5. CAPÍTULO 4 – UMA JÓIA RARA NO PARAÍSO
5.1. Análise interpretativa das cenas
5.2.7. Outra cena do capítulo 8 – o causo do capetinha virando bode
O local da cena é o bar do Bertoni, interpretado pelo ator Kadu Moliterno, que fez o personagem Zeca na primeira versão de Paraíso. O bar é um local de muita discussão na telenovela sobre política e sobre as fofocas da cidade. Estão presentes também nessa cena – o taxista Seu Capita, interpretado pelo ator Gésio Amadeu, o carteiro Zé do Correio, interpretado pelo ator Cosme dos Santos, e o matador de aluguel Zé das Mortes, interpretado pelo ator Aramis
Trindade, sentado em uma mesa escutando a conversa deles. Seu Capita foi levar os forasteiros57 Ricardo e Otávio na fazenda de Eleutério, ficou com medo de entrar na casa, por causa da fama do dono do diabinho na garrafa, e encontrou Tóbi e foi conversar com ele pela fazenda, então Tóbi conta o causo para ele. Os quatro personagens presentes nessa cena são planos (Bertoni, Capita, Zé do Correio e Zé das Mortes), pois não mudam ao longo da trama, Bertoni, Capita e Zé do Correio comentam os acontecimentos da cidade, falando também sobre o causo do diabinho preso na garrafa e Zé das Mortes fica escutando. Este personagem aparece em dois capítulos da telenovela, um para saber sobre como pegar o diabinho e outro para cobrar uma resposta de Eleutério, por ele o ter enganado.
A duração da cena é de 1 minuto e 3 segundos. Começa no capítulo oito aos 21 minutos e 31 segundos e termina aos 22 minutos e 34 segundos. O contexto da trama é que Zé das Mortes veio procurar Eleutério para saber sobre como pegar o diabinho na garrafa.
A cena
(Bar do Bertoni. Seu Capita está sentado no balcão, conversando com Bertoni e Zé do Correio.)
Capita: Oceis sabe o que o Tóbi me disse?
Zé do Correio: LÁ VEM MENTIRA! Fala fala fala...
Capita: Disse que seu Lotério sortava o diabinho dele, quando eles moravam lááá no sertão da Bahia. É he he he E que o diabo virava um bode preto. Saia voando e mijando por cima dos pés de cacau. E o seu Lotério muntado em cima dele. Que no outro dia os pés de cacau manhecia tudo floriiido, tudo floriiido! E que dava mais fruto que os das outras fazendas. Por causa disso.
Bertoni: Ele contou isso pra você, é? Capita: Contô... Contô...
Bertoni: Então contra outra, porque esta a gente já conhece, viu? E num é de hoje. (Eles riem) (Zé das Mortes está sentado em uma mesa ouvindo a história.)
57 Ricardo e Otávio são amigos de Zeca da época que este cursou as faculdades de direito e agronomia no Rio de
O causo narrado acima pelo personagem seu Capita foi o causo que Benedito Ruy Barbosa ouviu na região de Floresta Negra no interior da Bahia, sobre o fazendeiro que tinha um diabinho dentro da garrafa e esse se transformava em um bode à noite e saia voando pela fazenda.
A cena acima torna evidente o quanto os “causos” do Eleutério são conhecidos na região, pois Capita está narrando no bar do Bertoni o causo que ouviu na fazenda de Eleutério, mas o Bertoni diz para o Capita, que já conhece a história que ele narrou, há muito tempo. Pode se estabelecer um diálogo com Hartmann (2011), pois na sua pesquisa na fronteira do Brasil, Uruguai e Argentina, ela relata que os contadores se tornam referências na região por causa dos seus “causos”.
Outro ponto é que os “causos” vão sendo transmitidos oralmente, pois em cenas anteriores, Capita foi levar Ricardo e Otávio de táxi na fazenda de Eleutério, ele estava com muito medo de ir na fazenda, pela fama de Eleutério, por isso não quis entrar na casa. Então encontrou Tóbi, e este narrou o causo, nisso o Capita ficou com mais medo, o que gerou certa comicidade, pois ele disse para Ricardo e Otávio que não estava com medo, mas seu aspecto físico revelava o contrário, ou seja, sua expressão corporal. Propp (1992) e Bergson (2001) apontam que a contradição entre o espiritual e o físico, com o físico dominando este provoca o cômico. Ao retornar a cidade, Capita já estava narrando o causo para os amigos no bar do Bertoni. Como este exemplo, outros vão aparecendo na telenovela, como o causo do Zeca ter domado o burro e voado nele, que vai sendo transmitido de boca em boca. Com isso, entende-se que os “causos” envolvendo Eleutério e seu filho mexem muito com a população local. Sendo que esses “causos” foram o motivo de Eleutério ter mudado do sertão da Bahia para a cidade de Paraíso no Mato Grosso, devido as confusões e comoções que seus “causos” causavam e causam. O que fica evidente na cena em que Zé das Mortes visita Eleutério, querendo saber como pegar um diabinho. Sendo que nessa cena do bar, Zé das Mortes está ouvindo o pessoal contar o causo.
O bar do Bertoni que aparece na telenovela existia na cidade de Gália, onde Benedito Ruy Barbosa nasceu (BARBOSA, 1997). Então, percebe-se que um autor escreve a partir das suas experiências. Pode-se perceber assim que, a vida real do autor influencia na construção de suas obras de ficção. O autor de telenovelas Aguinaldo Silva revela-nos que a cidadezinha que
aparece nas suas telenovelas é sua cidade natal. Como a cidade que aparece nas telenovelas de Benedito Ruy Barbosa é a sua cidade natal também. Assim diz Benedito Ruy Barbosa – “O chão que você pisou, você não esquece” (BARBOSA, 1990). Durante a entrevista no programa Roda Viva, um dos convidados o autor Mário Prata faz a seguinte citação de Tolstói (1828-1910) - "Pinte a sua aldeia e serás universal" para Benedito Ruy Barbosa em relação ao seu modo de escrever telenovelas, ou seja, falando da sua experiência de vida. Dessa forma, podemos dizer que Benedito Rui Barbosa também é um contador de causos, pois se apropria de histórias ouvidas e vividas em sua vida, transformando-as em dramaturgia para a televisão.
Figura 9: Capita usando as mãos para contar o causo
Fonte: Captura de tela do capítulo 08 (2009), gerada por mim em 2019.
Enquanto Capita narra o causo, gesticula com as mãos, assim como observado em Eleutério nos causos do Mané Corrupio e do Santo Fujão, ambos usam a mão para ajudar na contação do causo, a mão vai desenhando no espaço o que é narrado, contribuindo para solidificar a narração para o ouvinte. Somando-se a isso, o ator Gésio Amadeu, usa a forma de articulação da boca para modificar as palavras, usando sua expressão facial para marcar os momentos do causo, como se fosse uma onda, passando pela máscara facial, com momentos mais elevados e outros mais suaves. O ator também usa do recurso de entonação vocal, para diferenciar os momentos do causo. A narração ocorre com o contador sentado. O ator Gésio Amadeu é um senhor de uns setenta anos, o que contribui ainda mais para dar autoridade ao
contador. Todos esses elementos apontados acima caracterizam um contador de causos segundo as observações de Hartmann (2011) com os contadores da fronteira entre Rio Grande do Sul, Argentina e Uruguai.
Corporalidade Autoridade Audiência
Capita usa as mãos para encenar os momentos do causo.
Eleutério é um contador referência na região.
Enquanto Capita conta o causo, ele vai interagindo/dialogando com quem ouve.
Tabela 7: Elementos no contador e no causo Fonte: Elaborada por mim
5.2.8. Cena do Capitulo 9 – Eleutério ensina Zé das Mortes como prender o diabinho na