4 RELIGIÃO COMO FATOR ASSOCIADO À INICIAÇÃO SEXUAL

4.2 Outros fatores associados à iniciação sexual na adolescência

Além da filiação religiosa e da religiosidade, outras variáveis aparecem nos estudos sobre sexualidade adolescente como associadas à iniciação sexual pré-marital ou adolescente, seja para seu adiamento ou seu início precoce. As variáveis aqui citadas não se referem apenas às encontradas na revisão sistemática deste trabalho, mas também a outros artigos e trabalhos publicados sobre o contexto brasileiro, que foram coletados e revistos de forma a expandir o entendimento sobre fatores gerais associados à iniciação sexual.

Algumas das variáveis citadas foram encontradas associadas à iniciação sexual apenas em modelos univariados, perdendo significância em modelos múltiplos na presença de outras variáveis explicativas, como, por exemplo, a educação. Outras foram utilizadas como variáveis de controle em estudos sobre iniciação sexual, mas acabaram por registrar associação. Muitas também parecem ter efeito para apenas um sexo (feminino ou masculino). Como não era objetivo deste trabalho pesquisar os fatores associados além de religião e religiosidade, não foi feita uma análise das condições sobre as quais as variáveis a seguir estão associadas à iniciação sexual. O que se pretende mostrar é que existe um grande número de trabalhos publicados que associam características sociodemográficas, de comunidade, domicílio, família e as individuais de um adolescente com a sua iniciação sexual.

Diversas variáveis sociodemográficas são pesquisadas como tendo associação com a iniciação sexual. São elas: escolaridade (Gupta, 2000; Gupta & Leite, 1999; Leite et al, 2004; Verona e Regnerus, 2009; Casper, 1990; Tavares et al, 2009; Miller & Simon, 1974); idade (Paxton & Turner, 1978; Gupta, 2000; Gupta & Leite, 1999; Leite et al, 2004; Verona & Regnerus, 2009; Rotosky et al, 2003); raça/cor (Gupta, 2000; Gupta & Leite, 1999; Leite et al, 2004; Cesare & Vignoli, 2006; L’Engle et al, 2006; Verona & Regnerus, 2009; Casper, 1990; Rotosky et al, 2003); sexo (Gupta, 2000; Gupta & Leite, 1999; Leite et al, 2004; Verona & Regnerus, 2009; Cerqueira-Santos et al, 2010; Borges et al, 2006; Tavares et al, 2009; Bearman & Bruckner, 2001; Rostosky et al, 2004);

residência durante a infância (Gupta, 2000; Gupta & Leite, 1999; Leite et al, 2004;

Verona & Regnerus, 2009); grau de urbanização (Gupta, 2000; Gupta & Leite, 1999; Leite et al, 2004; Verona & Regnerus, 2009); região geográfica (Gupta, 2000; Gupta & Leite, 1999; Leite et al, 2004; Verona & Regnerus, 2009); e condição socioeconômica (Bearman & Bruckner, 2001; Cerqueira-Santos et al, 2010; Manlove et al, 2006).

Outros estudos encontram associações entre iniciação sexual e variáveis de oportunidade, aquelas relacionadas à disponibilidade de parceiro sexual, como: ter

namorado fixo (Miller & Simon, 1974; Bearman & Bruckner, 2001); já ter tido namorado ou ter começado a namorar cedo (Bearman & Bruckner, 2001; Rotosky et

al, 2003); grau de compromisso no relacionamento – tempo juntos e projetos para

casamento (Fehring et al, 1998; Bearman & Bruckner, 2001; Spanier, 1975); permissividade com relação a sexo (Meier, 2003); atração pelo parceiro, curiosidade e desejo de não ser virgem (Borges & Schor, 2007); amor ou prova de amor (Borges & Schor, 2007); oportunidade (Meier, 2003); e idade do parceiro

(Manlove et al, 2006; Gupta, 2000).

Entre as variáveis da comunidade, do domicílio e da família, estão aquelas que não dependem diretamente do jovem, ou seja, são fatores alheios à sua vontade:

supervisão familiar (Kiragu e Zabin, 1993; L’Engle et al, 2006); residir em domicílio próprio (Borges et al, 2006); homogeneidade religiosa do lugar (Scheepers et al,

& Camburn, 1987; Manlove et al; 2006; Borges et al, 2006); mãe solteira no domicílio (Newcomer & Udry, 1987); morar com os pais e ter bom diálogo com eles (Bearman & Bruckner, 2001); famílias poligâmicas (Slap et al, 2003); emprego da mãe (Thornton & Camburn, 1987); tamanho da família (Thornton & Camburn, 1987); ter

pais divorciados (Thornton & Camburn, 1987; Kiernan et Hobcraft, 1997; Woodroof,

1985); escolaridade da mãe (Billy et al, 1994; Thornton & Camburn, 1987; Rotosky et al, 2003); não morar com pais biológicos (Manlove et al, 2006); ter irmãos mais

novos (Miller et al); ter irmãos mais velhos no domicilio (Rodgers, 1983 apud Miller

& Binghan, 1989); presença de irmão ou irmã que já passou por uma gestação pré-

marital (Borges et al, 2006); aspirações de ensino superior dos filhos ou dos pais

(Miller e Simon, 1974; Rotosky et al, 2003; L’Engle et al, 2006); monitoramento dos

filhos (Meier, 2003); envolvimento com padrastro (Menning et al, 2007); não ter os dois pais no domicílio (Billy et al, 1994); e conversar sobre sexo com a mãe e/ou pai (L’Engle et al, 2006; Kahn & Roberts, 1984).

Por último, as variáveis individuais são todas aquelas que biológica e psicologicamente, dizem respeito ao jovem, como: habilidades cognitivas (Bearman & Bruckner, 2001);

menarca (Manlove et al, 2006; Billy et al, 1994; Cooksey et al, 1996; Kiernan et

Hobcraft, 1997) maturidade física, popularidade, autoestima, prática de esportes (L’Engle et al, 2006; Bearman & Bruckner, 2001); melhor acesso a informação e

métodos, incluindo mídia (Gupta, 2000; Gupta & Leite, 1999; Leite et al, 2004;

L’Engle et al, 2006; Verona & Regnerus, 2009); pensar que os amigos são

sexualmente ativos ou ter amigos sexualmente ativos (Mckinnon et al, 2008;

L’Engle et al, 2006; Gupta & Leite, 1999; Kiragu e Zabin, 1993; Miller e Simon, 1974);

pressão psicológica do parceiro (Borges & Schor, 2007); comportamento de risco como uso de drogas e álcool (Kiragu & Zabin, 1993); repetência escolar (Kiragu &

Zabin, 1993); atividade delinquente (Miller & Simon, 1974); participação no mercado

de trabalho (Gupta, 2000; Gupta & Leite, 1999; Leite et al, 2004; Verona & Regnerus,

2009); participação em movimentos como o Virginity Pledge (Bearman & Brückner, 2001); hormônios (Burdette & Hill, 2009); participação em atividades

extracurriculares (Bearman & Bruckner, 2001); e gostar da escola (Bearman &

Bruckner, 2001)

Em resumo, muito se tem pesquisado sobre os fatores associados à iniciação sexual. Há evidências claras de que fatores tanto de contexto quanto individuais são importantes.

Apesar de a literatura também indicar diferentes fatores como mais importantes que outros, há um consenso entre os estudiosos sobre a importância da educação sexual eficiente e da disponibilização de métodos de proteção às doenças sexualmente transmissíveis e de métodos contraceptivos para aqueles que desejem adiar, limitar ou espaçar a fecundidade, de forma a evitar gravidezes não planejadas. Também há consenso sobre a necessidade de se oferecer melhores oportunidades educacionais e perspectivas de vida, para que os jovens possam praticar o aprendizado da sexualidade sem correr riscos, e para que não vejam a maternidade e a paternidade adolescente como o único caminho possível.

No documento A carne é fraca :: religião, religiosidade e iniciação sexual entre estudantes do Ensino Médio na Região Metropolitana de Belo Horizonte, 2008 (páginas 86-90)