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3.4.1 - Clarificação da noção e seu alcance

No que diz respeito ao mundo dos Sucessores (Folgewelt), as considerações produzidas pelo autor são manifestamente menos extensas e fundamentadas, um facto a que não será certamente alheia a impossibilidade lógica de criação de esquemas de pensamento definitivos e inequívocos relativos a um tempo que ainda não aconteceu, como seja a dimensão do futuro.

Poucas foram efectivamente as linhas que o autor nos deixou acerca desta temática. Dentre as mesmas, o parágrafo que se segue será um dos mais importantes, na medida em que parece sintetizar as suas principais posições:

-Eu tenho um ponto de contacto com a posteridade (...) através da experiência subjectiva das gerações. Posso presumir que esta criança, senão esta então outra, viverá para além da minha morte, e que as propriedades da sua vida consciente que eu agora experiencio deforma imediata se desenrolarão no futuro. Para além disto, posso apenas presumir que enquanto houver uma

posteridade os meus sucessores unirão um significado subjectivo às suas experiências de vida, que eles viverão num mundo. Mas em que mundo?"

Schutz descreve pois este mundo a vir como algo de vago, "fundamentalmente aberto e

indeterminado"1*. Não o podemos conhecer nem por via de estruturas de tipificação na medida em

que não temos nenhum ponto de referência para a criação das mesmas e neste sentido, resta-nos apenas a inefabilidade e a especulação.

Várias são as hipóteses de pensamento que podemos aventar:

a) Podemos acreditar que esse horizonte futuro será uma mera continuação das estruturas que conhecemos actualmente, assumindo assim uma concepção de estagnação do próprio desenvolvimento social e tecnológico;

b) Podemos defender a perspectiva diametralmente oposta de que as estruturas actuais serão alvo de múltiplas reconfigurações e que a Humanidade continuará na sua senda de progresso ad

infinitum,

c) Podemos ainda conceber um mundo do futuro no qual, ao fim de um certo nível de progressão se dará uma regressão cognoscitiva, em que voltaremos ao grau zero da evolução para em seguida voltarmos a progredir até chegar o momento de um novo recuo, gerando-se assim uma circularidade ontológica inelutável.

Todas estas hipóteses, por mais ou menos variáveis que introduzamos, nunca passarão disso mesmo. No presente, não há garantias que possamos dar acerca do que será o porvir, mas tão- somente disposições afectivas que conduzirão a inclinações para uma ou outra via, uma ou outra probabilidade de acção. Qualquer projecção indutiva que façamos a respeito do futuro tem apenas um carácter de plausibilidade. Levada às últimas consequências, esta afirmação aplica-se também à ideia de que vai haver um futuro, e de que a própria posteridade se efectivará...

Schutz nega pois de forma veemente qualquer perspectiva de uma futurologia. A este respeito, escreve:

73 Schutz. Alíted e Luckmann. Thomas, SLW, Evanston: Northwestern University Press, 1973. p. 74 Ibid.

"A crença numa lei histórica acima da própria história a partir da qual não só o passado e o presente possam ser explicados mas também o futuro previsto não tem qualquer fundamento na natureza da experiência humana da realidade social"

3.4.2 - Sobre a possibilidade do estabelecimento de relações sociais: alguns exemplos

A primeira conclusão destas impressões iniciais é bastante óbvia: tal como em relação à dimensão dos Predecessores, no que aos nossos Sucessores diz respeito, é manifestamente inviável qualquer estabelecimento de relações face-a-face onde a nossa consciência se veja reflectida na de Outrem, revelando assim uma verdadeira comunidade e uma genuína partilha experiencial.

Porém, isto significa de forma necessária a impossibilidade do estabelecimento de relações sociais de qualquer índole? Não haverá espaço para configurações diversas, mais directas ou indirectas, mais ou menos anónimas?

Estamos em crer que a segunda perspectiva é a mais correcta. Do mesmo modo que podemos conduzir as nossas acções tendo por base o conhecimento do que existiu anteriormente e o respeito pelas vidas e realizações dos nossos antepassados, também podemos, no presente, criar as condições de possibilidade para um bom futuro, mesmo que nunca venhamos a usufruir dele.

São muitas as formas de agirmos tendo em vista a posteridade. Um dos exemplos mais vulgarmente utilizados por Schutz para descrever este horizonte de possibilidade, prende-se com a elaboração dum testamento. Em que consiste? Em bom rigor, trata-se de um documento orientado para o porvir. As suas cláusulas, em função dos conteúdos que apresentarem, podem vir a afectar sectores muito distintos da realidade.

Se o documento em questão legar os bens a familiares e descendentes, estamos perante um tipo de relação onde predomina a familiaridade e não tanto o anonimato, o mesmo já não se passando se a doação for feita, por exemplo a uma instituição de carácter social, que disporá dos bens da forma que achar mais conveniente para a prossecução dos seus objectivos.

Em ambos os casos, o testamento abre uma porta para o futuro, prefigura uma ligação com uma realidade apenas suposta. Se em boa verdade a posteridade se efectivar, esse testamento será depois uma forma de os nossos Sucessores reconhecerem dados relativos ao Passado, funcionará

como mais um meio para a sua interpretação subjectiva do que terá sido uma parte da nossa realidade, ou seja, será em última análise, um meio para a construção de uma nova rede de tipificações.

No exemplo acima apresentado, não obstante as gradações sociais, quer uma quer outra situação de disposição dos bens está orientada para destinatários concretos. Ora, também é possível executar acções na nossa vida quotidiana que tenham em vista o conceito formal de Todos, a Humanidade em geral.

Uma manifestação clara de uma atitude desta índole é a adopção de um posicionamento ecológico: ao fazer os possíveis para salvaguardar o meio ambiente que nos envolve a todos, não estamos a agir de forma meramente egotista para salvaguardar a nossa existência, mas também a abrir a porta para a continuidade frutífera da mesma pela mão das gerações que entraram agora no mundo, ou ainda estão à espera de entrar.

Uma acção como a que acabamos de descrever, anuncia uma relação social muito específica cujo grau de anonimato suplanta em larga escala qualquer índice de familiaridade. Dizemos isto, porque em bom rigor, não são só os nossos próprios descendentes que beneficiarão dos resultados concretos da nossa acção, mas igualmente os descendentes de muitos outros Contemporâneos que provavelmente nunca se cruzarão connosco durante o tempo da nossa vida, permanecendo seres desconhecidos em acto, mas sempre cognoscíveis em potência.

É certo que Schutz não desenvolveu esta última ideia e que ela resulta de uma extrapolação nossa, mas, tendo por base os seus escritos, estamos em crer que concordaria com ela.

Com a introdução desta última perspectiva, e consequente hermenêutica em relação à mesma, concluímos assim a via analítica das várias dimensões subjacentes ao mundo social.

Segue-se uma tentativa de aprofundamento da própria estrutura do Lebenswelt e o leque de relações entre o conhecimento e a acção na segunda e última secção deste nosso trabalho.