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CAPÍTULO 2. HISTÓRIA DO FAZER GEOGRÁFICO

2.2 Grandes escolas nacionais

2.2.3 Outras escolas?

A ocorrência de outras escolas nacionais de Geografia é um assunto controverso, que depende, sobretudo, da maneira pela qual se entente o conceito de “escola”. Nesse sentido, dando continuidade ao estudo da evolução da Geografia moderna segundo as formas pelas quais ele se orientou, permito-me dizer que não há uma terceira grande escola geográfica, justamente porque não há um terceiro projeto científico para a Geografia com substância, coerência e adeptos suficientes para se nivelar junto àqueles encabeçados por Friedrich Ratzel e Paul Vidal de La Blache. O que existe, realmente, são diversas teorias, práticas e algumas propostas metodológicas alternativas, que foram surgindo ao longo da primeira metade do século XX, nos Estados Unidos, na Grã- Bretanha, na Rússia, em outros países (como o Brasil) bem como nas próprias Alemanha e França, mas sempre se referenciando ou buscando contrapor os métodos desenvolvidos pelas duas grandes escolas já citadas. Sendo assim, ao invés de considerar outras escolas nacionais de Geografia, o interessado na história do pensamento geográfico deve estar atento aos indivíduos que propuseram (e ainda propõem) outras formas de se fazer Geografia.

A escolha metodológica é uma atitude muito mais próxima das pessoalidades do que de um processo científico de seleção (vide Capítulo 1). Portanto, não faz sentido enumerar as incontáveis proposições metodológicas distintas existentes, que foram feitas desde o surgimento da Geografia moderna ou até mesmo antes disso. O que vale é indicar alguns nomes citados com mais frequência pela historiografia da Geografia para orientar

futuras investigações: o anarquismo de Élisée Reclus e Piotr Kropotkin (1842-1921) (Andrade, 1987); o racionalismo de Alfred Hettner e Richard Hartshorne (1899-1992) (Gomes, P. 2007; Moraes, 2007); a morfologia de Carl Sauer (1889-1975) (Claval, 2006; Gomes, P. 2007); o excepcionalismo de Fred Schaefer (1904-1953) (Bernardes, 1982; Gomes, P. 2007); e, por que não, os trabalhos praticamente desconhecidos da velha Sociedade de Geografia do Rio de Janeiro (1883) ou do mais antigo ainda Instituto Histórico Geográfico Brasileiro (1838) (Sousa Neto, 2005)?

Para poder fazer ciência, nós temos que fazer ciência do jeito que se faz na Europa e Estados Unidos, certo? É por isso que o período que antecedeu 1930 foi considerado por muito tempo como pré-institucional ou como pré-científico, só que quase ninguém disse que havia, por exemplo, geólogos e geógrafos-físicos importantíssimos aqui [no Brasil] (...) ; quase ninguém diz que houve comissões científicas de exploração, que viajaram pelo território nacional, fizeram levantamentos interessantíssimos da flora, da fauna, das condições físicas mais gerais, isso quase ninguém fala. E já que naquela época, portanto, se produzia

saber geográfico, só que os métodos não necessariamente eram os mesmos métodos que eram utilizados na Europa, não necessariamente eram os mesmos métodos que eram utilizados, 'aspeadamente', no 'centro do mundo'; não foram reconhecidos como válidos. Então a briga é para

que nós deixemos de pensar que a ciência só passou a existir entre nós depois que foram fundadas universidades, instituições de pesquisa, institutos como o IBGE. Não. Antes já havia uma ciência produzida por nós, só que era preciso eurocentricamente etiquetar essa ciência como não válida, não legítima. Por quê? Porque ela ainda não acompanhava esse processo de fazer ciência (Sousa Neto, 2005:2) (grifo meu).

Considerações parciais

Na realidade, franceses e alemães não eram tão diferentes como diziam: ambos procuravam compreender as relações homem-meio, desenvolviam pesquisas sobre regiões, buscavam interpretar as paisagens, supunham a existência de uma unidade terrestre e, principalmente, concordavam com a ideia de construir uma ciência moderna, compatível com os novos tempos. Para Vesentini (2008:6), “essa oposição entre uma geografia determinista e outra possibilista é e sempre foi algo sem sentido do ponto de vista epistemológico (...), que mais atrapalhou do que ajudou no desenvolvimento da ciência geográfica”. Nesse sentido, o “possibilismo” pode até mesmo ser pensado como algo

contrário ao “determinismo”, mas desde que ambos sejam interpretados como proposições construídas no interior da própria Geografia: uma ciência moderna, unida não mais apenas por princípios explicativos, mas também por práticas de pesquisa, ambições intelectuais e desejos políticos comuns61.

Entretanto, olhando para o passado através da historiografia da disciplina, percebe-se (com certa facilidade, inclusive) a existência de incontáveis pesquisas que não se destacaram, que foram ignoradas ou, simplesmente, renegadas pelo método dominante em questão – seja na Alemanha, na França ou em outros países62. Até mesmo a Geografia Física, que se desenvolveu em diferentes países a despeito da rixa entre as duas grandes escolas nacionais, buscou compreender a relação homem-meio de formas variadas:

desenham-se duas orientações em geografia física: a primeira procura compreender a originalidade global dos ambientes, na óptica ecológica que se está a afirmar; a segunda debruça-se alternadamente sobre as formas do terreno, o clima ou a vegetação (Claval, 2006:81).

A Geomorfologia e a Climatologia, em especial, evoluíram rapidamente no intervalo entre 1900 e 1950, enriquecendo e complicando ainda mais o corpus geográfico (Bertrand, 2004; Troppmair & Galina, 2006; Vitte, 2008). Sendo assim, testemunha-se a construção e o desperdício de inúmeras teorias que, se não foram valorizadas em seus contextos originais, poderiam servir à Geografia contemporânea de outras maneiras: inspirando, ampliando ou mesmo (re)orientando certas pesquisas. Quem sabe?

Na verdade, as escolas de Geografia da Alemanha e da França não possuíam recursos lógicos para impor uma metodologia sobre a outra – ainda que alguns dos seus membros ou os próprios Estados nacionais tenham tentado fazer isso durante as primeiras décadas do seculo XX. Porém, ainda que essas escolas estivessem envolvidas num conflito estatal, elas lutavam por algo mais duradouro (e valioso em termos acadêmicos): o rótulo da cientificidade. O problema é que desde a publicação da Teoria da Relatividade de Albert

61 Pode-se considerar ainda a evolução dos “domínios especializados” ou das subdivisões da Geografia – Econômica, Política, Rural, Urbana, entre outras – como uma evidência de que os modelos geográficos disponíveis não eram tão distintos assim (Bernardes, 1982; Claval, 2006; Moreira, 2008a).

62 “Every one of the well-known definitions of geography advanced since the founding of the AAG [1905] has had its measure of success. Tending to displace one another by turns, each definition has said something true of geography. But from the vantage point of 1964, one can see that each one has also failed. All of them adopted in one way or another a monistic view, a singleness of preference, certain to

omit if not to alienate numerous professionals who were in good conscience continuing to participate creatively in the broad geographic enterprise” (Pattison, 1964:211) (grifo meu).

Einstein (vide Capítulo 1) esta condição ou “selo de qualidade” tornou-se mais complexa de se obter do que antes. Trocando em miúdos: embora dessem grande atenção ao elemento-homem na sua relação com a meio, as duas grandes escolas nacionais ainda se diziam “naturais” e, por isso, viram o lugar que pretendiam no panteão acadêmico ser seriamente ameaçado – não mais por críticas de pesquisadores enciumados –, mas pela não-falsificação dos argumentos do físico austríaco, que oferecera à comunidade científica uma nova teoria da natureza formulada conforme os mínimos detalhes do sistema de conhecimento vigente. Assim, a Geografia moderna, que já “sofria” por dispor de dois métodos de conhecimento, perdia também a segurança estrutural secular das ciências naturais.

Enfim, pode-se chamar a fase inicial de formação e intermediação da Geografia moderna de período Tradicional ou Clássico da disciplina. Porém, é preciso estar ciente que um e outro são apenas termos usados para facilitar a localização de um certo autor ou ideia na linha do tempo, nunca para sintetizar uma forma específica de fazer geográfico. Ao meu ver, as décadas que separam os trabalhos de Humboldt e Ritter do encerramento da Segunda Guerra Mundial poderiam muito bem ser chamadas de época de ouro da Geografia: um repositório intelectual extremamente diverso, no entanto praticamente desconhecido pelos geógrafos da atualidade. Somente agora, após a virada do século XXI, alguns interessados começam a explorar esse baú, a fim de encontrar “novas” referências para alimentar suas análises e propostas de superação da crise generalizada na qual estamos todos envolvidos.