2 O CONTEXTO INGLÊS DE RICHARDSON E PÂMELA
2.12 PÂMELA E A VIRTUDE, O SENTIMENTO E O INDIVIDUALISMO
Ao colocar como subtítulo do seu primeiro romance A virtude recompensada, Richardson destacou esse aspecto, colocando-o no centro de todo o enredo. Esse destaque gerou muitos debates e controvérsia, pois, ao chamar a atenção para esse aspecto, Pâmela abriu caminho para a crítica ver no comportamento da protagonista um planejamento cuidadoso cheio de artimanhas que a elevariam socialmente.
O aspecto da virtude de Pâmela, portanto, que tanta controvérsia suscitou na época de sua publicação é muito discutido quando se fala desse romance. De acordo com Vasconcelos (2002, p. 60), o romance é um de antíteses morais que, com o propósito de instruir e divertir o leitor, vale-se de estereótipos sociais e veicula um código moral invariável. Assim, como já vimos anteriormente, Richardson escreveu seu primeiro romance com um propósito claramente explicitado de moralizar. Como afirma Vallone (1997, p. 1), Pâmela foi a tentativa de Richardson de colocar princípios morais numa narrativa. Vasconcelos acrescenta que o fato de Pâmela ter sido vista como ambígua contribuiu para o surgimento de obras como Shamela e Joseph Andrews de Fielding, sem contar as demais que foram publicadas. Para Swan (2006(d), p. 2), a insistência de Pâmela em ver do ponto de vista moral possibilitou a Richardson questionar a visão de virtude da sociedade e revelar que a virtude de uma serva tem algum valor, mesmo que não esteja envolvida a questão de propriedade.
Vasconcelos (op cit., p. 79) acrescenta que
A defesa intransigente da virtude e dos padrões morais de sua personagem punha em segundo plano o modelo aristocrático de feminino, baseado em valores externos como riqueza, nome e título, e articulava um novo ideal de feminilidade, calcado em valores pessoais
e subjetivos. Richardson conferia, dessa maneira, uma nova dimensão à luta entre um patrão e sua criada, acrescentando, nas palavras de Nancy Armstrong, uma cláusula sexual ao contrato social ao inscrever um conflito de “classe” no interior de uma configuração doméstica.
Como Bachman (2001, p. 12) afirma, Mr. Andrews, o pai de Pâmela, desde o início revela seu temor e previne Pâmela pedindo que ela proteja sua virtude. O objetivo dele é que ela negue sua sexualidade. Esse cuidado representa o pavor cultural da sexualidade feminina. No entendimento de Bachman (p. 13), o texto trabalha diligentemente para evitar a divisão do que ela chama de fetichização da virtude em Pâmela. Essa fetichização tem dois registros diferentes: um objetivo, a virgindade de Pâmela (o hímen) e um subjetivo, sua energia libidinosa (o “coração”). O texto procura construir Pâmela como um sujeito burguês unificado, mas é exatamente nessa fissura que o poder subversivo do texto se separa de sua intenção explícita didática. A autora ilustra isso com o texto em que Pâmela, ao falar de si, usa o pronome na primeira pessoa – eu – e também usa expressões como “a infeliz Pâmela”. Segundo Bachman essas expressões revelam que ela estava sendo vitimizada pelos seus próprios impulsos inconscientes, de pessoa erótica e de classe social.
A ambigüidade de Pâmela, tão explorada pelos críticos que viam na personagem, não uma jovem pura e recatada, mas uma interesseira manipuladora, merece ser mais comentada. Eagleton (2005, p. 74) defende a heroína, afirmando que ela realmente faz da sua castidade um fetiche, mas é a cultura do patriarcado que, ao final, é responsável por isso. Para este autor, ela é forçada a se tratar como objeto sexual para evitar ser tratada como tal por outros. Ele diz que Pâmela “is ‘pert’ and devious, with a quick strategic eye to her own interests; but her ‘sauce’ and impudence are among other things a spirited defiance of upper-class authority.”53
Dobson (1902, p. 31), por sua vez, considera que tudo não passa de uma armação de Pâmela, que gradualmente começa a ter esperanças de casamento e ele classifica como admirável sua prudência cuidadosa que não é pureza de mente como Richardson quer nos convencer. Ele julga que ela conscientemente possui um tesouro que sabiamente só entrega pelo preço justo. Mas ele conclui que suas boas qualidades são admiráveis, mesmo sendo conhecida sua ‘política’ (aspas do autor).
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É ‘atrevida’ e trapaceira, com um olho estratégico em seus próprios interesses; mas sua ‘insolência’ e atrevimento são, entre outras coisas, um desafio espirituoso à autoridade da classe alta.
Kinkead-Weaks (1973, p. 10), em relação a esse tópico, afirma que Richardson alertou os leitores com sinais e um deles é quando Pâmela previne contra uma má interpretação de sua conduta: “Don’t think me presumptuous and conceited; for it is more my Concern than my Pride, to see such a Gentleman so demean himself...” (RICHARDSON, 1971, p. 60)54 Richardson leva a crer que Pâmela percebe que seu patrão pode estar verdadeiramente apaixonado por ela.
Swan (2006(d), p. 2) pondera que não há dúvida de que Richardson escreveu com um propósito moral, mas que a forma como ele apresentou algumas questões como sedução e estupro sugerem um grau de interesse lascivo. Segundo essa autora, Richardson provavelmente não gostaria de admitir isso.
Watt (1990, p.148) sugere que
Não há dúvida que Mr. B. acha a virtuosa resistência de Pâmela infinitamente mais provocante que qualquer concessão e assim presta um involuntário tributo à eficácia do novo papel feminino em atingir seu principal objetivo. Nem por isso podemos dizer, como sugere a interpretação de Fielding, que Pâmela só é recatada porque deseja fisgar Mr. B. Mais acertado é considerá-la uma pessoa real, cujos atos resultam das complexidades de sua situação e dos efeitos, conscientes e inconscientes, do código feminino.
Swan (op cit., p. 3) chega à conclusão de que Fielding capitalizou as ambigüidades que Richardson revelou na apresentação de Pâmela. Na obra de Fielding, ela aparece vaidosa e arrogante, dizendo a Joseph que Fanny era sua igual, mas que não é mais porque ela não é mais a mesma Pâmela Andrews e que agora está acima de Fanny. Daremos maior espaço a essa obra de Fielding, uma vez que é considerada por seu valor intrínseco, além de ter sido publicada na esteira de Pâmela, no final deste capítulo.
A questão da virtude está evidenciada pela linguagem tanto quanto pelo aspecto social. Como explica Bachman (2001, p. 18), Mr. B. está implicado no discurso de Pâmela que, como ato performativo, exerce um poder de ligação sobre ele. Ela explica que, de acordo com Foucault, todo poder é contraditório. Assim, Pâmela, como mulher virtuosa é necessariamente tanto o lugar de poder quanto o meio pelo qual o
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Não me considerem presunçosa e orgulhosa, pois é mais minha preocupação que meu orgulho ver um fidalgo se rebaixar tanto...
poder flui. De fato, a performance virtuosa de Pâmela não só afeta Mr. B. emocionalmente, mas o afeta ao ponto de ele ser “libertado” de uma hierarquia aristocrática na qual é identificado como o “patrão” estuprador, e é reinscrito numa ideologia burguesa como o “amigo bondoso, benfeitor generoso, digno protetor, esposo afetuoso” e “senhor bondoso”. Nesse contexto, a relação conjugal se torna a nova representação pela qual representações culturais são reproduzidas em Pâmela. Tanto Pâmela quanto Mr. B. se tornam vítimas coniventes das normas da ideologia burguesa ao serem interpelados e responderem a suas identidades proclamadas como marido e mulher.
Bachman menciona Jon Straton que afirma ser a mulher virtuosa quem se torna uma pessoa não somente dominada e, no processo, determinada pelo patriarcado burguês, mas aquela que legitima a ordem burguesa ao articular a estrutura de repressão sobre a qual essa ordem está fundada através da sua aceitação e sustentação da ordem social que contém e reprime seu impulso sexual.
Kinkead-Weaks (1973, p. 17) refere-se ao momento em que Mr. B. demonstra o quanto está nas garras de um conflito profundo:
Mrs. Jervis, said he, take the little Witch from me. I can neither bear, nor forbear her! (Strange Words these!) – But stay, you shan’t go! – Yet begone! – No, come back again.
I thought he was mad, for my Share; for he knew not what he would have. But I was going however, and he stept after me, and took hold of my Arm, and brought me back again… (RICHARDSON, 1971, p. 62)55
Segundo o autor, Mr. B. deve desistir, dolorosamente, do conceito de Pâmela sobre o qual todas as suas ações estavam fundamentadas até então. Para compreendê-la como ela realmente é, isto é, não uma hipócrita, mas um ser genuinamente moral, é necessário encarar não só a necessidade de desistir da esperança de seduzi-la, mas também a necessidade de mudar toda sua visão de vida se não quiser perdê-la totalmente. Seu orgulho não suporta a mudança, mas ele a quer mais do que nunca. Ele não consegue nem desistir dela nem desistir de si mesmo.
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Mrs. Jervis, ele disse, leve a bruxinha daqui; eu não posso suportá-la nem ficar sem ela! (Estranhas palavras essas!) – Mas fique, você não irá! – No entanto, vá! – Não, volte novamente.
Eu achei que ele estava louco, na minha opinião; pois ele não sabia o que queria. Mas eu fui saindo, de qualquer maneira, e ele foi atrás de mim e segurou meu braço e me trouxe de volta...
A sensibilidade, tão presente no romance moderno, está evidente em Pâmela, quando nos referimos a esse aspecto na parte em que focalizamos seu autor, item 2.2.1 Conforme Swan (2006(a), p. 6) explica, a sensibilidade também tinha implicação para o sistema de classes que Richardson explora em Pâmela. Por exemplo, as mulheres foram caracterizadas como criaturas refinadas, delicadas e de sentimento, para quem a sensibilidade não é abordagem de vida, mas meio de vida. Assim, à mulher não era atribuído qualquer valor referente à sua inteligência ou capacidade de vencer qualquer obstáculo de qualquer natureza, fosse intelectual, moral ou físico. Todos os seus trunfos estavam na sua habilidade de utilizar seu sentimento de maneira a manter ou alcançar a posição social almejada.
Perry (1980, p. 120-124) debruça-se sobre a questão do sentimento e cita o fato de Samuel Johnson ter comentado que se se fosse ler Richardson pela história, a impaciência chegaria ao ponto de o leitor querer se enforcar. Ele sugeriu que o autor deveria ser lido pelo sentimento, considerando-se a história somente como portadora dele. Esta avaliação de Johnson mostra que Richardson estava em acordo com o que se fazia na época, ou seja, para o escritor era mais importante descrever realisticamente os movimentos da mente do que elaborar boas viradas de trama. Principalmente os autores de formas epistolares faziam com que os amantes estivessem sempre se seduzindo em pensamentos chamejantes de amor e escrevendo sobre seus sentimentos. Perry afirma que esses efeitos eram inevitáveis num gênero em que os pensamentos são as ações e as personagens são suas palavras (ênfases da autora). Para ela, os autores tinham plena consciência dos efeitos inflamatórios que suas obras causavam.
Percebemos, assim, como Pâmela colaborou para reforçar essa posição de destaque que o sentimento como maior característica feminina tinha na sociedade inglesa da época, bem como confirmou o sentimento como uma das características no novo gênero.
Vemos também em Pâmela a forte presença da noção de indivíduo que estaria cada vez mais presente na sociedade inglesa a partir do século XVIII. Harris (1987, p. 36) conclui que Pâmela, firme diante de uma bateria de poderes arbitrários, é recompensada pela restauração de seu pequeno mundo. Sua defesa da visão individual, no entanto, antecipou a deposição da autoridade arbitrária num século onde várias revoluções ocorreriam ainda. Sua arma na batalha de ser vista não só como uma mulher,
mas como um indivíduo não é tanto sua castidade quanto sua pena. A literatura denota a desvantagem do sexo e consagra a alteração de aspecto social, em primeiro lugar, e artístico, em segundo.
O romance de Richardson constituiu, então, um registro das mudanças sociais, ainda que embrionárias, em termos de valores e qualidades morais, bem como do papel da mulher, ao mesmo tempo em que deu curso ao aparecimento do romance moderno.
A análise das categorias da narrativa corroboram o fato de que este é um gênero literário novo, no qual as personagens, o espaço, o tempo e todo o ambiente criado na obra, são usados para refletir a situação sócio-histórica, criticando o status quo de um grupo social que estava prestes a perder sua hegemonia, estruturando, assim, o gênero romance na era moderna.