A análise dos termos de registro de nascimento permitiu constatar que a prática de nomeação nos termos de registros no Cartório de Registro Civil de Itapuã adotou alguns comportamentos muito semelhantes aos procedimentos que a Igreja praticava no batismo e que eram observados na Idade Média. Os dados mostram que em 96% dos termos, há o registro de um único nome (ou prenome), embora os pais dos registrados tenham sobrenomes e o Decreto n. 9886 (Anexo C), em seu Artigo 58, alínea 5, prescrevesse que o assento de nascimento devia conter “O nome e sobrenomes que forem ou houverem de ser postos a criança”.
Mas a prática der se adotar apenas o prenome pode estar diretamente associada ao fato de a comunidade analisada ser, à época, formada por pessoas de descendência africana. Florentino e Goes (1994), analisando o Comércio negreiro e estratégias de socialização parental entre os escravos no agro-fluminense, afirma que “o liberto se vinculava ao patrono até mesmo pelo sobrenome. Escravos, como se sabe, não tinham sobrenome e por isso, ao se alforriarem, adotavam o do patrono” (FLORENTINO; GOES, 1994, p. 52). E prossegue dizendo que os sobrenomes só eram adquiridos com a concessão do senhor, cedidos por afeição ou para caracterizar posse, fato também constatado por Hébrard (2003) no trabalho em que analisa os registros paroquiais na Freguesia de Santo Antônio, também composta por grande contingente populacional de origem africana, nesta mesma cidade de Salvador.
Rios e Matos (2005) em estudo denominado Memórias do Cativeiro: família, trabalho e cidadania no pós-abolição constatam que o uso do sobrenome estava ligado a uma relação com o senhor, também baseada na afeição ou com intenção de delimitar posse e apontam que a boa relação entre senhores e escravos poderia ser um canal para a permissão do uso do sobrenome do senhor, mas nem todos, porém, puderam ou quiseram adotar o mesmo procedimento. Seguem afirmando:
Em um país onde grande parte das pessoas não era alfabetizada, a oralidade substituía os documentos. Mesmo depois do surgimento do registro civil em 1891, não houve um uso sistemático do registro de pessoas, situação que ainda hoje tem recorrência por todo o país (MATTOS; RIOS, 2005, p. 91.).
Anúncios de jornais do tempo da escravidão mostram que a praxe era a atribuição de um único nome para os escravos. No Brasil escravista, algumas vezes, os cativos adotavam sobrenomes após sua alforria.
O anúncio de fuga do escravo Fortunato mostra essa prática de uso do sobrenome: ”[...] dizendo chamar-se Fortunato Lopes da Silva [...]” (L. 10-11), como se observa na figura 10.
Figura 10 – Cartaz do ano de 1854 anunciando busca de escravo fugido
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Florentino e Goes (1994) narram o caso de Francisco Nunes de Moraes, um africano liberto, originário da Costa da Mina, que lavrou seu testamento na Bahia, em 6 de setembro de 1790. Nele, declara que havia comprado sua liberdade dos seus senhores, os herdeiros do Capitão-Mor Antônio Nunes de Moraes, pela quantia de duzentos e cinquenta mil réis. Por esse trecho do testamento já é possível perceber uma prática muito significativa, a adoção do sobrenome dos senhores pelos escravos. Francisco pôde, e mais, quis adotar o sobrenome do Capitão-Mor Antônio.
Outro exemplo é o trazido por Loner (2010) de um Antônio, liberto que utilizada o sobrenome Oliveira do seu antigo senhor, o que deve ter acontecido por volta de 1880-1881, exatamente ao início da luta abolicionista na cidade. Antônio continuou ainda, por alguns anos, a usar este sobrenome, até que, em meados da década de 1890, ele livra-se do passado,
adotando o sobrenome de Baobad, gigantesca árvore africana conhecida por suas grossas raízes. O momento de troca do nome também parece ser de uma inflexão em sua trajetória de vida, quando decididamente sente que a luta étnica tem igual importância que a luta operária com a qual tinha envolvimento. Então, modifica seu nome, dando ênfase maior à sua condição étnica e reivindicando suas origens africanas, embora continue sua atuação sindical e reafirme seu ideal socialista (LONER, 2010). A propósito dessa adoção do nome dos antigos senhores, esta autora ainda afirma que o liberto se vinculava ao patrono até mesmo pelo sobrenome, pois escravos, como se sabe, não tinham sobrenome e, por isso, ao se alforriarem, adotavam o do patrono.
Os termos de registro mostram a ocorrência de 24 registros com prenome e sobrenome. Até o ano de 1898 é cronologicamente ao acaso, com 6 registros em 1889, 2 em 1890, 1 em 1897 e 3 em 1898. Os doze outros (o que representa metade dos registros com sobrenome) ocorrem em 1904, exatamente no curto período em que Manoel Lucio de Souza foi substituído por Lucydio da França Queiroz. Ressalte-se, porém, que o novo escrivão, nos poucos registros que lavrou, também não passou a adotar como regra geral o uso do sobrenome nos registros. Mais precisamente, nos 26 nomes registrados no ano de 1904, 13 levam sobrenome e 13 não levam. Continuou-se, assim, descumprindo a lei. Abaixo, o quadro traz a relação, por ano, dos nomes completos registrados no Livro 01-A, do Registro Civil de Itapuã, organizados segundo o ano de nascimento.
Quadro 2 – Relação dos nomes completos registrados
Ano n. do termo Nome
1889 13 ALICE MARIA GONÇALVES 1889 23 ISABEL MARIA DE JESUS
1889 11 MANOEL MARIA DO ESPÍRITO SANTO 1889 12 MARIA ALVES DA PURIFICAÇÃO 1889 9 MARIA CELESTINA
1889 24 OSCAR PENTALEÃO RAMOS
1890 31 DARIA VITORINA DE SANTA MONICA 1890 33 MANOEL OVIDIO DE SANTA IZABEL 1897 14 MARIA DA PAIXÃO
1898 37 ANTONIETA ONOFRINA DOS SANTOS 1898 9 MARIA DOS PRAZERES
1898 11 MARIA DOS PRESERES 1904 13 ANASTACIA DA CONCEIÇÃO 1904
2(a) BALBINA PORTELLA 1904 4(a) JERONYMA PORTELLA 1904 28 LEOACIA D'ALMEIDA
1904 27 MANOEL NUNES VIANNA 1904 3 MANOEL PORTELLA
1904 26 MARIA DA CONCEIÇÃO ALMEIDA 1904 25 MARIO D'ALMEIDA
1904 11 NELSON DOS PRAZERES 1904 21 QUINTINA DA BOA MORTE 1904 29 TIBURCIO JOSÉ LUIZ
1904 20 VALENTINA ABREU DO BONFIM Fonte: Livro 01-A do C. R. C. de Itapuã