2.2. A SOCIOLOGIA NO ENSINO MÉDIO
2.2.3. Os professores e o conhecimento sociológico
A questão sobre ser professor/a no Brasil é amplamente discutida nos mais diversos espaços sociais e este questionamento passa a ser mais incisivo quando tratamos do ser professor/a na educação básica. Há vários elementos que permeiam essa discussão e hipóteses que são formuladas partir da realidade profissional dessa categoria que está envolvida por representações e construções sociais que só pode ser realmente compreendida se for analisada desde o processo de formação do profissional.
Quando entramos no universo dos estudantes que estão em formação da docência nos deparamos com as primeiras indagações sobre suas expectativas para a vida profissional, dentre elas se aqueles que estão nas licenciaturas pretendem atuar na área. Parece uma pergunta obvia, mas passa a ser complexa quando voltamos o olhar sobre o que é ser professor na realidade brasileira. De acordo com Silva, Silva e Melo (2019):
Mas, a indagação é pertinente se considerarmos o atual estágio de desvalorização social e política da carreira docente, além do abandono da profissão, provocado pelas precárias condições de trabalho e salariais que envolvem o exercício do trabalho docente no Brasil e o crescente abandono de estudantes do Ensino Superior (SILVA, SILVA e MELO, 2019, p. 193).
Essas análises estão baseadas nos números relativos ao abandono e aos estudantes que não concluem os cursos de licenciatura. O problema expresso em números elevados precisa ser observados diante do que ele vem a representar no desenvolvimento do campo educacional. O desânimo traduzido em desistências reflete as “[...] reais condições de trabalho e de vida que terão seguindo a carreira docente” (SILVA; SILVA e MELO, 2019, p. 194), que é pouco valorizada social e politicamente. A maior preocupação em relação a este quadro
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consiste em saber como serão esses profissionais nas suas respectivas áreas de trabalho. Sabendo que serão formadores de opinião, levando conhecimento e esclarecendo dúvidas de jovens que estão na sua fase de escolha, é imprescindível que o profissional tenha uma formação exitosa. Vemos que a partir desta temática haverá a construção de um discurso desacreditado da educação, que de maneira intencional quer legitimar a falta de incentivos, sejam eles econômicos, estruturais e pedagógicos para a educação pública. Por diversas vezes vários setores da sociedade tentou reduzir a importância da educação básica, vemos assim que: “É constante no discurso oficial a afirmação de que as instituições de ensino público não têm alcançado os resultados esperados e necessários para corresponder às demandas econômicas, políticas e sociais da contemporaneidade” (SILVA; SILVA e MELO, 2019, p. 196).
De certa maneira as limitações impostas aos professores para sua atuação não se condiciona a ser algo passageiro e que possa ser resolvido de maneira rápida. Há um projeto de educação que não dê acesso e nem ofereça perspectivas de mudanças a curto ou médio prazo. Se os problemas são apresentados desde a formação de um jovem professor, esses irão acompanhá-lo muitas vezes pelo resto de sua vida na docência. Em suma, será criado um efeito cascata sobre todos os sujeitos envolvidos no processo educacional, o jovem licenciando, o professor formado e em atuação e os estudantes que recebem desse profissional formado as orientações para construção do conhecimento. Se há qualquer interferência nesses elos todo o resultado final pode estar comprometido. A partir daí vemos a necessidade de ouvir os sujeitos e colocá-los em evidência, saber quem são de onde vem e quais seus objetivos dentro do espaço escolar. Isso se faz necessário, pois “é possível verificar que as condições materiais para o trabalho docente são usualmente, um elemento silenciado no discurso oficial” (Silva; Silva e Melo, 2019, p. 197) que limita a atuação do profissional em sala de aula. A desconstrução desse espaço silenciado vai criar um ambiente aberto para compreender os problemas da escola. Por exemplo, vemos o problema da evasão escolar no ensino médio que pode ser associado aos seguintes fatores:
[...] a presença de professores sem formação apropriada para o trabalho pedagógico com as disciplinas clássicas, as precárias condições arquitetônicas dos prédios escolares e a insuficiência de material pedagógico, e formação adequada para os professores não são objetivamente debatidas (SILVA; SILVA e MELO, 2019, p. 196).
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Portanto, quanto mais conhecermos a realidade em que estamos inseridos, mais fácil será superar alguns obstáculos de percurso. A educação básica pede esta atenção e só é ouvida quando há interesses escusos que colocam de lado seu fundamento principal que é atender a todos de maneira satisfatória.
Quando partimos para a delimitação da educação em disciplinas escolares percebemos como esse tom silenciado se concentra em algumas áreas. A sociologia, que entra de maneira tardia no ambiente escolar, enquanto disciplina obrigatória, por exemplo, luta dia após dia para mudar a forma como é vista. Esta é uma tarefa com um alto grau de dificuldade, pois carregamos um espírito de uma educação com uma “[...] perspectiva tecnicista, no passado, era a necessidade de priorizar a formação de sujeitos para se engajarem no mercado de trabalho (Silva; Silva e Melo, 2019, p. 199)” sem refletir sobre seu espaço no mundo.
Considerando esse histórico, o professor terá que superar tanto uma docência desvalorizada e que não lhe oferece, por diversas vezes, as ferramentas e as condições de trabalho, como também desconstruir um modelo de educação voltada principalmente para a formação da massa trabalhadora. A sociologia que repousa em meio a esse turbilhão de problemas tem a difícil tarefa de dar sentido a si mesma para o profissional docente e para o aluno. Essa tríade deve ser construída a fim de que sua presença no currículo não seja um mero instrumento didático, mas sim uma disciplina com efetiva utilização. Voltando aos problemas estruturais da educação, vemos a precariedade do trabalho docente a partir da sua atuação profissional que culmina na sua contratação. Muitos profissionais recém-formados estarão se submetendo a uma forma de atuação que o distancia da sua valorização. Podemos compreender melhor a partir da fala dos autores:
[...] o trabalho temporário tem se caracterizado como a primeira forma de atuação profissional de muitos graduandos e graduados dos cursos de Licenciatura, pois na ausência de concurso público, ou de estágios remunerados, a contratação para o trabalho como professor temporário (monitor) corresponde a um meio (por vezes, o único) de assumir a profissão (SILVA; SILVA e MELO, 2019, p. 200).
Essa realidade que permeia a vida de vários professores pode ser um condicionador da permanência ou da desistência do profissional dentro da educação. Vemos, na figura do
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professor que trabalha sob um regime de contrato temporário um sujeito que exerce as mesmas funções de um professor efetivo, mas que está desamparado legalmente de alguns direitos. No que diz respeito a essa situação, esse professor ainda sofrerá sanções e até mesmo ficará distante das lutas coletivas, pois sendo associado a um contrato será coagido a seguir determinadas diretrizes para ter como moeda de troca a continuidade de seu contrato. Portanto, temos um jogo de cartas marcadas que em paralelo a uma política de diminuição de vagas em concursos públicos cria amarras em um grupo de professores que depende desses contratos temporários para se manterem dentro do campo educacional. Essas medidas de manutenção de contratos, que deveriam ter um tempo de duração menor possível e que fere a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional- LDB (nº 9.394/96) em vários aspectos, podem ser configurados como uma maneira prática de contratação, onde:
O trabalho temporário como elemento estrutural do sistema público do ensino, pois, a cada ano, os contratos são renovados e, mesmo com a realização de concursos públicos, o quadro de professores efetivos não tem sido estruturado, isso porque o número de professores convocados é sempre menor que o necessário (SILVA; SILVA e MELO, 2019, p. 201).
Esta perspectiva é preocupante, pois faz com que o professor se sujeite as mais diversas situações dentro da escola. Este, por necessidade, sempre vai estar à disposição da escola, muitas vezes apenas como agente reprodutor das desigualdades dentro da escola.
A desvalorização do profissional passa a ser institucionalizada, mas sem ter um padrão que atenda os mínimos interesses da parte mais prejudicada que é o professor. Estamos tratando de um campo que desrespeita toda uma formação, as regulações através das leis e ainda nivela por baixo o trabalho do professor, ou seja, “A variação da forma de contratação dos professores e do salário ocorre porque os estados brasileiros têm autonomia para decidir as formas do contrato que será realizado como trabalhadores da educação”. (Silva; Silva e Melo, 2019, p. 204)
Mesmo com algumas conquistas dos professores ainda há muito que se construir, porque de tempos em tempos somos golpeados e se baixarmos a guardar perderemos os poucos direitos conquistados até aqui. Uma das poucas vitórias dos últimos anos é proveniente de:
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Uma luta histórica entre instituições representativas dos docentes e os governos foi travada, na última década, para reduzir o impacto da disparidade das políticas locais (dos estados e municípios) sobre a categoria. Como consequência, em 2008, foi instituído o Piso Salarial Nacional, Lei n º11.738 [...] (SILVA; SILVA e MELO, 2019, p. 204).
A Lei do Piso deveria garantir um valor mínimo a ser pago por estados e municípios e assim equiparar a relação entre os profissionais docentes. Embora isso ainda não seja uma realidade que contemple toda categoria já foi um avanço diante de vários retrocessos sofridos pela educação. É preciso fazer uma reflexão sobre este tipo de vínculo empregatício sendo ocupado pelo professor da disciplina de sociologia com todos os encargos que esta área traz consigo.
Ilustrando o que foi dito temos a seguinte proposição: imaginemos um professor construindo uma discussão que seja pertinente para a sociologia, mas que seja um tabu para a sociedade. Ao se inverterem os papéis da reflexão sociológica e aquela temática gerar, de alguma forma, um desconforto para a comunidade escolar, o professor será orientado a encerrar a discussão, podendo ter como instrumento punitivo o enceramento de seu contrato.
De certa forma percebemos como há toda uma engrenagem funcionando com o objetivo de manter o professor diante da criação de um quadro de desvalorização. Sendo assim vamos compreendendo como é difícil exercer a docência no nosso país. É ainda mais preocupante como esses aspectos, por muitas vezes, passam despercebidos ou são silenciados de maneira sutil. Os estudantes são os principais prejudicados, porque acabam produzindo reflexões sociológicas limitadas, incidindo diretamente na forma como percebem a realidade.
Na experiência cotidiana o professor vai perdendo seu espaço e o estímulo para manter-se ávido na produção de conhecimentos junto aos alunos. As conjunturas devem estar atreladas entres instituições capazes de garantir seu trabalho autônomo, condições mínimas de trabalho e valorização do professor.
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