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OS TIPOS IDEAIS DE DEMOCRACIA REPRESENTATIVA:

No documento fernandoderesendechaves (páginas 43-49)

2. A MIDIATIZAÇÃO DA SOCIEDADE E OS TRÊS MODELOS DE

2.3 A MIDIATIZAÇÃO DO CAMPO POLÍTICO

2.3.1 POLÍTICA MIDIATIZADA: A DEMOCRACIA DE PÚBLICO, O

2.3.1.1 OS TIPOS IDEAIS DE DEMOCRACIA REPRESENTATIVA:

A primeira fase da democracia representativa apresentada por Manin é chamada Parlamentar. Trata-se de um tipo de governo característico dos primórdios do regime democrático moderno, observado principalmente na Inglaterra do século XVII e XVIII. O modelo parlamentar caracteriza-se por ter os representantes eleitos, sobretudo, em razão de sua notoriedade individual, sua origem familiar, seu status social e econômico, ou pela liderança tradicional que exercem em sua região de origem e influência.

Outra característica desse modelo é alto grau de independência por parte dos representantes frente aos representados. No período da democracia parlamentar, não há partidos políticos, e sim agrupamentos temporários que se formam dentro do parlamento para defender interesses comuns. A liberdade de opinião pública avança gradativamente ao longo do século XVIII e da primeira metade do século XIX. Manin aponta que era muito comum a discrepância entre a decisão eleitoral dos indivíduos e aquilo que eles reivindicavam publicamente. Afinal, a decisão do voto seguia o critério

personalista, e os indivíduos escolhiam seus candidatos em função de seu prestígio pessoal em uma localidade ou região, e não em função de compromissos políticos previamente assumidos. Não havendo partidos instituídos capazes de disciplinar a ação dos parlamentares, tampouco uma imprensa que permitisse um debate político mais amplo e objetivo, prevalecendo a guerra simbólica entre jornais de linhas políticas distintas. A esfera incipiente de manifestação da opinião pública dificilmente era canalizada para dentro dos parlamentos, salvo por meio da pressão física e violenta dos manifestantes que, em situações de crise, se aglomeravam nas portas do Legislativo.

Nessa primeira fase da democracia, que prevê a tomada de decisões políticas a partir de debates argumentativos, está na essência do funcionamento interno da instituição parlamentar. Manin relata que na Inglaterra da primeira metade do século XIX, era disseminada a “crença de que os deputados deviam votar de acordo com as convicções que tivessem formado por intermédio do debate parlamentar, e não em função de decisões previamente tomadas” (MANIN, 1995, p.13).

Com relação ao nosso estudo sobre os modelos de interface entre comunicação e política, o tipo de democracia parlamentar estaria mais próximo, em termos cronológicos, do modelo de instrumentalização da mídia pelo campo político, típico da Inglaterra na passagem do século XVII para o XVIII e predominante até meados do século XIX. Não obstante, é possível verificar que os legados do tipo de democracia parlamentar atravessam os séculos e encontram manifestações localizadas ainda nos nossos dias. Algumas características da relação entre representantes e representados típicas do tipo parlamentar de democracia, como a decisão do voto a partir de vínculos pessoais de confiança e o alto grau de independência dos governantes podem ser observados, por exemplo, na eleição de câmaras municipais em cidades de menor porte. Um outro legado da democracia parlamentar pode ser observado no sistema eleitoral distrital, empregado por diversos países, como a Inglaterra. Esse sistema reforça e estimula o vínculo de proximidade geográfica e, às vezes, étnica e cultural entre representante e representado.

O surgimento dos partidos de massa na Europa do século XIX mudou a relação dos cidadãos com a esfera política. Para explicar essa evolução do regime democrático representativo, Manin cria o seu segundo modelo ideal: a Democracia de

Partido. Nessa fase, os sufrágios já haviam sido ampliados substancialmente. Não se

de causas específicas e a classe operária começava a ter representação em agremiações socialistas e sociais-democratas, que são os precursores do partido de massas típico do final do século XIX e da primeira metade do século XX.

A escolha dos governantes reflete as clivagens de classe existentes na sociedade industrial capitalista. A tendência de se votar em um partido, e não numa pessoa, é uma característica dessa fase da democracia representativa. Um legado desse período que se mantém ainda hoje são os sistemas e legislações eleitorais que preveem o voto em lista e vigoram nas eleições proporcionais de alguns países como o Brasil.

Uma vez que a decisão eleitoral reflete as divisões de classe, o modelo de democracia partidária coexiste com o fenômeno da estabilidade eleitoral. “As preferências partidárias são transferidas de uma geração para outra (...) Para a maioria dos eleitores socialistas ou social-democratas, o voto não era uma questão de escolha, mas de identidade social e destino” (MANIN, 1995, p.15). Os países europeus tendiam a uma divisão binária, geralmente tendo, de um lado, um campo político mais conservador ligado à religião, aos valores tradicionais e ao modelo econômico vigente. De outro, um campo socialista que defendia a transformação econômica, social e cultural da sociedade.

Funcionando como canais de comunicação entre a população e o governo, os partidos definem as principais pautas de discussão e reivindicação das classes representadas. Os parlamentares eleitos passam a ter menos liberdade para votar de acordo com seu entendimento individual. As agremiações partidárias passam a exigir dos mandatários uma conduta política condizente com os programas do partido. Isso não quer dizer que o político perca toda a sua independência, mas que precisa justificar o seu posicionamento para o partido e para o seu eleitorado, o que não ocorria no modelo parlamentar.

Como se vê, os partidos assumem centralidade na cena política durante a Democracia de Partido, exercendo, inclusive, grande influência sobre os principais meios de expressão da opinião pública, como associações, sindicatos e a própria imprensa.

A estrutura burocrática dos partidos é poderosa, capaz de impor agendas públicas, organizar manifestações de rua, pautar a imprensa e exercer forte controle sobre os seus membros eleitos.

A democracia de partido também trouxe uma nova dimensão para a disputa política e para a liberdade de opinião: a separação entre governo e oposição:

A instância que governa não é mais o Parlamento inteiro, como no sistema parlamentarista; é o partido majoritário, ou uma coligação de partidos. A democracia de partidos é a era do governo de partidos (...) Na democracia de partido, a liberdade de opinião pública significa liberdade de oposição. (MANIN, 1995, p.17)

Por último, Manin refere-se a uma mudança substancial na forma de deliberação pública a partir da transição da democracia parlamentar para a de partidos. O parlamento deixa de ser o principal fórum de debates. É no seio dos partidos que ocorrem as deliberações. Os parlamentares não votam a partir de juízos formados dentro do parlamento, e sim a partir de definições partidárias. O parlamento se torna um ambiente cada vez mais marcado pela oposição e pela negociação entre partidos e cada vez menos pela deliberação argumentativa. Mas isso não abala o princípio representativo e democrático. Apenas traz um novo arranjo para as forças sociais no processo deliberativo democrático.

O terceiro modelo de Manin, a Democracia de Público, está relacionada a uma crescente personalização do poder, à volatilidade eleitoral, à espetacularização do poder e a uma dependência cada vez maior em relação aos meios de comunicação.

Manin situa, na década de 1970, o marco para algumas mudanças relativas à formação e à estabilidade das identidades eleitorais. Antes desse período, as pesquisas sobre comportamento eleitoral apontavam, argumenta o autor, para uma correlação clara entre preferências partidárias e identidade sociais, culturais, econômicas. Nas últimas três décadas do século XX, no entanto, as pesquisas passam a revelar uma grande variação no direcionamento dos votos dos indivíduos de uma eleição para outra. Uma das explicações para o derretimento das identificações partidárias está no voto personalista, que ganha cada vez mais espaço nas sociedades democráticas centradas na mídia, aproximando, nesse aspecto, a democracia de público da democracia parlamentar. De fato, é notada a personificação do poder nos países democráticos. Schwartzenberg (1978) mostra como a imagem de líderes de governo podem ser construídas a partir de arquétipos da propaganda política.

Para Manin, uma das causas do personalismo político seria a emergência de uma nova estrutura de comunicação (especialmente o rádio e a TV) possibilitando a

comunicação direta entre líderes e eleitores, sem a intermediação das organizações partidárias. Nesse sentido, os melhores “comunicadores” dentre os políticos seriam os candidatos mais competitivos. Os próprios partidos estariam investindo na imagem individual dos líderes políticos mais do que em programas partidários propriamente. Para o teórico francês, o contexto contemporâneo de dinamismo e interdependência econômica entre as nações exige dos governos algum nível de discricionariedade do poder, a fim de desburocratizar e agilizar processos e decisões. Assim, torna-se mais útil aos candidatos ressaltar as suas “qualidades e aptidões pessoais para tomar decisões adequadas, em vez de ficarem com as mãos atadas por promessas muito detalhadas” (MANIN, 1995, p.20).

O personalismo, forma predominante de escolha dos representantes na democracia de público, tem relação com a manifestação de outro princípio do governo representativo na sociedade da modernidade tardia: a independência parcial dos representantes. Como as candidaturas são construídas a partir de personalidades projetadas na mídia, e não programas, a gestão da imagem pública do político é fundamental. Assim, o representante tem contas a prestar porque depende de uma imagem positiva junto às clivagens eleitorais que cultiva. Cabe ressaltar que o eleitor agora pode acompanhar a atuação de seus representantes por meio da comunicação de massa, sem intermediação partidária. Sob essa nova roupagem, mantém-se o princípio democrático da independência parcial dos representantes.

Manin aponta, dentre as características da democracia de público, a ascensão da mídia como principal canal de comunicação entre os governos e a população, o que acarreta na crise dos partidos políticos. A mídia estaria desempenhando atividades tradicionalmente centralizadas pelos partidos, como o agendamento público, a fiscalização dos governantes e a canalização de reivindicações vindas da sociedade. Essa é a chamada tese da substituição: os partidos políticos tenderiam a ser gradativamente substituídos pela mídia como instâncias de mediação entre governos e sociedade.

Albuquerque & Dias (2002), no entanto, sustentam que o modelo da “tese da substituição” não pode ser aplicado à realidade brasileira. Um dos argumentos mais destacados pelos autores é de que o país nunca experimentou a convivência com um sistema partidário sólido. Eles ressaltam que a teoria de Manin tem sua relevância na tentativa de explicar as situações contemporâneas com relação à representação. No

entanto, lembram que partidos e meios de comunicação não são instituições que se sucedem no tempo. Ainda que tenham naturezas distintas, eles sempre coexistiram e conviveram. Para os pesquisadores brasileiros, no cenário brasileiro de democracia recente, a comunicação e as mídias são elementos que têm potencializado a ação e a existência dos partidos políticos, como no caso do Horário Gratuito de Propaganda Eleitoral na TV (o HGPE), quem tem seu tempo dividido conforme o tamanho das bancadas de cada legenda no Congresso Nacional. Sendo assim, no caso brasileiro, o modelo comunicacional e os partidos têm se fortalecido mutuamente.

Luís Felipe Miguel (2002) também relativiza o conceito da “democracia de público”. O autor lembra a importância de vários estudos, dentre os quais os de Dalton

et al (2003), que apontam para o declínio dos partidos políticos e para o papel da mídia

na consolidação desse cenário. No entanto, Miguel lembra que a relação entre mídia e política se estabelece em influências mútuas.

É difícil negar que o campo da mídia exerce profunda influência sobre o campo político e modificou o comportamento dos eleitores, mas não se deve ignorar que não há nada semelhante a uma “colonização” da política pela mídia. As relações entre os dois campos são de mão dupla; a política não apenas retém algumas especificidades nada desprezíveis – até porque nem toda a política se faz aos olhos do público – como também influencia a própria mídia. (MIGUEL, 2004, p. 100).

Como podemos perceber, apesar do declínio dos partidos políticos ser constatado em várias partes do mundo7, sendo os meios de comunicação apontados como importantes elementos desse processo, há autores que minimizam o papel das mídias em alguns contextos e outros ressaltam o papel da política de bastidores, instância sempre relevante do campo político. Algumas pesquisas apontam que os meios de comunicação podem, em alguns casos, até fortalecer identidades políticas. Albuquerque e Dias (2002) salientam que a gramática simplificada dos programas eleitorais brasileiros favorece o acesso da maior parte dos eleitores aos programas partidários.

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DALTON et al (2003) promoveram amplo estudo sobre identificação partidária em uma série de países. Apesar de considerar a identificação partidária um elemento fundamental nas democracias, o autor salienta que os dados empíricos apontam para o crescimento da volatilidade eleitoral. Os eleitores tendem a votar mais de acordo com os perfis dos candidatos e/ou assuntos específicos em discussão do que com identificações partidárias e ideológicas.

Nesse cenário contemporâneo de interface entre o campo político e comunicacional, o que se constata é uma política que não se faz mais sem a mídia. É desse contexto que surgem os debates e estudos sobre as consequências da assimilação da lógica midiática pelo fazer político e seus discursos. A grande maioria aponta para o crescimento do personalismo e da espetacularização, fenômenos que veremos agora de forma mais detalhada, como características da midiatização da política – nosso terceiro modelo de estudo das relações políticas e comunicacionais na modernidade.

Ressaltamos, mais uma vez, que os modelos de interface entre mídia e política que criamos estão interligados e que os aspectos que demonstram a midiatização do campo político, como o personificação do poder e lógica espetacular, começaram a emergir ainda na vigência do segundo modelo: o da centralidade da mídia. Entretanto, a sua assimilação avançada pelo campo político, pela nossa proposta, é um dos indicativos de emergência do novo modelo: a midiatização da política.

No documento fernandoderesendechaves (páginas 43-49)