pela conferência proferida, que qualificou de magnífica e emocionante, a presença, da assistência, deu por encerrada a sessão. No dia 19, fez a sua segunda conferência que teve como objeto 'A escola nova no Brasil', que não menos que a anterior foi apreciada e aplaudida.

[…] (Estrella do Sul, 27/12/1934, p. 3)

As palestras realizadas em Porto Alegre apresentaram um bom público e foram, segundo relatos apresentados no jornal, 'muito proveitosas intelectualmente'. Após as atividades realizadas na capital, o Prof. Everardo se dirigiu para a cidade de Pelotas, região sul do estado; chegando lá, foi acolhido pela Associação Católica de Professores. Sua visita ficou registrada no jornal A

Palavra e, de acordo com as datas apresentadas, supõe-se que o mesmo tenha

se mantido no estado em torno de uma semana.

Professor Everardo Beckheuser

Deverá chegar amanhã a esta cidade, proveniente de Porto Alegre, o ilustrado Dr. Everardo Beckeuser, abalizado lente catedrático na escola politécnica do Rio e presidente da Confederação Católica Brasileira e Educação.

A Associação Católica de Professores e de Cultura Social, que é filiada à Confederação, far-lhe-á, no cais do Porto, confortadora recepção, conduzindo-o depois ao Grande Hotel, onde eminente pedagogo será por ela hospedado.

Após as visitas que, durante o dia, S.S. e Exma. esposa farão acompanhados por uma comissão da Associação, às autoridades e aos estabelecimentos de ensino, haverá na sede da referida Associação uma reunião íntima, onde o ilustre hóspede será saudado pela professora senhorinha Sylvia Mello.

Às 21 horas, no salão nobre da Biblioteca, S. S. fará uma conferência pública, sendo por essa ocasião apresentado pelo presidente da Associação Dr. Waldemar Lages e saudado em nome da sociedade pelotense, pelo Dr. Vicente Russomano. (A palavra, 23/12/1934, p. 2)